Estereótipos

Na minha viagem até São Paulo no último fim de semana – por isso o blog ficou sem atualizações, não é que eu seja preguiçoso nem nada do gênero, embora eu seja -, quando o avião preparou-se para embicar em direção à capital paulista, o piloto avisou a galera que precisaríamos ficar sobrevoando Santos por dez minutos. O motivo? Excesso de tráfego no aeroporto de Guarulhos.

Ou seja, aterrisei dez minutos depois do esperado por causa de um CONGESTIONAMENTO DE AVIÕES. Em São Paulo. Mais clichê, impossível.

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Na torcida

Na capa da Zero Hora de hoje:

César Cielo é para os fracos: como vocês podem ver pela manchete, o Brasil inteiro está torcendo é para ultrapassar os malditos ianques nessa corrida. Já posso até enxergar os olhos dos brasileiros brilhando a cada espirro disparado nos quatro cantos do país, a mídia em polvorosa, todo mundo unido nessa corrente para vencer os estadounidenses.

Não à toa dizem que competitividade em excesso é coisa de gente doente.

esses dias

hoje o dia amanheceu comum

e não há nada no infinito azul
a não ser o vazio de não poder mais te ver
se as respostas estão por aí
se há um motivo que nos faz entender
então porque o vazio de não poder mais te ter?
quando a porta da saída fechar
e a lágrima não parar de rolar
um pesadelo tomou conta deste lugar
se um dia tudo volta ao normal
a grama mais verde, a rotina igual
terá a saudade ido embora afinal?
mas toda vez que o vento soprar
sei que vou sentir você no ar
pois a noite chegou mas ela já vai
o dia começa a mostrar seu raiar
quando as esquinas começam a trazer
lembranças de um tempo que nunca acaba
é você tentando voltar pra casa?
e agora que a tarde se foi
como fazer o que ficou pra depois
e aceitar este mundo como parte da dor?

Se beber, assista

Se Beber, Não Case (The Hangover)
5/5

Direção: Todd Phillips
Roteiro: Jon Lucas e Scott Moore
Elenco
Brad Cooper (Phil Wenneck)
Ed Helms (Stu Price)
Zach Galifianakis (Alan Garner)
Justin Bartha (Doug Billings)
Quatro amigos debandam pra Las Vegas, pois um deles está prestes a se casar e o resto da matilha quer fazer uma despedida de solteiro inesquecível. Entretanto, após o SATURDAY NIGHT FEVER, três dos protagonistas acordam sem lembrar de nada e descobrem que o noivo sumiu. Cabe a eles reconstituírem seus passos pra encontrar o sujeito antes do casamento.

Se Beber, Não Case possui seu público alvo bem definido – para descobrir qual é, basta examinarmos as pistas: a mítica “o que acontece em Vegas, fica em Vegas”; uma relação de compreensão e confiança perfeitas entre os homens da história; o fato de que as mulheres são normalmente obstáculos para alcançar outros objetivos – com exceção, claro, de uma prostituta. Tudo isso para criar aquele road movie alucinadamente divertido que provavelmente cativará a ala feminina, enquanto, ao mesmo tempo, fará a ala masculina ficar de pé nas poltronas do cinema com os braços erguidos em comemoração.
Isso tudo porque a película segue uma lógica interna bastante peculiar, com eventos desconcertantes ocorrendo a cada segundo sem deixar tempo para o espectador respirar. É o tipo de história onde cada acontecimento tenta superar o anterior em bizarrice, criando uma atmosfera de surpresas que é evidenciada pela direção “séria” (até mesmo as piadas mais idiotas são encaradas de forma quase natural pela câmera, o que as torna ainda mais engraçadas). Soma-se a isso um elenco muito bem entrosado, que foge das caricaturas com sucesso e cosntrói uma relação sincera entre os protagonistas. Digamos que não seria surpresa nenhuma se, nos intervalos das filmagens, os caras se reunissem pra jogar Play 2 e beber cerveja.
Mais do que tudo, há uma grande aura de sinceridade envolvendo aqueles amigos. Aquele tipo de sinceridade que leva alguém a fazer uma idiotice e, anos depois, se orgulhar dela, relembrando, junto de seus afeiçoados, as histórias comuns como se elas fossem verdadeiros épicos. Por isso citei o público-alvo no início do texto: todos os homens do mundo fatalmente irão se identificar com a trajetória daqueles quatro idiotas. E todos os homens do mundo, ao final do filme, vão se arrepender de não ter levado uma caixa de cerveja pra tomar durante a projeção.

O Especialista

Demorou. Mas enfim, um ano depois de formado – um ano mais uma semana graças à gripe suína – voltei pra escola. Voltei imaginando que a empolgação de ver de uma vez por todas como era o curso iria influenciar de maneira superlativamente positiva minhas impressões sobre a faculdade, do mesmo jeito que alguém morto de fome chega em um restaurante e come qualquer a la minuta mal cozida como se fosse a comidinha da mamãe.

E logo na estréia não pude deixar de valorizar minhas origens. Antes de começar a aula de terça-feira, passei na secretaria pra descobrir em que sala seria ministrada a primeira aula do meu curso de pós-graduação. Mas quando cheguei lá, minhas dúvidas só se multiplicaram. O atendente, ao invés de me responder a pergunta objetivamente, rebateu-a com uma nova pergunta. Odeio esse hábito nas pessoas!

Ele disse: – ”Claro que posso ver em qual sala vai ser a aula, tu só precisa me dizer que aula é.” Ao perceber minha reação reticente, ele completa: – ”Tu sabe que aula tu vai ter?” E o fabicano legítimo responde da forma que lhe é peculiar: – Não, tu tem como ver aí no sistema pra mim? Nem mesmo o atendente expressou surpresa e, de forma inacreditavelmente natural, fez a consulta e me orientou. Parece que ele tinha visto a minha ficha e sabia exatamente o tipo de estudante com o qual estava lidando.

Não preciso dizer que na aula seguinte, na quinta-feira, o protocolo se repetiu. E dessa vez ele até me chamou pelo nome. Ele falou um ”Oi Thiago” que intrinsecamente se mostrou uma abreveiação de ”Oi Thiago, quer que eu veja no sistema qual é a tua próxima aula?”, mas ele não me poupou de fazer a pergunta.

Passei pelas luxuosas salas Citibank e Petrobrás para chegar na sala indicada por ele, a enfabicada sala 3. É, o patrocínio faz toda a diferença! E ao contrário dos remédios, uma sala de aula de grife é visivelmente superior a uma sala de aula genérica.

Quanto às aulas, parece que o pessoal está bem a fim de estudar e tal, o que pude notar foi uma escacez preocupante de publicitários no curso. De uma forma que me atiçou a vontade de levantar da cadeira e voltar na secretaria pra dizer pro atendente que pós-graduação não tinha trote e que ele podia tratar de me passar a informação correta e me mandar pro curso de Especialização em Comunicação Publicitária.

Mas essa sensação passou quando o professor começou a falar. Ouvi termos que só se ouvem numa aula de comunicação, e experimentei um orgulho lúdico de poder compreender uma porcentagem do discurso um tanto maior do que a média da turma.

Na primeira das aulas, na hora que a turma se apresentou e eu disse que era fabicano, o professor exclamou profunda satisfação ao informar que conhecia um nome de quem me deu aula na graduação. Meu pensamento de ”ah não, lá vem mais papers” foi interrompido com a revelação de que não se tratava de quem eu estava pensando. Meu alívio me abandonou horas depois, quando soube que o trabalho final será de fato um Paper.

A segunda aula foi melhor ainda! E a cadeira vai girar em torno da semiologia. Olha o que eu acabei de escrever! Nunca achei que conseguiria escrever um parágrafo, uma frase ou até mesmo uma palavra entusiasmada sobre semiologia. Mas eu vou tentar explicar: imaginem que semiologia não fossem calhamaços sobre ícone e signo, imaginem que fosse uma matéria de cursinho, com direito a todas aquelas piadas e encenações que fazem o vestibulando esquecer que está prestes a encarar o maior pesadelo de sua vida até então.

Chega de escrever, é hora de ler. Sim, porque apesar dessa impressão positiva da primeira semana, o que não faltou foi tema pra casa.

2008 + 2009

Falta pegada mesmo. Concordo em gênero, número e grau com o Tcheco. Falta aquela pegada do ano passado ao Grêmio de 2009. A começar pelo próprio Tcheco. Poderia dizer que seria mais inteligente o Grêmio economizar a passagem do Tcheco para os jogos fora de casa. Admiro muito o jogador, é o termômetro do time, mas pouco tem feito fora de casa. Acho que “pouco” ainda é coisa demais. Mas não dá pra apontar o dedo e por a culpa nele. Quem está disponível para armar as jogadas e disponível no mercado? Há uma meia-dúzia de “camisas 10” no Brasil, de fato, e Tcheco é um deles. E já é do Grêmio.

O time todo tem feito pouco, ou melhor, nada fora de casa. Poucas excessões eu vejo aqui. Adilson parece se esforçar fora de casa tanto quanto no Olímpico, mas sozinho não há o que fazer. O Grêmio de 2008 não tinha alternativas durate o jogo. Aliás, tinha, mas não as aproveitava. Dava pena ver aqueles jogadores se esforçando para, aos trancos e barrancos, conquistar as vitórias. O Grêmio 2008 pecava na falta de alternativas, culpa de seu técnico “turrão”, que não aceitava fazer mudanças que pudessem fazer a sua equipe surpreender à adversária. Mas o Grêmio 2008 empenhava-se em campo. Como aqueles jogadores não tinham muito o que inventar, visto que o técnico só trocava seis por meia-dúzia, não dando opção ofensiva à equipe – se houvesse uma avenida pelo lado esquerdo do adversário, problema era do adversário, pois o Celso Roth não ocupava o espaço a fim de esboçar alguma pressão – o Grêmio ganhava na força, no tranco, no domínio e toque rápido de bola e na marcação sob pressão. Deu muito certo por um turno inteiro, até que todos percebessem isso.

O Grêmio 2009, visivelmente, toca mais a bola do que faz faltas. Joga de pé. Quando há uma possibilidade de jogada pela esquerda, as peças mudam e a jogada sai pela esquerda. Isso é bom. O Grêmio 2009 é inteligente, mas é lerdo, displicente. Creio que não adianta pensar a jogada, como faz Autuori, se ela não sair. O que falta ao Grêmio 2009 é a agilidade do Grêmio 2008, a marcação no campo ofensivo do Grêmio 2008. O Grêmio 2009 fica “encerando” pois a cada passe os jogadores dominam a bola na canela, dominam a bola na barriga, e o espaço livre se vai.. Juntasse a vontade do Grêmio 2008, com a inteligência do Grêmio 2009, creio que a coisa seria melhor.

Falei.

Bruno

Woodstock 2.009

Um dia desses aí comemorou-se os quarenta anos do Festival de Woodstock, evento onde uma galerinha do barulho se reuniu pra ouvir música, celebrar a contracultura, o movimento hippie e espalhar os conceitos de Paz e Amor (cachimbo da paz e DAR amor pra todo mundo, no caso).

Fizeram outras tentativas de reeditar o festival, mas claro, falharam miseravelmente, porque as pessoas com dinheiro simplesmente não entendem que certas coisas não se repetem. Entretanto, é um exercício interessante imaginar como seria uma versão atual de Woodstock, levando em conta as mudanças sociais e políticas:

– Milhares de pessoas em uma área descampada? A Brigada ia chegar descendo o pau pra ver se esses sem-terra tomam vergonha na cara;

– Galvão Bueno narraria a transmissão do evento, com Zeca Camargo trazendo detalhes absolutamente insignificantes e Pedro Bial fazendo poesia na cobertura do Fantástico (algo como “E é bem vinda a lama, que suja o corpo mas limpa a alma, e é bem vinda a chuva, que esfria o corpo mas aquece o coração”);

– Isso, claro, partindo do princípio que a Globo, ao ver aquele monte de pessoas lutando por algo melhor, não faria uma reportagem do tipo “Multidão se reúne pra celebrar o aniversário de Glória Maria”;

– A Record e a Igreja Universal fariam uma versão menor do festival. A coisa seria tão emocionante quanto um documentário sobre sofás, e então eles noticiariam suspeitas de fraude no evento original;

– Representantes de ONGs circulariam por ali distribuindo camisinhas, para que a parte do “amor” pudesse ser realizada. Representantes também passariam distribuindo outras coisas, para que a parte da “paz” e do “veja, um elefante rosa” pudessem ser realizadas;

– Haveria uma lan house no local, debaixo de um letreiro com os dizeres “INCLUSÃO DIGITAL”;

– Metade do público presente seria formado por vendedores de cachorro-quente, cerveja, churrasquinho de gato, churros. Eu apostaria até em uma barraca da Pizza-Hut;

– Ivete Sangalo cantaria no festival, representando a “musicalidade brasileira”;

– O evento iria ocorrer numa sexta, pra não prejudicar a transmissão dos jogos do campeonato brasileiro.

O horror

Nos últimos anos, pude perceber uma crescente associação entre as palavras “blockbuster” e “qualidade”. Claro, por mais que Hollywood se empenhasse, sempre tem um Quarteto Fantástico pra deixar a coisa toda no nível do Brasileirão, até porque todo torneio tem o seu Fluminense e tal. Mas vamos parar pra pensar: Senhor dos Anéis, Piratas do Caribe, Harry Potter, Onze e Doze e Treze Homens e um Segredo, Transformers, Duro de Matar 4.0, X-Men, Homem-Aranha, entre tantos outros. Junto com as comédias românticas, os blockbusters pareciam ter encontrado um certo equilíbrio entre as necessidades do público e as do filme – e se Piratas do Caribe: No Fim do Mundo, por exemplo, não é lá um Sinédoque, Nova Iorque, pelo menos ele se mantém divertido e criativo dentro da sua proposta.

Só que em 2009 parece que a escola de Jerry Bruckheimer está tentando queimar seu filme, com o perdão do trocadilho. Transformers 2 e G.I. Joe fazem um gif animado parecer Cidadão Kane; X-Men Origins: Wolverine e Uma Noite no Museu 2 são tão ruins quanto se esperava; O Exterminador do Futuro: A Salvação não faz realmente jus ao seu subtítulo; Velozes e Furiosos 4 eu não vi, e REALMENTE acho que o caminho para considerar o filme menos DIABOLICAMENTE FABRICADO POR SATÃ é não assistí-lo. Os únicos sobreviventes são Harry Potter e o Enigma do Príncipe e Star Trek, os únicos a realmente saírem pra batalha enquanto o resto permaneceu naquela trincheira chamada “vamos investir primeiro no marketing, depois nos efeitos, depois mais um pouco no marketing, depois na pós-produção, depois um pouquinho em publicidade, depois em computadores novos, e o resto vai pro filme”.

E agora, com a tecnologia 3D e o cinema Imax e os baldes de pipoca do tamanho de estações de trem, me preocupa que volte a tendência a dar cada mais prioridade ao Photoshop do que ao Word. Talvez seja uma visão pessimista, e Hollywood não irá cair novamente na ilusão dos grandes orçamentos, assim como os motoristas de ônibus talvez não tenham criado uma conspiração contra mim, mas há um fato que joga quilos de fermento nesse raciocínio. Um acontecimento que, por si só, traduz o quanto o cinema está mais preocupado em iludir o grande público com qualquer porcaria. Uma IGNOMÍNIA que será comentada por séculos como o maior truque que o diabo já praticou na Terra:

A pessoa homenageada na37ª Edição do Festival de Cinema de Gramado foi a Xuxa.