Vitória técnica

O Vencedor (The Fighter)
4/5
Direção: David O. Russel
Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson
Elenco
Mark Wahlberg (Micky Ward)
Christian Bale (Dicky Eklund)
Melissa Leo (Alice Ward)
Amy Adams (Charlene Fleming)
Micky Ward é um boxeador pacato, tranquilo e que, treinado por seu irmão Dicky Eklund, passou os últimos dez anos levando sarrafo atrás de sarrafo nas lutas. Totalmente dominado pela mãe empresária e pela família (eles possuem sete irmãs – sim, imagine como fica o carro deles com aqueles adesivos de família que viraram moda), Micky encontra na garçonete Charlene o início de um novo caminho. E no meio dessa balbúrdia toda, incluindo aí o vício de Dicky por crack, Micky tenta se superar cada vez mais para se tornar um grande boxeador e também porque histórias de superação costumam comover o pessoal do Oscar.
O Vencedor é menos uma história de ascensão de um boxeador e mais a história de uma família tão instável e disfuncional quanto o MSN Messenger. Tipo um The Osbournes sobre boxe, assim. Contando com um elenco que atinge níveis estratosféricos de qualidade, o filme foge de fórmulas tradicionais (ok, da maioria delas, pelo menos) e consegue soar pertinente dentro de sua proposta, mesmo que, aqui e ali, acabe caindo naquela grande armadilha de urso que é o clichê.
“Deixa eu botar minha roupa de Batman que acabo com esse desgraçado em dois bat-segundos!”
A película já começa mostrando o carisma de Dicky ao fazer a personagem caminhar pelas ruas da vizinhança cumprimentando todo mundo, enquanto uma equipe de TV segue atrás para fazer um documentário sobre o sujeito – e essa cena serve como exemplo da dinâmica familiar deles, onde Dicky é o centro das atenções e Micky, tal qual o Palmeiras, fica sempre relegado a segundo plano. A partir daí o filme constrói as tramóias com bastante cuidado, fazendo com que a família compactue com as ilusões de grandeza de Dicky mesmo quando é o irmão que está se preparando pra entrar no ringue. Graças a esse tipo de comportamento (como, por exemplo, quando estão saindo de uma luta onde Micky apanhou feito uma senhora de idade aprendendo a usar o computador e todos se importam mais em ouvir o irmão falar de como derrubou Sugar Ray Leonard), o público realmente sente que o protagonista está sendo injustiçado e sofre com ele – e o quando o sujeito se apaixona por Charlene, uma moçoila cativante e de personalidade forte (“eu não vou me esconder da sua família”), entendemos o motivo daquela atração e a importância que Micky dá ao fato de finalmente estar “em primeiro lugar” pra alguém. E ao invés de apelar pro dramalhão total, como poderia fazer, o filme investe em conflitos que se mostram inevitáveis, tornando a relação entre aquelas pessoas mais densa e palpável (principalmente Dicky e Mickey. Inclusive ambos, como irmãos, brigam e se reconciliam toda hora – quando Micky ajuda o irmão com os policiais, por exemplo, ou quando Dicky, mesmo após uma discussão forte, dá dicas de boxe a Micky).


O Vencedor ainda mostra um excelente jogo de pernas ao expor as estratégias do protagonista antes de algumas lutas (“Boxe é um jogo de xadrez”) e a manipulação feita por empresários (tipo ao utilizar alguns lutadores menos dotados tecnicamente como “escada” para outros subirem). É uma pena, então, que em determinados momentos a película se atire nas cordas: a cena da prisão, por exemplo, é conveniente demais, soando tão falsa que poderia fazer parte do Big Brother Brasil; em um determinado conflito no ginásio, Micky muda de ideia rápido demais, como se o roteiro tivesse apontado uma arma pra cabeça dele e dito “seguinte, você tem que mudar de ideia agora pra iniciarmos a caminhada rumo ao clímax”; a ascensão de Micky ocorre muito rapidamente, e o público fica sem ter a dimensão da coisa toda; e até mesmo a tentativa de estabelecer um dos lutadores como um oponente “malvado” no final acaba dando com os burros na água. São coisas que não chegam a comprometer, mas tiram um pouco da força do filme.
Desde o início o diretor David O. Russel busca uma abordagem natural, com a câmera na mão e sem partir pra uma iluminação ou uma fotografia muito rebuscadas (em alguns momentos, inclusive, as imagens das lutas ficam meio distorcidas e com cores lavadas, como se estívessemos assistindo na televisão). Confiando no elenco SELECIONÁVEL que tem em mãos, utiliza planos mais longos, até mesmo para ilustrar a proximidade das personagens – e é interessante como Russel volta e meia coloca Micky no canto do quadro ou em uma marcação mais para o fundo da cena, ajudando a construir o deslocamento e a sensação de ficar em segundo plano que atingem Micky. Contribui também para o bom andamento da coisa toda uma direção de arte vitoriosa, que reconstrói com propriedade a época tanto em cenários quanto em figurinos (vejam como o apartamento de Micky é vazio, de alguém sem personalidade, e como o boné virado de Dicky ajuda a ilustrar a imaturidade da personagem), além de contar com uma excelente trilha sonora.
Mas a grande TORTA DE SORVETE do filme é mesmo seu elenco: sempre com uma postura contida, tom de voz controlado com um olhar cansado, Mark Wahlberg convence o espectador da passividade do protagonista, ao mesmo tempo em que possui carisma o suficiente para que torçamos por ele; Amy Adams encarna Charlene com energia, tornando a moça uma personagem forte e cativante, essencial para que o espectador entenda porque Micky se interessa por ela; e Melissa Leo faz de Alice uma personagem intensa, que, sempre a ponto de estourar, não economiza nos trejeitos na hora de expressar sua opinião. Entretanto, quem chega chutando tudo e assumindo a camisa 10 é Christian Bale. Sempre inquieto, enérgico e repleto de tiques (repuxa a boca, mexe os olhos, não consegue ficar com as mãos paradas), características que evidenciam seu vício, Bale faz de Dicky uma figura ao mesmo tempo carismática e trágica, que na sua empolgação infantil e auto-destruição conquista de vez o coração do espectador.

Apesar de uma ou outra falha, O Vencedor tem a alma pura e mostra-se digno do investimento feito nele. E consegue soar original mesmo trabalhando com aquela velha história de superação de problemas pessoais em prol de realizar algo grandioso. E, através dessa estratégia adotada, o resultado final do filme acaba fazendo jus ao seu título em português.

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Branco no preto

Cisne Negro (Black Swan)
5/5
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz e John Mclaughlin
Elenco
Natalie Portman (Nina Sayers)
Mila Kunis (Lily)
Vincent Cassel (Thomas Leroy)
Barbara Hershey (Erica Sayers)
Winona Rider (Beth Macintyre)
Nina é uma bailarina tímida e reprimida que pensa, vive e respira sua arte (exatamente o que os homens fazem com relação ao sexo, só que com balé). Buscando um lugar de maior destaque na sua companhia, ela acaba alçando vôo (trocadilho obrigatório) até ser a estrela principal no espetáculo O Lago dos Cisnes, interpretando o Cisne Branco e o Cisne Negro. Mas, ao mergulhar no papel (trocadilho obrigatório), Nina começa a ceder à pressão de se soltar, de se libertar, de conseguir interpretar os dois lados – além de sentir inveja de uma bailarina novata, Lily, que consegue justamente ser solta e ASSANHADA como Nina gostaria de ser. E o medo de ser substituída por Lily só faz com que a moça entre ainda mais em parafuso.
O balé é uma arte bela, encantadora, cheia de movimentos graciosos e apresentações delicadas. Enfim, coisa de mulherzinha. Mas em Cisne Negro o diretor Darren Aronofsky nos leva além desse mundo aparentemente branco e singelo, atirando o espectador em uma viagem intensa e devastadora à mente de Nina, aos sacrifícios que ela precisa fazer, a tudo que ela precisa renegar, construindo uma obra tão visceral e cheia de simbolismos que o filme faz um violento jogo de rúgbi soar como uma partida de Paciência no computador. E faz isso de forma tão complexa que, ao final da projeção, é impossível não levantar da cadeira, correr pela sala do cinema fazendo aviãozinho e depois tatuar “Natalie Portman” no coração.
Na lagoa da minha cidade os cisnes não são assim.
Concebido com o mesmo cuidado e atenção que um adolescente concede ao seu videogame, o roteiro de Cisne Negro é uma sucessão interminável de vitórias. Já no início somos apresentados à dedicação de Nina ao ver que, assim que sai da cama, a pimpolha vai direto ensaiar e arrumar sua roupa de balé na frente do espelho. Aliás, os cuidados do filme ao mostrar algumas artimanhas e rotinas da área (como quando Nina arruma a sapatilha para dar mais estabilidade, ou quando ela faz uma massagem após o ensaio e vemos o preço que a dedicação cobra do corpo da moça) dão ainda mais verossimilhança à história e ajudam a tragar o espectador até aquele mundo. É aos poucos também que a personalidade de Nina vai sendo construída através da presença constante e castradora da mãe (em pessoa ou ligando pelo celular), da admiração excessiva por Thomas, do medo de perder o papel de Rainha Cisne e, principalmente, da tentativa de ser perfeita em cada movimento (tanto que várias personagens sugerem à protagonista ela que trabalhe menos e relaxe mais. Infelizmente ninguém citou O Iluminado com “só trabalho sem diversão fazem de Jack um bobalhão”. Fracos). E é interessante notar como pequenos momentos e elementos (um olhar de Thomas pra Lily; os momentos de preocupação excessiva da mãe; a visão de Nina de que o papel de Rainha Cisne é mais imprtante do que o Santo Graal, ilustrada muito bem em uma determinada visita à Beth; entre outros) aos poucos vão ganhando mais dimensão, mais urgência. E tudo isso faz com que o público realmente sinta quando a coisa toda começa a rachar e Nina se entrega a um “eu” que ela jamais havia conhecido antes.
Para manter o climão sombrio e angustiante, digno de uma visita ao banco, Aronofsky utiliza a fotografia com um grão mais grosso, resultando em uma imagem suja, crua, que contribui para dar ao filme um aspecto de triste realidade. Daí o diretor ainda segue a Nina pra lá e pra cá com a câmera na mão, buscando um estilo documental (muitas vezes a moça é filmada de costas enquanto caminha, em uma abordagem vitoriosa que Aronofsky já tinha utilizado naquele PRÊMIO NOBEL que é O Lutador) e utilizando planos longos, essenciais para o público compreender as coreografias do espetáculo de balé, por exemplo, ou acompanhar contemplativo enquanto a protagonista chora pitangas pelos cantos. E na mesma mesa VIP da direção e da fotografia senta uma direção de arte épica, espalhando espelhos como se não houvesse amanhã (que cansam de refletir os sentimentos de Nina, muitas vezes inclusive representando a personalidade partida da moçoila) e brincando bastante com a questão de cisne negro e cisne branco (não apenas Nina veste sempre branco como muitas das “adversidades” encontradas pela protagonista – Lily, o velho no metrô que representa sua culpa por ter se masturbado, sua própria mãe, entre outras – vestem preto. Da mesma forma, conforme uma determinada mudança vai entrando em curso, o figurino da protagonista vai incorporando o pretinho básico. E é interessante perceber que escritório e o apartamento de Thomas – que, por ser o diretor, por determinar o futuro daquelas meninas, é quem está acima do bem e do mal – possuem as cores preto e branco na mesma medida, de forma harmônica), além de ajudar a construir a personalidade reprimida da protagonista através do quarto dela, todo rosa e cheio de bichinhos de pelúcia (incluindo, entre eles, um cisne negro). Cisne Negro ainda conta com uma trilha inspirada, que, inicialmente minimalista, vai ganhando em grandiosidade e intensidade conforme a trajetória de Nina vai se realizando.
Trajetória, aliás, que Natalie Portman percorre com entrega total, em uma atuação épica e digna das maiores reverências (Oscar é pouco: Nati merece no mínimo um prêmio de melhor jogador da Copa do Mundo). Sempre com um tom de voz baixo, a atriz mantém uma postura contida, constantemente olhando para o chão, como se o seu comportamento sempre estivesse sendo julgado – e é através do olhar assustado e da respiração ofegante (em um trabalho supimpa do design de som) que percebemos como ela se sente deslocada e com medo ao dançar as coreografias do cisne negro. Além disso, Natalie consegue expressar emoções genuínas sem soar caricatural, deixando o espectador consternado e assustado com o caminho que Nina toma. E, para delírio geral, a atriz é acompanhada por um ótimo elenco: enquanto Mila Kunis soa extremamente natural e descontraída como Lily, Vincent Cassel encarna Thomas com vontade e paixão e Barbara Hershey consegue mostrar ao mesmo tempo sua preocupação e seu ressentimento com o sucesso da filha.
Visceral, inteligente e visualmente arrebatador, Cisne Negro é uma experiência perturbadora pela mente de alguém que, sob uma pressão absurda, tenta escapar de si mesma ao mesmo tempo em que não quer se desprender de seus valores. Um jogo de reflexos e espelhos tão repleto de significados que me sinto compelido a discutir alguns deles – algo que farei na segunda parte da crítica, abaixo, e que, por conter spoilers, deve ser lida só por quem já assistiu ao filme.
Parte 2: Michael Jackson estava errado
Quando Jackson cantou it doesn’t matter if you’re black or white ele certamente não estava pensando em Nina Sayers: destinada a ser um cisne branco por toda a sua vida, Nina vê sua personalidade partir ao meio com a pressão do papel principal e, aos poucos, vai deixando o cisne negro tomar o controle, o que acontece em uma cena visualmente tão bonita que ela poderia facilmente substituir alguma das tradicionais sete maravilhas do mundo.
Mas vamos do início. Totalmente infantil e reprimida, Nina gosta de ter a mãe sempre por perto, ficar sempre protegida. Entretanto, o papel de Rainha Cisne cobra dela um amadurecimento sexual e uma desenvoltura que ela ainda não possui – algo que é evidenciado pela chegada de Lily, que, por ter as características que faltam a Nina e pela semelhança física, acaba se tornando como uma contraparte da moça. À medida que o filme avança, Nina e Lily vão se aproximando aos poucos, enquanto ela vai se afastando da mãe (algo que é representado em uma cena linda onde, perto de três espelhos, cada uma fica refletida em um enquanto o do meio fica livre, evidenciando o espaço entre ambas. Os reflexos inclusive invertem a posição das duas, mostrando que a partir dali os papéis serão invertidos).
É então que, durante um jantar, Lily oferece uma blusa – preta – para Nina colocar. A moça vai ao banheiro e a veste por cima da blusa branca que estava usando. O simbolismo é  bastante óbvio: pela primeira vez o cisne negro dentro de Nina sobrepujou o branco, e é logo após essa cena que ela sai pra dançar e se divertir, algo que não fazia antes (aliás, percebam que, entre os planos rápidos durante a festa, há um breve momento onde Nina surge com a mesma maquiagem que utilizará no espetáculo final ao interpretar o cisne negro). Quando volta pra casa com a Lily imaginária, Nina se enxerga em um espelho que é constituído de vários pequenos, como se sua imagem literalmente estivesse dividida; e depois, quando discute com a mãe, vemos a “Lily” caminhando pelos espelhos, pra mais tarde ser seguida pelo reflexo da protagonista, que se afastava mais de sua infância (e do cisne branco) e caminhava em direção à sua contraparte, o cisne negro. Dentro do quarto ela se entrega totalmente à paixão, algo essencial para a história não só porque vemos Mila Kunis e Natalie Portman se beijando (obrigado, Aronofsky), mas também porque a cena representa o momento onde Nina se apaixonou de vez por seu “lado negro”.
A partir daí os reflexos de Nina no espelho tornam-se mais dissonantes, mostrando que sua personalidade está cada vez mais partida. É então que, no dia do espetáculo, Thomas diz a ela “a única pessoa no seu caminho é você mesma. É hora de se desprender dela”. Após cair no palco justamente por ter ficado em seu próprio caminho (ela vê seu rosto em uma das dançarinas), Nina volta ao camarim e encontra a Lily imaginária. Entendendo que, como disse Thomas, precisava se livrar de si mesma, Nina ataca e mata seu alterego imaginário com um pedaço do espelho, assumindo novamente o controle de sua consciência. Esse ato de crueldade consigo mesma, eliminando de vez os vestígios de cisne branco da sua personalidade (como ela mesma dissera antes, a “garota doce” não existe mais), era o passo final na transformação de Nina em cisne negro – tanto é que, em suas derradeiras palavras , Nina sorri e diz “eu senti”. Algo que, antes da transformação e mesmo passando quatro anos na companhia de dança, a frágil e tímida garota jamais havia feito.

The kids aren’t allright

Inverno da Alma (Winter’s Bone)
5/5

Direção: Debra Granik
Roteiro: Debra Granik e Anne Rosellini, baseados no livro de Daniel Woodrell

Elenco
Jennifer Lawrence (Ree Dolly)
John Hawkes (Teardrop)
Shelley Waggener (Sonya)

Ree é uma garota de 17 anos, bonita, inteligente e que por acaso mora numa região desolada, áre provavelmente planejada pela DEPRESSÃO ENGENHARIA LTDA e decorada pelo escritório de design TRISTEZA TOTAL. No meio dos caipiras que vivem em casas afastadas lá, a moçoila precisa cuidar dos irmãos mais novos e de sua mãe doente. Mas pra não facilitar as coisas e deixar sua filha mimada, o pai de Ree sai da prisão sem pagar a fiança, obrigando a garota a lidar com pessoas perigosas e barbudas na tentativa de encontrar o sujeito e, assim, evitar que a casa onde sua família mora seja tomada de assalto pelo governo.

Inverno da Alma tem bastante semelhanças com, bem, com um pedaço de concreto: é um filme áspero, pesado, denso e atinge o espectador com uma força descomunal. Só que também é uma emocionante e cativante história de sobrevivência, daquelas que fazem as pessoas saírem do cinema repensando seus valores e conceitos – pelo menos até serem atingidas pelas luzes do shopping, quando então toda reflexão some feito canetas que caem no chão.

As mães certamente repensarão aquele papo de “levar as crianças pra brincar na rua é mais saudável do que ficar jogando videogame”.

A trama é bastante simples, mas narrada com intensidade. E o filme já começa acertando todos os alvos possíveis ao nos apresentar à rotina de Ree, que consiste em levar os irmãos à escola, cozinhar, cortar lenha e outras coisas que eu, guri de apartamento, nem sei o que são. Isso é importante não apenas para estabelecer a personagem como uma garota madura e determinada, mas também para situar o espectador naquela realidade dura e triste. A partir daí, conforme a história vai se desenvolvendo, Inverno da Alma atira o público sem piedade em diálogos secos, crus, cheios de orgulho e de raiva. É como um lugar onde a galera cresceu sem ter acesso a nenhum filme da Disney. As pessoas são tão duras e tortas quanto as árvores que decoram a paisagem, e a naturalidade com que Ree desfila no meio dessa GENTALHA é quase dolorosa – afinal, graças às já citadas cenas iniciais nós acabamos por gostar dela, nos importar com ela, e então acabamos realmente chorando pitangas por ela fazer parte dessa realidade sofrida. Uma construção de personagem sensacional, complexa, que enterra a sete palmos debaixo da terra as concessões fáceis e felizes (Ree ensina seus irmãos a matar e ESTRIPAR um esquilo como se estivesse ensinando a jogar Mario 64!).
Para acompanhar essa atmosfera de repartição pública, a diretora puxa as cores sempre pra tons de ciano, enfatizando a desolação e frieza da região (que são ainda mais realçadas com essas cores fazendo parte do “Clube da Dessaturação Absoluta”). Sempre instável, a câmera acompanha Ree a certa distância, buscando evidenciar a solidão da garota através de planos abertos onde, enquadrada em um dos cantos, a moça surge sozinha naquele ambiente hostil. Aliás, a direção de arte é uma das grandes vitórias da película, pois cria a ambientação definitiva para a jornada da protagonista: além das árvores de galhos tortos constantemente cercando tudo e todos, os cenários são sempre sujos, cheios de lixo, pedras, pneus, madeira e outros elementos atirados pra tudo que é canto. Até mesmo as roupas das personagens estão sempre meio rasgadas e sujas, ajudando a criar aquele clima meio selvagem, de viver quase sempre no limite e tal. Completa a balbúrdia uma trilha minimalista, que, tal qual a sorte, surge bem de vez em quando, além de muitas vezes se originar do próprio filme.
O elenco homogêneo atua com a qualidade e entrosamento do time do Barcelona, evitando cair em interpretações caricaturais que poderiam comprometer a seriedade da coisa. Mas seria crime federal passar por este tópico sem citar a atuação sensível de Jennifer Lawrence: mantendo uma postura serene e um tom de voz controlado, ela se integra com perfeição àquele mundo, reforçando a imagem de Ree como uma garota criada em um ambiente hostil e que o aceita como seu habitat natural. Por isso os poucos e pequenos sorrisos são tão cativantes, acendendo uma esperança de que a garota não tenha se tornado tão fria quanto um escritório de advocacia. E por isso as poucas cenas onde ela se entrega às emoções, mesmo que não tenham exatamente uma explosão dramática, passam o coração do espectador por um moedor de carnes.
Assim, Inverno da Alma é uma longa, dolorosa e solitária caminhada, mas uma que nos apresenta a uma personagem inesquecível. É impossível sair do cinema sem a sensação de ter sido atingido por um caminhão carregando uma bomba atômica que explodiu com o impacto. Entretanto, ao invés de simplesmente ficar jogando sofrimento atrás de sofrimento na tela, como fazem o filme Biutiful do Iñarritu e a defesa do Grêmio, a película se propõe a contar uma história assaz emocionante. Uma história de força, luta e sobrevivência.

Saia do cinema e clique em "curtir"

A Rede Social (The Social Network)
5/5
Direção: David Fincher
Roteiro: Aaron Sorkin, baseado em livro de Ben Mezrich
Elenco
Jesse Eisenberg (Mark Zuckerberg)
Andrew Garfield (Eduardo Saverin)
Armie Hammer (Cameron e Tyler Winklevoss)
Justin Timberlake (Sean Parker)
Como todo nerd, Mark Zuckerberg é inteligente, socialmente desajustado e irritante. Tentando compensar tudo isso ele inventa um site de relacionamentos, o Facebook, levando pro mundo virtual toda a experiência de uma faculdade, com exceção do sexo, álcool e bebidas (melhor ideia de todos os tempos, né?). Só que Zuckerberg ficou de PICUINHA com outras pessoas envolvidas na criação do dito-cujo, resultando em um monte de processos e gente de mal com ele – e, paralelo a isso, o site cresceu e virou modinha e arrebatou milhões de jogadores de Farmville ao redor do mundo.
A Rede Social é uma metralhadora de diálogos rápidos e personagens interessantes, utilizando-os para contar uma trama de poder, dinheiro, inveja, computadores, complexos de inferioridade e egos sensíveis. Ou seja, tudo aquilo que realmente constrói um relacionamento, seja virtual ou real. E faz isso com uma competência devastadora, trabalhando seus aspectos cinematográficos com uma vitória inquestionável para que o espectador aceite as motivações e características daquelas personagens.

Só assim mesmo pra acreditarmos que os caras criaram um SITE para atrair GAROTAS.

Já em sua primeira cena o brilhante roteiro de Aaron Sorkin, através de um diálogo campeão da Libertadores, nos apresenta o protagonista por inteiro, evidenciando sua inteligência, sua arrogância, sua falta de capacidade social, suas motivações, seus projetos de vida e seu complexo de inferioridade (fatalmente ele tem uma bandeira do Corinthians no quarto). A partir daí, a história desenvolve as conquistas de suas personagens paralelas à suas inseguranças (como quando, no meio da criação do Facebook, Eduardo conta a Mark que entrou para o clube Phoenix, ou quando Eduardo descobre que Sean Parker consegue negócios muito melhores que ele), e todo o crescimento do site acaba ofuscado pelas relações entre essas pessoas completamente neuróticas – assim, quando Zuckerberg fica de ciuminho porque acha que o Facebook é obra só dele, o espectador imediatamente associa essa reação a diversas situações ao longo da trama que, desde a cena inicial, indicavam a complexidade e necessidade de afirmação do rapaz. A Rede Social ainda conta com uma dinâmica sensacional, alternando cenas e até mesmo diálogos entre os processos judiciais e flashbacks dos acontecimentos (sempre polvilhado de frases tão certeiras quanto uma lei de Murphy e construídas com tanta inteligência e estilo que dá vontade de morar debaixo delas). E dentro de tudo isso Sorkin ainda consegue colocar, de forma orgânica, diversas críticas e questionamentos a respeito de privacidade, status, imagem e outros temas relevantes (como no momento em que uma advogada, ao saber que existem usuários do Facebook na Bósnia, diz “eles não possuem estradas, mas possuem Facebook”). Um verdadeiro buffet de personagens tridimensionais e situações representativas dos novos modelos de negócios, relações e PESSOAS.
Diretor que filma suas obras em DIAMANTE e depois os lapida, David Fincher mais uma vez mostra que, na escola de cinema, ele veste a jaqueta do time de futebol americano: além de extrair o máximo de seu elenco, Fincher investe sem dó em closes (é um filme quase só de diálogos, afinal) e enquadramentos elegantes, utilizando uma linguagem visual que anda de mãos dadas com o dinamismo do roteiro de Sorkin. Confia na inteligência do espectador (alguém menos confiante teria colocado um plano-detalhe no momento que Zuckerberg digita o endereço do site Facemash, por exemplo) e ainda tem a manha de completar seu trabalho com pequenos detalhes que engrandecem as cenas (Zuckerberg programando o Facebook enquanto morde um dardo na boca, antecipando o alvo que ele se tornaria; a ligeira falta de foco na derrota dos irmãos Winklevoss na regata, indicando a falta de foco dos caras na competição devido à balbúrdia judicial envolvendo o website; Zuckerberg saindo de bermuda e chinelo na rua em temperaturas abaixo de zero sem nem tremer, em um simbolismo claro da frieza do protagonista; o momento onde ele fala com Sean no telefone e percebe que seu agora último aliado e amigo não é um sujeito confiável, enquanto ao fundo alguém apaga as luzes da sede do Facebook deixando-o completamente sozinho; entre outras).
O diretor também acredita no ditado “diga-me com quem andas e eu te direi quem és”, pois escolhe como companhia uma fotografia hábil em retratar tanto a indiferença do protagonista (utilizando cores frias quando ele está presente) quanto o caráter exclusivista dos clubes (captando um vermelho intenso, o que dá um climão de “seita secreta”) e até mesmo a desilusão de Eduardo com seu amigo (em uma cena onde ele, debaixo de sombras, conversa pelo telefone com Zuckerberg). A direção de arte também entra pro “Greatest Hits”, conseguindo fazer de Harvard um lugar ao mesmo tempo aconchegante e de certa forma opressivo – e vejam como até mesmo nas cenas dos processos judiciais há uma preocupação em definir as personagens: enquanto a sala onde os irmãos Winklevoss tentam o acordo possui um ar mais aristocrático, a outra sala, que abriga o processo movido por Eduardo, é vazia e decorada apenas com AR). Pra completar, a trilha em diversos momentos utiliza sons eletrônicos e em looping, que, remetendo aos barulhinhos que nossos computadores adoram fazer, ganha o prêmio de pertinência total.
Tratando-se de um roteiro de Sorkin, apenas o fato do elenco conseguir enunciar os sensacionais e rápidos diálogos sem morrer por falta de ar já seria motivo de exaltação. Mas, mais do que isso, a turminha dirigida por Fincher consegue compor a galeria de personagens de forma impressionante: como Mark Zuckemberg, Jesse Eisenberg aposta em uma certa inexpressividade que transmite a arrogância e inteligência da personagem, mas tem carisma suficiente para que o público não o odeie; Andrew Garfield ilustra bem os receios e a insegurança de Eduardo, conseguindo tornar ele um sujeito DO BEM sem soar apelativo demais; Armie Hammer é SAGAZ o suficiente pra deixar os dois gêmeos Winklevoss interessantes e até Justin Timberlake se mantém em um nível aceitável, mostrando que a descoberta de vida alienígena na Califórnia por parte da NASA não foi a coisa mais estranha do ano.
Independente de representar ou não os fatos de forma correta, como andam discutindo por aí, A Rede Social é um obra intensa, envolvente e que, como se essas qualidades não fossem o bastante, até mostra umas minas só de lingerie de vez em quando. Possui em seu centro uma personagem tão trágica quanto interessante, e à medida que a trama corre alucinada pela tela o público consegue sentir tudo que o Facebook custou para seu criador – sensação que é ampliada pela desnorteadora cena final, onde os principais temas do filme são amarrados com uma simplicidade cativante. Um desfecho intenso e melancólico perfeito para um protagonista que se importava mais com linhas de código do que com relações.

Christopher Nolan para presidente do mundo

A Origem (Inception)
5/5
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Elenco
Leonardo DiCaprio (Cobb)
Joseph Gordon-Levitt (Arthur)
Ellen Page (Ariadne)
Marion Cotillard (Mal)
Ken Watanabe (Saito)
Tal qual Martin Luther King, Cobb tem um sonho – entretanto, em seu sonho ele irrompe nos sonhos alheios para tocar o terror e roubar informações de suas vítimas. Sem chance de ver seus filhos pois foi acusado de matar sua esposa, Cobb vê a chance de redenção quando o milionário Saito requisita seu serviço para um propósito diferente: ao invés de roubar ideias, pede que ele implante uma ideia na mente de seu concorrente. Sim, Cobb é contratado para fazer exatamente o que a Veja faz, mas de forma mais sutil.
Nem Batman, nem Homem de Ferro, nem Kick-Ass: o verdadeiro super-herói de Hollywood atende pelo nome de Christopher Nolan. Tudo bem, o sujeito não usa capa nem uma cueca por cima das calças, tampouco possui um alter-ego igual a ele sem que alguém perceba, mas é Nolan quem realiza filmes que devastam a mente do espectador e bilheterias mundo afora. A Origem é mais do que prova disso, uma obra original até o COPIÃO (embora dê pra encontrar vestígios de Matrix, Sinédoque, Nova York, Ilha do Medo e até mesmo de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças), complexa, que não se rende ao fácil e testa a todo momento a inteligência do público, e que mesmo assim está arrecadando somas monetárias que outros blockbusters apenas sonharam (piada infame, mas obrigatória).
“Apareça aqui de novo com um cabelo mais lambido do que o meu e a cobra vai fumar!”

Com uma trama que oferece mais possibilidades do que a zaga da Argentina, seria fácil o filme se perder em devaneios. Mas não, Nolan mantém o controle o tempo todo. Cria uma lógica interna para A Origem e nunca, jamais, nem que o céu caia sobre a cabeça dele, abandona ou contradiz ela. É um roteiro totalmente redondo e à prova de “ah, mas ele não explicou isso” para uma história que em seu ÂMAGO seria bastante propensa a oferecer “furos” – como se Nolan tivesse escrito a trama e depois vestido ela com um COLETE À PROVA DE BALAS. Ajuda bastante a película assumir no início uma estrutura de “filme de assalto”, onde somos apresentados a cada integrante da equipe e Ariadne, na função de CAÇULA da galera, torna-se um motivo para que a BALBÚRDIA toda seja explicada ao espectador de maneira orgânica. Toda essa base fornecida inicialmente é o que impede o cérebro do público de de praticar CONTORCIONISMO quando o plano de Cobb é colocado em prática, e é impressionante como, dentro das intrincadas ligações entre os sonhos, o filme se mantém claro e coeso. E olha que em nenhum momento apela pra soluções do tipo “ah, ele é especial, então pode furar todas as regras até aqui indicadas”. Cada etapa é construída com tanto cuidado que o espectador sequer duvida que a ação X resultará na reação Y, mesmo que, fora de contexto, qualquer uma das duas soe como uma CONVOCAÇÃO DO DUNGA. É um filme sobre sonhos que, paradoxalmente, cria uma realidade sólida e crível.
Parte disso se deve também às escolhas visuais, uma sucessão de vitórias como há muito não se via. A fotografia sóbria e bastante enamorada de sombras (exceto em determinadas memórias felizes de Cobb, quando as cores quentes entram em campo pra fazer bonito) ajuda a criar não apenas a “solidez” daqueles mundos, como também um clima de tensão desumano (que também é resultado dos acordes pesados, carregados e apavorantes da trilha de Hans Zimmer). Daí vem a direção de arte e cria mundos totalmente baseados na realidade e bagunça eles como se não houvesse amanhã, além de se preocupar com detalhes que contribuem para formar a personalidade de cada personagem (notem como Arthur, o “sem imaginação”, veste sempre roupas certinhas e sóbrias, e os mundos que cria possuem estruturas tradicionais e sempre retas). E à esse elenco somam-se efeitos especiais desnorteadores. É sério. Impressionante como até mesmo as coisas mais absurdas possuem “peso” suficiente para se integrarem perfeitamente à cena. Os caras são tão arrogantes que fizeram uma PANQUECA utilizando como massa a CIDADE DE PARIS, e o fizeram de uma forma perfeitamente crível! Anabolizantes na equipe de efeitos especiais é a única explicação possível.
Tudo isso trabalha em conjunto para que Nolan cria sequências arrebatadoras, como a já citada de Paris, ou a que Ariadne desce em um elevador, ou uma briga em um hotel enquanto uma van capota (nunca achei que fosse escrever uma frase assim). É um filme tão cheio de soluções e rimas visuais que só posso defini-las como CHORO COMPULSIVO POR PARTE DO PÚBLICO. Os momentos em que a realidade interfere nos sonhos, então, são dignos de se atirar no chão gritando “eu não mereço! Eu não mereço!”. Com enquadramentos elegantes, o diretor jamais foge da estética proposta, e utiliza a câmera lenta com bastante propriedade para ilustrar a diferença de tempo entre os sonhos. E também para construir um clímax absolutamente angustiante, cujo desdobramento, mesmo sendo um exercício de lógica interna, é pura poesia visual.
Deixando de lado a intensidade levemente exagerada que costuma ter, Leonardo DiCaprio assume com naturalidade o centro do filme, economizando nos trejeitos e movimentos (o que passa a sensação de que Cobb é experiente e está sempre seguro do que faz) mas abraçando bem o drama quando necessário. Joseph Gordon-Levitt, de cara sempre fechada, transmite a serenidade necessária com o “racional” do time, e Ellen Page, sei lá como, INCITA carisma só de aparecer em cena. O resto do elenco, sem dúvida tentando almejar um papel no novo Batman, cumpre com louvor suas funções – destaque para Marion Cotillard, cuja beleza e presença são tão fortes que, mesmo quando ela não está em cena, sentimos sua “sombra”.
Para colocar uma ideia na cabeça de alguém, Cobb explica, é preciso reduzi-la à sua forma mais básica e plantar ela como uma semente na mente alheia. Pois bem. Logo no início de A Origem, Cobb pergunta a Saito “como você sabe que isto não é um sonho?”. É uma pergunta direta, objetiva, e relacionada apenas com aquela situação, com aquele momento. Mas essa pergunta planta uma semente na cabeça do espectador. Que vai sendo regada no desenrolar da película, absorvendo todas as informações e acontecimentos. Duas horas depois, assim como Cobb e sua equipe se propuseram a fazer com a vítima, Nolan conseguiu colocar uma ideia diferente na cabeça de cada espectador.
Ideias essas que vão suscitar discussões e pontos de vista completamente distintos após o espetacular plano final do filme.

Brincando de genialidade

Toy Story 3
5/5
Direção: Lee Unkrich
Roteiro: Michael Arndt
Elenco
Tom Hanks (Woody – voz)
Tim Allen (Buzz Lightyear – voz)
Joan Cusack (Jessie – voz)
Woody, Buzz e toda sua trupe ficam apreensivos com seu futuro quando seu dono Andy está arrumando as coisas pra partir pra faculdade. Quando um mal entendido deixa os brinquedos em FRENESI, eles se bandeiam pra uma creche, onde terão a atenção de crianças para sempre. Mas as coisas lá são meio NACIONAL-SOCIALISMO STÁILE, e agora eles precisam dar no pé antes que Andy vá pra faculdade e a vaca vá pro brejo de vez.
A Pixar vendeu a alma ao diabo. Única explicação possível. Após toda a devastação proporcionada pelo genial Toy Story 2, não achei que conseguissem manter o ritmo. Mas conseguiram. Toy Story 3 é uma acachapante coleção de insights inspirados, cenas enternecedoras, ação empolgante, criatividade desenfreada e emoção de sobra. Em algum lugar do mundo, Shrek chora de inveja.
“Alô, é da Dreamworks? Depressa, vejam se tem um carro cor-de-gelo estacionado na esquina!”
E já na primeira cena isso fica claro, pois Lee Unkrich nos reapresenta àquelas personagens cativantes em uma sequência de tirar o fôlego, apropriando-se do universo de faroeste com extrema competência. O que torna ainda mais impactante a montagem que vem a seguir, ilustrando o crescimento de Andy e o consequente abandono dos brinquedos em um velho baú. Aliás, a principal preocupação do filme é desenvolver as situações para que o espectador se envolva com elas, ao invés de apenas assistir – assim, quando Rex grita empolgado “ele me pegou na mão!”, o público ri por fora mas o coração DESFALECE por dentro. E, junto com toda essa carga dramática e nostálgica que temos pela gurizada medonha do Andy, vem uma trama que não soa repetida ou recauchutada, pelo contrário, obriga os brinquedos a se superarem cada vez mais para transpor os obstáculos (físicos e emocionais – o que dizer das cena de Woody na casa da Bonnie? Muitos filmes “adultos” não têm culhões de criar esse tipo de conflito). É uma evolução natural de Toy Story 2, que já era uma evolução natural do Toy Story original. Prova disso é o apreço do espectador pelas personagens, que recebe uma dose de fermento na veia e cresce exponencialmente ao longo da projeção. E também o buraco negro que devora as entranhas do público em uma cena específica onde a turminha de brinquedos aceita de forma serena o seu destino.
Enquanto isso o mundo criado por uns e zeros mostra-se encantador e cheio de vida. Impressionante como a criatividade dos caras não tem limite, e o número de sacadas visuais que a produção alcança ultrapassa o PIB de alguns países (tipo o ataque dos macacos, o bebê posando de “alcoólatra”, a transformação do Sr. Batata, o brinquedo que muda de rosto, o xilofone que Woody tenta usar como escada, e por aí vai). A ambientação criada para cada sequência também merece um brinde com copos cheios de cerveja, pois ilustra a vitória total da direção de arte – em determinado momento, por exemplo, graças à fotografia e à inventividade PIXARIANA, gavetas de brinquedos se transformam em um opressiva prisão (e duvido muito que Clint Eastwood conseguiria escapar dessa); em outro, a utilização de cores quentes transforma a creche em um paraíso com Scarletts Johanssons correndo nuas pela relva. Soma-se a todo esse APURO visual uma trilha deslumbrante composta por Randy Newman, que fatalmente abateu passarinhos pelas ruas e retirou deles a melodia ideal.
Mas o melhor de tudo é ver Woody, Buzz, Jessie, Slinky e todos os outros fazendo balbúrdias cidade afora. Cativantes como nunca, os protagonistas de Toy Story 3 pegam o espectador pela mão e o levam junto nessa jornada que começou quinze anos atrás – e o desfecho, em mais uma posição corajosa da Pixar, que não se rendeu a um final exatamente fácil, fará até mesmo Jack Bauer deitar em posição fetal no chão e chorar os RINS. Não sei se teremos um Toy Story 4 pela frente ou não, mas caso isso venha a acontecer, nada de preocupação: sabemos que a Pixar não está de brincadeira com essa galera.