The Good, the Bad and the Nigga

Django Livre (Django Unchained)
5/5

Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino

Elenco
Jamie Foxx (Django)
Christoph Waltz (Dr. King Schultz)
Leonardo DiCaprio (Calvin Candie)
Samuel L. Jackson (Stephen)

Dois anos antes da Guerra Civil americana abrir a porta e entrar sem ser convidada, uma curiosa parceria se forma quando Dr. King, um alemão dentista e caçador de recompensas, liberta Django, um escravo, pois precisa da ajuda dele para reconhecer alguns malfeitores (claro que o nome “Dr. King” é pura coincidência, né). Mas logo ele descobre que tinha essa mina escrava que Django dava uns pegas e ambos partem com a missão de resgatá-la das garras do laquê no cabelo de Calvin Candie.
Tarantino é um sujeito excêntrico. Isso provavelmente não deve ser novidade para quem sabe da obsessão dele pelo dedão torto da Uma Thurman ou para quem já viu ao menos uma foto do sujeito. Mas a verdade é que essa excentricidade se reflete em seus filmes: mesmo em obras de gênero (tipo Kill Bill), ele confere um tom pessoal e subverte as tradições do gênero em questão. E Django Livre, um faroeste estrelado por um negro, com mais diálogos que ação, mensagem social e cuja única personagem não-racista é um alemão, não poderia definir melhor a peculiaridade do diretor.

“A iluminação está boa, mas falta dedão.”

Não que isso seja algo ruim, já que Django Livre se mostra uma das produções mais redondas e alucinadas do ano. Começando já pelos créditos iniciais, que simulam os letterings da época do faroeste spaghetti , Tarantino parece estar se divertindo à beça o tempo todo, abusa dos zooms e closes, planos-detalhe, pistoleiros com a mão no revólver, fotografia estourada e granulada nos flashbacks (emulando os faroestes antigos), letterings estilizados surgindo de forma abrupta. Longe de parecer exagerados, entretanto, os recursos entram de forma orgânica na narrativa, quer construindo a tensão na cena (os planos-detalhe onde a galerinha vê que a cobra pode fumar e já vai tirando o BERRO do coldre) ou subvertendo a expectativa do faroeste (em certo momento, Tarantino usa o clássico close nos olhos de Sergio Leone, mas, ao invés de um olhar duro, encontramos uma lágrima). O controle que o diretor tem sobre a linguagem é digno de uma mulher ciumenta, e, mesmo que seus recursos cinematográficos eventualmente chamem atenção para si mesmos, eles jamais interferem na fluidez da história.
Além disso, Django Livre também traz a tradicional sanguinolência desenfreada do diretor, quase estilizada e com uma veia humorística muito forte (trocadilho obrigatório). Ela permeia todo o filme, mas atinge níveis durodematarzísticos no tiroteio na mansão, coreografado de forma brilhante, intensa e engraçada – Tarantino estabelece bem a geografia do lugar, mostrando com clareza onde cada pistoleiro está, e depois faz um bom trabalho despejando cachoeiras de sangue em cima dessa geografia e saindo por aí pra comemorar com cerveja e dedões femininos. Aliás, por falar em tiroteios, a rapidez de Django e do Dr. King no gatilho é me visualizada através de planos únicos, o que torna o descimento de sarrafo deles no resto da galeria ainda mais crível. Se bem que com a espetacular trilha que polvilha a película, trazendo temas de Enio Morricone (= versões em áudio de bolas de feno cruzando o deserto) misturados a outras batidas que remetem mais ao cinema negro americano da década de 70 (já que Django Livre de certa forma fala da ascensão de negros), naquele estilo tarantinesco onde elas não parecem ideais para o momento mas acabam se encaixando com perfeição, já eleva cada disparo de pistola àquele nível do cara erguer os braços e gritar “é isso aí!”.
Como de costume, o roteiro também merece destaque, a começar pelo Dr. King, a antítese de tudo que se espera de uma personagem faroéstica: educado, inteligente e com um vocabulário mais afiado do que língua de mulher, ele cativa o espectador desde a primeira cena com tiradas sensacionais (“você me deve 200 dólares”) e a contradição entre seus modos e a brutalidade ao redor. Estão lá também as personagens marcantes, com nomes como “Calvin Candie”, que se destacam por tomar decisões e ações contrárias à expectativa do público (a sequência da cena do crânio, por exemplo); e os diálogos elaborados, bem desenvolvidos, que dão voltas em torno do assunto com uma dinâmica invejável – e, nesse caso, é impossível não citar a descomunal sequência com a Ku Klux Klan, uma das mais engraçadas que Tarantino criou até hoje.
Mas também há algo novo aqui, uma  vez que algumas falas são carregadas de significado de uma forma que o diretor/roteirista queixudo jamais havia feito. Exemplos: Django falando “estou mais acostumado aos americanos do que eles”, ao ver uma cena de pura maldade e violência; o contraste absurdo entre polidez da frase e a ação que ela origina quando Calvin fala, se referindo a enviar uma escrava para satisfazer um convidado, “a hospitalidade sulina me obriga a disponibilizá-la”; e o momento onde uma personagem diz a outra que castração não é castigo o suficiente e vai vendê-la para uma companhia mineradora, deixando bem claro que até mesmo a situação “legalizada” dos escravos era ruim o suficiente a ponto de ser pior do que perder as bolas.
Atuando na pele do protagonista, Jamie Foxx acertadamente mantém sempre uma expressão sisuda, tensa, do tipo que parece que vai enfiar alguma coisa no rabo de alguém a qualquer momento. Sua própria postura é mais dura, e o ator dispara cada frase como se fosse um tiro de revólver, criando assim um Django extremamente imprevisível e intimidador – um forte oponente para o Stephen interpretado por Samuel L. Jackson, que, embora já na melhor idade, mostra sua força e desprezo com tamanha intensidade que dá vontade de pedir para acenderem as luzes do cinema. Já Leonardo DiCaprio, embora ilustre bem as sensações pelas quais Calvin passa (alegria, raiva, frustração, etc), continua com sua tendência a exagerar na dramaticidade dos trejeitos e falas, tornando a presença do sujeito um tanto artificial por vezes. Mas não faz diferença, porque Christoph Waltz chega chutando a bunda de todo mundo com seu timing cômico definitivo, tornando o verborrágico Dr. King carismático ao extremo. É incrível como o filme ganha vida e naturalidade quando ele está em cena, com seus trejeitos mais floreados e a mania de ficar alisando o bigode. Waltz, meu amigo, passe a vida toda interpretando alemães poliglotas em filmes do Tarantino que você está feito.
Talvez Django Livre pudesse ser um pouquinho mais bem amarrado, já que uma ou outra cena destoa do resto (estou pensando no momento em que a lembrança do ataque dos cachorros convenientemente vem à memória do Dr. King e em uma outra vingança, que acontece rápido demais). Mas são descompassos quase imperceptíveis nessa grande sinfonia de tiroteios, sangue, frases de efeito e música épica que é a película. Mais uma vez, Tarantino despeja criatividade em um rolo de filme e bota pra rodar, realizando mais uma produção envolvente, inspirada e ousada. O diretor/roteirista pode não ser o Django da vida real, mas não dá pra negar que ele acertou em cheio.
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