A semiótica das sinaleiras

Se tem algo que me deixa curioso, além de descobrir onde Sergio Busquets faz aulas de atuação, é a forma como funciona a comunicação entre a sinaleira (“semáforo” ou “farol” para os neandertais) e os motoristas. A princípio, parece algo simples: temos três discursos, representados por cores diferentes, cada um transmitindo uma informação específica. Parecido com aquela cena de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, mas sem som e sem Spielberg.
Entretanto, tal qual uma discussão de casal, nem tudo é tão simples. O sinal vermelho, por exemplo: ele significa que a passagem está fechada para os carros. Só que o sinal vermelho é menos uma comunicação do que um ultimato: ele é a ÚNICA coisa que consegue conter o trânsito. Sem ele, carros zombariam da velocidade do som em todos os lugares e os pedestres ficariam eternamente esperando por uma oportunidade que jamais surgiria. E os motoristas não param nele por entender sua comunicação ou sua função; param porque, se não o fizerem, serão castigados com uma multa (é mais ou menos o mesmo motivo pelo qual uma criança faz o tema de casa). Logo, aos olhos dos motoristas, o sinal vermelho não significa “pare”: significa “cuidado com a multa”.
Já o sinal amarelo mostra que o vermelho está prestes a entrar em cena, informando aos motoristas uma única palavra: “atenção”. Atenção, o sinal vai fechar. Atenção, pessoas vão atravessar a rua. Atenção, aquele caminhão que está estuprando a barreira do som não vai parar no cruzamento, então é melhor que você o faça. Entretanto, com as mudanças de comportamento observadas na sociedade brasileira ao longo dos anos, o significado foi um pouco distorcido – ao menos para os receptores. Afinal, a ideia continua a mesma – “atenção” -, mas, para ouvidos motorizados, ela quer dizer algo completamente diferente: “é agora ou nunca”.
E, finalmente, chegamos ao sinal verde, uma forma esperançosa de dizer aos motoristas “siga em frente”. É a indicação de que os motoristas podem seguir em seu caminho motorístico sem problemas. Só que, para eles, o sinal verde não indica nada. Ele praticamente não existe. Pois, se o vermelho interrompe o fluxo de carros (e aqui a palavra é “interromper”, algo que invade e interfere) e o amarelo dá um aviso de que o tempo está esgotando, o verde nada mais é do que a restauração do status quo. O fim do mundo paralelo e o retorno à soberania automobilística nas ruas.
Ou seja, mesmo hoje em dia, no século XXI, ainda reina a lei do “sou mais forte, mais rápido e tenho mais toneladas de aço do que você”.
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2 comentários sobre “A semiótica das sinaleiras

  1. Tem uma esquina onde eu atravesso que ilustra bem o trecho “os pedestres ficariam eternamente esperando por uma oportunidade que jamais surgiria”. Não fosse a sinaleira, seria mais fácil nevar em Porto Alegre no Natal do que atravessar naquela esquina…

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