Série "Todo Mundo em uma Ilha"

No final do primeiro episódio da sexta temporada de LOST, na realidade alternativa, a série mostrou a Ilha toda debaixo da água, em um plano impactante e que certamente gerou as mais diversas dúvidas e teorias na cabeça dos fãs. E agora que o seriado foi pra banha, eu sugiro uma brincadeira: cortamos fora esse plano e vemos se isso faz alguma diferença para o todo. Hm. Não faz absolutamente nenhuma, né?

De certa forma, a sensação que tive ao final de LOST foi exatamente essa, de que foi tudo meio gratuito. A série foi desenvolvida de forma descomunal, onde cada pequeno detalhe poderia fazer toda a diferença. Foi isso que uniu um bando de fãs malucos com as mais absurdas e plausíveis teorias. E ok, teria sido ótimo se a “interpretação” de determinados eventos fosse deixada ao léu, para cada um entender do jeito que quiser. Mas eis que chegou aquele tenebroso episódio 15, e LOST mudou bruscamente de direção, se antes o sobrenatural era colocado na trama de uma forma orgânica e quase científica, ali a coisa foi escancarada como se não houvesse amanhã. Todo aquele papo de luzinha é uma solução medíocre, preguiçosa, como se tivesse sido concebida por dois minutos e era isso. Antes citar apenas que há um “coração” da Ilha que precisa se protegido do que realmente mostrar aquela baboseira. Da mesma forma, a trama simplesmente ignorou lacunas gritantes em sua cronologia: por que a Ilha não podia ser destruída? Por que o Fumacinha não podia dar no pé? Por que ele tinha que destruir a Ilha pra ir embora? Importante dizer que não estou cobrando soluções “cientificamente corretas”, apenas respostas que fizessem o espectador realmente acreditar nas motivações das personagens (um simples “Jacob roubou minha humanidade e, assim, jogou em mim uma maldição. Apenas destruindo a Ilha posso me livrar dela e voltar a viver uma vida” solucionaria a questão do Fumacinha, por exemplo).
Já tudo que diz respeito ao reencontro e ligações entre as personagens foi absurdamente comovente. A forma como as vidas se conectavam na realidade paralela, os pequenos e emocionantes flashes toda vez que alguém se lembrava dos eventos, a serenidade de cada um, os sorrisos de alegria, a impressão de que eles estavam REALMENTE felizes ao se reencontrar, tudo isso foi construído de forma exemplar no último episódio, realçado por uma trilha devastadora, que faria até mesmo Materazzi chorar no cantinho. Muitos filmes com grandes orçamentos e grandes atores não alcançam este nível de dramaticidade e beleza (aliás, Matthew Fox complatamente em chamas), e o final com o olho fechando foi de uma sensibilidade aniquiladora.
Entretanto, na minha opinião, LOST não é uma série cujo foco principal são as relações entre as personagens. Tanto que as únicas com quem realmente me envolvi foram Desmond, Charlie e Hurley. Não estava torcendo pra Kate ficar com Jack, ou Sawyer, ou Sayid encontrar a redenção – e lembro que episódios envolvendo a “construção” de personagens como Jin, Sun, Kate e até mesmo Jack (ou seja, flashbacks que não faziam muita diferença na trama principal) foram duramente criticados. E eu pergunto: se o que realmente importava eram as pessoas da história, por que não colocaram aquele conceito de “Luz” mais cedo na história, de forma que pudesse ser melhor absorvido pelos fãs? Será que os produtores imaginavam que, após a “resposta” ser dada (uma resposta bem CHULA, convenhamos), o interesse pelas personagens não seguraria a série até o final?
Dessa forma, o final de LOST foi ao mesmo tempo emocionante e decepcionante. Na verdade, após o criminoso episódio 15 da 6ª temporada, me senti completamente desligado da série – era como se eu estivesse assistindo outra, na qual as respostas para os mistérios e, principalmente, a motivação de tudo que acontecia eram conceitos totalmente vagos, mais preocupados em adequar-se à necessidade do roteiro para chegar a um desfecho do que em soar coerentes com tudo que havia sido feito até então (o ato de fazer com que eles estivesse mortos na realidade paralela me soou como “bem, não temos ideia como resolver isso, então vamos dizer que estão mortos”. Exatamente o tipo de coisa que os produtores haviam dito que não aconteceria). Uma pena. LOST foi memorável, sim. Mas, se tivesse respeitado suas próprias regras, seu último episódio poderia ter sido um exemplo brilhante de uma narrativa ao mesmo tempo surreal e concisa. Porque aquele plano onde o Jack fecha o olho é um final perfeito para a série. Infelizmente, as quatro horas anteriores não fazem jus a ele.

Série "Todo Mundo em uma Ilha"

Temporada 06, Episódios 17 e 18

Final épico e emocionante. Após uma bem produzida retrospectiva mostrando onde está cada personagem (geograficamente e emocionalmente), JACKOB e sua turminha começam a ir em direção à Luz (tipo, literalmente), enquanto Locke CO2 convoca o Desmond e ambos debandam pra ir até a tal da Luz, com seu bichinho de estimação Ben logo atrás. Os dois times se encontram no mesmo caminho, pois estavam indo na direção contrária, ou seja, ninguém sabia onde era a porra da Luz. Cientes de que todos os fãs esperavam um CONFRONTO OLÍMPICO, as duas turmas apenas se provocam levemente e partem pro mesmo lugar. Uma vez lá, Desmond, Jackob e Locke Fumacê entram na caverna, onde o bródá faz RAPEL até a luzinha – que não o transforma em fumaça como fez com o irmão de Jacob porque, bem, porque o roteiro não precisava que isso acontecesse na hora. Daí o Desmond acha um laguinho ali dentro com uma pedra brilhante no meio, vai até lá, tira o O.B. da Ilha e então, naquele que é o maior trocadilho de todos os tempos, o plano do Jackob vai literalmente pelo ralo.
Na realidade alternativa, uma intrincada trama de acontecimentos vai ligando os losties uns aos outros, e é particularmente tocante os pequenos flashbacks que acontecem quando eles acabam relembrando dos acontecimentos (e, de praxe, podemos ver a Claire do início da série, antes de enfiarem uma samambaia na cabeça dela). Ao se descobrirem, as personagens vão se guiando para uma igreja, onde, no início do episódio, o caixão do pai do Jack foi colocado. Mas tudo isso é irrelevante perto do fato de que a Kate usa um vestido minúsculo que deixa à mostra suas coxas DEVASTADORAS.
De volta à Ilha, onde Kate infelizmente veste calças: após Desmond TIRAR O CABAÇO do local, a Ilha toda começa a tremer. Miles e Richard (sim, ele está vivo, Miles o encontrou tirando uma soneca na floresta) seguem pra Ilha B pra explodir o avião, mas convenientemente encontram Lapidus boiando no mar (e na história). Ele os convence de que um avião possui capacidades aéreas e, portanto, podem usá-lo para escapar. Na Ilha A, Jackob e Locke, STOCKE AND TWO SMOKING BARRELS realizam a batalha final de uma das maiores séries de todos os tempos com soquinhos e pontapés de comadres – Locke CO2 logo percebe o erro e esfaqueia Jack, mas Kate, infelizmente sem suas poderosas coxas à mostra, manda bala no Fumacê pelas costas e faz ele bater as botas. Como a tremedeira continua, Jackob diz que vai voltar pra caverna e arrumar tudo. Hurley e Ben ficam com ele, enquanto Kate e Sawyer picam a mula, embora todos saibam que empresas aéreas podem ser mais cruéis do que Ilhas com poderes sobrenaturais. Enfim, cada um na sua. Na caverna, Jackob faz Hurley tomar a água mágica pra se tornar o protetor da Ilha, já que o doutor provavelmente sucumbirá na tentativa de consertar as coisas (lição de moral: nunca tentem consertar alguma coisa, ou vão morrer). Jackob desce, salva o Desmond e coloca o O.B. de volta, normalizando tudo (e a única interpretação possível disso é que o “mal” que tanto se falava que a Ilha protegia era uma descomunal TPM, o que por si só já justifica todas as mortes e crueldades cometidas para proteger o lugar).
Voltamos à realidade alternativa, onde Jack é o último a chegar à igreja. Ao entrar pelos fundos, ele vê o caixão de seu pai, e lembra de toda a tramóia da Ilha – no entanto, o caixão está vazio. Eis que o pai de Jack surge, e diz que está morto, e que o Jack também está morto, e que toda a galera na igreja tá morta, e que a realidade alternativa é tipo um limbo onde todas as personagens precisavam se encontrar para seguir em frente, e aí o espectador fica desejando que ele mesmo estivesse morto pra não ter que ouvir uma PATAQUADA dessas. Daí todo mundo se abraça sorridente e feliz, e o pai do Jack abre uma porta e uma luz preenche o lugar. Então chega Haley Joel Osment e…
Já na Ilha, Lapidus, antes um coadjuvante, põe as asinhas de fora (trocadilho obrigatório) e faz o avião decolar. Enquanto isso Jackob, que apareceu misteriosamente atirado às pedras, volta ao bambuzal onde acordou no primeiro episódio da série e beija o chão ali. Ele ainda presencia a chegada de Vincent, como no primeiro episódio da série, e vê o avião de seus amigos voando pra longe dali, não como no primeiro episódio da série.
E então, em uma rima visual perfeita com o início de tudo, a câmera dá um close no olho de Jackob. Ele fecha esse olho. E LOST acaba de vez.
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Acabou a série, mas o auê continua. Não percam minhas impiedosas considerações finais a respeito de tudo na quarta-feira. E, semana que vem, pra fechar, publicarei no blog a forma como LOST devia ter terminado, exibindo tramas e soluções que farão as originais soarem como esquetes do Zorra Total.

Falha de Titãs

Fúria de Titãs (Clash of the Titans)
1/5
Direção: Louis Leterrier
Roteiro: Travis Beacham, Phil Hay e Matt Manfredi (refilmagem do clássico de 1981)
Elenco
Sam Worthington (Perseu)
Liam Neeson (Zeus)
Pessoas que morrem
Cansada do mal-trato dos deuses, a humanidade resolve retrucar e declara guerra contra eles. Cansados da insolência dos humanos, que declararam guerra contra os deuses, Zeus e sua PATOTINHA resolvem tocar o terror nos homo sapiens – pra isso, botam toda sua confiança em Hades, um sujeito traído, que mora no inferno e que veste preto, ou seja, do mal, e a coisa degringola. Basicamente, é uma comédia romântica épica onde os humanos são a mulher e os deuses são o homem.
Quando o DISTINTIVO da Warner sumiu da tela, pensei “o filme vai começar com uma narração em off”, o que de fato aconteceu (a propósito, os números da próxima loteria são 4-8-15-16-23-42). É de praxe que blockbusters épicos comecem assim (A Sociedade do Anel, por exemplo) ou com alguma personagem explicando a história antes de um flashback descomunal (Alexandre, por exemplo). Dessa forma, o espectador já fica a par da FOFOCAIADA e o filme pode desenvolver apenas a parte que mais lhe apraz. O problema é que Fúria de Titãs faz isso como se não houvesse amanhã.
“Larguei essa porra de mão. Vou tentar vaga na produção de ‘O Hobbit'” (Perseu, após assistir ao filme)
Tipo, tem o Perseu, o protagonista. E o que sabemos dele? Que a família dele foi assassinada por um deus, que ele é um semideus, que ele precisa ficar com a outra semideusa da história no final, e que ele aos poucos se torna o líder da expedição de soldados. Isso não é exatamente um rompante de originalidade, certo? Pois Fúria de Titãs acha que a familiaridade do espectador com essa abordagem é o suficiente, que apenas atirar uma situação X no lugar onde a situação X deveria estar é bacana, e joga no fundo do poço aquela ideia subestimada de que FILMES PRECISAM DESENVOLVER A PORRA DA HISTÓRIA! Assim, quando um dos estereótipos chega pro Perseu e diz “você nos trouxe até aqui,” o espectador só consegue pensar “mas tudo que o Perseu fez até agora foi matar um ESCORPIÃO VITAMINADO”; quando Perseu chora oceanos pela morte de uma personagem feminina, o espectador só consegue pensar “quem é essa mesmo?”; e assim sucessivamente. Basicamente, é transferir a seleção brasileira para o cinema: tem uma dúzia de volantes que mal sabem que a bola pode rolar, e mesmo assim o técnico/diretor espera que ela chegue nos atacantes.
Claro, nada disso devia fazer diferença, pois nesse caso a história é apenas uma terra fértil onde foram plantadas sementes de cenas devastadoras de ação, ou pelo menos assim a galera espera. Infelizmente, nesse quesito o filme também deu com os burros alados na água. As cenas de ação são extremamente comuns, a câmera chacoalha alucinadamente (eu te amaldiçôo, Riddley Scott!), as coreografias são MURRINHAS, a Medusa parece ter sido produzida para um jogo de Playstation 2 e nem mesmo o Kraken, um Godzilla com tentáculos, soa ameaçador o suficiente. Já o design de som investe no bom e velho ALTO PRA CARALHO, enquanto a direção de arte consegue ser um pouco mais criativa (a aparência do barco do Caronte, cheia de pontas irregulares, é assustadora e imponente; o covil da Medusa é repleto de escudos e lanças no chão, além de passarelas semidestruídas, ilustrando o grande número de batalhas que ocorreram por lá; a montanha das bruxas é escura e toda deformada, e assim por diante). E a trilha sonora até tenta ser heróica por alguns instantes, mas sucumbe ao velho ditado “não se pode tirar leite de pedra”.
Como Perseu, o competente Sam Worthington (de Exterminador do Futuro: A Salvação e Avatar) não pode fazer nada além de cara de mau e carregar uma espada pra cima e pra baixo, enquanto solta gritos aqui e ali pra parecer alguém cheio de dor e angústia e, por consequência, complexo. O resto do elenco simplesmente está ali, uns para morrerem, outros para morrerem de forma mais heróica, e outros pra morrerem quando o Kraken ataca a cidade.
Fúria de Titãs é o tipo de filme que mostra um grupo de pessoas caminhando por uma gigantesca planície desértica, depois corta para uma outra cena e, ao voltar para estas pessoas, elas estão em uma floresta, como se tivessem percorrido um continente a pé em questão de horas. É o tipo de filme que olha para o espectador e diz “ei, vamos mandar um e-mail para ele com uma conta falsa a pagar, fazer o pagamento cair direto pra nós e enganar o trouxe para ganhar dinheiro”. O tipo de filme que faz o público sentir inveja da Medusa quando ela tem a cabeça cortada e não precisa assistir a toda a película.

Futuro, brutalidade e a morte dos pontos finais

1984 – George Orwell

Orwell fatal demais. Cria um mundo aparentemente absurdo e, ainda assim, parece que estamos seguindo diretamente pra ele feito uma caixa de cerveja em um churrasco. A preocupação com os detalhes é tanta que até mesmo a linguagem utilizada pelas personagens torna-se alvo do totalitarismo do Big Brother, e vai sendo modificada para se tornar mais eficiente. A leitura é alucinante, fluída, cada capítulo deixa o leitor pensando “oh, céus, o que acontecerá a seguir?”, e faz o cérebro dele explodir algumas vezes com tantas ideias sendo bombardeadas pra dentro.
Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota pisando num rosto humano – para sempre.
Meridiano de Sangue – Cormac McCarthy
Cada palavra do livro é um carvão cuidado, tratado e lapidado por Cormac McCarthy até se tornar um diamante com o formato da Scarlett Johansson. Simplesmente absurda a capacidade do autor em construir cada pedaço da história – juro que quase senti a poeira do deserto do Texas escorrendo pelos meus dedos enquanto lia. O cara colocava, sei eu, dez páginas apenas de SUJEITOS CAVALGANDO, sem diálogos, sem ação, sem nada, e eu não conseguia controlar o choro compulsivo frente à tamanha beleza. Paralelo à isso, jamais havia testemunhado tanta violência e brutalidade em uma obra, e a simples junção de tudo isso em 350 páginas, de forma coesa, já seria algo hercúleo. Mas aí aparece o juiz Holden, uma das personagens mais sensacionais de todos os tempos, e eleva o livro a um nível DESINTEGRADOR.
Mas vou dizer uma coisa. Somente aquele homem que se consagrou inteiramente ao sangue da guerra, que conheceu o fundo do poço e viu o horror de todos os ângulos e aprendeu enfim o apelo que ele exerce no mais fundo de seu íntimo, só esse homem sabe dançar.
O Que Diz Molero – Dinis Machado
Um furioso ENTRONCAMENTO de ideias, uma sucessão de acontecimentos bizarros e interessantes, uma galeria sensacional de personagens cativantes. Descartando os pontos finais como se eles fossem o Robinho, Dinis Machado constrói uma narrativa que tira o fôlego do leitor, que ora é real ora é surreal, e se mantém sempre no limite da imaginação sem perder sua força.
“A vida dá-nos pouco, bem sei”, disse, “e por isso a verdadeira técnica consiste, na minha opinião, em saber procurar o sítio onde as bolas amarelas das crianças vêm tocar os nossos pés, como você diz que disse Molero a propósito já não sei de quê”.

Série "Todo Mundo em uma Ilha"

Temporada 06, Episódio 16

Capítulo intenso. Começou com Jack e os outros saindo da praia pra ir até o fundo do poço, mas calma, literalmente, pois Sayid havia dito que Desmond e a Samara de O Chamado estavam lá. Enquanto isso, Ben, Miles e Richard vão até a casa de Ben na vila dos Outros procurar explosivos e NESCAU, mas são surpreendidos por Widmore e a mina que é braço direito dele lá que eu não lembro o nome e que nem interessa, porque ela morre no final. Enfim, quando eles vêem que o Locke VULCÃO ISLANDÊS tá chegando perto, tomam decisões diferentes: Widmore e a mulher se escondem literalmente atrás do armário, em uma passagem secreta; Ben dá de ombros; Richard se prontifica a conversar com um monte de fumaça, mostrando que o Alzheimer tá pegando afu – não à toa, Richard é o primeiro a bater as botas. Então Locke CO2 aparece em sua forma humana e Ben dedura onde Widmore está escondido. O Fumacê vai lá e corta a garganta da mina com uma faca (viu? Eu disse que ela morria) como se estivesse em um episódio de 24h, e pergunta pro Widmore o que RAIOS ele está fazendo naquela Ilha, ameaçando matar a filha do velhote caso ele não colabore. Antes do Widmore FOFOCAR todo o segredinho, entretanto, Ben dá um tiro nele (vale lembrar aqui que Widmore mandou pra Ilha o barco cheio de MILICOS que mataram a filha do Ben), dizendo com a amargura de um torcedor do Fluminense “Ele não ganha a chance de salvar a filha dele”.

Certo. Realidade alternativa, então. Descobrimos que Jack tem um recital de piano do seu filho para ir à noite, porque o guri não nasceu homem suficiente pra jogar futebol. Desmond vai novamente à escola onde Ben e Locke ensinam e TOCA O TERROR pra cima do Linus, que acaba tendo flashes da outra realidade. Isso faz com que Locke repense sua decisão sobre a cirurgia e procure Jack, porque assim é misterioso. Agora vamos ver se eu consigo ser claro: Desmond se entrega à polícia como o CARMAGEDDON que atropelou Locke, e é preso por Sawyer em uma cela com Sayid e Kate gata; Sawyer, ao que tudo indica, vai a um concerto de música com Miles; Jack vai ao concerto de música do seu filho; quando estavam sendo transferidos para a prisão, Desmond, Sayid e Kate gata são libertados por Ana Lúcia, que dirigia o furgão e havia sido comprada com dinheiro fornecido por Hurley; Desmond então orienta a todos que vão a um concerto à noite, onde provavelmente todas as personagens se encontrarão na realidade alternativa. Basicamente, no CONCERTO tentarão CONSERTAR as coisas (sacaram?).
De volta à Ilha, então. Enquanto os losties se dirigem ao tal poço, Jacob aparece e convida todo mundo pra sentar em volta de uma fogueira, discutir os mistérios da série e contar histórias de terror com uma lanterna iluminando o rosto. Sim, todos podem ver o falecido Jacob. Não, não há explicação de como isso acontece. O juca Jacob então diz que levou todos à Ilha porque transformou seu irmão em um cano de descarga ambulante, blá blá blá, fala que tem uma Luz no meio da Ilha e diz que um deles deverá ser o responsável por protegê-la. Jack EJACULAÇÃO PRECOCE, claro, se prontifica. Jacob leva ele até um fio de água, benze a dita-cuja e dá pra Jack beber, tornando-o oficialmente o novo guardião e fazendo com que o doutor ganhe automaticamente a melhor vaga no estacionamento da Ilha. E tipo, é isso. Durante anos os caras comeram o pão que os produtores amassaram e, de frente com alguém que possui todas as respostas, ninguém sequer pergunta que PORRA é aquela Ilha, que PORRA é aquele monstro de fumaça e que PORRA é essa de transformar um seriado interessante em um CONTO DA CAROCHINHA nos últimos capítulos.
Em algum lugar no meio da floresta, Locke Fumacê e Ben (que se prontificou a ajudar o vilão a matar pessoas em troca de ficar com a Ilha) chegam até o poço, mas, para surpresa geral, Desmond não está lá, o que provavelmente é a maior reviravolta da história do mundo desde que o Botafogo perdeu uma partida decisiva. Só que o Locke CO2 diz que isso é bom pra ele. Que Widmore definiu Desmond como um mecanismo de defesa (ANTIVÍRUS, para usar um vocabulário jovem) caso o Fumacê aprontasse todas pra cima dos candidatos do Jacob e os levasse para o mundo de Ghost. E então, com um olhar ameaçador no rosto envolto por sombras, Locke Eyjafjallajokull diz que Desmond o ajudará a fazer aquilo que ele nunca conseguiu fazer:
Destruir a Ilha.
(domingo é o episódio final. Segunda estarei postando um resumão de tudo. Fiquem atentos)

Você não aguentaria a verdade

No último sábado, antes de encarar toda a tortura de assistir ao CORINTHIANO Robin Hood, fui obrigado a corajosamente enfrentar algumas léguas de fila. Foram 30 minutos de pura tensão matemática e física, onde a necessidade me obrigou a criar uma fórmula própria utilizando o espaço, o tempo, a média percorrida e a lerdeza das pessoas na hora de escolher um pontinho verde na tela e dizer “quero esse” (a propósito, qualquer coisa que envolva um número grande de pessoas e tecnologia fatalmente dará muito errado, e as probabilidades de a humanidade ser extinta por uma velhinha tentando sacar dinheiro no caixa eletrônico são gigantescas).
Mas números realmente não são meu forte, como comprova meu saldo bancário. E na ansiedade de decidir ou não se o tempo se mostraria um amigo que me dá temporadas dos Simpsons de presente ou um inimigo dirigindo uma linha de ônibus da qual necessito para me locomover, percebi que aquele seria o lugar perfeito para um devastador estudo da personalidade humana, caso minhas condições financeiras não fizessem a Grécia atual parecer a Caixa Forte do Tio Patinhas (o que nos leva de volta à derrota com os números e ao saldo bancário, fechando o círculo vicioso). A balbúrdia seria mais ou menos a seguinte: eu iria trapacear e furar a fila, no melhor estilo POLÍTICO ELEITO DEMOCRATICAMENTE, pegando um lugar bem ali na crista da onda e me certificando de que chegaria na bilheteria a tempo.
“As pessoas terão seus ânimos acirrados e tentarão resolver tudo em um sangrento confronto físico ou um jogo de futebol sem câmeras”, dirão vocês. Calma, é aí que entra a minha intelectualidade devastadora. Pois antes de cometer o ato criminoso eu abordaria cerca de 60% da multidão, de forma aleatória, e daria a estas pessoas uma soma em dinheiro suficiente para que apoiassem a minha realocação. Dessa forma, apenas uma minoria se revoltaria com a atitude. Ou seja, em caso de confronto físico, eu estaria em vantagem; no caso de alguma intervenção externa, eu teria provas de que a maioria decidiu por aquela opção, e como vivemos em um estado democrático, eu estaria em vantagem; e caso alguém chamasse o gerente e choramingasse pra ele, em uma tentativa patética de recuperar posições e me mandar para o SOE, 60% da multidão estaria disposta a jurar pela vida que eu já ocupava aquele lugar, e o gerente não acreditaria caso dissessem “ah, o fulano pagou a galera pra mentirem por ele”, porque, convenhamos, é uma história ridícula demais e apenas uma mente doentia cogitaria levá-la a sério. No final das contas, ao invés de meia hora eu gastaria apenas cerca de dois minutos, e poderia sentar tranquilamente na sala e não perderia os minutos iniciais do filme (o que nem foi tão desvantagem, considerando a qualidade do mesmo).
Melhor do que o conforto, entretanto, seria o poder: caso tivesse posto tudo isso em prática, eu teria uma prova prática, palpável, bem na minha frente, de que para transformar uma mentira em verdade são necessários apenas alguns trocados.