Desliguem os celulares no avião

Em toda a minha experiência marítima – noventa e nove por cento fílmica e literária, um por cento adivinhística e zero por cento empírica -, um ensinamento parece se repetir ad infinitum: respeite o mar. É um lance tipo o mar é essa coisa gigantescamente colossal e temperamental e a qualquer momento pode decidir fazer com a água e com a gente o que nós fazemos com lupas e formigas, então a melhor atitude é sempre seguir as orientações que os jogadores de futebol dão nas entrevistas pós-jogo e ser humilde, manter a cabeça respeitosamente baixa e torcer para que o mar não esteja de ressaca.

Porque a água não é o nosso habitat natural. Nossa relação com ela nunca vai ser cem por cento harmônica uma vez que o simples fato de estar na água já é um evento; saímos do chão firme e estamos indo em direção a esse monstro que engole 70% do planeta e abriga espécies tão estranhas e desconhecidas que fariam uma faculdade de comunicação parecer um colégio de freiras. Respeitar o mar parece uma reverência justificada por algo que estava aqui antes de nós e vai estar aqui muito depois que toda a espécie for engolida por um videogame, até porque a imprevisibilidade de um sistema que não dominamos sempre estará um passo à frente de quem sair por aí se gabando (abraço, Titanic). Não, não há nada de leviano em relação ao mar.

Assim como não há nada de leviano em andar de avião. Toneladas de alumínio retorcido e equações matemáticas que jogam areia no olho da gravidade e simplesmente decidem peitar o horizonte. Anos e décadas e séculos de compreensão da física e evolução da tecnologia para fazer a humanidade escapar de suas limitações terrenas e testar empiricamente a existência das camadas da Terra. Comer amendoim no céu. Você já olhou pela janela de um avião em altitude de cruzeiro? É desconcertante. Algo que redefine a própria importância de “olhar pela janela”. Tal qual o mar, o céu não é o nosso habitat natural, e o simples fato de conseguirmos chegar até ele, que dirá voltar dele em termos calmos e pacíficos, é motivo mais do que suficiente para que a humanidade tenha cacife de botar o pau na mesa e falar “chupa que aqui é humanidade, caralho!”.

Manter o telefone ligado mesmo que a equipe da aeronave, essa maravilha da ciência que irrompe pelo infinito azul com a fluidez e a leveza e a aparência de uma gota de sêmen, mesmo que a equipe tenha solicitado o desligamento dos aparelhos eletrônicos nem que seja por quinze minutos, é tratar toda a aventura de forma leviana – e não há nada menos leviano do que um objeto que nem eu e nem você e nem nós dois juntos conseguimos levantar, mas o ar consegue, sendo que é o mesmo ar que não nos levanta e por aí vai. O sonho de voar alimentou a ambição de homens e mulheres desde tempos remotos, desde que observamos os pássaros planando com elegância por correntes de vento após depositarem seus resíduos em nossos ombros, e o mínimo que toda essa história merece é ver todo mundo apertando o botão de “desligar” do smartphone durante o período em que vamos deixar o porto para trás e ganhar os céus.

Ou, como diria um piloto experiente caso a vida fosse um filme: respeite o ar, garoto.

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Crítica | Vingadores: Era de Ultron é o petit gateau da Marvel: bom, porém seguro

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Após o flashmob alienígena em Nova York no filme anterior, os Vingadores continuaram marcando reuniões para ir atrás do objeto fálico de poder que Loki carregava consigo. Então Tony Stark, que aparentemente nunca leu um romance de ficção científica na vida, cria uma inteligência artificial fodona que decide dar CTRL+ALT+DEL no planeta inteiro.

Um bilhão e meio de dólares. Foi o que o primeiro Os Vingadores arrecadou em bilheterias ao redor do mundo – sem contar DVDs, Blu-Rays e outras quinquilharias merchandísticas. É uma fonte de renda muito grande para que alguém com culhões tente arriscar alguma coisa com ela, que dirá a desculhonada Marvel. Assim, Era de Ultron é exatamente o que se espera dele, acerta exatamente onde se espera que acerte, erra exatamente onde se espera que erre, e, no final, acaba sendo como uma noite de bebedeira: divertido, porém esquecível.

A ideia de ficar no mais do mesmo já estampa a primeira cena do filme, quando as personagens são apresentadas através de um longo plano que, entrincheirado no meio da ação descontrolada, vai “descobrindo” cada uma das pessoas que vingam. A partir daí, é o tradicional combo “piadas + ação + desenvolvimento emocional raso” da Marvel, onde os dois primeiros tiram ótimos momentos da cartola: com um número grande de personagens que se vestem de forma tão peculiar, Era de Ultron consegue estabelecer uma dinâmica divertida entre elas ao colocar questões bem mundanas no meio de uma trama de proporções épicas (como a comparação entre Jane e Pepper) ou apostando nas diferenças de personalidade (Capitão censurando o Homem de Ferro e vice-versa).

Além disso, Whedon manja muito desse lance de diálogos e sabe preparar bem o terreno. Com frequência as piadas são resultado de uma cena objetiva do filme, pipocando de forma inesperada – e isso vale tanto para o falatório (“eu vou me render”, “o martelo sobe no elevador”) quanto para um humor mais, digamos, visceral (“alguém cuide daquele bunker”). E é essa abordagem descontraída, fazendo os heróis parecerem meio que uma mesa de bar na sexta à noite + poderes, que torna as duas horas da película tão agradáveis, embora em um número consideravelmente grande de vezes o humor bata o joelho na quina da mesa (vamos lá, fazer piada com “isso é o melhor que você consegue fazer?”. Estamos em 2015!) e o roteiro force o Homem de Ferro a dizer coisas engraçadinhas que não são tão engraçadinhas assim.

Falando em roteiro, Era de Ultron não tem lá a mais elaborada das histórias e, francamente, nem precisa. Fica bem claro que o lance é dividir o filme em quatro momentos de quebra-pau ensandecido, sendo eles a) o inicial, b) quando Ultron surge, c) quando a Feiticeira brinca com o ID de um dos heróis e d) o clímax, e a função da trama é proporcionar a violência. Ainda assim, mesmo que a suspensão da descrença esteja apagada no canto da festa em semi-coma alcoólico, uma que outra vez dá vontade de abrir os braços e gritar “peraí, vamos lá, né?” (qual é o lance com aquela piscina do Thor? E até quando alguém aparecendo no último segundo vai ser um recurso utilizado?). Por outro lado, a escala da coisa vai crescendo de forma eficiente e o plano geral do Ultron soa como uma ameaça bem palpável.

Infelizmente o Ultron em sim é nada memorável, um amontoado de metal cuidadosamente polido e cortado sem muita personalidade ou motivação – eu realmente não entendi por que ele queria dar cabo dos Vingadores. Aliás, motivação é algo anêmico no filme, passando pelos irmãos Maximoff (que possuem tipo o carro popular das motivações dramáticas) até os conflitos e mesmo flertes do grupo protagonista, que não chegam a soar realmente justificados. O próprio filme perde muito ritmo na inexplicável fuga para um “abrigo”, quando todos têm seus conflitos emocionais acionados no mesmo momento e de forma muito súbita, como se a professora tivesse chegado no meio da ação e falado “pessoal, chega de brincar, agora é hora do lanche emocional”. Como essas questões não chegam a ser realmente muito profundas ou envolventes, já que Era de Ultron não pode tomar nenhuma decisão que incomode muito o público porque bilhões em bilheteria, o intervalo não atinge a intensidade necessária e sua única função no filme acaba sendo permitir que o público vá ao banheiro sem prejuízos.

Já em termos de ação, aventura e tudo mais, não há do que reclamar: Era de Ultron é de encher transbordar os olhos. Alguns problemas menores com o CGI dão as caras (principalmente nos bonecos digitais), mas, de resto, é uma megalomania destrutiva que não tem medo de exagerar, resultando em um frenesi de socos superpoderosos e raios e prédios caindo e efeitos especiais que merecem brindes de cerveja. Whedon consegue mostrar a sintonia dos heróis em coreografias conjuntas – as envolvendo o Capitão e o Thor são particularmente inspiradas – e aproveita o máximo das habilidades de cada um em cena. Além disso, presenteia o público com um travelling circular em câmera lenta que é coisa linda de Deus e já entra para a seleção de melhores cenas do ano. E a produção ainda conta com um elenco entrosado, que possui uma ótima química e carisma , embora quase ninguém ali consiga realmente se destacar – a exceção fica por conta de Elizabeth Olsen, que constrói a Feiticeira com uma vulnerabilidade cativante (percebam que, mesmo nas sequências de luta, ela parece assustada) e é responsável pelo único momento dramático do filme que passa longe de ser estéril.

Pena que o segundo ato do filme se perca em draminhas superficiais e uma tentativa de tornar o Gavião Arqueiro uma personagem mais relevante (a própria Viúva Negra fala uma hora “fingir que ele é importante nos mantém unidos”), tempo que poderia ser melhor aproveitado em arcos dramáticos mais concisos. Aliás, não entendo porque a Viúva não é mais explorada, pois sem dúvidas possui a personalidade mais complexa da turminha e, tipo, é espiã, e personagens espiãs são um poço sem fundo de possibilidades e segredos. No final das contas, ela acaba sendo o melhor canal de identificação do espectador com o filme – algo que talvez melhore ainda mais com a presença da Feiticeira a partir de agora. Mas isso é no futuro; no presente, Vingadores: Era de Ultron (na real não é uma “era”, né? Mal e mal deve ser um mês) não sai dos parâmetros seguros definidos pela Marvel e parece querer jogar pelo empate, e o lance sobre times que entram para empatar é o seguinte: eles nunca conseguem ser cativantes.

Nota: 3/5

Menos números, mais Atlas

Sites com dicas de viagens são incrivelmente úteis. Eles ajudam a economizar tempo e dinheiro, a descobrir atalhos, compreender obstáculos, decifrar enigmas – tivesse eu utilizado o artifício de percorrer blogs e páginas especializadas antes de viajar para a Europa, provavelmente o mistério de descobrir como se atravessa a rótula para chegar ao Arco do Triunfo, em Paris, fosse exigir menos tempo e muito menos ofensas ao sistema atravessário de rótulas francês. Uma simples informação pode evitar que você literalmente fique andando em círculos à procura de um mínimo sinal de como seguir em frente, como se uma viagem fosse um adventure point-and-click dos anos 90, e a quantidade de informação objetiva dispensada por milhares de sites www afora é tipo maior do que qualquer hipérbole sem graça que eu fosse colocar aqui.

Ando sentindo falta de coisas menos objetivas, entretanto. Menos embasadas em números, menos argumentativas; mais reflexivas e pessoais. Algo que não tente capturar outro algo como esse algo é, mas sim como o escritor/escritora vê esse algo. Uma interpretação da realidade, trazendo associações diferentes e desenvolvimentos diferentes e todas aquelas coisas que fazem um texto evoluir até um determinado ponto onde o leitor compreenda aquele ponto de vista mesmo que construído sobre lógicas muito particulares.  Que não seja apenas útil, ou necessariamente útil, mas que ao menos provoque algum tipo de reação – diversão, iluminação, catarse etc. Frequentemente alguém consegue pegar esse grande fuzil de precisão que é a escrita e acertar em cheio na definição de determinado objeto/pessoa/local, e ler esse tipo de coisa sempre provoca aquele sorriso involuntário e redecora a sala de estar do nosso cérebro para que a gente consigo incorporar esse tipo de reflexão.

Ainda lembro o quanto Nick Horby parecia estar me descrevendo ao falar de futebol em Febre de Bola. Ou como Borges usou um simples brioche para falar de Paris em Atlas, o maior conjunto de relatos de viagens desde que o universo era uma bolinha anti-stress de energia e decidiu explodir. Claro, não espero que a cada megabyte caminhado apareça um Hornby e muito menos um Borges, mas mesmo textos menos ambiciosos podem se tornar incrivelmente particulares e envolventes – já falei aqui sobre o artigo que contempla um adulto aprendendo a dirigir, e este Leite Moça é melhor que Nutella despeja verdades sem piedade nenhuma. Eu mesmo tentei fazer algo do gênero falando sobre Paris, embora com uma taxa de sucesso incrivelmente inferior.

Porque sites de viagens que postam as dicas, os atalhos, os jeitinhos, as informações etc são incrivelmente úteis. Mas, gostando ou não, realizar uma odisseia para conseguir atravessar a rótulo e chegar ao Arco do Triunfo me deu uma história.

Olha ali o tempo fugindo com o que sobrou dos chocolates.

Talvez a principal métrica da passagem para a vida adulta seja o tempo. Ou melhor, a falta dele, a incapacidade de conseguir organizar e fazer tudo o que se quer organizar e fazer, uma pertinente corrida em direção à parada quando o ônibus recém engatou a primeira marcha e marcha para longe. Entre trabalho, projetos, lazer, momentos significativos com as pessoas que sentem a nossa falta quando não estamos por perto, epopéias desconcertantes em busca de um mínimo sequer que seja só um pouquinho mesmo tá bom de sexo, parece que o relógio está sempre um pouco apressado e um pouco na frente. Fico pensando às vezes se não é o contrário, se não é o tempo que está rodando em FF e nós estamos na velocidade normal.

O próprio ato de postar aqui no blog meio que surge como um lembrete de tomar remédio, e não apenas como uma vontade natural porque essa vontade se divide entre Graça Infinita, Netflix, DVDs, filmes, outros projetos escritísticos, cervejadas, saídas, Xbox, Xvideos, timeline do Twitter enfim, um vistoso e diversificado leque de coisas que poderiam estar sendo feitas mas não estão sendo feitas e estão tipo queimando ônibus e vandalizando caixas automáticos de bancos dentro do cérebro para chamarem a atenção e finalmente serem feitas. Difícil dar a descarga na sensação de que a cada segundo algo está deixando de ser aproveitado (já me disseram que isso é medo da morte. Já me disseram que é falta de organização, também).

Talvez isso seja sintomático de uma época que viaja em pílulas de DDA, onde os próprios portais de notícias não se cansam de colocar manchetes tipo “Cachorro parece estar dançando feliz ao som de Anitta” e “Motorista bêbado capota ônibus e mata vinte e três” lado a lado. Talvez seja questão de saber priorizar as coisas, o que não deve ser fácil, uma vez que a priorização pessoal não é como a priorização corporativa e depende de critérios subjetivos e muitas vezes variáveis e em geral é uma merda do cacete de fazer porque a cabeça fica mudando de ideia o tempo todo, caralho. Talvez seja questão de costume.

De qualquer jeito, é frustrante. Toda hora ganha parece também uma hora perdida. Enquanto escrevo aqui, 600 páginas ficam abandonadas em Graça Infinita. Enquanto leio Graça Infinita, a lista de filmes e séries do Netflix diminui. Enquanto a lista de filmes e séries do Netflix diminui, os templários e os assassinos não se enfrentam no Xbox. Meio que não há para onde fugir. A vida é uma grande festa, repleta de músicas bregas e comida boa e gente cérebrodesligadamente bêbada e sobremesas deliciosas, mas não dá para fazer tudo. Enquanto estamos preocupados enchendo as canecas de chope, o tempo está fugindo com o que sobrou dos chocolates da mesa de doces.

A fantasia definitiva

Ele estava na minha mão quando levantei sofá. E talvez “levantei do sofá” não seja tão preciso quanto “fui ejetado do sofá por uma poderosa onda de adrenalina, e uma daquelas ondas de tsunami com o tamanho de um desastre”. Segurava ele só com a minha mão direita, apertando em uma das extremidades ergonômicas que o fazem encaixar tão bem entre os dedos, anos e anos de engenharia para esconder placas e circuitos debaixo de um design elegante e não-ofensivo. A energia cinética que bombeava inquietação pelo meu corpo tomou conhecimento disso, do peso, tamanho, formato, aerodinâmica dele, percebeu se tratar de um objeto maciço o suficiente para percorrer os princípios básicos da física mecânica com a graça, harmonia e estoicismo exigidos no momento. Olhei para a frente, sem saber o que procurar. Um pouco à direita, a porta da cozinha e um espaço desconvidativo e, por que não?, até certo ponto sagrado. Um pouco à esquerda, um piano antigo abarrotado de fotos antigas e lembranças de épocas melhores. Entre os dois, cerca de trinta centímetros de parede. Limpa. Branca. Vazia. Submissa. Uma tela esperando ser pintada.

Instintivamente recuei o braço direito, utilizando a mão esquerda e movendo a perna esquerda para o mesmo lado para que impulso + equilíbrio se abraçassem como velhos amigos. Nunca joguei ou vi uma partida de beisebol na vida, mas neste momento, realizando este movimento, eu poderia estar no centro do Fenway Park, perto daquela almofadinha marrom e esperando o apito ou seja lá qual sinal beisebolzístico dá início à jogada. Dizem que o medo da morte é um arquétipo, conceito comum a todos os seres humanos independente de nacionalidade, idade, educação etc, e, tomando consciência do coreografia inconsciente que estou fazendo, cruza pela minha cabeça a ideia de que o lançador de beisebol também seja um arquétipo.

Tudo se move em câmera lenta para que a expectativa do acontecimento possa ser sugada até o nariz sangrar de tanta antecipação. Já consigo sentir o cheio das gargalhadas histéricas e lágrimas de êxtase que vão preencher o universo inteiro, um daqueles momentos que separam o mundo entre o antes e o depois, o zênite de tudo que a humanidade foi é e será, o vai se fuder mais bigbangeano e definitivo que alguém já imolou em cima dessa tecnologia, cacete. O vento sopra dramaticamente pela janela e a iluminação fica mais heróica. Termino de arquear o braço e começo o movimento para a frente. A um quilômetro dali, as pessoas sentem que algo vai acontecer. Janelas trincam. Os animais se tornam inquietos. As crianças choram. Em algum lugar, Carmina Burana começa a tocar.

Então vem o superego, vestindo sua camisa engomada para dentro das calças e seu cabelo lambido para trás, arrumando os óculos e conjugando os verbos corretamente, e injeta um pen drive no sistema límbico para disparar o vírus “e se…?”. No meio do agora desconjuntado passo beiseboliano, hipóteses começam a se formar. Preços. Gastos. Dívidas. Atitudes impulsivas. A melhor decisão. Arrependimento. Desespero. Niilismo. A melhor decisão. Oquevoufazeragorafobia. Tudo acontece em milésimos de milésimos de segundos, mas é o suficiente para jogar uma âncora e iniciar o longo e doloroso e broxante e frustrante processo de hesitação. De repente, toda a certeza se esvai e o que sobra é a melhor decisão a longo prazo, a escolha que trará mais benfícios para todas as pessoas e coisas do mundo em todas as circunstâncias e características possíveis. E é impossível fugir dela.

Desvio o olhar por um segundo. Minha visão encontra a tela da TV, onde simulacros de uniforme correta e bagaceiramente idênticos aos da vida real celebram o gol fisicamente impossível que me eliminou da competição. Quando me dou conta, estou observando a graça e a harmonia com que o controle do Xbox percorre o trajeto até o choque kamikaze contra a parede da sala.

De carros e caracteres

Já faz um tempinho que eu parei de ler sinopses de filmes. Quer dizer, não parei parei, não da mesma forma que comidas fabricadas e entregues em avantajados veículos automotivos pararam de ser baratas, por exemplo, ou que o Johnny Depp parou de fazer filmes bons. Só cheguei em um ponto onde ler a sinopse não é mais uma etapa capital do processo, e, muitas vezes, assisto à produção por indicação de amigos/conhecidos em cujo gosto confio ou graças aos artistas envolvidos (se David Fincher fizer um épico bíblico de quatro horas sobre a vida de uma telha, estarei lá no primeiro lugar da fila e lendo o verbete sobre “telhas” na Wikipédia para entender as sutilezas).

Isso passou por um lance que é tipo uma epifania sem banheiras ou eurekas! onde o meu córtex pré-frontal, em um raro momento de sobriedade, percebeu que o assunto de um filme não é tão importante quanto a abordagem – tramas megalomaníacas podem resultar em mergulhos espirais em direção ao fracasso (abraço, A Viagem!) e histórias simples podem resultar em produções acachapantes (abraço, O Lutador!). Meio que não há como saber antes de assistir, e, tal qual acontece com a chuva, o que dá para tentar antecipar são alguns sinais que eventualmente podem estar enganados (abraço, Lincoln!).

Parece lógico também que tal característica se estenda à literatura, ou seja roubada dela, já que antes do cinema veio a literatura (e antes de literatura veio Borges). Lembro bem de um conto do Tchekov (escolha sua grafia favorita) chamado Uma História Enfadonha que, com assunto aparentemente enfadonho e personagens aparentemente enfadonhas, nada tinha de enfadonho graças à maestria com que o russo despejava as frases nas folhas enquanto provavelmente enchia o cu de vodka e brigava com a Ucrânia ou qualquer dessas coisas que os russos fazem.

Dia desses topei com esse The Driver’s Seat na New Yorker, um daqueles relatos obliterantes que acendem o pavio para explodir a inveja escritística no leitor. O tópico não poderia ser mais banal – as percepções de um sujeito na meia-idade que só agora está aprendendo a dirigir -, mas o escritor Adam Gopnik consegue dar ao texto o mesmo nível de fluidez que ele não consegue dar ao carro, atirando a todo momento observações pertinentes, associações longínquas mas pertinentes, relacionando a experiência com outras experiências e conseguindo extrair dela significados que ultrapassam em muito o simples deslocamento via combustível fóssil.

Sugiro que todos (que otimismo falar no plural) se sentem em uma poltrona conforável, peguem uma cerveja/café/água/refrigerante/Toddynho e se preparem para alguns momentos de inspiração impressa. Aqui um tira-gosto (tradução livre):

A discrepância entre dificuldade e perigo é a assinatura da nossa civilização, de metralhadoras a bombas atômicas. Você pressiona um pedal e duas toneladas de metal descambam pela avenida; você puxa um gatilho e vinte inimigos morrem; você aperta um botão e cidades queimam. O ponto de vivver em uma sociedade tecnologicamente avançada é que o mínimo de esforço pode produzir o máximo de resultado. Facilitar o que é difícil é o caminho para a conveniência; é também o caminho para a catástrofe. Perceber o quão perto do desastre estávamos a cada momento ajudou a acionar o meu botão do pânico, e, enquanto a cantoria e os comentários do Arturo ajudaram a reduzir um pouco do pânico, eu tentei encontrar outras formas de supará-lo.

Tríceps corda enquanto exercício de criatividade

Recentemente voltei a frequentar a academia, após quase dois anos dizendo que eu gosto dos exercícios físicos só como amigos. É uma reconciliação difícil – menos pelos horários e pelo investimento monetário e mais pela dor lancinante que hiperboliza o peso da idade ao longo da primeira semana pós-retorno. Mas a quantidade de benefícios proporcionados pela atividade física é de aproximadamente UMA CARALHADA, e não vou citar eles aqui porque todo mundo deve receber sua dose diária de informação acadêmica via postagens do Instagram, então o melhor a fazer é ficar quieto e se juntar ao movimento de NO PAIN NO BODY HEALTHY ENOUGH TO DRINK TONS OF BEER ON THE WEEKENDS.

Entretanto, uma vantagem insuspeitada trazida pela recorrente movimentação de placas pesadas através de um sistema de cabos é a inspiração. Muita gente não gosta de academia por ser uma atividade intrinsicamente repetitiva repetitiva repetitiva repetitiva, uma coleção de movimentos curtos e concentrados e controlados e executados em séries até a exaustão. Mas descobri que fazer esse esforço e fazer de novo e de novo pode ser libertador: a abordagem automática dos movimentos, que não exige nenhum esforço racional além do cuidado para evitar que coisas pesadas caiam em cima do pé, permite que a mente faça check-in e embarque nas viagens mais aleatórias, faça novas associações, assimile as possibilidades do ambiente, risque seja lá qual for o fósforo cerebral que produz aquela faísca de insight, porque a alternativa – ficar contando modorrentas oito ou dez ou doze ou quinze vezes enquanto os braços sobem e descem com cada vez mais dificuldade – é de uma chatice quase terminal.

Além disso, exercício libera uma substância qualquer que exercícios liberam (não a gordura, porque essa eu ainda tenho de sobra) e que é criatividade-friendly, fazendo com que as séries de rosca concentrada unilateral não apenas construam bíceps mais proeminentes, mas também ideias mais proeminentes (é sabido por todos que Charles Dickens não abria mão de uma pernada pelas margens do Tâmisa, embora historiadores ainda não tenham chegado a um consenso sobre se o famoso autor de Oliver Twist treinava rosca concentrada unilateral ou não (de fato, Dickens parece mais o tipo de sujeito que escolheria uma aula de Circuito Funcional)).

Há inovação na repetição. E vocês não sabem como essa afirmação torna menos obliterante pagar a mensalidade da academia.

Crítica: A Teoria de Tudo, de James Marsh

Stephen Hawking é um estudante inteligente, dedicado, criativo e que assistiu muitas vezes aos filmes do Rocky, porque a vida tenta nocautear o cara com escleroses laterais amiotróficas e traqueostomias e o sujeito simplesmente não cai. Pior que isso: conforme a doença vai sendo ainda mais filha da puta, Hawking vai descobrindo mais coisas e construindo mais coisas e conquistando mais coisas e até mesmo pegando mulheres gatas. Respeito.

A Teoria de Tudo é um filme adolescente. Não no sentido de público-alvo, como aqueles Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado ou American Pie, mas no sentido de que não sabe muito bem o que quer da vida, não se decide entre ser uma cinebiografia edificante sobre o Stephen Hawking ou um retrato do casamento dele com a Jane. E, apesar da atuação monstruosa de Eddie Redmayne e de não se entregar ao drama piegas, o filme acaba não conseguindo ser eficiente em nenhuma das duas propostas.

Isso porque a película vai empurrando a história sem se preocupar muito em desenvolver os elementos. Por exemplo, já no primeiro encontro entre Stephen e Jane ficamos sabendo o que cada um quer da vida, só que não há muito espaço para trabalhar a química entre eles. As coisas acontecem de forma meio desconjuntada, e não dá pra ter uma visão muito clara sobre as conquistas de Stephen Hawking ou mesmo a passagem do tempo, a forma como a relação dos dois evolui com os anos. Além disso, A Teoria de Tudo bate com o joelho na quina da mesa graças ao caráter episódico da trama (quando Stephen ganha reconhecimento, começa o problema de Jane) e alguns diálogos incrivelmente expositivos (“sabe que foi você que escolheu fazer PhD em física na melhor universidade da Inglaterra, né?“).

A coisa às vezes é tão “linha de produção” que, após Stephen realizar uma operação perigosa e da qual podia não sair vivo, a primeira cena em que Jane vê ele traz a moça usando um quadro de soletrar para superar as dificuldades de comunicação. A produção não mostra carinho, preocupação, consideração entre eles, apenas o momento onde alguma dificuldade atrapalha e/ou é superada – Jane é praticamente uma máquina de otimismo, sempre surgindo com uma solução e tocando a coisa para a frente.

Por outro lado, A Teoria de Tudo ilustra bem as dificuldades do astrofísico, primeiro colocando ele sempre em movimento na época pré-doença e, depois, retratando o sujeito em momentos cotidianos sem escorregar para o dramalhão (e ver o esforço necessário para subir uma escada ou segurar uma colher é angustiante). De pequenos deslizes como deixar uma caneca cair até ficar praticamente imóvel preso a uma cadeira, o filme vai tornando a situação do protagonista cada vez mais insustentável, fazendo com que a força de vontade de Stephen pareça ainda maior por nunca sucumbir. Da mesma forma, se diferencia ao destacar os problemas de Jane, que obviamente não vive o casamento dos sonhos, e a personagem acaba ganhando tridimensionalidade ao possuir motivos e vontades próprias e não ser apenas uma muleta para ajudar o marido a seguir em frente.

Eddie Redmayne chega chutando tudo como Stephen Hawking, assumindo os treiejtos físicos do cientista e conseguindo também transmistir emoções usando apenas os músculos do rosto e arqueando as sobrancelhas. Antes mesmo da doença pegar de vez o ator se preocupa em antecipar as coisas, investindo em pequenos detalhes para dar indícios do problema (como os dedos da mão curvados e contraídos). E, como se já não tivesse muito trabalho, ainda enche o protagonista de simpatia, uma atuação carismática e envolvente que carrega o público pelos problemas do roteiro. Ao seu lado Felicity Jones também brilha, transformando Jane em uma personagem calorosa, radiante (a fotografia normalmente enquadra ela banhada em luz), cuja determinação e dúvidas jamais surgem de forma excessivamente dramática. Sem dúvida Redmayne é o MVP do filme, mas Jones não se intimida diante do colega.

O resultado final é um filme instável, pontuado por momentos interessandes e grandes atuações, só que apelando para algumas saídas fáceis e, tal qual o Eddie Murphy, tomando algumas decisões ruins. Parece que não houve muito desenvolvimento das tramas, que algumas coisas foram colocadas ali porque precisavam aparecer e a antecipação dramática ficou a ver navios. A história de Stephen Hawking é espetacular, aquele tipo de narrativa de superação que dá um abraço no coração de qualquer um. Mas a história de A Teoria de Tudo ficou devendo.

Nota: 3/5

Crítica: Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro Gonzáles Iñarritu

Riggan é um ator que ganhou fama ao vestir as PLUMAGENS do super-herói Birdman no cinema, mas que atualmente se encontra na casinha do cachorro de Hollywood. Ele então escreve, dirige e estrela uma peça da Broadway para tentar se validar como artista, mas, a alguns dias da estreia, precisa lidar com os problemas da produção enquanto seu alter ego bicudo fica sussurrando críticas e frases de autoajuda na voz do Batman.

Cada minuto de Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância) é um Prêmio Nobel de planejamento, logística, visão, talento, coordenação, ensaio, marcação de cena, fotografia e muito mais. Filmada em praticamente um único plano-sequência (às favas com os cortes escondidos), a película consegue a proeza de utilizar essa virtuose em prol da história, bailando junto com as personagens pelos sets para que o público acompanhe o desenrolar da história de forma natural, crível. Um mergulho impressionante naquele ambiente e com espaço de sobra para provocar reflexões sobre arte, indústria cultural, mídia e negócios.

Tanto é que, ao longo das duas horas de “mas como é que eles filmaram isso?” do filme, somos apresentados a uma galeria de personagens ricos e marcantes – da filha distante ao ator obcecado por uma performance verdadeira, passando pelo amigo que toma as decisões de negócios e a filha semiperdida na vida -, que interagem em diálogos rápidos, envolventes e frequentemente geniais (“ele tem uma atração por feiras usando fraldas“, “pareço um peru com leucemia“, “a saúde durou mais do que o dinheiro“). A câmera de Iñarritu e Emmanuel Lubezki (O diretor de fotografia. Com “O” maiúsculo mesmo) acompanha eventos que jamais soam previsíveis ou repetitivos, sempre colaborando para a construção da história (os ensaios que dão errado) ou das personagens (a discussão entre Riggan e Sam, a conversa com a ex-esposa) ou atingindo aquele raríssimo ponto onde o patético e o hilário se abraçam sem piedade (a briga entre Riggan e Mike). Sim, é um filme praticamente sem cortes, mas com personagens e situações e diálogos tão afiados nem precisa dos cortes para se embriagar de dinamismo.

No centro disso tudo, Riggan, cujo “gosto de você só como amigo” por parte de Hollywood o leva a alçar novos voos (desculpem) para provar que é um artista relevante. A película mergulha sem dó no protagonista e faz questão de mostrar que ele é o resultado de jogar frustração, expectativa e ansiedade no liquidificador e servir em uma taça de segunda mão – e aqui é essencial parar e elogiar o trabalho de Michael Keaton, que interpreta o ator/diretor de forma intensa e emocional, carregando o filme com a facilidade de quem está fazendo tricô (se bem que tricô parece difícil. Com a facilidade de quem está prevendo uma morte em Game of Thrones, então) e conseguindo estabelecer uma conexão com o público. Ao longo da caminhada, Birdman vai mostrando as inseguranças de Riggan, que, apesar de ter seguido em frente, se vê tão preso à posição de astro de blockbuster do passado que ainda enxerga o homem-pássaro por aqui e por ali. O que torna a empreitada broadwayzística ainda mais pesada, pois não é apenas o dinheiro gasto (e sabemos que ele está contando moedas) que está em jogo, mas sim a chance de fazer algo significativo – e, através dos diversos obstáculos (problemas na produção, atores instáveis, filhos viciados, casos amorosos, críticos destrutivos, um homem imaginário vestido de pássaro com uma tendência crônica a irritar), a jornada de Riggan se torna ainda mais pessoal, ainda mais representativa. Em determinado momento, Mike fala que o sujeito está disposto a deixar tudo de si no palco, e o tamanho do investimento do protagonista na peça fica bem claro em uma cena onde aparece praticamente nu diante de uma multidão, expondo-se completamente nesta investida dramática.

É curioso também perceber que, já que o mundo gira ao redor dele (incluindo aí um baterista que faz a trilha surgir de forma diegética na trama), cada uma das personagens parece representar um dos medos/frustrações do protagonista: Sam e a ex-esposa são o fracasso na vida em família e, de certa forma, os abusos de Hollywood; Mike é o medo de não ter o talento necessário; Lesley é o medo de estrear na Broadway; Laura é a hesitação em se comprometer por ainda gostar da ex-mulher; Tabitha, a crítica do NY Times, é o receio de não pertencer à turminha dos artistas “de verdade”; Birdman é o apego à glória do passado; e assim por diante. E tudo isso surge em cena com um elenco homogeneamente excelente, que mata no peito um projeto desse tamanho e, no espaço de apenas algumas salas e sets diferentes, dispara sentimentos e sensações em um crescendo que vai anunciando o clímax – destaque para Emma Stone, que consegue transmitir sinceridade como poucos (talvez pelos olhos azuis do tamanho de estrelas), e por um Edward Norton completamente em chamas, que faz de Mike uma figura imprevisível, magnética e incrivelmente autêntica.

Já o trabalho de Iñarritu e Lubezki é de levar o mais turrão dos zagueiros às lágrimas. A câmera deles passeia sem cortes (aparentes) pelo teatro e pela rua de forma elegante, conseguindo se aproximar das personagens quando necessário (muitas vezes os rostos são enquadrados em planos fechados) e conferindo à trama certa atmosfera de urgência, de que não há tempo a perder. A forma natural com Birdman mostra elipses e transições (a da tela do celular para a TV do bar, por exemplo) dá uma dimensão ainda maior ao trabalho da equipe, que consegue trocar de cenários de forma criativa e ilustrar a passagem do tempo sem se render aos cortes, e a megalomania correu tão solta pelos sets do filme que os realizadores sequer hesitaram antes de jogar Riggan no meio de uma Times Square lotada ou fazer um passeio virar uma cena de super-herói. Nunca mais um daqueles vídeos de GoPro vai parecer grande coisa depois disso.

Trazendo uma história que constantemente contrasta o sucesso dos blockbusters com a autenticidade da arte (aqui representada pela peça de teatro), ainda mais por trazer um elenco experiente nisso (temos ali um Batman, um Hulk, a Gwen Stacy, a namorada do King Kong, o sujeito estranho de Se Beber, Não Case), a película acaba tornando a busca de Riggan pelo “algo significativo” em uma reflexão sobre a superficialidade das superproduções (Tabitha diz que ele “não é um ator, é uma celebridade“), do marketing envolvido (tanto na entrevista inicial como na oportunidade encontrada por Jake ao final), do quanto significa entregar algo embalado e pronto para o público consumir e medir o valor de algo por números, seja de bilheteria do fim de semana ou de visualizações. Não à toa Birdman aproveita a localização do teatro e mostra o cartaz de O Fantasma da Ópera aparecendo marotamente em alguns momentos: enquanto ex-astro de superprodução, ex-celebridade, ex-super-herói, Riggan é invisível. É irrelevante, como sua própria filha faz questão de apontar. O que só torna a sua busca por construir algo que faça a diferença, alguma coisa que o mantenha sólido no mundo, ainda mais trágica e grandiosa.

Nota: 5/5

Breves comentários sobre os últimos livros que li

A Gangue do Pensamento – Tibor Fischer
Gosto muito da escrita desse cidadão. A Gangue do Pensamento não chega a ter a criatividade de O Colecionador de Colecionadores, mas puxa o leitor pelo colarinho com a trama interessante, as personagens absurdas (Hubert é praticamente uma monografia de nonsense) e caracteres cuidadosamente escalados na posição correta. A atmosfera geral é divertida e descontraída, e Tibor Fischer leva a coisa fugindo do óbvio e com um humor inspirado, fruto de quem manja do riscado – por exemplo: após cerca de 150 páginas elegantes, uma inesperada infantaria de palavrões quebra completamente a expectativa do leitor. Gargalhei.
Armagedom em Retrospecto – Kurt Vonnegut
Já conhecia parte do trabalho de Vonnegut através de citações aleatórias de seus livros no Twitter, mas Armagedom em Retrospecto é a primeira obra que realmente leio. É uma coletânea de contos daquela época em que Hitler decidiu que era o dono do campinho e saiu por aí exigindo coisas. É também bastante satírico e mordaz, indo de curiosos pequenos retratos dos campos de batalha (em Armas Antes de Manteiga três prisioneiros conversam sobre culinária e os pratos que querem provar após voltarem para casa enquanto quebram pedras) a mergulhos na alma humana tão profundos que é recomendável ter cuidado com a descompressão (Pilhagem é um pequeno relato que deixa grandes estragos).
O Professor do Desejo – Philip Roth
Mais uma daquelas jornadas de Philip Roth repletas de questões sexuais e humor. O talento e a capacidade que o sujeito tem de construir situações continuam me deixando com inveja (não “inveja branca”. Inveja ruim. Do tipo “eu queria ter isso e não me importa o que seria necessário para alcançar”), e O Professor do Desejo pinta um baita panorama do jovem David Kepesh, cujas atribuladas desventuras sexuais – da infância no hotel ao quartinho em Londres  – criam uma personagem complexa e interessante.
Everything is Perfect When You’re a Liar – Kelly Oxford
Conheci a moça através das postagens inspiradas no perfil @kellyoxford, o que por si só já torna o Twitter a melhor rede social de todas. É um livro autobiográfico. Ou uma ficção escrita com uma abordagem autobiográfica, já que coisas como viajar do Canadá até Los Angeles na esperança de encontrar o Leonardo DiCaprio parece bem coisa de ficção (se bem que não sei, né, a vida às vezes é mais nonsense do que o próprio nonsense). Everything is Perfect When You’re a Liar não tem nada muito profundo ou revolucionário, mas é realmente divertido e bem escrito. Apesar das elipses entre alguns capítulos confundirem um pouco e da maciça referência à cultura pop (que não me incomoda, só que algumas passam batido), Kelly tem uma voz própria bem distinta e engraçada, tornando a leitura fluida como o xixi que ela fez nas calças em um posto de gasolina (ou disse ter feito).
Guerra Civil – Uma pá de gente
Na verdade, Guerra Civil é uma saga envolvendo diversas revistas da Marvel durante um certo período de tempo, mas botei aqui porque considero quadrinhos uma arte tão relevante quanto literatura “séria” (além do mais, talvez botar a Marvel aqui traga mais visitas). A ideia do registro dos super-heróis vai de encontro a muita coisa de ética e privacidade discutida hoje em dia, e a divisão em tudas turminhas opostas vai de encontro a praticamente tudo que acontece hoje em dia em qualquer lugar e em qualquer setor. A Marvel não ficou com medo de botar consequências pesadas na disputa e a saga toda possui uma atmosfera tensa pairando sobre ela.
Barba Ensopada de Sangue – Daniel Galera
Uma obra agridoce que nos permite acompanhar a jornada de autodescobrimento do protagonista – não aquele autodescobrimento COMER REZAR AMAR, pontuado por biscoitos da sorte e lições edificantes, mas sim uma descoberta de como a personagem reage às coisas, faz as coisas, quer fazer as coisas. Daniel Galera é um excelente contador de histórias e, em Barba Ensopada de Sangue, cada passagem é aproveitada com cuidado para que possamos nos banhar em uma leve melancolia enquanto acompanhamos o protagonista quebrando paredes, pedalando, cuidando do cachorro. É daqueles livros que te deixam olhando para a parede ao final por muito tempo – um final tão interessante que devorei as últimas quarenta páginas como um gordo em um buffet.
Garota Exemplar – Gillyan Flinn
A trama de Garota Exemplar é excelente, envolvente, repleta de reviravoltas e revelações acachapantes. E Gillyan Flinn bota tudo no papel com um ritmo ágil, jamais deixando o livro descambar para o finalzinho de tarde de um domingo. Entretanto, como narradores, Nick e Amy são espertinhos demais, malandros demais, sempre desconstruindo tudo com sarcasmo e desprezo. Qualquer coisa é imediatamente captada e julgada por eles, que na narração se colocam acima de tudo. Essa onisciência afasta o leitor e tira muito o impacto dos eventos, tornando Garota Exemplar uma ótima história, mas completamente estéril com relação à suas personagens.
A Vingança do Timão – Carlos Morais
Já tinha comentado aqui sobre Agora Deus Vai Te Pegar Lá Fora, primeira obra do autor que li e uma aula de como ser cativante. A Vingança do Timão é um livro um pouco menor, menos ambicioso, mas estão lá o doutorado em sensibilidade de Carlos Morais e sua capacidade de criar personagens com as quais nós nos importamos. Seguindo uma turma de garotos do interior com a destreza dos dribles do Dorinho, o escritor constrói um universo rico em eventos, dúvidas, aprendizados, erros, desconfianças, acertos, e, claro, futebol. Passagens genuinamente engraçadas (“um chute que fez o Mudinho Nicolor gritar pela mãe”) sentam para tomar café em harmonia com outras mais melancólicas, resultando em uma narrativa belíssima que dá uma abraço bem apertado no coração do leitor.