Filosofia só na superfície

A Viagem (Cloud Atlas)
2/5

Direção: Tom Tykwer, Andy Wachowski e Lana Wachowski
Roteiro: idem acima, baseados no livro de David Mitchell

Elenco
Tom Hanks (um monte de gente)
Halle Berry (muita gente)
Jim Broadbent (um grande número de pessoas)
Jim Sturgess (um número elevado de personagens)
Susan Sarandon (uma galera)
Hugh Grant (gente pra burro)
Hugo Weaving (uma turminha de personagens)

A Viagem segue diversas histórias ao longo do tempo, da época vitoriana até o futuro longínquo, explorando temas recorrentes ao homem como a luta pela igualdade, o amor, a perda e as conversas através de diálogos ruins. É tipo “Magnólia encontra De Volta para o Futuro“, mas sem a chuva de sapos. E o DeLorean. E o talento.
Fé, reencarnação, igualdade, sonhos, amor, ética, coragem. Desde que Tom Hanks caolho aparece nos primeiros minutos de projeção, A Viagem busca mostrar que estes são temas universais, repetidos em qualquer tempo, qualquer época, intrínsecos à natureza humana. Mas não encontra o que procura, acabando com uma série de historinhas superficiais e maniqueístas que expulsa o envolvimento dramático do espectador como se fosse um leproso (ou uma pessoa que não usa Instagram).

Hugo Weaving. Ou o Chapeleiro Louco em uma possível versão de Alice feita por Guillermo del Toro.

Não que o filme tire a cartinha “revés” do Banco Imobiliário o tempo todo: o início é bastante promissor, apresentando rapidamente (e de forma clara) as diversas tramas, com rimas temáticas interessantes (tipo a igualdade entre negros e brancos, hetero e homossexuais, idosos e, bem, não-idosos) e criando links interessantes entre essas temáticas (por exemplo, o Zachry do futuro tem uma tatuagem igual às dos escravos no passado). Além disso, dá pra sentir um gostinho de vitória ao ver algumas relações entre as histórias e o significado delas, que trazem sacadas inteligentes e adicionam umas gotinhas de limão à posição do filme (publicidade vira religião, “honre o cliente” sendo o tema de Soomy, ciência vira religião). Pra completar, todos parecem ter uma espécie de relacionamento à distância com outras personagens importantes (Adam com a esposa, Luisa com Sixmith, Cavendfish com o irmão e a queridinha do colégio, e assim por diante), ampliando assim o tema da reencarnação, da distância entre as “mesmas” pessoas em diferentes histórias. Parecia que tudo seguia por um caminho ensolarado e cheio de cercas brancas e pássaros cantando e internet banda larga sem problema de sinal.
Mas quando A Viagem começa a desenvolver as tramas, o espectador logo saca que algum Grinch cinematográfico passou por ali e roubou o Natal. Em primeiro lugar, há uma artificialidade nos diálogos e na mise-en-scéne do filme que compromete qualquer impacto dramático. É tudo tão coreografado que a emoção dá no pé, deixando só um monte de gente sem graça ali falando sobre umas coisas. Claro, não ajuda também o desenvolvimento das personagens ser deixado de lado, surgindo apenas nunca. O próprio desenvolvimento das tramas é fraco, apelando para coincidências, soluções fáceis, diálogos expositivos (tem alguém que, durante uma luta, fala “há ouro no seu barril, e eu quero, por isso vou matar você”. É sério. Não inventei isso. Ninguém em sã consciência teria inventado isso) e toda sorte de michaelbayzices disponíveis. O domínio que Vyvian tem sobre Robert, por exemplo, é forçado e súbito demais, claramente surgindo só porque a história apontou uma arma para o roteirista e disse “preciso que isso aconteça aqui ou não vai ter filme”, da mesma forma que o “Tive medo de você a vida toda” pronunciado por Tilda – que até ali era apenas um nome na trama -, tudo para colocar em cena uma série de, abre aspas, catarses dramáticas, fecha aspas, que deveriam elevar o espírito do espectador. Mas não elevam, claro, porque uma boa elevada de espírito exige o envolvimento do público com aquela galera, algo difícil de acontecer em uma colagem de situações típicas de filmes de ação e drama americanos (o roteiro é tão preguiçoso que usa cerca de sete mil vezes a cena onde alguém é salvo na última hora (eu contei)).
O pior de tudo (mentira, não é o pior, mas eu precisava de uma forma de começar a frase) é que, embora vista o acolchoado manto de “sou um filme que trata de temas profundos”, A Viagem polvilha maniqueísmo nas suas histórias sem nenhuma piedade. Há sempre um bem e um mal definidos, e praticamente todas as decisões “difíceis” são tomadas em prol de um benefício para todos que está totalmente, completamente, ridiculamente claro, causando uma eterna ausência de conflito – o que faz com que as únicas camadas das personagens sejam as que compõem suas complexas maquiagens, já que elas se tornam um poço sem fundo de unidimensionalidade. Somando esses aspectos a um roteiro que abusa de situações típicas hollywoodianas, com diálogos do nível de “o que é o oceano senão uma quantidade de gotas?”, tornam a produção nada mais do que uma frase de biscoito da sorte com três horas de duração.
Mas os diretores Tom Tykwer, Andy Wachowski e Lana Wachowski, solidários ao roteiro preguiçoso, realizam uma direção burocrática, não oferecendo nenhum diferencial à produção, o que também colabora para a detetização total de cenas memoráveis. Por outro lado, a direção de arte consegue conferir uma personalidade diferente a cada mundo (o futuro, por exemplo, tem neon alucinado nas parte externa das estruturas e usa bastante o branco para conferir impessoalidade as cenários internos), atingindo níveis vitoriosos também na reconstituição de época das tramas. Mas o grande destaque mesmo é a maquiagem, que por vezes consegue transformar os atores (e o fato de usar o mesmo ator ou atriz para diferentes papéis, seja feminino ou masculino, se adequa à ideia de falar de reencarnação que o filme tinha pensado em fazer na pré-produção mas não conseguiu colocar em prática).
Liderado por um Tom Hanks com a qualidade e entrega habituais, o elenco pouco pode fazer com um roteiro tão chinfrim e a constante mudança de histórias, então ninguém da turminha consegue um destaque muito grande (com exceção de Hugo Weaving, que se limita a olhar de baixo e cuspir as palavras para tentar ser malévolo). É tipo como se eles estivessem atuando dentro de diversos posts do Twitter.
Assim, A Viagem se propõe a ser um mochilão por diversos países onde a pessoa aprende muita coisa sobre a vida, mas tudo que consegue é simular um fim de semana na praia – um fim de semana chuvoso. Além da maquiagem desenfreada nos atores, há pouco no filme que consegue chamar atenção ou fazer alguma diferença. Os Wachwoski podem ter mirado o céu, mas acabaram no chão.
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