2009 minuto a minuto

Preparem-se para um evento que é, literalmente, a transmissão do ano:

01/01 – Comeeeeeeeeeeeeeeeeça o ano!
03/01 – O jogo começa com lançamentos em profundidade: cientistas tiram o HÍMEN do planeta e alcançam o interior da Terra.
15/01 – Bola alçada na área, confusão, e um avião cai nos EUA, mas o perigo é afastado e todos os passageiros sobrevivem.
17/01 – Em Gaza, Israel sai da ofensiva e vai pro defensivo 3-5-2.
18/01 – A defesa não segura e o teto da Igreja Renascer, em SP, vai pro chão. Asterix temeria.
20/01 – Promessa de ser “o novo Pelé”, Barack Obama entra em campo.
02/04 – Tal qual Bebeto e Romário após o gol contra os EUA, em 94, Obama se declara para Lula.
03/04 – Como sempre, zagueiro americano é o mais violento da partida, com 13 faltas.
04/04 – Inter veste a camiseta número 100, mas tem atuação RISÍVEL.
05/04 – Atacante trombador faz um terremoto na defesa da Itália.
09/04 – Evo Morales realmente não está com fome de gols.
11/04 – Susan Boyle sai do banco de reservas pra encantar a torcida com seu futebol-arte.
21/04 – O jornalismo é retirado de campo, seriamente lesionado e sem previsão de retorno.
29/04 – O técnico coloca um total de cinco zagueiros na defesa, com medo da poderosa fama do atacante G. Suína.
07/05 – Adriano chega de SOPETÃO e pergunta se pode fazer time de fora.
12/05 – Em jogada ensaiada, Noel e Liam Gallagher tabelam lindamente e dão show em Porto Alegre.
25/05 – Coréia do Norte mostra nos treinos seu ataque aniquilador.
27/05 – Barcelona dá seu terceiro chute a gol e marca pela terceira vez.
31/05 – Completamente perdido, o técnico FIFA escala jogadores aleatoriamente pelo gramado.
01/06 – Cruzamento na área, mas ninguém subiu – a força aérea da equipe simplesmente desapareceu.
08/06 – Kaká é chamado e veste o branco do Real Madrid, pois ainda é virgem.
25/06 – Após ser vaiado durante os 50 minutos que esteve em campo, Michael Jackson é substituído. Já no banco de reservas, o craque é ovacionado, homenageado e endeusado.
28/06 – O time de Honduras discute fervorosamente entre si, e se rebela contra o técnico Manuel Zelaya.
30/06 – Acabaaaaaaaaaaaaba o primeiro tempo! Muita coisa indefinida pra ser resolvida na segunda etapa.
01/07 – Comeeeeeeeeeça o segundo tempo!
05/07 – Roger Federer entra em campo, lança pra ele mesmo, depois cruza para o próprio Roger Federer, que marca de cabeça e ignora todos os limites humanos possíveis.
15/07 – Uma pequena raposa invade o gramado, mas Juan Sebástian “La Brujita” Verón resolve a situação e isola o bichano pra fora da América do Sul.
25/07 – Um Barrichelo DESM(i)OLADO acerta feio Felipe Massa em um lance bizarro.
03/08 – O bandeirinha Collor, após assinalar todos os impedimentos de forma propositalmente ERRÔNEA, tenta dar lição de moral.
12/08 – Globo e Record trocam farpas e xingamentos em campo, mas o juiz finge que não vê e tudo segue igual.
05/09 – Após humilhar e deixar a Argentina com as pernas bambas, Brasil garante sua vaga na Copa.
08/09 – Time da Petrobrás vai pro ataque e começa a colocar uma PRÉ-SAL no adversário!
25/09 – Os jogadores aproveitam a parada e pedem um pouco de água da lua pra refrescar a garganta.
02/10 – Independente do resultado, o técnico Lula pode comemorar a conquista da vaga pras Olimpíadas 2016.
09/10 – Mesmo antes de acabar o jogo, Obama é eleito o melhor da partida. Pura politicagem!
15/10 – Jogando em casa, time de um guri americano se esconde, fica só no balão, e o adversário não toma conhecimento da equipe.
22/10 – O número 7 Windows entra em campo e centraliza as jogadas, operacionalizando o ataque.
30/10 – Jogadora da Uniban é pega de CALÇA-CURTA pelos xingamentos da torcida, e o juiz manda ela trocar de uniforme.
10/11 – Vacilo do craque e líder Itaipu deixa todo seu time no escuro.
19/11 – Técnico do Google manda o ala Chrome abrir mais pelas pontas.
26/11 – China recua e dá espaço para os jogadores respirarem mais.
06/12 – Após vinte minutos sem produzir nada, o Flamengo finalmente marca, em uma grande arrancada do atacante e aproveitando o vacilo dos marcadores – mas as más-línguas dizem que o goleiro entregou.
08/12 – A chuva intensa faz com que o time do São Paulo dê com os burros na água.
13/12 – Berlusconi é fortemente agredido por Massimo Tartaglia – fosse um Corleone na marcação, e não sobraria nada do italiano.
15/12 – Jovem promessa de craque sente agulhadas no peito e é retirado de campo.
31/12 – Acaaaaaaaaaaaaba o ano! Com um resultado apenas SUPIMPA, a equipe se prepara pra enfrentar 2010 agora. É ripa na chulipa!
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2009 sob as lentes

O ano está em seu derradeiro final, e ao longo destes 365 dias muitas e muitas películas castigaram ou fizeram meus olhos brilharem – foram 99 filmes, pra ser mais exato, sem contar os que eu já tinha assistido (abraço, Clube da Luta, O Poderoso Chefão e tantos outros) ou assisti mais de uma vez. Até pensei em assistir mais um pra fechar 100 e tal, mas tenho um pouco de medo de números redondos.

Então é hora de fazer a melhor retrospectiva cinematográfica da imprensa mundial, arruinar carreiras, elevar produções, dar um sacode em Hollywood, essas coisas que todo mundo faz. Sintam-se à vontade para criticar as listas e refrescar a minha já vacilante memória.
Destaques de 2009 (em parênteses, o título original e o nome do diretor. Menos neste parênteses aqui, obviamente. Mas acho que vocês já haviam deduzido isso)
O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, David Fincher)

Frost/Nixon (idem, Ron Howard)
Coraline e o Mundo Secreto (Coraline, Henry Selick)
Milk – A Voz da Igualdade (Milk, Gus Van Sant)
Watchmen (idem, Zack Snyder)
A Onda* (Die Welle, Dennis Gansel)
Gran Torino (idem, Clint Eastwood)
Rebobine, Por Favor* (Be Kind, Rewind, Michel Gondry)
No Sufoco* (Choke, Clark Gregg)
O Leitor (The Reader, Stephen Daldry)
Star Trek (idem, J. J. Abrams)
O Banheiro do Papa (El Baño del Papa, César Charlone)
Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Harry Potter and the Half-Blood Prince, David Yates)
In The Loop (idem, Armando Ianucci)
Se Beber, Não Case (The Hangover, Todd Phillips)
Up – Altas Aventuras (Up, Pete Docter e Bob Peterson)
Piratas do Rock (The Boat That Rocked, Richard Curtis)
A Garota Ideal (Lars and the Real Girl, Craig Gillespie)
Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, Quentin Tarantino)
Distrito 9 (District 9, Neil Blomkamp)
Duplicidade (Duplicity, Tony Gilroy)
Intrigas de Estado (State of Play, Kevin Macdonald)
Código de Conduta (Law Abiding Citizen, F. Gary Gray)
O Anticristo (Antichrist, Lars Von Trier)

*filmes que foram lançados antes de 2009, mas que eu não havia assistido porque moro em uma terra selvagem onde algumas produções não conseguem chegar.

O Pior
A concorrência foi forte esse ano, tanto é que não existe um vencedor, e sim três. Porque G. I. JOE, Lua Nova e The Spirit extrapolaram completamente, atirando seus respectivos espectadores em um abismo infinito de ruindade e roubando as almas das pessoas nos cinemas.
Os Melhores
Vamos ver se eu consigo definir esse Top 3 de forma não muito exagerada: cada um deles vale por, pelo menos, dois ou três cursos de graduação. Dos bons.
3 – Sinédoque, Nova Iorque (Synecdoche, New York, Charlie Kaufman)
Escrito e dirigido pelo estranho mas genial Charlie Kaufman, Sinédoque, Nova Iorque joga bobagens como linearidade e EXPLICATIVIDADE pro espaço. Certas coisas no filme não ficam muito claras – entretanto, da forma com que é conduzido, ele oferece ao espectador a oportunidade de interpretar e construir um significado pessoal em cima da trama. E quando a película acaba, o sujeito está com a cabeça fervilhando de idéias que ele mesmo construiu conforme a narrativa ia se desenrolando. Pedir mais do que isso, apenas se…
2 – Avatar (idem, James Cameron)
… alguém totalmente megalomaníaco resolve que vai mudar o cinema por completo, e ao invés de um filme, faz uma experiência. Avatar é tudo que disseram que ia ser, tudo que se propôs a ser, e mais do que eu esperava que seria. Cameron criou um mundo inteiro completamente crível, e fez platéias do mundo inteiro ficarem novamente maravilhadas em uma sala de cinema, como se fossem crianças vendo a telona pela primeira vez. E Avatar teria ocupado o primeiro lugar dessa lista com louvor, se não fosse…
1 – O Lutador (The Wrestler, Darren Aronofsky)
… o diretor Darren Aronofsky sequestrar Deus, colocar ele no corpo do Mickey Rourke e jogar ambos na história mais cativante do mundo desde a conquista da Libertadores pelo Grêmio em 1995. O Lutador é um filme intenso, brutal (trocadilho obrigatório), com personagens que ficam na cabeça do espectador. Uma obra-prima, daquelas que tiram lágrimas até do zagueiro mais grosso e que ficam ecoando na cabeça até do atendente de telemarketing mais insensível.
Essas são as minhas considerações cinematográficas de final de ano. Todos os filmes citados aqui, e mais outros, estão comentados lá no twitter Dicas de Filmes. Agora é esperar e ver que tipo de lutadores e espíritos 2010 trará.

Papai Ludovico

Passou pela minha cabeça escrever um conto, uma crônica, uma poesia, uma letra de música, algo que traduzisse todos os sentimentos bonitos do Natal. Que levasse para a casa das pessoas aquela sensação natalina típica, sabem, neve, Papai Noel, shoppings lotados, amigos secretos chatos, consumismo desenfreado e todas essas coisas edificantes.
No entanto, logo percebi que as pessoas já sabem de cor quais sentimentos devem guiar seu comportamento no Natal (paz, amor, alegria, felicidade, solidariedade, e por aí vai). Elas apenas não colocam em prática. Então, ao invés de repetir tudo de uma forma supimpa, decidi criar um jeito de convencer a galera a transportar os textos dos cartões de Natal pra realidade:

“Não! Parem de mostrar vídeos de crianças recebendo meias de presente!”

Ah sim: Feliz Natal e tudo mais.

Cortando as asinhas

Como se não bastasse o calor equatoriano que assola Porto Alegre, descobri que temos um morcego vivendo na árvore aqui na frente do prédio. Isso mesmo, um morcego. Pelo menos acho que é um. Outra noite, após descer para levar o lixo, vi algo veloz feito um CARRO TUNADO voar na minha frente, e logo descartei as outras duas hipóteses do que seria o OVNI, pois foi rápido demais para ser uma outra criatura VOANTE qualquer e reto demais para ser um bêbado qualquer.
Não sei direito como agir com relação à isso. Confesso que meu primeiro instinto foi abrir um buracão numa lata de SBP, jogar na árvore e gritar algo como “FIRE IN THE HOLE!”, o que seria até divertido – entretanto, as grandes possibilidades da expressão “o feitiço virou contra o feiticeiro” ganhar uma ilustração representativa nesse ato arrefeceu meu espírito. E não é como se eu pudesse pegar uma Havaianas e desossar ele contra a parede, igual eu faço com baratas e filmes de roteiristas preguiçosos. A situação clama por uma estratégia bem pensada, digna de walkie-talkies e códigos como “a raposa deixou as uvas”.
Outras idéias até foram surgindo, mas acho que por enquanto vou deixar o bicho quieto. Digo, ele parece bastante satisfeito em dormir de cabeça pra baixo e morcegar por aí de noite. Serve até como um diferencial. Por exemplo, na hora de guiar o taxista: “… agora pode entrar naquele prédio com um vulto preto voando alucinado de lá pra cá. Esse mesmo. Quanto deu a corrida?”. Quem sabe, com o tempo, ele possa até ser domesticado. Dormir numa caixa de papelão. Responder pela alcunha “Tóbi”. Então, treinando o bicho direitinho, terei não apenas um morcego esperto, não apenas um morcego de guarda no prédio, mas também a maior placa de aviso de todos os tempos:
Aquiles dopado de Red Bull não ousaria trespassar.

Da megalomania bem aplicada

Avatar
5/5
Direção: James Cameron
Roteiro: James Cameron
Elenco
Sam Worthington (Jake Sully)
Zoe Saldana (Neytiri)
Sigourney Weaver (Dra. Grace Augustine)
Michelle Rodriguez (mina gostosa e durona)

No distante planeta Pandora, uma pá de humanos faz de tudo para conseguir botar as mãos em um valiosíssimo metal chamado McGuffin unobtanium. Entretanto, a primitiva espécie local, um bando de primos altos do Noturno dos X-Men chamados Na’vi, não curte muito a idéia e faz um sacode para defender seu lar. No meio da dança, um ex-fuzileiro se inscreve no programa Avatar, onde, através de uma MÁQUINA DE TOMOGRAFIA, ele pode pilotar o corpo de um Na’vi criado especialmente para o seu DNA. E eventualmente, ao se misturar com os nativos, o sujeito acaba se apaixonando por uma mina azul logo quando a guerra está prestes a estourar.

Ao longo dos últimos anos [/redação de vestibular], a indústria cinematográfica, assim como a fonográfica, vem sofrendo com o, digamos, fácil acesso a produtos culturais através da rede mundial de computadores. As pessoas sovinas trocaram a salona de cinema pela comodidade e GRATUIDADE do lar. Tentando reverter a situação, as redes começaram a buscar novas formas de atrair a galera, como o famoso IMAX, as projeções 3D e os combos pipoca + refrigerante que poderiam alimentar um rinoceronte. Mas os resultados ainda eram um pouco tímidos.

Eis que James Cameron aplicou uma grandiosa rasteira nos baixadores de filmes. E depois chutou o saco deles. E depois fez cócegas em seus sovacos. Porque, após quatro anos de desenvolvimento, produção e megalomania, Avatar é uma colossal experiência que PRECISA ser conferida no cinema. Sinceramente, o site oficial da obra poderia colocar o filme inteiro pra download, e provavelmente ninguém se interessaria.

Em termos visuais, nenhuma língua inventou adjetivos suficientes para definir a grandiosidade da coisa. Várias vezes, ao longo da projeção, amaldiçoei a mim mesmo por não ter levado uma máquina fotográfica pra registrar o que se passava na telona. Os óculos 3D ficaram embaçados de tanto que eu chorava. E as pessoas não entenderam quando, ao final, pedi que todos dessem as mãos e, juntos, orássemos em agradecimento. Pois a sensação de profundidade, os detalhes, a estrutura das construções, dos animais, das plantas, tudo é tão crível que é quase inacreditável. Em nenhum momento o espectador duvida que aquele mundo digital realmente exista. Não lembro de nenhum outro filme que tenha atingido um grau de realismo tão grande com o CGI, e isso é até mais impressionante do que o 3D em si. E a riqueza proporcionada pelo planeta Pandora, com seu verde exuberante e sua flora colorida, dá à Cameron a oportunidade de ESTRAÇALHAR visualmente as pessoas, criando sequências que SALTAM AOS OLHOS (trocadilho obrigatório) e AQUECEM CORAÇÕES. Avatar eleva a categoria cinematográfica de “fotografia” um nível totalmente novo. Seja no colorido das florestas, ou no cinza das instalações militares (sempre com holografias surgindo aqui e ali), o filme consegue impressionar em cada quadro.

Mas de nada adiantaria toda essa parafernália se a história fosse fraca (mentira, adiantaria sim, mas ela não é). E embora a tramóia concebida por Cameron resvale nos lugares comuns, o roteiro é bem-escrito e bem executado, o que torna a narrativa extremamente fluída: se por um lado cenas grandiosas deixam o espectador totalmente em chamas, por outro momentos pequenos, como Jake em seu avatar mexendo na terra com os dedos do pé, constroem personagens TRIDIMENSIONAIS (trocadilho obrigatório) e fazem com que o público se identifique com elas. O diretor manja os macetes necessários para manter a bola rolando de forma interessante, e não se permite deslumbrar pelos efeitos especiais (mentira, se permite sim, mas sem esquecer da trama). Afinal, por mais que o filme seja bonito, ele não funcionaria se os protagonistas não cativassem a platéia (mentira, funcionaria sim, mas eles cativam).

Contribui para isso o excelente elenco e a absurda técnica de captura de movimentos – os avatares em CGI não são apenas parecidos com os atores, eles possuem trejeitos que os tornam únicos (James Cameron e os demais envolvidos venderam a alma ao diabo para conseguir tal façanha, fato). Quem ficou impressionado com o Gollum de Senhor dos Anéis e o Davvy Jones de Piratas do Caribe, vai bater a cabeça na parede após ver o que se passa em Avatar. Com atores supimpas, então, a coisa fica ainda mais fácil: Sam Worthington exala carisma o tempo todo, além de convencer no papel de líder (e reparem o “tédio” do ator enquanto está na forma humana, comparado à sua intensidade quando Na’vi) e ter uma excelente química com Zoe Saldana (outra que faz misérias, mesmo jamais aparecendo em carne e osso). E como é em torno dos dois que a história se sustenta, essa relação cria uma base sólida para que os outros aspectos possam funcionar. De resto, Sigourney Weaver faz bem a ligação entre Jake e os Na’vi, Stephen Lang cria um vilão assustador e intenso, e Michele Rodriguez exibe gostosice extrema sempre que está em cena.

É necessário ainda citar o design de som, a espetacular trilha, os figurinos, o pão com geléia que era servido entre as filmagens, enfim, praticamente todos os aspectos do filme ganhariam 99 no Winning Eleven. E todo o tempo que Avatar ficou em produção, todo o trabalho, toda a pesquisa, tudo isso convergiu de forma bíblica para apenas um objetivo: criar uma experiência cinematográfica inesquecível.

James Cameron é, de fato, o rei do mundo.

Rapidinhas

– O número de pessoas idosas pra quem eu cedo meu lugar no ônibus é inversamente proporcional ao número de pessoas sentadas que se oferecem pra carregar minha mochila. Ela parece uma bola de pinball, escorrendo pelo chão e batendo nas pernas da galera;

– Assisti Avatar quinta-feira. Ignorância pura. Megalomania descontrolada. Faz Titanic, o filme, parecer um barquinho de papel em uma banheira. Escreverei mais sobre ele amanhã;

– Comecei a ler um livro do Phillip Roth, A Indignação. Nunca tinha lido nada do sujeito, e até aqui parece bastante legal. Além do mais, é uma desculpa pra demorar a voltar pras duas milhões de páginas daquele CONTAINER que é Ana Karenina – fato que qualquer dia usarei o livro pra fazer SUPINO;

– Não sei porque tanto FUZUÊ em cima dos tais “supermaiôs”: os nadadores podem até ficar mais rápido e vencer mais prêmios, mas o ego deles será esmagado pelas gozações dos amigos em cima do fato. Entretanto, se botarem as nadadoras pra participar de bíquini, podem colocar os cuecas até de VESTIDO GUCCI na água que eu não me importo;

– Em dois grandes shoppings de Porto Alegre, a decoração de Natal conta com não um, nem dois, mas TRÊS Papais Noéis robotizados, lado a lado, sem contar o de carne e osso que posa para fotos. Nem imagino como deve ficar a cabeça das crianças, que acreditam existir só um. Por que não colocam elas em uma cadeira elétrica e dão choques de altíssima voltagem, ao invés? Seria menos doloroso.

O Despautado

Minha cabeça é praticamente uma biblioteca uma LISTA DE MP3 NO IPOD de idéias. Elas vêm de forma devastadora, sem tomar conhecimento do resto, e tomam o lugar de coisas desimportantes, como, por exemplo, qualquer equação matemática que não seja a fórmula de Báscara. E a maior parte delas, pra não dizer todas, jamais será colocada em prática, seja por preguiça (como um livro intitulado Lista de Idéias Geniais que Jamais Colocarei em Prática) ou por esquecimento mesmo (como…).

Uma delas é um jornal chamado O Despautado. Na verdade, o nome não tem tanto a ver, é mais pra causar efeito e tal (eu imaginei uma edição impressa do jornal acompanhada de uma fita com o discurso do Al Pacino em Perfume de Mulher, terminando com um locutor dizendo “esse foi Al Pacino, direto para O Despautado“, pra causar impacto. Mas divago). A idéia, basicamente, era montar um veículo de comunicação que noticiasse as coisas cerca de dois meses após elas ocorrerem. Assim, o O Despautado não seria mais um tablóide que tenta socar um mocotó de informações irrelevantes na boca do público; ao invés, iria investigar a fundo, olhar debaixo do tapete, procurar no Google usando expressões entre aspas e, principalmente, chamar a atenção pros assuntos quando todo mundo já tiver esquecido deles. Ninguém mais liga pro dinheiro na cueca de uns e outros? O O Despautado iria lembrar. O planeta superou de forma rápida demais o fato de que The Wrestler, do Bruce Springsteen, sequer foi indicada ao Oscar de melhor canção? O O Despautado denunciaria esse crime contra a humanidade. Você considerou o Fábio Rochemback uma excelente contratação pro Grêmio? O O Despautado esfregaria na sua FUÇA a sua falta de visão futebolística.
A idéia é boa, admitam. Mas há uma falha lógica na execução, citada lá em cima, no primeiro parágrafo: eu esqueço das coisas. Com frequência. E isso seria um problema pra um veículo que se dispõe a… bem, lembrar das coisas. Portanto, tomado pelo sentimento de WIKIPÉDIA, venho aqui oferecer gratuitamente minha idéia a quem quiser. Soltar ela no mundo. Deixar ela voar como o vento. Fazê-la clichezar com os clichês. Enfim, jogar pro alto e ver se alguém pega. E não pedirei nada em troca, nenhum dinheiro, nenhuma fama. Apenas, caso um dia o jornal fique conhecido e a equipe vá cobrir alguma festa Hollywoodiana, ao avistarem a Scarlett Johansson, dêem um suspiro, balancem a cabeça de forma afirmativa e citem meu nome como “o revolucionário que teve a coragem de tentar mudar o mundo”. Apenas isso.

Clichê pra que?

Inauguro aqui uma nova série: o “Clichê pra Que?”. O objetivo, além de encher linguiça em algum fim de semana onde eu não tenha assistido nenhum filme, é analisar a forma como os clichês se inserem nas narrativas fílmicas, como isso interfere na sociedade e como DIABOS podem ser evitados.

Daltonismo explosivo
O que é: Sempre que alguém precisa desarmar uma bomba, fica em dúvida se corta o fio vermelho ou o fio azul, criando a “tensão” de que eventualmente tudo vá pelos ares (as cores dos fios podem variar; a estrutura, não). A exceção da regra é uma cena em Máquina Mortífera 3 que pode ser descrita como “Roger, pega o gato!”.
Possível origem: Todos os roteiristas de Hollywood faltaram à ultima aula de desarmar bombas pra conseguirem assistir Star Wars na pré-estréia.
Solução: Criar um vilão que faça bombas com todos os fios da mesma cor.
Protagonista impetuoso
O que é: Contrariando todas as opiniões de todos os especialistas em qualquer assunto que apareça na trama, o mocinho age com a ADOLESCÊNCIA na superfície, fazendo o que der na telha porque o seu “instinto” manda – mesmo que Deus venha à Terra e diga “não faz isso, brôu”.
Possível origem: Os roteiristas nerds gostariam de ser corajosos e impetuosos para impressionar mulheres. Como não são capazes, criam suas personagens com essas características. E continuam sem impressionar as mulheres.
Solução: Colocar o vilão da “solução” acima pra enfrentar um protagonista impetuoso, obrigando este a cortar um fio de bomba “no instinto”.
Pequenos momentos, grandes insights
O que é: Um detetive, ou médico, ou policial, ou algo assim, precisa resolver um caso. Então ele passa e repassa os dados, faz simulações no computador, procura no Google, tudo em vão. Aí o sujeito vê uma pessoa mastigando DAMASCO e, subitamente, todas as peças do quebra-cabeça se encaixam.
Possível origem: Falta de confiança dos roteiristas na inteligência da platéia. Como assim alguém resolveria um caso apenas PENSANDO e INVESTIGANDO sobre ele? Que mundo é esse? Tem que ter uma ação bacana do além nessa jogada! Como se já não bastasse um presidente negro…
Solução: Utilizar mais o Word e menos o Photoshop na hora de brincar de fazer cinema.
Paixão corrida
O que é: Em uma comédia romântica, sempre que um casal briga no terceiro ato, um deles está em vias de viajar para PLUTÃO, onde ficará impossibilitado de qualquer contato até o FIM DOS TEMPOS. Isso faz com que o outro saia correndo pela cidade em algum momento – uma cena que fatalmente será colocada no trailer – para impedir que o amor de sua vida cometa tal deslize.
Possível origem: Roteiristas que desconhecem completamente os conceitos de amor, relacionamento, TELEFONIA CELULAR, GLOBALIZAÇÃO, INTERNET e DDI.
Solução: Fazer com que, na pior das hipóteses, o(a) protagonista ligue para o aeroporto e denuncie uma ameaça de bomba, garantindo que nenhum avião vá decolar e evitando a correria. Com sorte, haveria realmente uma bomba lá. Com mais sorte, ela teria dois fios de cores iguais. Com MUITA sorte, um protagonista impetuoso diria pro esquadrão antibombas “deixem comigo, eu já desmontei um relógio uma vez, é quase a mesma coisa”. Infelizmente, teria um detetive pra investigar tudo.

Let me in the sound

É batata: toda vez que chego em algum recinto, tiro os fones de ouvido e alguém escuta aquela música completamente distorcida em um volume alucinante (abraço, Mark Lanegan), a pessoa olha pra mim com cara de TORCEDOR DO BOTAFOGO e diz “tu ainda vai ficar surdo ouvindo isso nessa altura”.

O que os vigilantes dos tímpanos não sabem, entretanto, é que mesmo se eu ligar o TOCA DISCOS VIRTUAL no último volume, ainda fico sem escutar direito a música em determinados momentos – e antes que alguém venha maldizer minhas funções auditivas, devo esclarecer que esses momentos são, por exemplo, no ônibus. Ou em ruas muito movimentadas. Ou perto de obras. Ou em qualquer lugar onde os decibéis peguem instrumentos e montem uma banda chamada Poluição Sonora.
Então, enquanto o ronco de um carburador for mais intenso do que um poderoso riff de guitarra do Stone Gossard, deixem que eu me estoure ouvindo as coisas com o volume lá em cima. Melhor ficar surdo de Pearl Jam do que de motor.

Nota oficial

Essa semana não teve Peliculosidade porque inventei de reassistir O Lutador no domingo. Como da primeira vez, todos os meus sentidos foram elevados ao nível 99 durante o filme, chegando ao ponto “MESSI NO WINNING ELEVEN” na cena onde Mickey Rourke diz “é lá fora que eu me machuco”. Então, quando entrou a colossal canção The Wrestler, do Springsteen, a comoção foi tanta que eu creio ter desenvolvido três ou quatro sentidos além dos cinco iniciais.

Como vocês podem imaginar, não foi possível vir ao computador escrever um post enquanto eu estava debaixo das cobertas, chorando um NILO e gritando “esse mundo não é justo com ninguém”.