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Jogando com sonhos

Apesar das pataquadas que tenho disparado contra a atual geração de videogames, preciso confessar que o modo Rumo ao Estrelato do PES 2011 conquistou meu coração de uma forma que nenhuma mulher até hoje conseguiu (e provavelmente jamais conseguirá). Fiquei genuinamente feliz quando consegui minha primeira transferência pra uma equipe grande, sofri com o nervosismo na minha primeira final de UCL, vibrei alucinadamente com meu gol no finalzinho do jogo que deu a Copa América à seleção brasileira e assim por diante. Deu até uma pequena melancolia quando me transferi da Juventus para o Manchester United após quatro vencedoras temporadas.
Daí fico pensando se esses videogames atuais não são um “plano B” para aquelas brincadeiras e sonhos que tínhamos quando éramos crianças. Tipo quando o cara sonha em fazer um gol de título no apagar das luzes e depois aprende que a vida não é uma historinha da turma da Mônica, mas compra um PES e esfrega uma Liga dos Campeões na cara do destino. Ou então quando o pessoal brinca de mocinho e bandido com armas de brinquedo, e, percebendo que com armas de verdade a coisa ficaria meio nociva à saúde, pega o Red Dead Redemption e passa dias jogando. E não preciso nem citar o Rock Band e sua tentativa de sufocar um pouco mais o Tyler Durden dentro de cada um, né?
Ok, isso tudo soa meio patético, admito. Mas bem, vivemos em uma sociedade meio patética, fazendo coisas bastante patéticas, e de um tempo pra cá ser patético até meio que está na moda. De qualquer jeito, já que aparentemente tudo provavelmente vai acabar em Matrix mesmo, que ao menos algumas das simulações sejam de coisas que mexeram bastante com nossas cabeças quando ainda acreditávamos que a vida era gentil feito uma avó em dia de formatura do neto.
Agora com licença que o Manchester United não vai manter sua invencibilidade na temporada sozinho.

A crise dos sessenta

O Solteirão (Solitary Man)
3/5

Direção: Brian Koppelman e David Levien
Roteiro: Brian Koppelman

Elenco
Michael Douglas (Ben Kalmen)
Jenna Fischer (Susan Porter)
Mary-Louise Parker (Jordan Karsch)
Susan Sarandon (Nancy Kalmen)
Danny DeVito (Jimmy Merino)
Jesse Eisenberg (Daniel Cheston)

Michael Douglas interpreta Ben Kalmen, um sujeito velhaço, mulherengo e que, tal qual o Fábio Rochemback, estraga tudo aquilo que toca. Daí vamos acompanhando a trajetória dele enquanto o cara desfila filhadaputices por aí e vê o mundo tocar o terror pra cima dele, tudo polvilhado, claro, com a clássica mensagem de “ei, aprenda a dar valor ao que realmente é importante”.

Nos minutos iniciais de O Solteirão – mais uma vítima cruel das traduções bizarras de títulos -, o espectador fica com aquela sensação do tipo “ok, eu já sei o que vai acontecer”. E na real é um caminho meio óbvio mesmo, embora aqui e ali a película tente soar um pouco mais esperta e menos convencional do que se poderia imaginar.

Tipo sendo o 1° filme da história a fazer Michael Douglas não vestir um terno.

A principal cartinha de “Revés” que o roteiro tirou é a ausência de uma linha narrativa central mais forte, através da qual o público fosse carregado ao longo da projeção. Porque do jeito que a coisa foi finalizada, parece que Ben simplesmente ia de uma situação ruim a outra de forma aleatória, tipo o ATLÉTICO MINEIRO. Claro, existe uma conexão entre os fatos, mas faltam elementos para ir construindo aos poucos o arco dramático pelo qual o protagonista parece estar passando – assim, qualquer eventual mudança na consciência de Ben não parece ser resultado de um caminho percorrido, e sim porque alguém achou que só colocar o sujeito na desgraceira total ia render um processo por parte do Iñarritu. Então, a saída é adicionar algum aprendizado ali.

Para corroborar esse clima de que o protagonista é um sacana e que seus sentimentos são feitos de FALÁCIAS, os diretores empregam uma fotografia levemente dessaturada e que não curte muito cores quentes. Mas apostam em uma direção que, de tão convencional, poderia muito bem cursar Direito em alguma universidade do país – os planos praticamente não fogem de uma linguagem tradicional, com exceção do bom mas deslocado plano do frisbee (simbolismo de como a vida de Ben ia ladeira abaixo a partir dali) e de algumas transições com o selo de elegância “MULHER MELANCIA”. Ainda há de se salientar a ótima direção de arte, que consegue transmitir nos detalhes a personalidade solitária de Ben (roupas sempre pretas, óculos escuros, casa com decoração impessoal), e a trilha sonora, que começa com Johnny Cash, e uma trilha sonora que possui Johnny Cash sempre é sinônimo de título mundial.

Michael Douglas já interpretou papéis como esse o suficiente e possui carisma o suficiente para fazer com que o espectador goste de Ben Kalmes, mesmo ele sendo tão odiável quanto qualquer juiz de futebol. O resto do elenco se mantém em um nível convincente, até porque seu tempo em cena é reduzido, mesmo para coadjuvantes.

Somando tudo, O Solteirão ganha um dedão pra cima pelo seu final interessante, que tenta fugir da mesmice do gênero. Apesar de não conquistar o espectador, a película se mantém sempre atraente, talvez pela ironia de ver Michael Douglas interpretando um mulherengo. E já que estamos nesse tópico, o filme provavelmente se beneficiaria bastante se, como na vida real, Michael Douglas tivesse a deslumbrante Catherine Zeta-Jones para contracenar. Pena.

Crônicas da Discoteca – 1

A maioria das pessoas considera Godzilla, de 1998, um desastre tão grande quanto o réptil que estrela a película. E confesso, sou um dos que achou extremamente desnecessária a realização de um filme solo pro Tiranossauro Rex de Parque dos Dinossauros, do Spielberg. Mas eis que em uma longínqua aula de artes, lá pelos idos de 1998, um aparelho chamado “rádio” começa a tocar uma canção e um rapaz chamado “André” é tomado de assalto por ela. Meu então colega Guto prontamente identifica a dita-cuja como sendo a versão do Wallflowers pra Heroes, do David Bowie. Que, por acaso, foi feita para a trilha sonora de Godzilla. Que, se por um lado não amplificou a minha paixão por cinema, por outro deu o play no que viria a ser a minha paixão por música.

A trilha sonora de Godzilla foi o segundo disco que comprei na vida, sendo precedido apenas por um do Jorge Ben Jor que tinha aquela música do Tim Maia. Lembro que além de Heroes o disco também contava com uma canção famosinha (leia-se “música com videoclipe”) do Jamiroquai, mas eu não dei muita bola pra ela. Dançante demais. Eu estava atrás de algo como o riffzinho de guitarra no refrão da canção dos Wallflowers, que conseguia preencher uma sala inteira com melodia, que mudava drasticamente a canção sem realmete mudá-la. E encontrei nos à época corajosos versos de Untitled, do siverchair (“dreams are bad / when all they do is leave the truth behind”), ou na hipnótica e cativante A320, do Foo Fighters. Duas bandas que assumiram a posição de titular do meu time e não sairam mais, aliás.

Algo havia começado dentro de mim e não poderia mais ser parado, como um trem desgovernado gritando pelos trilhos ou o efeito dominó desencadeado pelo travamento de um simples programa do computador, obrigando a reinicialização do mesmo. Uma audição mais cuidadosa do disco me revelou novos sentimentos: a vontade de sair por aí dando VOADORA NAS PESSOAS enquanto a poderosa Walk The Sky, do Fuel, rola ao fundo; a lacrimejante descida de notas no dedilhado distorcido de Macy Day Parade, do Michael Penn; a possibilidade do coração bater no ritmo de um piano com a emocionante Air, do Ben Folds Five; e a vontade de conhecer um bar da Chicago dos anos 50 com Undercover, do Joey DeLuxe. Havia até mesmo uma Kashmir recauchutada na Come With Me, onde Puff Daddy pedia ajuda a Jimmy Page, e que, peço desculpas pela ignorância temporária, na época soava melhor do que a original.

Outro momento de imensa adrenalina ocorreu do primeiro ao último acorde de Brain Stew, do Green Day, que parecia rugir o suficiente mesmo se não houvesse o rugido do Godzilla na mixagem. Na verdade, essa foi a primeira canção do disco que me chamou a atenção. Mas era conveniente deixá-la por último no texto para fazer um link com o próximo post, Crônicas da Discoteca II ou Como um Garoto Magrela e Branquelo Começou a Ouvir o que Ele Imaginava ser Punk Rock.

Casamento rima com Neil Young

O Casamento de Rachel é um filme intenso, que não tem medo de atirar suas personagens na deprê total e ainda assim faz com que a gente goste delas. Sem histrionismos, sem exageros, sem apelações do tipo “ok, agora eu vou entrar por essa porta e opa, eis minha mulher beijando meu melhor amigo na boca”, apenas um roteiro construído com ternura e temperado com SAZON.

Daí ao longo da película a gente se apega à turminha que fica zanzando pela telona, tipo aquelas pessoas que o cara encontra de vez em quando na rua e pensa “puxa, eu REALMENTE preciso marcar de tomar uma cerveja com esse(a) sujeito(a)”. Então, quando acontece alguma coisa boa, mesmo que pequena, o espectador fica feliz por ver aquela galera sorrindo e tal. E se acontece algo sensacional, fora de série, um momento realmente arrebatador, então ele se torna instantaneamente um EQEL!.