É ferro na boneca pós-apocalíptica

Dredd
4/5

Direção: Pete Travis
Roteiro: Alex Garland, baseado nas personagens de Carlos Ezequerra e John Wagner.

Elenco
Karl Urban (Juiz Dredd)
Olivia Thirlby (Anderson)
Lena Headey (Ma-ma)

O Juiz Dredd e Anderson, uma juíza novata, são chamados em uma torre de babel genérica em Mega City One pra investigar um McGuffin. Logo eles se veem trancados lá com uma gangue sanguinolenta e a cobra começa a fumar sanguinolentamente enquanto Dredd e Anderson atacam seus inimigos com frases de efeito e balas (nesse nível de LETALIDADE).
Dredd é o filme que Os Mercenários deveria ter sido: joga em cena uma premissa básica, simples, só para que possa construir cenas de ação sensacionais e fazer suas personagens obliterarem tudo com diálogos curtos e certeiros. É um filme que não se leva a sério – e isso não significa que é um pastelão avacalhado, e sim que compreende sua dimensão de ser “apenas” um filme de ação, ao invés de apelar pro “vamos tornar isso sério fazendo com que o protagonista investigue uma conspiração que, ao final, eventualmente incluirá alguém do alto escalão da polícia/CIA/SWAT/força onde o policial está”.

E, como todo bom filme de ação desenfreada, tem uma mina gata.

Assim, antes que você possa dizer “uau, eu queria levar essa loirinha pra casa e…”, um monte de sangue 3D já espirra na galera. E o melhor é que, entre tudo aquilo que Dredd aniquila sem dó (e é muita coisa), está o achismo de que cena de ação massa tem camêra lenta + fast forward: as coreografias da película são tensas, violentas e envolventes, sempre deixando o espectador perturbado ao mostrar que ali a sanguinolência corre solta (Tarantino fatalmente curtirá). Os corredores escuros, claustrofóbicos, criados pela ótima direção de arte, também ajudam na empreitada, tornando o cenário um pote metálico gigantesco repleto de tensão. Enquanto isso, Pete Travis leva a pancadaria ao máximo, sem medir quem ou o que tenha que destruir no meio do caminho – e o fato de que tanto os vilões como Dredd acabam sempre tirando uma carta da manga pra superar o adversário é tipo o bacon em cima da pizza.
Além disso, a gangue que bota contra os juízes no filme distribui uma droga chamada “slow-mo”, que, como o nome indica, faz as pessoas enxergarem o mundo em câmera lenta. Uma situação que permite ao filme criar fantásticas sequências explorando o recurso, principalmente em momentos de ação, onde vemos o terror das pessoas antes de terem os miolos varados por testosterona em formato de balas. Chega a ser algo quase poético de tão bonito (e uma diferenciação na estética da violência atual, já que se preocupa com o visual da coisa toda, e não em simplesmente atirar sangue pra todo lado). Eli Roth inevitavelmente vai comprar o DVD e colocar na sua coleção na prateleira que diz “pornôs”.
Já o roteiro, como citado anteriormente, investe na simplicidade da história, oferecendo espaço de sobra para a ação bem coreografada pedalar a porta e entrar dando tapa na cabeça de todo mundo. Entretanto, isso é longe de dizer que o roteiro é ruim – pelo contrário, conhece a limitação da sua trama e trabalha dentro dela trazendo obstáculos cada vez mais difíceis e, essencial, frases de efeito devastadoras – momentos como “pare aí” “por que?”, ou “os criminosos não colaboraram” não apenas são engraçados e épicos como ajudam a criar a personalidade daquelas pessoas, mostrando que elas estão dispostas a cagar todo mundo a pai nem que pra isso tenham que cagar todo mundo a pau antes. E ainda sobra um pouco de espaço para tornar a relação “tutor/aluna” entre Dredd e Anderson bastante crível, sem apelar para pieguices, momentos dramáticos destoantes ou o famoso discurso no final quando alguém está em vias de morrer (mas não vai).
Completamente tomado pela testosterona – após um treinamento que aparentemente envolveu meses de futebol, cerveja e mulheres – , Karl Urban usa sua postura rígida e contida, seus movimentos concisos e sua boca bizarramente puxada pra baixo pra transformar Dredd em 1,80m de puros CULHÕES, convencendo o público de que aquele sujeito pode realmente arrebentar um inimigo só com um RANGER DE DENTES. Já Olivia Thirlby consegue tornar Anderson um pouco mais complexa sem soar frágil, mantendo uma hesitação no olhar em alguns momentos mas sem descambar para o complexo de mulherzinha (e o filme também foge do velho clichê de que o protagonista tem que salvar a mocinha, fazendo com que a personagem soe ainda mais forte). E Lena Headey cria uma vilã absolutamente hipnotizante: além de possuir uma beleza diferente, a atriz faz de Ma-ma alguém que olha todo o terror à sua volta com a displicência de um técnico da seleção brasileira, como se tivesse acostumada àquilo. Essa postura despreocupada, que apenas em um ou outro momento revela um pingo de tensão, faz da moça uma vilã mais assustadora – parece que todo aquele ambiente é natural à ela, e que ela sempre está um passo à frente.
No final das contas, Dredd acaba se tornando uma ótima surpresa. Pode não ter um roteiro dos mais complexos, nem significados mais profundos, mas faz muito bem aquilo a que se propõe. Tipo de filme pro cara assistir com uma garrafa de cerveja ao lado, um copo de cerveja na mão, um cooler de cerveja ao lado da poltrona e gritando “é isso aí!” a cada quatro minutos.
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