Jogos, trapaças e um barbudo viajante.

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)
5/5

Direção: Kathry Bigelow
Roteiro: Mark Boal

Elenco
Jessica Chastain (Maya)
Jason Clarke (Dan)
Kyle Chandler (Joseph Bradley)
Jennifer Ehle (Jessica)

Após Bin Laden brincar de desmontar Lego com o World Trade Center e o Pentágono, uma equipe da CIA se arranca em uma caçada impiedosa ao barbudo. Maya, uma agente nova, chega já no início da fuzarca e, entre torturas e fracassos e pressões políticas e egos e ambições frustradas e solidão, passa 10 anos envolvida nessa caçada – mas será que, mesmo com o objetivo alcançado, é um final feliz?
Kathryn Bigelow já provou que é uma moça política. Enquanto seu ex-marido James Cameron sai por aí criando mundos, ela quer desvendar os significados deste mundo – algo que o brilhante Guerra ao Terror fez ao olhar para a vida dos desarmadores de bomba. E, neste A Hora Mais Escura, ela consegue mostrar não só a abrangência da caçada ao Bin Laden, mas o quanto ela significa, o quanto foi investido nisso (tanto no plano material quanto no psicológico), o quanto se ultrapassou a linha do aceitável, e por aí vai. É um olhar desmistificado, sem glória, sem patriotismo, mas com força suficiente para mandar o espectador para casa pensando no assunto.

Por exemplo, o filme aborda com pertinência a questão das armas nas filas dos banheiros.

O filme já começa intenso com uma cena de tortura que, sem ser exagerada ou gráfica em excesso, chega naquele status onde dá uma rasteira no espectador e fica socando a cara dele. É completamente impossível não se enternecer de forma definitiva ao ver um torturado soltar uma lágrima involuntária quando bebe um gole de água. De certa forma, ela define o sentimento americano pós 11/9: raiva, busca desenfreada por informações, tentativa de ganhar vantagem na força, vingança. E é emblemático que a novata Maya, claramente inconfortável assistindo a tudo (embora mostre personalidade ao decidir não usar a máscara), mais tarde passe ela mesma a realizar tais atividades com naturalidade. Essa caçada ao Bin Laden, na verdade, é uma guerra contra um homem só.
Mas Bigelow foge do maniqueísmo como Tom Hooper do bom senso, e a galera aqui não é um bando de torturadores malignos que tiram doces de crianças em seus momentos de folga: acompanhamos o esforço daquelas pessoas fazendo seu trabalho – esforço que, em caso de erro, pode resultar na morte de centenas de pessoas (como mostram os atentados) ou até mesmo de amigos (como na reunião com o médico). Até mesmo uma investida correta pode resultar em frustração: o número de dias que uma pista de Maya fica sem ser investigada por questões políticas, a tentativa de assassinato dela, os protestos, e por aí vai. Afinal, encontrar uma pessoa em um mundo enorme, uma pessoa que manja do riscado e sabe se esconder, é um trabalho descomunal.
Ainda que a quantidade absurda de informações não permita um maior aprofundamento nas personagens, é interessante ver alguns detalhes tipo Maya repetindo as falas de Dan, ou este desabafando que vai voltar para Washington porque precisa “fazer alguma coisa normal”, ou até mesmo o momento em que Maya e Jessica quase são mortas em uma explosão de bomba durante um jantar, mostrando que lá a cobra fuma o tempo todo (“não coma fora, é perigoso”, diz Maya a certa altura). O roteiro não se prende a convenções (ok, na maior parte) e prefere tratar as personagens como pessoas mesmo, que conversam sobre coisas rotineiras durante o trabalho, mesmo que o trabalho envolve alguma explosão ou tiroteio alucinado. Além disso, podemos ver situações que fazem jus ao “inteligência” na sigla da agência, como o momento onde descobrem que alguém está se escondendo em uma casa justamente pela ausência de rastros dessa pessoa lá ou o fato de que Maya usa uma peruca morena em alguns interrogatórios para não destoar tanto do interrogado e tentar estabelecer alguma identificação. Malandro esse pessoal da CIA.
Bigelow documenta tudo com a câmera na mão, em uma montagem agitada feito sábado à noite, mas sempre clara sobre o que está acontecendo (é um estilo documental que funciona bastante nesse tipo de produção). Junto com as ótimas fotografia e direção de arte (que passam uma atmosfera suja, árida, um clima de salão de festas no início da manhã após um churrasco de noite), a produção mantém um ritmo bastante enérgico (e essencial para as quase três horas de filme), tornando os acontecimentos em cena sempre interessantes. O ápice ocorre na invasão final: tensa a ponto de fazer uma disputa por pênaltis parecer um episódio dos Ursinhos Carinhosos, a sequência, que alterna entre a visão noturna em primeira pessoa dos soldados e a linguagem usada até ali, certamente desencadeará muitas gastrites nervosas na platéia. Completamente desprovida de trilha, essa cena é de uma intensidade assustadora – que provém não só da cena em si, mas também de tudo que sabemos daquela casa, prova de que houve uma cuidadosa construção do suspense (só a geografia da sequência que é meio confusa e poderia ser melhor estabelecida. Até entendo que geografia é chato, mas enfim, faz parte).
A Hora Mais Escura se beneficia ainda de um elenco homogêneo, que compõem suas personagens com carisma e eficiência apesar do pouco tempo de cena e da falta de aprofundamento (por exemplo, Jason Clarke consegue tornar Dan ao mesmo tempo amigável e ameaçador, sem recorrer a caricaturas). Mas quem carrega a balbúrdia mesmo é Jessica Chastain, que cresce junto com a sua personagem (reparem como a postura contida dela na primeira cena dá lugar a uma outra completamente desenvolta conforme ela ganha confiança, até mesmo desafiando superiores), tornando Maya obcecada com suas pistas e com o trabalho que tem pela frente – e a expressão de resignação que ela faz quando diz “eu não fiz mais nada” (uma daquelas belas frases de duplo sentido do cinema) é quase dolorosa. Chastain consegue trazer humanidade, ambiguidade, raiva (“vou detonar todos os envolvidos neste atentado”) e determinação para a personagem, carregando a história com facilidade.
Trazendo diálogos épicos do tipo “Tragam gente para matarmos!”, A Hora Mais Escura peca um pouco apenas por não se aprofundar mais nos dramas e histórias de suas personagens, tornando o arco dramático da protagonista um tanto superficial. Ainda assim, é uma obra poderosa, com um clímax envolvente e impacta o público sem piedade nenhuma. Uma granada em película, pode-se dizer. Porque, quer seja a tortura, os gastos, a violência ou a dúvida se tudo valeu a pena, A Hora Mais Escura levanta pontos importantes sem medo, contrariando seu título e abrindo um pouquinho de luz em cada assunto.
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