Futuro, brutalidade e a morte dos pontos finais

1984 – George Orwell

Orwell fatal demais. Cria um mundo aparentemente absurdo e, ainda assim, parece que estamos seguindo diretamente pra ele feito uma caixa de cerveja em um churrasco. A preocupação com os detalhes é tanta que até mesmo a linguagem utilizada pelas personagens torna-se alvo do totalitarismo do Big Brother, e vai sendo modificada para se tornar mais eficiente. A leitura é alucinante, fluída, cada capítulo deixa o leitor pensando “oh, céus, o que acontecerá a seguir?”, e faz o cérebro dele explodir algumas vezes com tantas ideias sendo bombardeadas pra dentro.
Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota pisando num rosto humano – para sempre.
Meridiano de Sangue – Cormac McCarthy
Cada palavra do livro é um carvão cuidado, tratado e lapidado por Cormac McCarthy até se tornar um diamante com o formato da Scarlett Johansson. Simplesmente absurda a capacidade do autor em construir cada pedaço da história – juro que quase senti a poeira do deserto do Texas escorrendo pelos meus dedos enquanto lia. O cara colocava, sei eu, dez páginas apenas de SUJEITOS CAVALGANDO, sem diálogos, sem ação, sem nada, e eu não conseguia controlar o choro compulsivo frente à tamanha beleza. Paralelo à isso, jamais havia testemunhado tanta violência e brutalidade em uma obra, e a simples junção de tudo isso em 350 páginas, de forma coesa, já seria algo hercúleo. Mas aí aparece o juiz Holden, uma das personagens mais sensacionais de todos os tempos, e eleva o livro a um nível DESINTEGRADOR.
Mas vou dizer uma coisa. Somente aquele homem que se consagrou inteiramente ao sangue da guerra, que conheceu o fundo do poço e viu o horror de todos os ângulos e aprendeu enfim o apelo que ele exerce no mais fundo de seu íntimo, só esse homem sabe dançar.
O Que Diz Molero – Dinis Machado
Um furioso ENTRONCAMENTO de ideias, uma sucessão de acontecimentos bizarros e interessantes, uma galeria sensacional de personagens cativantes. Descartando os pontos finais como se eles fossem o Robinho, Dinis Machado constrói uma narrativa que tira o fôlego do leitor, que ora é real ora é surreal, e se mantém sempre no limite da imaginação sem perder sua força.
“A vida dá-nos pouco, bem sei”, disse, “e por isso a verdadeira técnica consiste, na minha opinião, em saber procurar o sítio onde as bolas amarelas das crianças vêm tocar os nossos pés, como você diz que disse Molero a propósito já não sei de quê”.
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3 comentários sobre “Futuro, brutalidade e a morte dos pontos finais

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