Enquanto isso, no corredor…

Dar susto nos espectadores é fácil: é só aumentar a trilha subitamente, colocar violentamente em cena um objeto fora de quadro, fazer portas e objetos se mexerem sozinhos, etc.

Agora, botar medo na gurizada é outra coisa. E eu digo medo MESMO, de deixar o cara tenso, nervoso, inseguro, exatamente como se o time dele estivesse tomando quatro a um no primeiro tempo de um clássico.

Pois bem, Stephen King sabe fazer isso em seus livros. Mas a imaginação do escritor normalmente é traduzida de forma… hã… ABSOLUTAMENTE TOSCA para as telas de cinema. Só que não avisaram o Kubric disso, e ele fez uma adaptação de O Iluminado que é genial, encagaçante, assustador. Enfim, um filme com várias cenas espetaculares, incluindo uma famosa e marcante que é um EQEL dos mais clássicos:

Ah, esses publicitários…

Todo mundo sabe que grandes anunciantes procuram veículos de comunicação com um grande volume de audiência para oferecerem seus produtos. Assim, não é difícil imaginar que a Claro vai preferir anunciar o seu iPhone 3G na Veja, e não na TiTiTi, ou que a Vivo vai optar pela Folha de São Paulo para vender o seu iPhone 3G, ao invés de usar como mídia o jornal de bairro da Lomba do Pinheiro.

Agora, convenhamos: isso já é demais.

(os grifos em azul são meus)

Quem eles pensam que são?

Vou tocar num assunto que eu ainda não tinha abordado nessa coluna até hoje. Uma das partes mais importantes de um jogo de futebol, mas que se acha, muitas vezes, mais importante do que realmente o é: o árbitro. O Kleiton havia postado um texto sobre eles naquela memorável semana em que invertemos os autores e suas respectivas sessões, mas ao assistir aos jogos deste final de semana alguns fatos me chamaram a atenção e eu quero compartilhar umas idéias com vocês.

Nossa própria cultura acaba superestimando esse papel. A gente costuma chama-lo de juíz, como se ele tivesse o poder para decidir tudo dentro do jogo. Muitos deles acreditam nessa máxima e a levam às últimas conseqüências. Se o árbitro decidir um jogo, é sinal de que ele não fez o que deveria fazer. Quem tem que decidir é o atacante! Ou, no máximo, o goleiro. Mas nunca a arbitragem. O àrbitro não está ali para julgar, mas para mediar uma partida.

Quem acompanha jogos da Europa e do Brasil percebe muito claramente a diferença entre os apitadores de lá e de cá. O futebol brasileiro é muito manhoso, beira à frescura mesmo. Qualquer esbarrãozinho de nada já é motivo para uma série acrobática digna de uma atração circense, seguida de uma interpretação de dor e sofrimento de encher os olhos. É, talvez a idéia de futebol-arte difundida em tempos passados tenha ganhado um caráter mais multimídia na era da globalização.

E a arbitragem contribui pra esse tipo de atitude fazendo o que chamam de “defender o craque”. Na boa? Craque pra mim não é quem cava um penalti, mas quem se levanta de novo, rouba a bola do zagueiro e bota ela na rede! Tá muito chato acompanhar um jogo de campeonato brasileiro hoje em dia, a bola pára toda hora. Ontem no jogo Atletico-PR X Grêmio foi marcada uma falta sete segundos após o ponta-pé inicial, daí pra frente a minha impressão é de que não tivemos uma sequencia de bola em jogo muito maior que esse tempo.

A minha idéia original era banir esta figura do espetáculo pra ver se o campeonato volta a ser formado por espetáculos propriamente ditos, mas como futebol envolve uma competição, uma disputa entre dois adversários, é impossível que seja realizado sem um mediador; porque daí a disputa ficaria a dois passos de virar batalha e os adversários, de virarem inimigos. Então já me contentaria com uma correção de nomenclatura. Ao invés de juíz, mediador. E é assim que vou me referir aos homens do apito daqui pra frente.

Com vocês, futebol:

A beleza está nos olhos de quem vê

Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness)
4/5

Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Don McKellar, baseado na obra de José Saramago

Elenco
Mark Rufallo
Julianne Moore
Gael Garcia Bernal
Danny Glover
Alice Braga

Uma epidemia súbita faz com que os habitantes de uma cidade fiquem cegos. Colocadas em quarentena, as pessoas deixam escapar seus instintos mais primitivos, enquanto alguns tentam manter a ordem com a ajuda da mulher de um médico, a única pessoa que ainda consegue enxergar.

Desde o início, Meirelles busca contextualizar o espectador na situação das personagens. Com a luz e o branco sempre estourados (em uma fotografia que, por vezes, torna-se quase monocromática), o diretor joga o filme em uma atmosfera que denuncia a cegueira das pessoas (definida como “um mar branco como leite”). Assim, ficamos não apenas sabendo da doença, mas conseguimos vislumbrar a angústia que toma conta das vítimas – e a utilização de enquadramentos tortos, reflexos, contraluz, entre outros elementos, ajuda a definir o clima de caos e distorção que toma conta da quarentena. E, graças a isso, cria sequências memoráveis, como a cena de sexo que parece lúdica e bela quando “vista” pelos olhos das personagens cegas, mas que torna-se suja e decadente quando “transportada” para a realidade.

Já o roteiro desenvolve bem os protagonistas, criando pequenas situações que, se parecem irrelevantes à primeira vista, ajudam a construir a personalidade das pessoas (como o cálice de vinho da esposa do médico, por exemplo, que mostra o tédio dela com a vida que leva). E a partir do momento em que as pessoas ficam cegas, elas mostram suas verdadeiras intenções. O desespero e o instinto de sobrevivência sobrepujam qualquer resquício de humanidade. À medida que as condições do local vão piorando, todos se tornam mais agressivos, mais individualistas.

Por outro lado, o grupo da ala 1 consegue se manter solidário, pelo exato motivo que estão ali: eles nunca se viram. Não há conceitos pré-estabelecidos com base em imagens, em aparências. Eles se enxergam (com o perdão do trocadilho) como iguais, justamente por estarem na mesma situação e passarem pelos mesmos dramas. Livres de julgamentos baseados em coisas superficiais – não é à toa que, em determinado momento, o primeiro cara a ficar cego diz a eles “como vocês são lindos”.

Porque eles se conheceram pela essência, pelo conteúdo, e não pela imagem. E, de acordo com o filme, essa é a verdadeira beleza da coisa.

O Eixo do Mau

Que os times cariocas e paulistas são favorecidos pela CBF, pela arbitragem, pela mídia e pelos vendedores de cachorro-quente, isso todo mundo sabe. Os caras devem estar se sentindo MUITO incompetentes, então, ao ver o Grêmio na liderança merecida de um torneio de pontos corridos, quando todos dariam o dedo direito para ver o Palmeiras ali na frente. Claro que nem tudo está perdido, e o Eixo do Mau continua tentando jogar o país todo contra o exército tricolor. Vejam esta manchete do site do Yahoo:


Pois bem. Ali na chamada diz que o Grêmio está acreditando demais no título, que não sente pressão (no contexto, dá a entender que o tricolor gaúcho não sente a pressão de ser o líder) e que já está tirando foto de campeão. Ou seja, a manchete ESCANCARA a arrogância do atual líder – e arrogância, todos sabem, é algo que nunca foi usado como motivação no futebol.

Aí abrimos a notícia e nos deparamos com o seguinte:


Opa. Um momento. A “pressão” citada no título da notícia não é a de ser líder, e sim a pressão que o CAP, próximo adversário, pode fazer em casa contra a equipe gaúcha. Ainda assim, a arrogância continua, pois os gremistas estão acreditando demais no título e… Espera. É impressão minha ou não há ABSOLUTAMENTE NADA na matéria a respeito dessa tal crença inabalável na liderança? Devo estar precisando usar um par de óculos PAULISTA OU CARIOCA, pois o que eu enxergo é apenas uma frase sensacionalista tentando fazer o Grêmio se passar por arrogante.

Mas, apesar de tudo, se mesmo com o campeonato tão disputado os caras já estão “posando para foto do título”, eles estão se achando demais. Digo, diz ali na notícia que… que… Ora, tem que dizer alguma coisa sobre isso na notícia, né? Afinal, tá na manchete, e estamos falando do jornalismo de um grande portal…

Além do mais, convenhamos, uma foto de campeão com a equipe VESTINDO O UNIFORME RESERVA E OS COLETES DO TREINAMENTO seria a representação gráfica ideal pra esse campeonato cuja imagem realmente não dá mais pra levar a sério.

(dá pra ler a notícia aqui ó )

Cada um com seus problemas

Eu já quebrei três vezes o braço jogando futebol. Já torci joelho, tornozelo, machuquei o pé e, o pior de tudo, já levei bolada no saco. Já tive minha cabeça acertada por um balanço em movimento, já escorreguei em uma rampa e bati de testa no chão, já me esfolei todo andando de bicicleta. Já fiz corte na perna sem nem saber como, já beijei o solo tentando pular um muro. Pra resumir, eu já fiz o que todo guri provavelmente também já fez.

E agora, apesar de realizar atividades físicas com bem menos frequência, estou com um novo machucado. Resultado dos exercícios na academia, lugar que eu vou quase diariamente? Não. De correr pra pegar o ônibus e, às vezes, subir nele em movimento? Não. De descer uma lomba escorradia durante uma visita do furacão Gustav? Não. Do futebol (cada vez mais) eventual, de alguma atividade caseira como movimentar uma porta pesada, de alguma fatalidade ocorrida em estado etílico?

Não. O meu machucado mais novo é resultado de ficar tempo demais DIGITANDO NO COMPUTADOR. Uma tendinite, dizem os médicos. Inflamação do tendão, ou algo assim. Mas pra mim faz bem mais sentido chamar de Síndrome da Vida Facilitada.

Gremista eu sou!

Quando é que a gente decide começar a torcer por um time? Eu realmente não me lembro se houve um tempo em que eu era pessoa e não era gremista. O que eu sei é que hoje, depois de tanto tempo, eu já teria inúmeros motivos para entender o porquê de ser torcedor do Grêmio. E a cada motivo que esse time me dá eu abençôo aquela hora que eu não sei se existiu: a hora em que eu virei Tricolor. Costumo dizer que enquanto todos os outros clubes do Brasil estão distribuídos em um espectro onde brigam para ver quem é o melhor, o Grêmio não é melhor nem pior, o Grêmio é outra coisa. O Grêmio é original.

O primeiro jogo que eu assisti foi um Grêmio 3 x 0 Corinthians, no tempo em que o time tinha Paulo Egídio e Bonamigo. Era a tarde de um sábado do final dos anos 80 e eu estava assistindo sozinho ao jogo na TV do meu quarto quando, no finalzinho do segundo tempo, meu pai acorda de sua tradicional cesta e aparece na porta: “Quanto tá o jogo, filhão?”; eu respondi com a maior naturalidade do mundo que o Tricolor goleava. E ele foi tomado de um entusiasmo tamanho que eu, na minha sabedoria infantil, não entendia a surpresa dele. Afinal, que outro resultado seria possível em um jogo entre um campeão mundial e um sequer campeão brasileiro na época?

Claro que depois daquele episódio eu já aprendi um pouco mais sobre este esporte onde nem sempre a melhor equipe sai com a vitória e que, também por isso, é tão viciante. Aprendi também sobre esse time tão diferente, tão empolgante! Um time que tem por tradição buscar forças não se sabe de onde para reverter situações onde o gremista mais fanático já está sem esperanças. Um time que tem por tradição a alma castelhana, trazida a campo e incorporada pela sua torcida. Um time que tem por tradição, não ganhar sempre, mas ganhar quando é preciso. Um time que tem por tradição transformar cada título em épico, seja da segunda divisão ou da Libertadores de América. Um time que tem por tradição mostrar um futebol aguerrido, tão peculiar que faz os adversários muitas vezes renegar seu futebol. Um time que tem por tradição surpreender a desavisada imprensa que o chama de zebra a cada conquista. Enfim, um time que se eu fosse descrever com uma só palavra, esta seria TRADIÇÃO.

E quer mais tradição do que aniversariar na semana farroupilha? Parabéns, Grêmio Foot-ball Porto-alegrense. Se nos teus próximos 105 anos conquistares metade do que já possui, teu futuro já será imenso.

Com vocês, uma outra coisa (com muito orgulho):