O dia em que eu fiquei trancado no elevador

Anteontem fiquei trancado em um elevador no trabalho. Eis a sequência de acontecimentos:

08h05m:
Entro sozinho no elevador e aperto o botão do décimo sétimo andar. Pouco antes do fechamento das portas, uma Morena Voluptosa (MV a partir de agora) se junta a mim vestindo roupas adequadas ao calor senegalesco. Como bom cavalheiro, fui extremamente discreto ao olhar para o decote.

08h05m35s:
Durante a subida, subitamente as luzes se apagam e o elevador para. O susto resulta em um grito feminino estridente, mas logo me recomponho.

08h06m:
MV e eu rapidamente nos rendemos ao primeiro estágio de ficar preso no elevador, a negação. Enquanto ela bota as mãos no rosto e diz “não pode ser”, eu aperto todos os botões do painel como se fossem plástico-bolha.

08h08m:
Nem sinal da energia voltar. Pergunto a MV se ela tem sinal de celular, questionamento respondido com a típica risada irônica de quem sabe das limitações de sinal de operadora. Ela faz a mesma pergunta e respondo que consegui acessar o Facebook.

08h09m:
Posto no Facebook dizendo que estou preso em um elevador. Ninguém aparece para ajudar. Descubro depois que a postagem recebeu 32 “curtir”.

08h10m:
O sinal do 3G se vai e leva embora a esperança.

08h11m:
Nada de energia, nada do elevador andar. MV e eu ficamos trocando olhares constrangidos. Ela pergunta se isso já tinha acontecido comigo. Respondo que sim, troco olhares constrangidos desde que tinha oito anos. Ela não ri.

08h14m:
Entramos naquele estágio das convenções sociais conhecido como “formulário”, onde as pessoas trocam informações sobre a natureza de seus trabalhos, tamanho das famílias, faculdade que cursaram, time para o qual torcem, tamanho do busto etc.

08h16m:
Descubro que MV cursa medicina e vejo minhas chances desaparecerem como lágrimas na chuva.

08h17m:
Ainda nada de elevador. Consigo encaixar umas duas piadas boas sobre medicina e subverto trinta anos de comportamento condicionado ao não erguer a mão solicitando um high-five.

08h18m:
MV parece um pouco mais à vontade e se empolga conversando sobre as aulas, disciplinas, professores e o aprendizado. Após a quarta expressão em latim, começo a cantar a música de Frozen na minha cabeça.

08h20m:
Percebo que nem mentalmente consigo atingir o tom de Elsa e volto à conversa, agora um solilóquio um tanto melancólico sobre ex-namorados. Sem saber direito o que está acontecendo e não querendo me comprometer, interajo através de um aceno de cabeça híbrido entre vertical e horizontal e que, tenho certeza, já vi em uma coreografia dos Backstreet Boys.

08h22m:
Minhas declarações compreensivas de desdém pela ala masculina e uma piada envolvendo o ex-namorado de MV, um bisturi, uma posição do Kama Sutra e muita dor parecem desarmá-la ainda mais. A conversa flui como se MV não fosse esculpida em mármore sexy e eu não estivesse vestindo uma camiseta do Batman.

08h26m:
A narrativa sobre ex-namorados cresce em intensidade. Começo um movimento para passar o braço ao redor dos ombros dela, mas ele é subitamente repelido por trinta anos de “a vida não é assim”.

08h30m:
MV interrompe o fluxo de decepções masculinas e fala que sou um ótimo ouvinte, alisando meu braço. Sorrio e sou simpático enquanto penso se no prédio há algum estabelecimento onde eu possa emoldurar o braço.

08h32m:
MV começa a me perguntar das minhas ex-namoradas e rir das respostas e das experiências. Por tudo que eu já li a respeito e vi em filmes e séries, tenho quase certeza de que estamos flertando.

08h32m32s:
Tiro o celular de canto e procuro por “flerte”. Sem sinal.

08h33m:
Como sempre acontece diante de possibilidades épicas, espero o inevitável momento em que o mundo vai acabar.

08h35m:
Sento no canto do elevador e ela senta ao meu lado. Conversamos sobre qualquer coisa que nos permita dar risadinhas e olhar um ao outro. Há um indício de tensão sexual no ar.

08h35m16s:
Sorrateiramente procuro por “tensão sexual” no Google. Sem sinal.

08h40m:
A conversa se intensifica. Pouco importa o que estamos dizendo, porque as palavras parecem povoar o espaço entre nós apenas para puxar um mais perto do outro. O contato físico entre as pernas dispostas lado a lado já é natural. Os olhares parecem mais tímidos, como que tentando esconder algo. A pele do meu braço roça na pele do braço dela, macia, lisa, e há uma certa eletricidade no ar. Viramos o rosto e nos olhamos, agora sem desviar. Os lábios entreabertos dela são o único indício de vulnerabilidade, e não precisa de mais do que isso. Estamos os dois aqui, só os dois, só nós existimos nesse universo paralelo, só nós existimos nessa realidade em que nos conectamos.

08h40m8s:
As luzes se acendem e o elevador volta a funcionar.

08h42m:
Levantamos com o movimento do elevador, dando risadas constangidas e sem saber direito como agir. Aqui jaz um clima romântico. Fico olhando para MV e toda sua voluptosidade e percebo que ainda há uma conexão. Penso em todas as vezes que não assumi o risco, que fugi para a zona de conforto e em tudo que não fiz e poderia ter feito. Trocamos mais um olhar e percebo que não quero MV na minha lista de “e se…?”. Ela me observa com uma curiosidade juvenil, um sorriso no rosto, uma expressão de expectativa, enquanto me aproximo do painel de botões. Viro o rosto na direção dela e lanço um olhar sedutor, perigoso, enquanto me obrigo a fazer algo digno de cinema e abro o painel e aberto o botão de trancar o elevador para que o universo congele por mais um instante para nós dois.

08h42m20s:
MV tem um faniquito bíblico e dispara um discurso ríspido sobre como acabamos de passar horas no elevador e que a situação era perigosa e finalmente temos a oportunidade de sair e respirar ar puro e eu arrisco botar tudo a perder trancando o elevador e que tipo de demente faria uma coisa dessas? e palavrões.

08h43m:
Aperto o botão e o elevador volta a andar normalmente enquanto fico tão vermelho de vergonha que minha pele começa a descascar.

08h45m:
MV desce no décimo primeiro andar com a expressão de raiva ainda tatuada no rosto, sem sequer um “tchau” de reconhecimento ou um sexo de despedida.

08h46m:
Reflito rapidamente sobre homens, mulheres, amor, nossas expectativas, nossos desejos, nossos corações quebrados, nossa impossibilidade de aceitar alguém que nos ama e decido desistir do compromisso e ir comprar cerveja.

08h47m:
Durante a descida, subitamente as luzes se apagam e o elevador para. Um grito feminino estridente rasga o ar.

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