Propaganda Enganosa

Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (Fantastic Four: The Rise of the Silver Surfer)
1/5

Direção: Tim Story
Roteiro: Mark Frost, baseado nos personagens criados por Jack Kirby, Stan Lee e Don Payne

Elenco:
Iaon Gruffudd (Reed Richards / Sr. Fantástico)
Jessica Alba (Susan Storm / Mulher-Invisível)
Chris Evans (Johnny Storm / Tocha Humana)
Michael Chiklis (Ben Grimm / Coisa)

Com sorte, o 4 vai ficar no número de personagens, e não no número de filmes.

Quando estranhos acontecimentos começam a acontecer na Terra, o Quarteto nada Fantástico corre contra o tempo para impedir a destruição do planeta.

Não há nada de errado com um filme que tenha como proposta ser “apenas” divertido: as séries Piratas do Caribe, Hora do Rush e 11/12/13 Homens são exemplos de filmes-pipoca inteligentes. No entanto, “divertido” não quer dizer “idiota”.

E no início Quarteto Fantástico 2 até ensaia uma divertida brincadeira com a obsessão da mídia por celebridades. Mas depois a coisa desanda. A única cena de ação legal, por exemplo, acontece só no final, e está longe de ser fantástica (desculpem, não resisti). Enquanto isso o Coisa e o Tocha Humana – esse último provavelmente a personagem mais irritante da história do cinema – soltam uma piadinha atrás da outra, tentando desesperadamente fazer o público rir. Mas o que incomoda mesmo são as cenas “dramáticas”, tão profundas quanto um disco do Legião e tão chatas quanto.

Aliás, o amontoado de clichês é tanto que em certa altura o filme parece uma sátira (vejamos: o garoto irresponsável que aprende uma lição? Confere. O garanhão que acaba descobrindo a beleza do comprometimento? Confere. O noivo que promete pensar apenas nos preparativos do casamento, mas acaba trabalhando sem a noiva saber? Confere. A noiva que descobre e fica braba? Confere. O militar burro e que toma todas as decisões erradas? Confere. Faltou só a cena onde o noivo, um nerd assumido, resolve dançar UMA música junto a duas mulheres gostosas e coincidentemente a noiva acaba entrando nesse exato momento… não, espere, essa cena está lá também).

Aqui também não faz sentido questionarmos certas coisas porque elas estão ali só para dar andamento à história – como o pulso “qualquer coisa” que o Sr. Fantástico inventa para separar o Surfista Prateado da prancha e, assim, cortar sua fonte de poder -, e outras não ousamos questionar – acho que nem Deus sabe porque a prancha é a fonte de poder do cara.

Abre parênteses. Putaquepariu, que saída fácil que os roteiristas inventaram. Tipo, “ok, o Surfista é virtualmente indestrutível, como o Quarteto vai vencer?”. “Já sei, vamos colocar a prancha como fonte de poder, assim tudo que os ‘heróis’ precisam fazer é separar os dois”. Faltou só jogarem uma tsunami ali pro cara tomar uma “vaca” gigantesca. Francamente. Fecha parênteses.

Ainda assim, não posso evitar de fazer algumas perguntas: como eles descobriram sobre a prancha? De quem foi a idéia genial de transformar o poderoso Galactus em uma CÚMULO-NIMBUS radioativa? E como o Surfista fez o pacto se o seu mestre é apenas uma NUVEM DE CHUVA, e obviamente não possui o dom da fala? E por que o general pediu ajuda do Dr.Destino, o vilão do confronto anterior? Ele não viu o primeiro filme? E por que, oh, por que ele deixou o mesmo Dr.Destino, um cara que todo mundo sabe que é do mal (até porque ele sempre aparece em sombras e no escuro) fazer testes com a prancha mágica? E que diferença faz dizer “você fará testes apenas sob a supervisão de militares armados”, se o Exército havia acabado de lançar oitocentos MÍSSEIS contra o Surfista e nada havia acontecido? E por falar em exército, o que diabos os militares americanos estavam fazendo no meio de Londres e de uma floresta na Alemanha? E por que tanto mistério para revelar o Fantásticomóvel se ele já havia sido exibido à exaustão nas campanhas de marketing?

Sem contar o discurso “durão” do Sr.Fantástico, onde ele fala pro general algo tipo “eu era um CDF sim, mas agora pego uma mina gata e tu tá pedindo ajuda pra mim”. Que baita herói. Mas o pior de tudo, o pior mesmo, é que esse filme não precisa ser bom: os milhões investidos em publicidade já convenceram o público-alvo de que é uma ótima película, mesmo antes de assistirem, e nada pode mudar isso.

Mas se houver um Quarteto Fantástico 3, que Galactus – o de verdade – apareça e faça um lanchinho com o set de filmagens.

Quero minha música

Na época (lá por janeiro, se não me engano), dono de um TIM, resolvi, pela primeira vez na vida, comprar um toque pro celular. Depois de navegar por alguns minutos na “loja virtual” deles, encontrei aquela que queria – não por acaso, Vertigo, do U2. Associei tal música ao grupo Cataclisma14, que incluía os membros aqui do blog, e sempre que um deles me ligava, essa música tocava. Na mesma época, editei Black Dog, do Led Zeppelin, no computador, extraí os 30s iniciais, transferi pro celular e o transformei em toque padrão.

Pois bem. Final de semana passado, troquei de celular e de operadora. Me aproveitando de que ambos os celulares – antigo e novo – contavam com a tecnologia sem-fio Infravermelho, comecei a transferir o conteúdo de um para o outro. Satisfeitíssimo, afinal de contas pude transpor sem muita dificuldade quase todo o conteúdo para o novo celular. Quase todo. Isso porque um arquivo estava indisponível para transferência.

Vertigo, do U2. A mensagem era clara: “Arquivo protegido por direitos autorais”.

Voltando. Eu entrei na tal “loja virtual” da Tim. Escolhi a música. Paguei por ela, o que, nesse caso, é uma informação relevante. Assim, adquiri deles uma licença para executar um trecho dessa música no celular, afinal de contas o artista não pode sair prejudicado, não é verdade? Mas pelo que me parece, eu só tenho esse direito no celular que efetuou a compra. Ou seja, o direito não é mais meu, mas sim do celular, o que é uma das coisas mais absurdas que eu já ouvi – afinal de contas, o dinheiro que comprou a música era meu, e não da Nokia.

Toda essa história só pra novamente trazer à tona a polêmica do DRM e dos grandes problemas que isso está gerando – e ainda vai gerar – aos usuários de música virtual e, consequentemente, às empresas que oferecem esse produto. Será que é só comigo? Pelo jeito não.

Marisa Monte não canta no seu iPod [completa]

O DRM mal nasceu, e já está agonizando. Isso porque só prejudica quem quer ser honesto e fazer as coisas dentro da “lei”. Enquanto o meu lado honesto comprou uma música pro celular e agora não pode aproveitá-la em outro, o meu lado ladrão conseguiu transferir Black Dog sem problemas pro celular novo.

Ladrão? Pelo menos os ladrões do mundo inteiro têm um forte aliado.

[Peço desculpas pelo atraso, mas alguns problemas acabaram me impedindo de postar a coluna ontem]

A propósito

Sempre vejo por aí que a tecnologia está evoluindo constantemente e que precisamos acompanhar o desenvolvimento dela. Mas não seria melhor se a humanidade estivesse evoluindo constantemente e a tecnologia precisasse acompanhar o nosso desenvolvimento?

Pra onde vai a maré – Parte 4

“Dizem que ninjas são capazes de atravessar paredes e portas. Como posso ensinar este truque para meu cachorro, e assim não precisar mais levá-lo pra rua toda hora?”, é a pergunta que o Ninja responde em tom de alerta: “Cuidado, meu amigo! Uma vez que um cachorro aprende um truque ninja, ele deixa de ser o melhor amigo do homem!”. E acrescenta: “Ninjas Caninos, ou melhor – Caninjas – são coisa séria!”. Esta e mais de 40 outras perguntas absurdas sobre o universo ninja são ninjamente respondidas em Ask a Ninja, uma série de videos de grande sucesso no YouTube e também um ótimo exemplo de exploração de direitos autorais na internet – totalmente a favor da maré.

“Ninjas são capazes de amar?” “É claro que são! Mas eles amam de modo fatal!”. Assim como acontece no Dilbert e nos Malvados, onde uma boa idéia e um bom texto sustentam a má qualidade dos desenhos, Ask a Ninja é um sucesso porque tem no roteiro seu grande trunfo: é criativo, inteligente e original – qualidades que compensam a tosquera da produção totalmente caseira e barata de Kent Nichols e Douglas Sarine – os criadores, produtores, diretores, editores e distribuidores de Ask a Ninja.

Uma das 3 forças da Cauda Longa, a democratização dos meios de produção (tecnologia barata para produzir e editar videos em casa) e distribuição (banda larga difundida) permite a quase qualquer pessoa criar sua própria série e veiculá-la de graça na internet. Se a idéia for boa, o sucesso virá mais cedo ou mais tarde. No caso de Kent Nichols e Douglas Sarine veio em dezembro de 2005, quando foi postado no YouTube o primeiro episódio da série, “Ninja Mart-Store”, com a pergunta sobre onde ninjas compram roupas e acessórios ninjas. Apesar de ser um dos episódios mais chatos, muita gente assitiu, gostou e pediu mais. Ou melhor: fizeram mais perguntas ao Ninja.

Aí está outro trunfo da série: saber explorar a internet e o YouTube. O Ninja responde perguntas enviadas por e-mail em videos curtos (3 minutos de duração, em média) e os criadores verificam o sucesso do episódio de acordo com os comentários gerados no YouTube, que também fornece estatísticas sobre quanta pessoas assistiram, quantas postagens foram feitas em blogs, quantos adicionaram aos favoritos, e assim por diante.

“Os ninjas celebram o Natal?” “Mas é claro! Veja, Papai Noel é na verdade um grande ninja! Sua roupa é vermelha de sangue de crianças que ele mata quando tentam encontrá-lo! E não existem anões e elfos. O que há, na verdade, são um monte de pequenos ninjas!” Em março de 2006, já no 13º episódio e com muito sucesso, os criadores de Ask a Ninja passaram a investir em merchandising: no final de cada episódios o Ninja convida o público a comprar coisas ninjas no site official, como camisetas, bonés, DVDs e até ringtones para celular com a música de abertura (que é bem irritante, por sinal, mas deve vender bastante). Recentemente a série ganhou patrocínio do Ask.com, o 3º maior site de busca do mundo (o nome Ask caiu ninjamente como luvas), e está previsto para 2008 o lançamento do primeiro livro, “Guia para não-ninjas tornarem-se mais ninjas”. Massa!

Mas o que mais me chama a atenção em Ask a Ninja é que não há tanto espaço para violação de direitos autorais ou pirataria: a série surgiu na internet e se vale exclusivamente dela para continuar existindo. Kent Nichols e Douglas Sarine são exemplos dos novos profissionais de entretenimento que podem surgir por aí: eles não precisam passar por testes televisivos, fazer cursos de teatro, comparecer a audições, nada. A internet atravessa esta barreira (ou seria um funil?) e ainda deixa os direitos autorais nas suas mãos, podendo escolher entre “fechar um contrato e vender uma idéia boa para um canal de televisão” ou “desenvolver uma idéia apenas através da internet sem dividir ou abrir mão dos direitos”.

Agora que o Brasil ganhou uma versão em português do YouTube, será que teremos séries brasileiras fazendo sucesso por lá também? Provavelmente muito lixo vai aparecer quando se abre um espaço como este (ainda mais para brasileiros) mas, no meio da multidão, Ask a Ninja conseguiu se destacar, ganhar um público, tornar-se rentável e viver da internet. É um caso , enfim, onde a interatividade do meio foi levada em consideração e o “uma câmera na mão, uma idéia na cabeça e uma merda de video” não prevaleceu.

Outra pergunta: Como se mata um ninja?!

Gritos na Multidão

Enquanto milhares de pessoas pulam, cantam e amaldiçoam seus rivais, eu fico parado, olhando para o campo com o mau humor que sempre me acompanhou – se bem que não é nada surpreendente, já que o meu time amarga uma derrota de 1 a 0 enquanto um simples empate bastava para a classificação.

Isso, é claro, não afeta o resto da multidão, que segue festejando com um otimismo incalculável. Muitos deles me dão olhares de desprezo por eu não estar fazendo parte da festa, e a minha vontade é gritar dizendo “Quem vocês pensam que são? Eu já estava passando frio aqui muito antes de qualquer um de vocês fazer o primeiro download da sua vida!”. Mas o esforço parece demais e eu me concentro no que acontece dentro das quatro linhas, mascando o chiclete com mais ou menos força de acordo com a ocasião (atitude igual à do nosso centroavante, diga-se de passagem, cuja única movimentação em 80 minutos de jogo foi o sobe-e-desce da mandíbula).

Fico pensando se aquela festa da torcida não é algo a parte; se ela independe do jogo para ter vida própria. Pois se todos estivessem concentrados no que acontece, estariam tão tensos quanto eu. E, enquanto a cantoria envolve as milhares de pessoas presentes em um espetáculo de tirar o fôlego, só consigo imaginar os motivos que o técnico teria para escalar apenas um volante, ao invés de colocar outro para ter dois jogadores distribuindo pontapés ali no meio.

Isso pelo menos até o momento que o centroavante cospe o chiclete e, aproveitando aquele que é um dos piores lançamentos que já vi, faz o gol de empate. A massa ruge, perdendo completamente os sentidos – mas dessa vez vou com eles, faço parte da insanidade coletiva. O gol é o único momento em que milhares de pessoas realmente concordam, sem opiniões divergentes ou reclamações de que poderia ter sido melhor (as que torcem pro mesmo time, claro). É aquele espaço de tempo em que todos estamos presos dentro da mesma bolha de euforia, onde cada um faz questão de olhar para o irmão ao seu lado, abraçá-lo, distribuir afeto e multiplicar alegria em uma velocidade incalculável. É quando milhares de corações transbordam de exaltação e despejam esse sentimento em qualquer um que esteja no raio de alcance. O gol é o mais perto que a humanidade já chegou da paz mundial.

Mas assim que a partida recomeça, claro que já estou no meu mundo particular, na minha torcida particular, me perguntado por que diabos o técnico não coloca um terceiro volante. Enquanto as pessoas cantam a vitória que ainda não chegou, eu vivo a agonia da espera. Sou o outro lado da moeda, o equilíbrio da balança, o racional no meio da emoção.

Pelo menos até o próximo gol.

Say no to "machism"

Soa ultrapassado rotular ambiente feminino e ambiente masculino hoje em dia. A antiga visão de “futebol, coisa de homem” não condiz com o interesse que as mulheres têm demonstrado pelo esporte bretão. As nossas leitoras do Cataclisma comentam posts futebolísticos (vamos lá, gurias! Não me deixem mentir). Conheço muitas meninas que freqüentam estádios, meninas que às vezes roubam a atenção de parte da torcida.

E elas não estão apenas na platéia, algumas participam ativamente do espetáculo. E que espetáculo! Mulheres fazendo reportagem de campo, mulheres comentando jogos em transmissões ao vivo e com entendimento, sabem mais do que o Casagrande! (desculpe, era pra ser um elogio…). Foi-se o tempo em que mulher no futebol era só Maria-Chuteira.

O espaço conquistado já é bem representativo, tem umas que comandam os jogos. Está cada vez mais comum ver um trio de arbitragem formado por beldades. Mas parece que tem marmanjo muito incomodado com essa florida e muito bem vinda invasão, provavelmente aqueles que recebem ordens em casa e não toleram receber ordens de mulheres no campo também.

O maior exemplo de sucesso feminino nesse meio é a TOP Ana Paula de Oliveira. No começo, ela surgiu como presença inusitada nos gramados; mas com o passar do tempo suas atuações começaram a ser respeitadas pelo grau de dificuldade de alguns acertos de suas marcações. E naturalmente, se a justiça for feita, ela chegará a representar o Brasil em uma Copa.

Mas foi só assinalar dois impedimentos do ataque do Botafogo – e depois de rever as jogadas tenho duvida em apenas um deles, no outro ela estava certa – num jogo que acabou com o que seria a segunda final carioca de Copa do Brasil consecutiva que tentaram destruir sua carreira.

Numa verdadeira cruzada motivada por uma mistura de bairrismo e machismo, a mídia investiu impiedosamente contra a musa. Chegou a ser patético, remexeram nos arquivos para achar os outros dois erros ‘’cruciais’’ de toda a carreira dela. E um deles, fruto de uma edição de imagem pra lá de parcial, aonde a explicação e a constatação do acerto viria logo após o corte do lance na reportagem.

Algum cartola mal intencionado resolveu se aproveitar da situação, e a federação rebaixou Ana Paula para a quarta divisão paulista e torneios extra-oficiais. Como se não bastasse, “repórteres” se prestaram a cobrir uma dessas partidas e, ao final, foram “entrevista-la” com perguntas irônicas.

O engraçado é que homens cansam de errar com o apito na boca – e fui politicamente correto na escolha do verbo, vide Libertadores 2002 e Brasileirão 2005 – sem sequer receber nenhum tipo de represália, que dirá punição.

Com vocês, futebol: