Marcado

Tu abre os olhos quando acorda e elas estão lá. Em bandos. Ocupando todos os cômodos da tua casa. Na TV, no rádio, no computador, no telefone celular. É tudo muito sufocante, inapelável, não tem como escapar. Tu sai pra rua e dá de cara com mais centenas delas. Muito maiores. Muito mais agressivas. 
A invasão do nosso cotidiano pelas marcas é algo tão bem arquitetato que não há subterfúgios: hoje o Branding (‘’MARCANDO’’ ou, mais tecnicamente, algo como o gerenciameto da marca) é praticado por tudo quanto é empresa. Tu corre pra fugir de uma grife e acaba tropeçando em outra.
O grande problema acontece quando o anunciante perde um pouco a noção do limite entre ser patrocinador ou ser dono da idéia, ato ou evento ao qual vincula sua marca. Essa extrapolação costuma causar uma rejeição por parte dos consumidores em potencial.
Num mundo em que muito se fala em sustentabilidade e responsablidade social, as pessoas querem, sim, que as empresas se preocupem com temas como cultura e meio ambiente. Mas daí a se apropriar de um evento, por exemplo, como quem diz ”Minha empresa está sendo boazinha com vocês, está proporcionando algo que sem a gente vocês não teriam”, nesse tom patriarcal mesmo, há uma diferença gritante.
Isso é Branding com problemas. Não atinge os objetivos porque causa descontentamento ao invés de envolver positivamente as pessoas. E quando essas pessoas perceberem que a melhor arma contra alguém que visa sobremaneira o lucro é justamente não dar lucro a esse alguém ao invés de dar mais visibilidade ainda a ele, todo o esforço de gerenciamento da marca vai acabar saindo pela culatra.
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Ah, esses publicitários…

Todo mundo sabe que grandes anunciantes procuram veículos de comunicação com um grande volume de audiência para oferecerem seus produtos. Assim, não é difícil imaginar que a Claro vai preferir anunciar o seu iPhone 3G na Veja, e não na TiTiTi, ou que a Vivo vai optar pela Folha de São Paulo para vender o seu iPhone 3G, ao invés de usar como mídia o jornal de bairro da Lomba do Pinheiro.

Agora, convenhamos: isso já é demais.

(os grifos em azul são meus)

Ah, esses publicitários…

Uma das grandes qualidades dos bons humoristas é conseguir observar a sociedade com olhos astuciosos, analisá-la e, no final, fazer a piada, às vezes transformando o trágico em cômico. Esse tipo de piada nos faz rir de nós mesmos e é, na minha opinião, uma das formas mais sagazes de crítica social.

O vídeo acima (link), da Graziella Moretto, é exemplar nesse sentido. Alguns levantarão a voz, em sinal de protesto: “Ah, que besteira! Isso não existe.”

Pode não existir… ainda. Mas com notícias assim, impossível não pensar no pior.

Ah, esses publicitários…

Na capa da Zero Hora de hoje, entre as manchetes de esporte, está o seguinte título: “Na Itália, Pato recebe novo apelido: Ale”.

E já que essa nova alcunha é mais importante do que uma vitória sobre o atual vice-líder do campeonato, então, diabos, por que não dar a ela um pequeno textinho de apoio? Assim o jornal, de cara, informa quatro coisas essenciais para os amantes do futebol: Grêmio está perto da Libertadores; Inter perdeu; Pato agora é “Ale”; “Ale” marcou dois gols no treino.

Dois gols no treino do Milan e um contra o Al Ahly do Egito? Pelé!

Ah, publicitários…

Tudo bem que já se tornou comum pegar uma frase de alguma crítica e utilizá-la para divulgar um filme (“Um elenco impecável!”, por exemplo), mas os marketeiros que fizeram a campanha de Paranóia forçaram um pouco na citação:

“Shia LaBeouf, o mesmo protagonista de Transformers…” Revista Época

E eu que achava difícil alguém superar o conceito de marketing de Turistas, que orgulhosamente o apresentava como “O filme mais discutido pela mídia!!”

Ah, publicitários…

Voltando à cena com mais uma crítica ferrenha a essa raça de gente sem coração. Agora, destacando a falta de bom senso nas propagandas de camisinha. Nesses casos, a linha que divide o humor do mau gosto é extremamente tênue – no primeiro caso, isso fica muito evidente.

Blowtex – Spot animal
Ouvida na rádio, esses tempos mais. Um casal de namorados conversando, ela diz que as noites deles caíram na rotina. Segue abaixo (para ouvir na íntegra, é só entrar no site da Blowtex » Campanhas » Rádio » Spot Saia da Rotina):

ELA
(…) a gente podia variar, ousar um pouquinho…

ELE (animado)
Opa, to gostando… Não sei qual é a sua idéia, mas já curti.

ELA (animada)
Ai lindo, te amo! Fecha os olhos que eu tenho uma surpresa…

Som de porta abrindo.

Som de relincho de cavalo.

ELE (assustado)
Quê que é isso?!?!

LOCUTOR
Querendo ousar sem assustar? Saia da rotina, entre numa Blowtex. A maior e mais divertida linha de camisinhas do Brasil.

Precisa dizer mais alguma coisa?

Olla – Viuvinha safada
Pra contrastar um pouco, essa campanha da Olla é boa, ainda mais quando se acompanha todas as peças. Elas têm tudo aquilo que os manuais de publicidade mandam – coerência, apelo, bom humor, etc.

A minha ressalva fica em relação à essa peça. Nela, se vê um enterro (no sentido fúnebre da palavra, apesar de ser uma propaganda de camisinha). Viúva caracterizada, uma fila de pessoas para dar-lhe os pêsames. O último da fila é um homem alto, forte, barba por fazer, estilo galã moderno. O resto, assistam vocês.

Pode soar meio moralista demais… Mas pô, num enterro? Achei exagerado. Apesar disso, as outras peças são boas. E convenhamos: numa sociedade onde sexo ainda é tabu, achar um bom argumento pra vender camisinha é um mérito.

[Update: Todo e qualquer mérito que a Olla tinha com a campanha acima mencionada foi por água abaixo depois de um anúncio de mídia impressa que eu vi no site deles, do gel lubrificante. Pra conferir, acessem o site da Olla » Campanhas » Anúncios, e vão clicando em “Próximo” até chegar no anúncio do Olla Gel, que é o último.]

Ah, publicitários…

Publicitários fazem qualquer coisa pra vender um produto. Inclusive absurdos como esses abaixo.

Bloqueio Não – Um bando de consumidores
Na última peça de TV veiculada pela campanha do Bloqueio Não, o locutor questiona a liberdade pregada pelas operadoras de celular (desculpem, não tenho o texto na íntegra). Ele conclui: “Mas afinal, nós somos livres… Ou somos só um bando de consumidores?”.

Se houvesse mais 5 segundos de comercial, a resposta seria, por óbvio, um sonoro “só um bando de consumidores”. Campanha bacaninha, bonitinha e coisa e tal, mas tá na cara que a Oi só resolveu vir com essa pra conseguir mais clientes. No final das contas, tudo isso é só uma estratégia “rebelde” pra vender celular.

Focus – Cabeça Diferente?
Neste vídeo, feito para a campanha do automóvel Focus, a locutora diz: “Eu faço parte de um grupo de pessoas que não faz escolhas óbvias. Enquanto a maioria quer o que é modinha, nós queremos o que dá vontade. Enquanto a maioria vai onde todo mundo vai, nós vamos aonde é mais bacana. Se você também tem uma cabeça diferente, deve dirigir o mesmo carro que eu“.

De onde conclui-se que: se você é independente e gosta de tomar suas próprias decisões sem se importar com o que os outros pensam, você deve… Fazer exatamente o que a propaganda diz. A contradição gritou pra mim na primeira vez que vi isso na TV.

No final, a locutora ainda assina: “Ford Focus: nada nele é óbvio”. De óbvio, pelo jeito, só o bom e velho apelo publicitário do tipo “faça parte de algo legal”. Ridículo.