Borges e o brioche

Pirataria é algo extremamente complexo de se discutir, e, honestamente, não sou a pessoa mais equipada para adentrar tais territórios de argumentação. Entretanto, me parece que ela nem sempre se origina de um aspecto negativo, de conseguir algo de graça e se achar esperto por isso; muitas vezes, a pirataria advém de uma vontade sobre-humana de compartilhar algo, uma necessidade de dividir com outros determinada obra de arte, transformando o ato em uma verdadeira experiência cultural.
Digo isso porque eu simplesmente preciso compartilhar com vocês um pequeno texto do livro Atlas, de Jorge Luís Borges (sobre o qual já falei aqui). Aliás, espero que isso leve todos a comprarem a obra, pois o que vocês vão ler abaixo é apenas uma parte de um verdadeiro baú repleto de diamantes:
o brioche
Pensam os chineses, alguns chineses pensaram e continuam pensando que toda coisa nova que há na terra projeta seu arquétipo no céu. Alguém ou Algo tem agora o arquétipo da espada, o arquétipo da mesa, o arquétipo da ode pindárica, o arquétipo do silogismo, o arquétipo do relógio de areia, o arquétipo do relógio, o arquétipo do mapa, o arquétipo do telescópio, o arquétipo da balança. Spinoza observou que todas as coisas querem perdurar em seu ser; o tigre quer ser um tigre, e a pedra, uma pedra. Eu, pessoalmente, observei que não existe nada que não tenda a ser seu arquétipo e às vezes o é. Basta estar apaixonado para pensar que o outro, ou a outra, já é seu arquétipo. María Kodama adquiriu esse grande brioche na padaria Aux Brioches de la Lune e me disse, ao trazê-lo para o hotel, que era o Arquétipo. Imediatamente compreendi que tinha razão. 
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Deus e o diabo na hora do rush

Não entendo esses religiosos que vivem atacando jogos de videogames, músicas de roquenrol, internets e outras coisas supostamente criadas pelo diabo. Quer dizer, se eu fosse um fanático religioso, certamente não me preocuparia com tais coisas, visto que o diabo obviamente passou longe delas (por exemplo, só mesmo a paciência e tolerância do bem conseguiriam criar uma internet repleta de blogs de qualidade duvidosa, como este). Não, não, as verdadeiras artimanhas do peçonhento se escondem em algo muito mais pérfido e cruel do que os já citados elementos.
Pensem a respeito. Teoricamente, qual é a maior dádiva que Deus (não falo do Romário) concedeu à humanidade? Exatamente, o livre-arbítrio. Então qual seria a maior ofensa a Deus? Que artimanha poderia ser arquitetada para se opor ao que de melhor o Todo-Poderoso nos deu? Com certeza seria aquela que nos impedisse de desfrutar desse livre-arbítrio, de transitar livremente entre dois pontos, de percorrer e descobrir esse mundo – e, no caminho, descobrir um pouco sobre nós mesmos.
Seguido o raciocínio apresentado acima, a conclusão me parece óbvia: a verdadeira face do diabo é o trânsito às seis da tarde.

O futebol está de volta?

Após a vitória do Real Madrid sobre o mimizento time do Barcelona (“damos passes e toquezinhos, nos amem!”) na Copa do Rei, partida que deve fazer os embates entre as equipes na UCL terminarem em guerra civil na Espanha, uma série de acontecimentos devastou as atuais convenções futebolísticas em um espaço mínimo de tempo: o Botafogo, embora desclassificado, desceu o sarrafo em cima do Avaí, liderado por um Loco Abreu descontrolado e babando sangue e provavelmente gritando “LA REVOLUCIÓN”; o Fluminense não apenas se classificou de forma épica como também desandou pra pauleira generalizada (e se temos que respeitar uma equipe que se classifica na última hora e enfrenta a briga de peito aberto, temos que respeitar também o número 18 do Argentino Juniors, que saiu tocando o terror em quem estava na frente não importando tamanho, cor, religião ou número de adversários); os confrontos das oitavas de final da Libertadores estão tensos e prometem partidas acirradas; dependendo dos resultados desses confrontos, podemos ter o Fluminense digladiando novamente com a LDU, tal qual na sensacional final de 2008; e, principalmente, se vencerem suas partidas, Grêmio e Inter caminham para um monstruoso Gre-Nal nas quartas de final da maior competição das Américas, que certamente há de destruir estádios, devastar paixões e redefinir uma geração inteira de torcedores de futebol.
A impressão que eu tenho é a de que, após Rooney ser suspenso durante dois jogos por proferir palavrões frente às câmeras enquanto celebrava um gol (essa punição provavelmente foi o momento onde o esporte como o conhecemos chegou mais perto do fim), o futebol rangeu os dentes, cerrou os punhos e resolveu acabar de vez com a balbúrdia. Talvez ainda seja cedo para avaliar e estejamos apenas vivendo uma breve fase iluminada, mas de repente podemos ter dado o primeiro passo para voltar a uma época onde logotipos eram distintivos, wingers eram pontas e celebrações de gols eram gritos, não dancinhas.

Cinema estrangeiro

Apesar de já ter ido algumas vezes até São Paulo, sempre que acabo tendo que circular pelas movimentadas ruas da cidade eu preciso parar e refletir violentamente pra que lado vou (assumindo que eu conheço o caminho, claro; se eu não conheço, não há Google Maps que me faça desbravar os perigos de tal jornada). Isso contribui para que eu constantemente me sinta como um estrangeiro naquela metrópole, tipo aquele sujeito que chega numa festa sem conhecer ninguém e não consegue se entrosar ou a nova trilogia de Star Wars.
E na viagem para o show do U2 não foi diferente. Só que, enquanto tentava adivinhar de qual lado da Av. Paulista eu estava (no meu GPS biológico, a Paulista não tem lado com números pares e lado com números ímpares, e sim um lado onde os prédios têm antenas enormes no topo e outro onde eles não têm), parei para ir ao cinema e conferir a animação Rio (filme que não decola, como vocês podem ver na minha crítica). Então lá fiquei eu, duas horas preso em um mundo de araras azuis, samba e roteiristas preguiçosos. Eis que, quando saí da sala, precisei me recompor ao bater de frente com um fato que havia ignorado durante o filme: eu não estava em Porto Alegre.
Certo, a coisa não foi tão dramática assim. Mas foi uma sensação deveras esquisita. Quer dizer, eu vou ao cinema com bastante frequência, e sempre saio da sala pensando sobre o filme, e sempre tenho um comportamento automático ao me dirigir para as saídas/restaurantes dos shoppings que frequento. Foi com essa certeza que saí da sessão de Rio, e por isso fui tomado de assalto por uma estranheza momentânea, já que não conhecia os arredores. Tipo quando o cara acorda de um sonho e mesmo sabendo onde está (em casa) não tem certeza do que está acontecendo, pra que lado ir ou o que fazer a seguir. Foi como se, nas duas horas em que fiquei dentro do cinema, eu tivesse sido transferido para uma zona neutra, que não era Porto Alegre nem São Paulo, um lugar à parte de regionalismos e diferenças culturais, e ao sair de lá meu organismo automaticamente voltou ao seu status quo – no caso, identificar uma situação e reagir a ela da forma como está acostumado a fazer ( = correr pra parada do ônibus pra não perder o T7). E só depois o organismo virou pra mim e falou “Toto, acho que não estamos mais no Kansas”.
Daí comecei a tentar elaborar a coisa, construindo um cenário onde a sala de cinema é como uma embaixada universal, válida para os mais diferentes povos, oferecendo segurança e conforto e escapismo a todos os que se aventuram por ali. Mas logo me encontrei de novo na Av. Paulista e descartei esse pensamento, não por desgostar dele, mas sim porque eu precisava de todos os meus sentidos e habilidades para identificar se tinha que ir para o lado com ou sem antenas da avenida.

Sobre o show do U2

Há muito a dizer sobre tal evento megalomaníaco, mas o principal é que ele arrebentou todas as minhas percepções do que é possível, do que é impossível e daquelas coisas que esmagam o superego e nos levam a um instinto primitivo de pura celebração do momento.
O review completo, com todas as palavras e músicas que o show exige, vocês encontram no b33p. E claro, eu digo “completo”, mas é um review limitado pelo número escasso de adjetivos que conseguem definir os momentos que vão ficar na nossa cabeça e coração pra sempre.

Eu preciso

Eu preciso sair, agora. Porque preciso pegar um avião amanhã de manhã. Porque preciso descer em São Paulo e circular entre os metrôs e trens e ônibus e achar o meu caminho por onde as ruas não têm nome. Porque até sábado eu preciso estar pronto, preciso ter à mão tudo que eu não posso deixar pra trás. Porque no sábado eu embarco em uma espécie de nave espacial, uma que não sai do chão mas voa mais alto que todas as outras, e preciso estar preparado para o impacto, para a decolagem, para a pressurização e despressurização. Preciso descobrir como é viver onde não há nenhuma linha no horizonte, pois por um momento tudo é um só e nada é impossível ou longe demais.
Preciso sair porque preciso ver com meus olhos o palco descomunal e a multidão ensandecida, ouvir as letras sendo cantadas em milhares de tons diferentes, por milhares de vozes diferentes, em uníssono, descompassadas, acompanhando mais com o coração do que com o talento. Então eu preciso sair, agora. Porque no próximo sábado, quatro caras, algumas canções e dezenas de milhares de pessoas cantando junto é tudo que eu preciso.