Breve análise dos últimos livros que li – 2

Como o post anterior foi um sucesso (UMA pessoa comentou), resolvi dar sequência:

A Erva do Diabo – Carlos Castañeda
Na verdade, foi a segunda vez que eu li A Erva do Diabo – provavelmente já tem algum post comentando o livro por aí. De qualquer forma, continuo muito impressionado com os relatos de Carlos Castañeda, a forma detalhista com que ele descreve os procedimentos passados por Don Juan e toda a vividez dos relatos alucinógenos (olha o paradoxo), que nunca são menos do que sensacionais. É tipo um filme do David Lynch na vida real. Mas o escritor não foca só nesse comportamento de membro dos Rolling Stones, mostrando também as explicações de Don Juan, o objetivo de cada planta, de cada viagem. A ideia, no geral, é fazer com que Castañeda abra sua mente para outras realidades (Phillp K. Dick deve ter adorado isso), e os alucinógenos são uma forma de, tipo, ligar o botão “turbo” nesse conceito. Só a parte final, mais focada em dados e exposta como um verdadeiro relatório antropológico é que mais uma vez me pareceu extremamente murrinha: pela segunda vez, não passei da quinta página.
Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – Robert M. Pirsig
Romances filosóficos que realmente fazem o cara pensar, ao invés de simplesmente tentarem impor frases de biscoito da sorte ao longo da narrativa, são raros. Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas é um desses: através da viagem do Robert Pirsig por paisagens bucólicas americanas, somos apresentados a uma série de ideias sobre diversos assuntos (inclusive sobre ideias) e a um intrigante mistério, que acaba sendo a chave de tudo. É uma jornada de auto-descoberta cadenciada, contemplativa, perfeita pra ser lida em um fim de semana na praia com uma garrafa de cerveja ao lado, ou muitas garrafas de cerveja. Porque parece a versão impressa daquelas longas conversas que se tem com um grande amigo, sobre as coisas da vida, quando ambos estão no segundo estágio de bebedeira (quando já passaram da euforia e entram no momento de seriedade, pouco antes do desarranjo total).

Conversas com Scorsese – Richard Schickel
Ok, esse é um livro mais de nicho, mas nem por isso menos importante. Além de um grande cineasta e ostentador de sobrancelhas, Scorsese manja muito de cinema. E este livro reúne a conversa dele com o crítico Richard Schickel  onde discutem pormenores, curiosidades e decisões nos filmes do tio Martin e também reflexões sobre o cinema em geral. Por  vezes o crítico tem espasmos de Ricardo Teixeira e se acha mais importante e tenta aparecer mais na conversa, além de falar que nunca gostou de Clube da Luta, mas é um livro extremamente agradável de ler, repleto de curiosidades para os amantes do cinema e até mesmo aprendizados. Além disso, Scorsese parece ser uma pessoa incrivelmente broder.

Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo – David Foster Wallace
Pra mim esse é o livro de 2012, embora eu não tenha certeza se ele foi lançado em 2012 mesmo (e a descomunal distância de três metros entre nós dois agora é o suficiente para impedir que eu verifique a data da edição). De qualquer jeito, merece ser carimbado com a expressão “livro do ano”; o olhar extremamente perspicaz e inspirado de David Foster Wallace nessa coleção de ensaios só pode ser definido como chute de trivela no ângulo. A capacidade do cara de fazer associações e desenvolvê-las em frases tão bem construídas que certamente exigiram um projeto de engenharia antes é acachapante – e, ainda que com uma linguagem bastante rebuscada, essas frases muitas vezes são desconcertantemente engraçadas, fazendo o leitor gargalhar enquanto as pessoas ao redor pensam que ele é louco por rir sozinho. Nada aqui é previsível. Wallace sempre tem uma abordagem criativa e interessante para cada projeto, e parece fazer tudo com tanta desenvoltura que, durante a leitura, muitas vezes pensei “bem, é isso, sou um analfabeto”. Recomendo fortemente a todos que gostam de coisas muito legais e que te deixam muito empolgado.

Paris é uma Festa – Ernest Hemingway
Na verdade, Paris é uma Festa nada mais é do que uma forma de se entristecer com a realidade: ainda que Hemingway com frequência lembre de suas dificuldades financeiras e das vezes que não tinha dinheiro sequer para almoçar, o livro basicamente acompanha o escritor enquanto ele escreve, passeia por Paris, toma vinho e faz viagens com sua esposa ou um de seus broders, tipo o F. Scott Fitzgerald, sabe? Por mais BONO VOX que o cara seja, sempre bate aquele suspiro de “por que eu não posso passar os dias em Paris escrevendo, enchendo a cara e andando com o F. Scott Fitzgerald?”. Claro que é tudo um pouco romanceado, mas o texto do Hemingway é tão envolvente e cativante em sua simplicidade que é inevitável um efeito Meia Noite em Paris se apoderar do cara durante a leitura – e por mais alguns meses após o final.

Mais Estranho que a Ficção – Chuck Palahniuk
Assim como Ficando Longe do Fato… , este Mais Estranho que a Ficção é uma coleção de ensaios. No entanto, Chuck Palahniuk tem uma visão bem menos, digamos, invasiva das coisas. Ele escreve sobre pessoas que participam de dérbis de destruição de tratores e pessoas que constroem castelos com as próprias mãos sem nenhum julgamento, apenas colocando a história deles no papel. Na verdade, o Palahniuk sempre teve uma identificação com essa galera marginalizada, à parte da sociedade “comum”, e aqui ele se mescla com esses corinthianos da vida de uma forma única. O livro ainda conta com momentos onde o escritor narra e reflete a respeito de histórias que aconteceram com ele mesmo, sempre chegando nesse olhar bem pessoal e alternativo, que as vezes é muito engraçado, as vezes é curioso, as vezes é extremamente impactante e sempre é muito bem escrito.

The Rings of Saturn – W. G. Sebald
É mais ou menos a mesma proposta do livro das BIKES ali em cima: sujeito vai fazer uma viagem pelo interior da Inglaterra, e, paralelo aos acontecimentos da pernada em si, fica reletindo sobre a vida e alguns eventos históricos que ocorreram por ali. Entretanto, ao contrário do livro de Robert Pirsig, The Rings of Saturn dança na corda bamba, alternando alguns momentos inspirados pacas com outros que tiraram a carta “maçante” no tarô. Apesar disso, e de não ser uma leitura muito fácil, o resultado final é positivo e o livro acaba inspirando reflexões e ideias. Só talvez seja bom ter em mente que essa não é uma daquelas obras do tipo “comecei a ler de noite e não dormi e liguei pro trabalho e disse que tava doente pra continuar lendo e cancelei o jantar de noivado à noite porque eu realmente queria saber o final da história”.

Vertigem Digital – Andrew Keener
Andrew Keener é o autor de um livro chamado O Culto ao Amador, que não li, mas, pelo que entendi, xinga pessoas que têm blogs, o que torna uma ironia grande eu estar falando dele aqui. Mas divago. Em Vertigem Digital, Keener aborda o tema das redes sociais, mas de uma forma um pouco pessimista. Ok, bem pessimista. Ele comenta a respeito da perda de privacidade, do exibicionismo, da massificação do pensamento, da perda da identidade, entre outras coisas extremamente sérias. O autor fala que, ao invés de um Big Brother (o do Orwell, não o do Boninho), agora temos vários Little Brothers para ficar nos espionando e criando uma sociedade pasteurizada, onde a individualidade perece frente ao coletivo. Keener usa bastante estudos e exemplos e acontecimentos para ilustrar suas opiniões, e, mesmo que vez ou outra pareça um pouco exagerado ou fatalista demais, Vertigem Digital é uma leitura extremamente pertinente para estes tempos onde as pessoas fazem questão de expor tudo de suas vidas aos outros.
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2 comentários sobre “Breve análise dos últimos livros que li – 2

  1. po De, pra nao deixar por menos do que o ultimo post, aqui vai meu comentario:

    concordo 100% c/ 'Erva, Zen e Rings', q ja conheço…e fiquei morrendo de vontade de ler os outros de que falas, principalmente o do David W.

    vqht

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