Sujou de vez

Tem uma marca de papel higiênico (ou umas, aí já não sei) onde a embalagem vem com a seguinte informação: “indica onde cortar” (junto tem um CARTOON ilustrando).

É o tipo de coisa que faz o cara pensar sobre a questão de ter filhos. Digo, filhos são aquelas pessoas especiais que vamos querer ver crescer, aprender e construir um futuro. Mas uma sociedade que não apenas precisa de um lugar determinado para cortar o papel higiêncio, como também torna necessário que algúem diga onde cortar, logo logo vai acabar indo pelo ralo…

Onde a noção foi brutalmente assassinada

Caracas 1 x 1 Grêmio
Gols: Cichero, 2’1°T (Caracas); Fábio Santos, 28’°T (Grêmio)
Local: Estádio Pseudo-Gramado Olímpico de la Ciudad Universitaria de Caracas

Aos trinta minutos do segundo tempo, Tcheco cobrou uma falta e fez a bola aterrisar (sim, a palavra é aterrisar) com perfeição na cabeça de Fábio Santos, que mandou para o fundo das redes. Foi o primeiro gol do Grêmio. Foi também a primeira jogada de perigo do Grêmio, e a primeira jogada do Grêmio que funcionou, e o primeiro lance que não fez os torcedores gremistas chutarem a parede de raiva, e o primeiro minuto da partida onde nenhum jogador gremista arrefeceu intensamente as possibilidades de ataque do time. Pra todos os efeitos, o Grêmio entrou em campo aos trinta do segundo tempo.

Antes disso, aos dois minutos de jogo, durante uma GREVE DOS CONTROLADORES AÉREOS na zaga tricolor, o Caracas aproveitou uma cobrança de falta e marcou de cabeça com Cichero. O gol durante as preliminares deu à fraca equipe venezuelana a chance de exibir sua teatralidade: os jogadores dançavam o quebra-nozes ao menor contato físico, os gandulas faziam a mágica do sumiço da bola, o estádio se gabou de seu sistema de drenagem acionando os chafarizes logo após o tento do Grêmio. Uma putaria sem fim. À total ausência de coerência na equipe gaúcha durante a partida (principalmente no primeiro tempo) somam-se o gramado que aparentemente havia sido palco de uma guerra civil no dia anterior e as atitudes do árbitro Roberto IRMÃO METRALHA Silveira, que claramente roubou (sim, a palavra é roubou) a favor do time da casa (embora não tenha influenciado em nenhum lance capital – alguns anos de serviço comunitário seria uma pena adequada).

No entanto, minha análise pode estar equivocada, uma vez que ontem fui submetido à maior demência televisiva que um pessoa pode presenciar. A RBS TV interrompia a partida para mostrar lances importantes(risos) de Inter x Coritiba pela Copa do Brasil. Que mostrem os gols, tudo bem, é algo lógico. Agora, a certa altura, quando Souza irrompia em um ataque veloz pelo lado direito, a emissora(?) cortou para o Beira-Rio e mostrou o peladeiro Taison sendo entrevistado. Quando voltou à Venezuela, o goleiro do Caracas estava cobrando tiro de meta. Souza poderia ter sido alvejado por uma metralhadora que ninguém ficaria sabendo.

Independente de questões puramente práticas (o jogo do Inter estava sendo transmitido em dois canais – uma deles da televisão aberta), fui obrigado a digerir a informação subjetiva de que a Copa do Brasil e a Libertadores estão no mesmo saco. Tive que segurar o vômito ao ver manchetes como “Noite de emoções para a dupla Gre-Nal”. Que o Grêmio vença essa Libertadores, e desmembre o Barcelona na final do Mundial Interclubes, e depois fuja do Brasil e passe a disputar torneios argentinos ou europeus. Sério. O futebol aqui caminha para se tornar uma paródia de si mesmo.

Na direção certa

Sempre achei meio besta essa história de lançar trailers de jogos de videogame – soa mais ou menos como funcionários das lojas de brinquedos deixando os clientes fazerem test drive no Jogo da Vida e no Banco Imobiliário, por exemplo.

Entretanto, não pude deixar de me empolgar com o TEASER (isso mesmo, teaser) de Blur, jogo que pretende deixar de lado a vertente simuladorística e enfadonha que atualmente rege a indústria eletrônica para esfregar nas nossas caras enrugadas o conceito de diversão absoluta.

Peço apenas que cuidem para não derrubar seus monitores ao erguerem os braços em comemoração:

Religião + polêmica = bilheteria

Anjos e Demônios (Angels & Demons)
3/5

Direção: Ron Howard
Roteiro: David Koepp e Akiva Goldsman, baseados em livro de Dan Brown

Elenco
Tom Hanks (Robert Langdon)
Ewan McGregor (camerlengo Patrick McKenna)
Ayelet Zurer (Vittoria Vetra)

Um professor de simbologia é chamado pela Igreja para investigar uma ameaça no Vaticano envolvendo sociedades secretas e mistérios. Quem falou que missa é um negócio monótono?

Dan Brown é um sujeito com uma imaginação batuta, que usa ela para criar histórias misteriosas e, mais do que isso, faz um trabalhão de pesquisa para que os “segredos históricos” de suas tramas soem minimamente críveis ao leitor. Infelizmente essa preocupação não encontra respaldo em seu texto, que é superficial e abraça convenções dos romances policiais assim como bêbados agarram gordinhas em festas às quatro e meia da manhã.

Isso ficou claro na adaptação do famoso Código DaVinci, onde o livro foi praticamente socado dentro de um roteiro do jeito que dava, resultando em um filme verborrágico, que não confia em suas imagens e muito menos em sua história. A real é que o Código meio que se baseava só em um grande secreto, e depois que ele era revelado a galera percebia que ainda havia uma trama a seguir. Não se decidindo por um lado (um filme mais centrado no segredo do Cálice Sagrado) nem por outro (um thriller de ação), o diretor Ron Howard fez uma adaptação que não pegaria nem vaga na Sulamericana.

Anjos e Demônios, apesar de vestir as mesmas cuecas que seu sucessor (mudando apenas a roupagem), não tem uma grande fofoca a ser revelada. Então é barbada pro diretor se concentrar apenas na caça ao tesouro intrincada história envolvendo sociedades secretas, códigos e personagens ambíguos. Pois ação é o que a continuação de Código DaVinci tem de sobra: logo nos primeiros minutos de projeção já somos apresentados ao primeiro assassinato da noite, e também à idéia de que roubar um tubo de antimatéria é o maior exemplo de facilidade que a história da humanidade já produziu. A partir daí é uma correria tresloucada, com Langdon descobrindo os esconderijos através de pistas astutas e convenções cinematográficas. Acompanhado pela doutora e por uma câmera sacolejante que provavelmente encheu a cara de Red Bull, o professor se envolve em tantas maracutaias que ninguém tem muito tempo pra prestar atenção nos eventuais furos do roteiro.

Isso beneficia a produção, que acaba se tornando um thriller eficiente e coeso, estruturado em uma montagem ágil (os planos são curtos, mas claros e adequados à linguagem narrativa proposta, com raras exceções). Ron Howard já é macaco velho, faz apostas seguras de enquadramento, de coreografias, e por aí vai. Sabe que o blockbuster é dirigido a um público que exige certo conservadorismo narrativo (curiosamente, a única cena mais “livre”, um plano sequência que sobe por dentro de um cano no final do filme, é plasticamente muito semelhante ao penúltimo plano de Código DaVinci). Somam-se a isso sets e locações muito bacanas, habilmente fotografados, que levarão à loucura os pobres que não tem grana pra europear.

Como Robert Langdon, Tom Hanks pouco pode fazer além de ser sujeito das cenas de ação e uma enciclopédia de informações quando as coisas não estão em DEFCON 1. Mas o ator consegue dar um pouco mais de vida ao protagonista aqui e ali, e sua persona já é o suficiente para encararmos o professor sabe-tudo como um cara legal. Já Ewan McGregor retrata bem a calma e a fé de sua personagem, fazendo o público realmente acreditar em suas intenções (que são avacalhadas pelo roteiro depois). O resto do elenco se limita a jogar a história pra frente quando necessário.

No final das contas, Anjos e Demônios realiza o que se propõe a fazer, e de lambuja ainda mostra coisas interessantes que acontecem na eleição de um novo Papa. Se por um lado não acrescenta nada de novo ao gênero e é descartável, por outro não surra a inteligência do espectador com um bastão de beisebol, como anda comum em blockbusters. Um filme nem muito bom, nem muito mau.

Cartão nada tri

Hoje, ao subir em um ônibus, aproximei o meu cartão do validador(sic) para passar, como sempre faço. Mas a infame máquina retribuiu minha gentileza com um “Uso Indevido” sorridente, escrito em fonte quadradona e fundo verde, mais parecendo um comando de DOS digitado em um quadro-negro. Ciente de que meu cartão possui carga suficiente para comprar uma empresa de ônibus, aproximei-o novamente, obtendo a mesma resposta. Ligeiramente alterado, esfreguei o cartão na fuça daquela caixa de circuitos prepotentes, e… o validador(sic) teimoso e provavelmente na TPM continuava de birra. A essas alturas, a cobradora falou que havia esquecido de desbloquear o dito-cujo. Ela fez o que devia ser feito, e aí sim a máquina colaborou.

Existem alguns pontos que chamam a atenção nesse pequeno causo. Primeiro: quem aquela maldita CAIXA DE PANDORA acha que é pra dizer que eu estou usando indevidamente o MEU cartão? Se o cartão é MEU, eu posso até escovar os dentes com ele e ninguém tem nada a ver, muito menos um Pense Bem recauchutado com ilusões de grandeza e poder. Chega a ser irônico o homem ter construído máquinas justamente pra impedir o seu livre arbítrio. Consigo imaginar uma nova adaptação de Senhor dos Anéis onde Gandalf, mostrando para o Balrog enfurecido um validador(sic) com a mensagem “Uso indevido”, grita “You shall not pass”.

Segundo: se tivesse algum problema com o meu cartão – que possuía sim carga suficiente -, eu teria que pagar com dinheiro. Mesmo deixando de lado a paranóia que me atinge toda vez que abro a carteira em público, imaginando que os olhares alheios convergem na direção dela para ver quantas notas saltitam alegremente ali, ainda assim poderia ter problemas. E se o dinheiro guardado ali fosse pro almoço? E se eu tivesse a quantia exata para adquirir algum objeto de consumo pelo qual tenho muito apreço? E se estivesse levando o dinheiro para ajudar entidades carentes, como o Grêmio?

Fosse o transporte coletivo old school, era só dar uma outra fichinha e papo encerrado. Nada de burocracias eletrônicas. Mas vieram as máquinas, e veio o futuro, e é tudo tão limpo e brilhante e piscante que não tem como dizer “não”. Pelo menos os assentos dos bancos ainda não são virtuais. Ainda.

Carga explosiva

Anteontem eu estava assistindo um programa sobre os sete sinais do fim do mundo (além do ocorrido em dezembro de 2006, digo), analisados do ponto de vista científico. No meio daquele monte de catástrofes e tudo mais, surgiu alguém falando de uma tal de explosão de raios gama. Basicamente o negócio é o seguinte: após uma estrela explodir e virar uma supernova, ela libera uma quantidade de partículas vaporizantes espaço afora, e quando elas encontram alguma coisa pelo caminho a situação fica bastante chata pra essa coisa. Tipo, imaginem uma estrela cem por cento composta de Coca Light, e alguém chega e joga um Mentos gigante na dita-cuja. É mais ou menos isso.

Enfim, parece que temos um corpo celeste logo ali dobrando a esquina (leia-se oito mil anos luz de distância) que está prestes a abotoar o paletó. E se isso acontecer, nossa pequena bolinha azul pode ser violentamente alvejada pela explosão de raios gama, com chances de não sobrar ninguém pra anotar a placa do caminhão. O mais legal, entretanto, é que essas partículas viajam à velocidade da luz, ou seja, não tem como prever o fenômeno – só vamos saber na hora em que o planeta virar uma grande bolinha de Natal dourada.

Então eu pergunto, pra que fazer um programa sobre isso? O sujeito sai na rua e já tem que se preocupar em não ser assaltado, não ser atropelado, não ser sequestrado, e agora tem que se preocupar também se vai levar uma RAIOGAMADA na fuça? Depois do terrorismo jornalístico, acho que é bom começar a me preocupar com o terrorismo científico…

There we weren’t, now here we are

Quando Liam Gallagher aprochegou-se do microfone e disse “I’d like to call Wonderwall”, a certa altura do evento destruidor do universo chefiado pelo Oasis, pude perceber o incrível milagre da multiplicação das câmeras digitais: de todo canto alguém sacava sua Sony n64 play2 pra gravar a canção. As máquinas procriaram como coelhos, espraiavam-se pelo ginásio todo, cheguei a imaginar que os ambulantes estavam distribuindo tais objetos como brinde na venda de broches. Fenômeno semelhante ocorreu também no show do R.E.M., quando as primeiras notas de Losing My Religion reverberaram pelo lugar. Simplesmente, ao invés de um mar de pessoas, havia um mar de flashes porcamente utilizados.

Há apenas uma explicação racional e plausível para tamanha desfaçatez para com nossos estrangeiros cantores: a total ausência de noção das pessoas. Essa é a parte em que vocês falam que cada um curte o show do seu jeito, mas sou obrigado a lançar meu punho violentamente contra a mesa e gritar “não”! Tudo bem que alguém queira gravar uma ou outra canção, ou tirar algumas fotos, mas por favor, parem com essa mania de PRECISAR mostrar pros outros que estiveram lá e fizeram aquilo. O Oasis e o R.E.M. estavam espanando a fuça da galera com roquenrol dos melhores, e as pessoas queriam captar digitalmente o momento pra assistir depois, como se a vida fosse um maldito videocassete. Ao invés de fazer parte daquilo, elas preferiram fabricar uma prova de que fizeram parte daquilo.

Claro, exagero um pouco, mas situações drásticas exigem argumentos colocados com intensidade desproporcional e beirando o ilógico. Há vinte anos, as pessoas não pegavam suas Nikons, que mais pareciam metralhadoras, e saíam por aí fotografando músicos bêbados enquanto eles tocavam canções dignas de um prêmio Nobel. A tecnologia facilitou as coisas, trazendo essa questão de “ver para viver”. Registro, logo existo. E com as maiores bandas do mundo ali, ali bem na nossa frente, tem gente que prefere botar o olho atrás de uma telinha só pra dizer depois que esteve lá e gravou um vídeo. Acho que é isso que os filmes de ficção científica dizem quando mostram que trocamos o real pelo virtual. No final das contas, parece que esse mundinho cavalga nessa direção, e os incrivelmente chatos fãs de Matrix vão sair por aí com banners contendo a inscrição “eu já sabia”. Francamente.