Uma jornada inesperadamente irregular

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey)
3/5

Direção: Peter Jackson
Roteiro: Peter Jackson, Fran Walsh, Phillipa Boyens e Guillermo del Toro, baseados no livro de J.R.R Tolkien.

Elenco
Martin Freeman (Bilbo)
Ian McKellen (Gandalf)
Richard Armitage (Torin)
Andy Serkis (Gollum)

Quando Gandalf, aparentemente o grande agitador da Terra-Média, chega até o condado carregando treze anões e uma missão perigosa na mala de mão, o hobbit Bilbo Bolseiro se vê em uma situação complicada. Mas, mesmo assim, ele sai pra dar banda com a anãozada até a Montanha Solitária, onde Smaug, um dragão de TPM, guarda um tesouro e o lar que antes era dos anões. Mas claro que eles vão encontrar várias intempéries no caminho, porque só assim dá pra dividir o livro em dois filmes e ganhar mais grana.
Tem algo do avesso em O Hobbit. A trilogia Senhor dos Anéis foi composta de três filmes que se tornaram blockbusters, enquanto esta nova viagem à Terra-Média parece mais um blockbuster que se tornou um filme – composta por diversas cenas de ação ensandecida e CGIs, a película sacrifica o desenvolvimento das personagens e das situações dramáticas em prol de piadinhas e pancadaria, chegando até mesmo a fazer o mago Radagast parece um Jar-Jar Binks com cocô na cabeça (literalmente). Assim, apesar de divertido e empolgante em vários momentos, O Hobbit acaba sendo apenas um entretenimento passageiro e superficial.
“Tenho pão, frios e vinho, mas no momento estou sem desenvolvimento de personagens na despensa”
O principal problema da produção é um daqueles erros clássicos de blockbuster, do tipo que o cara encontra no “manual Michael Bay“: não há envolvimento dramático do espectador na história. As personagens, apesar do tempo incrivelmente longo do filme, não são bem definidas ou desenvolvidas (por exemplo, os 14 anões são fisicamente bem diferentes, e, mesmo assim, nunca dá pra saber quem é quem), apenas veículos para pancadaria ensandecida ou piadinhas em excesso (repetindo com frequência a porquice dos anões e a covardia de Bilbo – inclusive algumas fora de lugar, que quebram a tensão criada pelo filme). Não existe uma identificação com alguma das personagens, e até mesmo Bilbo, teoricamente o protagonista, se torna unidimensional ao longo da narrativa – como resultado, as personagens, ainda que tenham momentos mais inspirados (como a cantoria dos anões), se tornam um monte de pontinhos barbudos correndo e afiando seus machados em pescoços alheios. Há uma tentativa de atirar ali no meio alguma profundidade dramática, mas ela surge de forma súbita, sem antecipação, como o momento onde Torin fala (sobre Bilbo) “ele está perdido desde que saímos. Não deveria ter vindo”, sem que o hobbit não tenha feito nada de errado até ali, e quando Gandalf diz “tenho medo e ele me dá coragem”, mesmo que o mago tenha acabado de partir uma rocha gigantesca ao meio usando apenas um cajado, provando que ele não precisa ter medo de ninguém. Soa gratuito, e, no caso de Torin, apenas uma “pista-recompensa” para tentar criar um final emocionante (falhando na empreitada).
Entretanto, apesar de seguir por esse irregular trajeto blockbusteriano, onde ação e CGI são os protagonistas, O Hobbit consegue entregar uma aventura divertida e interessante, com diversas sequências empolgantes, momentos genuinamente engraçados e efeitos especiais que fazem o mundo real parecer uma casa velha e suja. Ainda que excessivamente longa e com bastante encheção de linguiça, a produção consegue manter um ritmo agradável, criando uma daquelas histórias aventurescas que fazem o espectador sair do cinema pensando “bem, é isso, preciso conseguir uma espada e alguns elfos”. É um filme de pura grandiosidade, que com certa frequência derrete o cérebro do público através de cenas memoráveis, como a já citada cantoria dos anões, ou as batalhas na cidade dos orcs, ou a briga entre as montanhas, e por aí vai. Há momentos bem desenvolvidos e envolventes (a reunião de colégio entre Gandalf, Saruman, Elrond e Galadriel é informativa e ajuda na conexão com a trilogia do anel), oferecendo um vislumbre de tudo que a película poderia ser caso não tivesse essa ambição de ser comediante – o melhor deles, provavelmente, é a cena entre Bilbo e Gollum: tensa, instigante, envolvente, ela parece ser o momento onde O Hobbit finalmente se despe das piadinhas frenéticas e assume uma posição mais adulta, colocando suas personagens em uma situação realmente desgastante. Mesmo se não soubéssemos as consequências, ela consegue transmitir a sensação de que algo muito importante aconteceu ali.
Outra boa notícia é que Peter Jackson continua com um olho bom para enquadramentos e movimentos de câmera, abusando bastante de planos abertos para dar uma ideia da dimensão da balbúrdia feita pela CGIzada. Nesse ponto, é impressionante o grau de “realismo” que O Hobbit consegue alcançar, já que, bem, nada daquilo existe de verdade, e o fato do espectador sequer perceber isso implica em anabolizantes para a equipe de efeitos especiais ou esquizofrenia coletiva. Existem até uma ou outra cena que quase atingem uma dramaticidade épica – como a corrida de Torin contra Azog no clímax -, não conseguindo apenas por serem sabotadas pela filosofia “garoto de 6 anos na piscina” (só quer ficar no raso) da história. Claro que, além dos Gandalfs da animação computadorizada, Jackson também conta com o auxílio de uma direção de arte espetacular (os ornamentos na barba do rei dos anões são uma escolha inspirada, e as linhas retas que compõe Erebor remetem bastante às minas de Moria, criando uma identidade entre as construções de seres barbudos e com menos de um metro e meio – sem contar o feliz retorno de cenários familiares, as diferenças físicas entre os integrantes da comitiva e a riqueza na diversidade de criaturas e paisagens) e uma trilha inspirada, que traz de volta temas da trilogia do anel ao mesmo tempo em que emprega novas melodias para marcar a produção e girar um pouquinho para a direita aquele botão de volume que tem “épico” escrito em cima.
Como já explicado no extenso, mas não tão extenso quanto o filme, terceiro parágrafo, a história não dá muita oportunidade para que as personagens consigam sair de sua situação enquanto verbos (aquele ali briga, aquele ali come, aquele ali lidera, e por aí vai). Assim, não há muito o que o elenco anãozístico possa fazer para ganhar destaque, e mesmo Richard Armitage, que como Torin tem mais destaque, pouco consegue fazer além de manter uma expressão de que algo realmente muito sério está acontecendo em algum lugar (mas ao menos ele tem carisma). Já Ian McKellen traz de volta e com naturalidade o velho mago mal-humorado e intenso, conseguindo expressar preocupação ou carinho apenas através de um olhar ou um tom de voz (e todas as cenas se tornam mais interessantes quando ele está por perto). O normalmente talentoso Martin Freeman, por outro lado, investe em trejeitos levemente exagerados para compor Bilbo, que logo se tornam repetitivos e minam o potencial cômico e/ou dramático da personagem. Enquanto isso, Andy Serkis e seu tradicional figurino de bolinhas que capturam o movimento (tendência para as próximas estações) realizam novamente um trabalho monumental como Gollum, tornando a criatura ainda mais complexa, cheia de olhares traiçoeiros e inflexões divertidas.
Em 2003, quando os créditos de O Retorno do Rei terminaram e os funcionários do cinema me expulsaram para fora do mesmo, a despeito dos protestos de “o mundo lá fora não tem magos nem Liv Tylers”, mal pude conter a expectativa de uma nova visita à Terra-Média. Pois bem, 9 anos depois, O Hobbit me levou de volta às planícies verdes e subterrâneos mal-habitados do lugar, mas, mesmo que seja uma experiência satisfatória, a duração em excesso da película e a narrativa acabam arrefecendo a empolgação. Resta esperar que Peter Jackson tenha aprendido uma lição com suas próprias histórias, descobrindo que até mesmo a menor das criaturas pode mudar o curso do mundo – ou, no caso, que até mesmo um filme sem três horas de duração e pancadaria desenfreada a cada 48 frames pode ser inesquecível.
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