Sem licença para dirigir

Os Miseráveis (Les Miserables)
2/5

Direção(?): Tom Hooper
Roteiro: William Nicholson, Herbert Kretzmer, Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg, baseados no musical dos dois últimos, que por sua vez é baseado no livro de Victor Hugo.

Elenco
Hugh Jackman (Jean Valjean)
Anne Hathaway (Fantine)
Russel Crowe (Javert)
Helena Bonham Carter (Madame Thénardier)
Sacha Baron Cohen (Thénardier)
Eddie Redmayne (Marius)
Amanda Seyfried (Cosette)
Samantha Barks (Épopine)

Na França do século XIX, Jean Valjean, preso por uma ação solidária, sofre. Do outro lado, Fantine, mãe solteira que precisa de trabalho, sofre para alimentar a filha. Javert, MEGANHA que caça endemoniado os bandidos, também sofre. Então Valjean, agora bem de vida, sofre pra ajudar a filha da Fantine. Daí todo mundo sofre junto, enquanto a revolução francesa aumenta o sofrimento geral e Tom Hooper aniquila a galera com o sofrimento definitivo.
Se for parar pra pensar, Os Miseráveis trata de um ladrão que repensa sua vida, uma mãe ajudando a filha e um inspetor policial com questionamentos éticos. Tinha tudo pra ser um daqueles dramas envolventes, que, ao final, fazem o cara repensar sua vida até chegar à primeira loja do shopping. Entretanto, com um roteiro unidimensional, ótimo elenco desperdiçado e uma direção que deveria no mínimo credenciar Tom Hooper ao bafômetro, a película acaba se tornando uma besteirada superficial, sem graça, sem profundidade, que desperdiça alguns bons números musicais em uma obra tão despida de sentido que seu título de trabalho, durante as filmagens, deve ter sido “CAOS”.

“Vou querer um travelling, e… oh sim, e uma lente olho-de-peixe junto, é claro.”

O filme até começa bem, com uma sequência bacana onde a galera fica a puxa navios (literalmente) e cantar uma das músicas mais legais do filme (o que contradiz a ideia de que só as pessoas felizes cantam). A partir daí, entretanto, Os Miseráveis faz o oposto dos navios puxados pelos sujeitos e vai afundando aos poucos, subjugado por dramas superficiais e pouco desenvolvidos – tipo, parece que cada personagem está ali para executar apenas uma função: Valjant quer fazer o bem para espiar seu passado tinhoso, Fantine quer ajudar a filha a qualquer custo, Thénardier e Madame Thénardier querem colocar o carimbo definitivo de que o filme não faz sentido nenhum, Marius é aquele cara com paixonite obcecada e piegas e Cosette fica só na lacrimejância total pelos cantos. Assim, não há identificação do espectador com a galera, não há envolvimento, tudo acontece sem antecipação dramática e de forma súbita (por exemplo, o tempo que Cosette e Valjean ficam separados é muito curto para tamanho dramalhão no reecontro. Foi uma cena de distância! Só uma! Nem eu tinha saudade do Valjean ainda).
Os únicos que conseguem adicionar um pouco de profundidade a essa grande piscina de crianças que é Os Miseráveis são Javert, com sua obstinação conflitante pela lei e os desdobramentos da história, e Épopine, que, apesar do tempo curtíssimo em cena, se torna a personagem mais sensível, a mais tridimensional, a melhor atuação e a melhor cintura da película. Mas são momentos mais isolados, que não conseguem fazer frente à falta de sentido do roteiro, como a rapidez com que Fantine cai em desgraça (imaginem um filme do Iñarritu só com as cenas mais desoladoras) ou a comoção forçada na morte da Épopine. Já os números musicais são bem instáveis: alguns funcionam muito bem, normalmente aqueles que envolvem mais pessoas e vozes para interpretar as belas canções (como na citada cena inicial, onde o ato de puxar a corda vira quase uma coreografia de dança), e outros que praticam bullying com os tímpanos alheios – principalmente os diálogos, abre aspas, cantados, fecha aspas, que, desajeitados, mal ensaiados e aparentemente fruto do mais poderoso vício em crack, mal e mal passam como diálogos, que dirá canções.
Mas a casa beija o chão mesmo graças a Tom Hooper. Mantendo a mesma postura tresloucada que quase botou O Discurso do Rei abaixo, o diretor chega atirando falta de lógica pra tudo que é lado: primeiro enquadra suas personagens no canto, depois no centro, usa enquadramentos tortos no meio de diálogos, enfim, é basicamente um poutporri de recursos cinematográficos. Hooper insiste em um primeiríssimo plano incômodo, que joga pelo ralo o (excelente) trabalho da direção de arte, e volta e meia utiliza profundidade de campo curta porque ei, as pessoas vão olhar e dizer “olha que legal, tá desfocado!” e vai ficar tudo muito bonito no Vimeo. Além disso, Tom Hooper parece ter um acordo de merchandising secreto com uma determinada espécie aquática, pois atira na história duas ou três lentes olhos de peixe cuja distância da palavra “sentido” oblitera todas as métricas espaciais já concebidas pelo homem. Até mesmo quando tenta chamar na subjetividade o sujeito dá com os burros na água, como no extremamente explícito (e extremamente desajeitado) plano onde Javert se posiciona à frente de uma enorme estátua de uma águia. A direção do sujeito é tipo um Royal Straight Flush de derrota.
Considerando tudo isso, logo se percebe que o elenco precisa tirar água de roteiro unidimensional – e o mais incrível é que a maioria consegue, erguendo o filme um pouco do lamaçal: Hugh Jackman confere intensidade e vida a Valjean, conseguindo fornecer uma carga de dramaticidade às cenas envolvendo o ex-ladrão; Anne Hathaway dá a Fantine a fragilidade que o roteiro não consegue construir, além se entregar por completo mas sem exageros em “I Dreamed a Dream“, a melhor e mais envolvente cena do musical; e Russel Crowe, ainda que de longe seja a pior voz do elenco (pelo menos fica claro que ele não usou Pro-Tools), chama na competência habitual e constrói a tragédia de Javert através de gestos minimalistas, contidos, que ilustram a incerteza moral da personagem. O resto da galerinha, com o tempo de cena quase transformado em um tweet, pouco pode fazer – embora fosse melhor se os caricaturais Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter não tivessem feito nada, e passassem o tempo no trailer brincando daquele famoso jogo de tabuleiro “Vamos Destoar do Clima do Filme” ao invés de aparecer no set. Ainda assim, Samantha Barks merece destaque por toda a tristeza e tridimensionalidade de Épopine, ilustrada em expressões de admiração e decepção que são tocantes (há uma intensidade nos trejeitos dela, como o leve franzir de sobrancelhas, que dá força à história mas fica longe da dramaticidade artificial), tornando-se o grande destaque do projeto.
Embora a direção de arte suja, repleta de cenários desorganizados e tortos (cuja reconstituição de época é sensacional) e os arranjos musicais funcionem bem, a película continua a receber fracasso por parte de sua montagem videoclíptica, repleta de cortes desnecessários, que torna a coisa toda bem cansativa. No geral, Os Miseráveis é uma experiência burocrática, pouco inspirada, que busca a grandiosidade em momentos pontuais e mesmo assim erra o alvo (a quantidade de vezes que o filme afasta a câmera da personagem usando a grua, no final de um número musical, é desconcertante). Comandada pela versão hollywoodiana daquele tio que  vende cachorro-quente com tudo dentro, a produção é uma bagunça que faz muito quarto de adolescente parecer o do Howard Hughes, e, como os números musicais foram gravados no set, a impressão é que Tom Hooper quis desafiar aquela famosa expressão que diz “quem sabe faz ao vivo”.
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