Out of control

Quando a gente nasce, escolhem um nome pra nós, de acordo com a classe social ou algum outro critério bizarro (a soma dos nomes dos pais, por exemplo), e quando o cara cresce ele até pode mudar de nome, mas não pode mudar pra, digamos, Capitão Marvel, pois é socialmente UNCOOL (e também porque levaria um processo da DC Comics no rabo). Depois escolhem uma religião, e uma pessoa até pode mudar de religião quando mais velha, mas terá que se contentar entre uma das opções disponíveis ou não ter religião. Ela não pode, por exemplo, acreditar que Deus desce à Terra de vez em quando pra jogar 3 dentro e 3 fora ou que as pessoas literalmente viram estrelas quando se vão.

Então vem a escola, onde o aluno TEM que passar de ano, todos os anos. A gurizada não pode decidir que vai aprender o conteúdo e, por algum motivo obscuro, repetir a série. Não, isso é palha. E, claro, tem que escolher um grupo no qual irá se encaixar, e se adaptar a esse grupo, pois até mesmo não ter um grupo já virou um grupo. A idéia de alunos simplesmente coexistindo está fora de cogitação.
Já no final do colégio chegam dezenas de materiais relacionados à orientação vocacional, uma vez que todos precisamos escolher uma faculdade (uma entre as opções apresentadas e “aceitas” pelos outros) e, pasmem, cursá-la. Porque no final das contas, uma pessoa precisa escolher um emprego, e é a faculdade que vai servir de bússola – um sujeito não pode, digamos, decidir ser um “organizador de livros por ordem alfabética do sobrenome do autor e, dentro destes, por ordem cronológica”. Não rola.
Existe também a questão da alma gêmea, da cara-metade, da heróica decisão de fazer sexo com apenas uma pessoa pelo resto da vida. Tipo, homens e mulheres TÊM que ou sair procurando alucinados pelo amor da sua vida ou EVITAR A TODO CUSTO qualquer coisa relacionada ao amor da sua vida, dizendo aos quatro Twitters que isso não existe. Simplesmente viver e eventualmente cruzar com uma pessoa especial, de forma natural, não faz parte da brincadeira.
Por essas e outras que eu acho curioso quando alguém diz “eu gosto de ter/quero ter controle sobre a minha vida”. Como?

U2b

Ontem o U2, banda irlandesa que dispensa links da Wikipédia no texto, fez um show no Rose Bowl, em Los Angeles. Além de celebrar as ensandecidas defesas que Taffarel fez nos pênaltis contra os italianos, em 94, o show foi transmitido através do YouTube para 16 países. Isso mesmo: centenas de milhões de dólares em equipamentos foram transformados em uns e zeros e DISPARADOS contra as casas das pessoas.

Sendo eu fã da banda, desocupado e metido a jornalista, fiz no Twitter uma cobertura minuto-a-minuto do evento – sempre parcial e extremamente nonsense, claro. Cobertura essa que agora reproduzo aqui para os leitores (aham, como se fosse no plural, mesmo) que não me seguem no microblog:

– Por enquanto, apenas imagens do público. E do palco, que parece um TRANSFORMER.

– Troquei pra um link que um amigo mandou com fotos de cheerleaders loiras. Cheerleaders loiras > U2.

– Na expectativa pra ver se aparece alguém com a camiseta do Grêmio, como sempre.

– A propósito, #u2b seria um trending topic mais afu do que #u2webcast. Da próxima vez, deixem os nomes comigo, ok?

– Tem um cara com microfone dizendo que ajudou a montar o palco. Ele literalmente ARMOU UM BARRACO lá no show.

– E o sujeito usa uma POCHETE. Maior prova de que o U2 está voltando aos anos 80.

– Vi uma bandeira do Brasil. Dou três minutos pra começar alguma ação de guerrilha promovendo as Olimpíadas 2016.

– Será que o KANYE WEST vai aparecer junto com o Obama?

– Rá, Obama acaba de ser citado por The Edge. Na mosca.

– Agora estão mostrando o guitarrista numa van, e pelas imagens na janela, o câmera é MICHAEL MANN filmando Colateral 2.

– Acabei de ver um cara com uma camiseta do Nirvana. Esse vai ter uma decepção enorme quando ver qual banda vai subir no palco.

– Vai começar. Vejo vocês no final.

– A ISS é um BRINQUEDO DE LEGO perto desse palco, fato.

– BELÍSSIMO plano-sequencia mostrando a entrada de Larry no palco. Digno de P.T. Anderson.

– Alguém AUMENTA O VOLUME DA GUITARRA DO THE EDGE, porra!

– Aumentaram =D

– Bono acaba de FALHAR MISERAVELMENTE em um falsete durante Misterious Ways.

– Beautiful Day chutou a bunda de tudo e todos.

– Me atirei ao chão e chorei um OCEANO com Still Haven’t Found / Stand by Me.

– Bono COMPLETAMENTE EM CHAMAS durante No Line. Cuspiu até a terceira fileira de pessoas enquanto cantava, fato.

– IN A LITTLE WHILE! IN A LITTLE WHILE! ADEUS, MUNDO!

– Apareceu um astronauta no telão. Provavelmente era o DONO do palco pedindo ele de volta.

– Minha nossa. Until the End of the World = FATALITY ABSOLUTO.

– De onde saiu essa COLMÉIA ELETRÔNICA durante The Unforgettable Fire? o.O

– Meus cinco sentidos foram ANIQUILADOS por Vertigo. Terei que assistir ao resto do show apenas com a INTUIÇÃO.

– Tão dispensável quanto o Robinho esse remix de I’ll Go Crazy If I Don’t Go Crazy Tonight.

– Acabou a primeira parte. Vamos ver se os ianques sabem cantar “Mais um, mais um!”.

– O mundo não fica muito maior do que Where the Streets Have no Name.

– Bacana essa jaqueta LASER do Bono. Mas por que ele tá cantando em um VOLANTE DE AUTOMÓVEL?

– Ultraviolet ruleou demais. With or Without You idem. Bom ver que algumas canções continuam maiores do que o palco.

– Bah, Moment of Surrender. Que forma mais XOXA de encerrar o show. Tipo de música que o Puff Daddy cantaria

– Enfim, acabou o minuto-a-minuto. Vou dormir e rever tudo no u2b amanhã.

– E por favor, não me denunciem ao Sr.Twitter como flood, ok? Grato.

Curtas

Piratas do Rock – 3/5

Uma tramóia legal e divertida, mas que acaba diluída pelo excessivamente excessivo número de personagens – com tanta gente em campo, não dá tempo de desenvolver as coisas, e o filme torna-se dramaticamente superficial. Vale para ver Phillip Seymour Hoffman esfregando genialidade na tela sempre que surge na história.
A Garota Ideal – 5/5
Um sujeito quietão se apaixona por uma boneca inflável. Eu sei, plot de comédia pastelão. Só que A Garota Ideal consegue ser dramático e cativante, em parte graças ao roteiro, que se volta com calma para as personagens, em parte pela interpretação de Ryan Gosling, minimalista e absolutamente certeira. E qualquer espectador que fazia enterro para seus Comandos em Ação não conseguirá segurar as lágrimas.
Frost/Nixon – 4/5
Constrói um clima tenso e magnético em cima de um BATE-PAPO entre dois caras. Poderoso até o último microfone de lapela, Frost/Nixon é o tipo de filme que dá uma chave de braço no espectador e segura ele assim até o final. E embora todo o elenco mereça uma cerveja após o expediente (é um filme sobre personagens, afinal), Frank Langella chuta a bunda de todo mundo como se fosse um Flamengo x Botafogo no Maracanã.
A Trapaça (1997) – 3/5
Uma idéia boa. Um roteiro supimpa. Um elenco acertado. Tinha tudo pra dar certo, mas no final das contas a película acaba saindo-se igual à Argentina nas eliminatórias: preguiçosa, sem saber o tom ideal, sem direção segura e com um final forçado.
Te Amarei pra Sempre – 3/5
Gosto de histórias com viagens no tempo. Gosto do Eric Bana. Gosto da Rachel McAdams como se ela fosse feita de WINNING ELEVEN. De ruim, apenas o título diabético e algumas decisões do diretor, que parece insistir que todos saiam do cinema somente após derramar no mínimo uma lágrima, como quem diz “ei, isso é um drama, não uma comédia romântica!”.
The Lucky Ones – 3/5
As situações são forçadas, aleatórias, ou seja, dignas de qualquer filme indie. Lá pela metade, qualquer vestígio de levar o filme a sério é jogado em um buraco negro. Entretanto, as boas tiradas engraçadas e a grande química entre os protagonistas torna a película uma obra divertida e cativante. Ah sim, e toda vez que Rachel McAdams DESLUMBRA sua beleza simpaticamente apaixonante na tela, uma organização terrorista desiste das bombas e vai plantar margaridas em um jardim florido.

Vida em sociedade

Fui assistir The Time Traveler’s Wife hoje (legal, Rachel McAdams simplesmente encobre o resto do mundo com sua beleza e carisma). Sendo eu um uma pobre vítima da crise econômica e não possuindo um CARANGO próprio (ok, nem mesmo uma carteira. Satisfeitos?), chafurdei pelo shopping (shopping tem que ser em itálico?) até encontrar um táxi. Após uma deliciosa simulação de um F-14 TOMCAT durante o trajeto, onde a velocidade do som foi quebrada tantas vezes que ela deve estar parecida com o Rocky agora, o taxista me deixa na porta do prédio, mas não sem antes me inteirar dos últimos acontecimentos na cidade:

– Cara, comi uma saladinha de frutas agora que me deixou com uma dor de barriga fudida. Já vi que vou ter que voltar ao shopping e invadir um banheiro pra sujar a louça!
Existem momentos onde eu me pergunto se não devia ser uma pessoa mais aberta, mais social, mais amigável com o resto do mundo. Este não foi um deles.

Encore Break

Sorocaba não é Seattle. Não possui a chuva constante e nem o cinza característico da cidade estadunidense, muito menos uma torre enorme com um disco voador em cima – no entanto, assim como ocorreu no lar de Jimi Hendrix no início dos anos 90, a vizinha da capital paulista começa a ecoar ares de um rock renovado.

Enquanto o hype segue pulverizando bandas de terninho ao longo da mídia, Sorocaba vê nascer, bem debaixo do seu nariz, uma alternativa. Pois o rugido da Encore Break é alto e mergulhado na pureza visceral que só o roquenrol consegue construir. Formada em 2006, a banda traduziu no seu primeiro EP, About…, aquilo que a música tem de melhor: sinceridade. Caminhando de mãos dadas com o rock dos início anos 90, a Encore Break desfila frases de guitarra certeiras, melodias cativantes, vocais emocionados e aquela força que remete aos tempos onde as pessoas achavam que a música podia mudar o mundo. Canções inspiradas, que falam sobre temas universais e não se limitam a uma espécie de gênero ou rótulo: embaladas em criatividade, as obras da banda podem até fazer referência e reverência a alguns artistas (de cara, Pearl Jam, Soundgarden, Neil Young, Creedence, Johhny Cash), mas criam uma atmosfera própria.

E é palpável também a vontade dos integrantes, que reverberam cada nota com a importância que elas merecem. Pois isso traz à tona a paixão que eles têm pela música. A vontade de fazer a diferença. A Encore Break está aí para não se render aos rótulos limitados, nem se enveredar pelo caminho mais fácil. A banda veio para desenhar por cima das linhas e caminhar pelas estradas de terra.

Sorocaba pode não ser Seattle, mas os ares de lá trazem barulho e melodia e força e criatividade e paixão. Como dizem os versos de Song of Today, “Now it’s our time / Our time to breath”.

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Release que eu escrevi pra Encore Break. Vai lá na página dos caras na Trama Virtual, baixa as músicas, põe o som no último volume e prepare-se para o impacto. Caso não seja possível parar de pular alucinadamente pela sala enquanto rola Song of Today ao fundo, sugiro chamar os bombeiros – pular abraçado com outras pessoas é sempre mais legal.

Frases de efeito

Assistindo à Warner Channel esses dias, peguei a chamada daquele seriado, Cold Case, que termina com a seguinte frase: “porque a Justiça jamais esquece”.

Por ai, imagino que a série trate de casos antigos de polícia, não-resolvidos, que são abertos por uma daquelas agentes de polícia bonitas que só existem nos filmes (como a “cientista” interpretada por Denise Richards em 007 o Mundo Não é o Bastante. Nenhum sentido nisso). Ainda assim, me impressiona como deve ser fácil a vida de quem escreve esses textos. Tipo, pra fazer uma frase de efeito brega com a palavra “Justiça”, não precisa ir muito longe, é só colocar um locutor com a voz de quem fuma dezoito maços de cigarro por dia e ser meio vago. Por exemplo:
– Cold Case: a Justiça se faz aqui;
– Cold Case: o braço forte da Justiça;
– Cold Case: a Justiça ao lado da vida;
– Cold Case: Justiça a qualquer preço; (essa até faz sentido, se considerar o valor cobrado pelas empresas de TV por assinatura)
– Cold case: a Justiça é a mão que constrói o futuro;
– Cold Case: potência não é nada, Justiça é tudo;
– Cold Case: olha o que a Justiça fez! Olha o que a Justiça fez!