Crítica: A Teoria de Tudo, de James Marsh

Stephen Hawking é um estudante inteligente, dedicado, criativo e que assistiu muitas vezes aos filmes do Rocky, porque a vida tenta nocautear o cara com escleroses laterais amiotróficas e traqueostomias e o sujeito simplesmente não cai. Pior que isso: conforme a doença vai sendo ainda mais filha da puta, Hawking vai descobrindo mais coisas e construindo mais coisas e conquistando mais coisas e até mesmo pegando mulheres gatas. Respeito.

A Teoria de Tudo é um filme adolescente. Não no sentido de público-alvo, como aqueles Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado ou American Pie, mas no sentido de que não sabe muito bem o que quer da vida, não se decide entre ser uma cinebiografia edificante sobre o Stephen Hawking ou um retrato do casamento dele com a Jane. E, apesar da atuação monstruosa de Eddie Redmayne e de não se entregar ao drama piegas, o filme acaba não conseguindo ser eficiente em nenhuma das duas propostas.

Isso porque a película vai empurrando a história sem se preocupar muito em desenvolver os elementos. Por exemplo, já no primeiro encontro entre Stephen e Jane ficamos sabendo o que cada um quer da vida, só que não há muito espaço para trabalhar a química entre eles. As coisas acontecem de forma meio desconjuntada, e não dá pra ter uma visão muito clara sobre as conquistas de Stephen Hawking ou mesmo a passagem do tempo, a forma como a relação dos dois evolui com os anos. Além disso, A Teoria de Tudo bate com o joelho na quina da mesa graças ao caráter episódico da trama (quando Stephen ganha reconhecimento, começa o problema de Jane) e alguns diálogos incrivelmente expositivos (“sabe que foi você que escolheu fazer PhD em física na melhor universidade da Inglaterra, né?“).

A coisa às vezes é tão “linha de produção” que, após Stephen realizar uma operação perigosa e da qual podia não sair vivo, a primeira cena em que Jane vê ele traz a moça usando um quadro de soletrar para superar as dificuldades de comunicação. A produção não mostra carinho, preocupação, consideração entre eles, apenas o momento onde alguma dificuldade atrapalha e/ou é superada – Jane é praticamente uma máquina de otimismo, sempre surgindo com uma solução e tocando a coisa para a frente.

Por outro lado, A Teoria de Tudo ilustra bem as dificuldades do astrofísico, primeiro colocando ele sempre em movimento na época pré-doença e, depois, retratando o sujeito em momentos cotidianos sem escorregar para o dramalhão (e ver o esforço necessário para subir uma escada ou segurar uma colher é angustiante). De pequenos deslizes como deixar uma caneca cair até ficar praticamente imóvel preso a uma cadeira, o filme vai tornando a situação do protagonista cada vez mais insustentável, fazendo com que a força de vontade de Stephen pareça ainda maior por nunca sucumbir. Da mesma forma, se diferencia ao destacar os problemas de Jane, que obviamente não vive o casamento dos sonhos, e a personagem acaba ganhando tridimensionalidade ao possuir motivos e vontades próprias e não ser apenas uma muleta para ajudar o marido a seguir em frente.

Eddie Redmayne chega chutando tudo como Stephen Hawking, assumindo os treiejtos físicos do cientista e conseguindo também transmistir emoções usando apenas os músculos do rosto e arqueando as sobrancelhas. Antes mesmo da doença pegar de vez o ator se preocupa em antecipar as coisas, investindo em pequenos detalhes para dar indícios do problema (como os dedos da mão curvados e contraídos). E, como se já não tivesse muito trabalho, ainda enche o protagonista de simpatia, uma atuação carismática e envolvente que carrega o público pelos problemas do roteiro. Ao seu lado Felicity Jones também brilha, transformando Jane em uma personagem calorosa, radiante (a fotografia normalmente enquadra ela banhada em luz), cuja determinação e dúvidas jamais surgem de forma excessivamente dramática. Sem dúvida Redmayne é o MVP do filme, mas Jones não se intimida diante do colega.

O resultado final é um filme instável, pontuado por momentos interessandes e grandes atuações, só que apelando para algumas saídas fáceis e, tal qual o Eddie Murphy, tomando algumas decisões ruins. Parece que não houve muito desenvolvimento das tramas, que algumas coisas foram colocadas ali porque precisavam aparecer e a antecipação dramática ficou a ver navios. A história de Stephen Hawking é espetacular, aquele tipo de narrativa de superação que dá um abraço no coração de qualquer um. Mas a história de A Teoria de Tudo ficou devendo.

Nota: 3/5

Crítica: Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro Gonzáles Iñarritu

Riggan é um ator que ganhou fama ao vestir as PLUMAGENS do super-herói Birdman no cinema, mas que atualmente se encontra na casinha do cachorro de Hollywood. Ele então escreve, dirige e estrela uma peça da Broadway para tentar se validar como artista, mas, a alguns dias da estreia, precisa lidar com os problemas da produção enquanto seu alter ego bicudo fica sussurrando críticas e frases de autoajuda na voz do Batman.

Cada minuto de Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância) é um Prêmio Nobel de planejamento, logística, visão, talento, coordenação, ensaio, marcação de cena, fotografia e muito mais. Filmada em praticamente um único plano-sequência (às favas com os cortes escondidos), a película consegue a proeza de utilizar essa virtuose em prol da história, bailando junto com as personagens pelos sets para que o público acompanhe o desenrolar da história de forma natural, crível. Um mergulho impressionante naquele ambiente e com espaço de sobra para provocar reflexões sobre arte, indústria cultural, mídia e negócios.

Tanto é que, ao longo das duas horas de “mas como é que eles filmaram isso?” do filme, somos apresentados a uma galeria de personagens ricos e marcantes – da filha distante ao ator obcecado por uma performance verdadeira, passando pelo amigo que toma as decisões de negócios e a filha semiperdida na vida -, que interagem em diálogos rápidos, envolventes e frequentemente geniais (“ele tem uma atração por feiras usando fraldas“, “pareço um peru com leucemia“, “a saúde durou mais do que o dinheiro“). A câmera de Iñarritu e Emmanuel Lubezki (O diretor de fotografia. Com “O” maiúsculo mesmo) acompanha eventos que jamais soam previsíveis ou repetitivos, sempre colaborando para a construção da história (os ensaios que dão errado) ou das personagens (a discussão entre Riggan e Sam, a conversa com a ex-esposa) ou atingindo aquele raríssimo ponto onde o patético e o hilário se abraçam sem piedade (a briga entre Riggan e Mike). Sim, é um filme praticamente sem cortes, mas com personagens e situações e diálogos tão afiados nem precisa dos cortes para se embriagar de dinamismo.

No centro disso tudo, Riggan, cujo “gosto de você só como amigo” por parte de Hollywood o leva a alçar novos voos (desculpem) para provar que é um artista relevante. A película mergulha sem dó no protagonista e faz questão de mostrar que ele é o resultado de jogar frustração, expectativa e ansiedade no liquidificador e servir em uma taça de segunda mão – e aqui é essencial parar e elogiar o trabalho de Michael Keaton, que interpreta o ator/diretor de forma intensa e emocional, carregando o filme com a facilidade de quem está fazendo tricô (se bem que tricô parece difícil. Com a facilidade de quem está prevendo uma morte em Game of Thrones, então) e conseguindo estabelecer uma conexão com o público. Ao longo da caminhada, Birdman vai mostrando as inseguranças de Riggan, que, apesar de ter seguido em frente, se vê tão preso à posição de astro de blockbuster do passado que ainda enxerga o homem-pássaro por aqui e por ali. O que torna a empreitada broadwayzística ainda mais pesada, pois não é apenas o dinheiro gasto (e sabemos que ele está contando moedas) que está em jogo, mas sim a chance de fazer algo significativo – e, através dos diversos obstáculos (problemas na produção, atores instáveis, filhos viciados, casos amorosos, críticos destrutivos, um homem imaginário vestido de pássaro com uma tendência crônica a irritar), a jornada de Riggan se torna ainda mais pessoal, ainda mais representativa. Em determinado momento, Mike fala que o sujeito está disposto a deixar tudo de si no palco, e o tamanho do investimento do protagonista na peça fica bem claro em uma cena onde aparece praticamente nu diante de uma multidão, expondo-se completamente nesta investida dramática.

É curioso também perceber que, já que o mundo gira ao redor dele (incluindo aí um baterista que faz a trilha surgir de forma diegética na trama), cada uma das personagens parece representar um dos medos/frustrações do protagonista: Sam e a ex-esposa são o fracasso na vida em família e, de certa forma, os abusos de Hollywood; Mike é o medo de não ter o talento necessário; Lesley é o medo de estrear na Broadway; Laura é a hesitação em se comprometer por ainda gostar da ex-mulher; Tabitha, a crítica do NY Times, é o receio de não pertencer à turminha dos artistas “de verdade”; Birdman é o apego à glória do passado; e assim por diante. E tudo isso surge em cena com um elenco homogeneamente excelente, que mata no peito um projeto desse tamanho e, no espaço de apenas algumas salas e sets diferentes, dispara sentimentos e sensações em um crescendo que vai anunciando o clímax – destaque para Emma Stone, que consegue transmitir sinceridade como poucos (talvez pelos olhos azuis do tamanho de estrelas), e por um Edward Norton completamente em chamas, que faz de Mike uma figura imprevisível, magnética e incrivelmente autêntica.

Já o trabalho de Iñarritu e Lubezki é de levar o mais turrão dos zagueiros às lágrimas. A câmera deles passeia sem cortes (aparentes) pelo teatro e pela rua de forma elegante, conseguindo se aproximar das personagens quando necessário (muitas vezes os rostos são enquadrados em planos fechados) e conferindo à trama certa atmosfera de urgência, de que não há tempo a perder. A forma natural com Birdman mostra elipses e transições (a da tela do celular para a TV do bar, por exemplo) dá uma dimensão ainda maior ao trabalho da equipe, que consegue trocar de cenários de forma criativa e ilustrar a passagem do tempo sem se render aos cortes, e a megalomania correu tão solta pelos sets do filme que os realizadores sequer hesitaram antes de jogar Riggan no meio de uma Times Square lotada ou fazer um passeio virar uma cena de super-herói. Nunca mais um daqueles vídeos de GoPro vai parecer grande coisa depois disso.

Trazendo uma história que constantemente contrasta o sucesso dos blockbusters com a autenticidade da arte (aqui representada pela peça de teatro), ainda mais por trazer um elenco experiente nisso (temos ali um Batman, um Hulk, a Gwen Stacy, a namorada do King Kong, o sujeito estranho de Se Beber, Não Case), a película acaba tornando a busca de Riggan pelo “algo significativo” em uma reflexão sobre a superficialidade das superproduções (Tabitha diz que ele “não é um ator, é uma celebridade“), do marketing envolvido (tanto na entrevista inicial como na oportunidade encontrada por Jake ao final), do quanto significa entregar algo embalado e pronto para o público consumir e medir o valor de algo por números, seja de bilheteria do fim de semana ou de visualizações. Não à toa Birdman aproveita a localização do teatro e mostra o cartaz de O Fantasma da Ópera aparecendo marotamente em alguns momentos: enquanto ex-astro de superprodução, ex-celebridade, ex-super-herói, Riggan é invisível. É irrelevante, como sua própria filha faz questão de apontar. O que só torna a sua busca por construir algo que faça a diferença, alguma coisa que o mantenha sólido no mundo, ainda mais trágica e grandiosa.

Nota: 5/5

Breves comentários sobre os últimos livros que li

A Gangue do Pensamento – Tibor Fischer
Gosto muito da escrita desse cidadão. A Gangue do Pensamento não chega a ter a criatividade de O Colecionador de Colecionadores, mas puxa o leitor pelo colarinho com a trama interessante, as personagens absurdas (Hubert é praticamente uma monografia de nonsense) e caracteres cuidadosamente escalados na posição correta. A atmosfera geral é divertida e descontraída, e Tibor Fischer leva a coisa fugindo do óbvio e com um humor inspirado, fruto de quem manja do riscado – por exemplo: após cerca de 150 páginas elegantes, uma inesperada infantaria de palavrões quebra completamente a expectativa do leitor. Gargalhei.
Armagedom em Retrospecto – Kurt Vonnegut
Já conhecia parte do trabalho de Vonnegut através de citações aleatórias de seus livros no Twitter, mas Armagedom em Retrospecto é a primeira obra que realmente leio. É uma coletânea de contos daquela época em que Hitler decidiu que era o dono do campinho e saiu por aí exigindo coisas. É também bastante satírico e mordaz, indo de curiosos pequenos retratos dos campos de batalha (em Armas Antes de Manteiga três prisioneiros conversam sobre culinária e os pratos que querem provar após voltarem para casa enquanto quebram pedras) a mergulhos na alma humana tão profundos que é recomendável ter cuidado com a descompressão (Pilhagem é um pequeno relato que deixa grandes estragos).
O Professor do Desejo – Philip Roth
Mais uma daquelas jornadas de Philip Roth repletas de questões sexuais e humor. O talento e a capacidade que o sujeito tem de construir situações continuam me deixando com inveja (não “inveja branca”. Inveja ruim. Do tipo “eu queria ter isso e não me importa o que seria necessário para alcançar”), e O Professor do Desejo pinta um baita panorama do jovem David Kepesh, cujas atribuladas desventuras sexuais – da infância no hotel ao quartinho em Londres  – criam uma personagem complexa e interessante.
Everything is Perfect When You’re a Liar – Kelly Oxford
Conheci a moça através das postagens inspiradas no perfil @kellyoxford, o que por si só já torna o Twitter a melhor rede social de todas. É um livro autobiográfico. Ou uma ficção escrita com uma abordagem autobiográfica, já que coisas como viajar do Canadá até Los Angeles na esperança de encontrar o Leonardo DiCaprio parece bem coisa de ficção (se bem que não sei, né, a vida às vezes é mais nonsense do que o próprio nonsense). Everything is Perfect When You’re a Liar não tem nada muito profundo ou revolucionário, mas é realmente divertido e bem escrito. Apesar das elipses entre alguns capítulos confundirem um pouco e da maciça referência à cultura pop (que não me incomoda, só que algumas passam batido), Kelly tem uma voz própria bem distinta e engraçada, tornando a leitura fluida como o xixi que ela fez nas calças em um posto de gasolina (ou disse ter feito).
Guerra Civil – Uma pá de gente
Na verdade, Guerra Civil é uma saga envolvendo diversas revistas da Marvel durante um certo período de tempo, mas botei aqui porque considero quadrinhos uma arte tão relevante quanto literatura “séria” (além do mais, talvez botar a Marvel aqui traga mais visitas). A ideia do registro dos super-heróis vai de encontro a muita coisa de ética e privacidade discutida hoje em dia, e a divisão em tudas turminhas opostas vai de encontro a praticamente tudo que acontece hoje em dia em qualquer lugar e em qualquer setor. A Marvel não ficou com medo de botar consequências pesadas na disputa e a saga toda possui uma atmosfera tensa pairando sobre ela.
Barba Ensopada de Sangue – Daniel Galera
Uma obra agridoce que nos permite acompanhar a jornada de autodescobrimento do protagonista – não aquele autodescobrimento COMER REZAR AMAR, pontuado por biscoitos da sorte e lições edificantes, mas sim uma descoberta de como a personagem reage às coisas, faz as coisas, quer fazer as coisas. Daniel Galera é um excelente contador de histórias e, em Barba Ensopada de Sangue, cada passagem é aproveitada com cuidado para que possamos nos banhar em uma leve melancolia enquanto acompanhamos o protagonista quebrando paredes, pedalando, cuidando do cachorro. É daqueles livros que te deixam olhando para a parede ao final por muito tempo – um final tão interessante que devorei as últimas quarenta páginas como um gordo em um buffet.
Garota Exemplar – Gillyan Flinn
A trama de Garota Exemplar é excelente, envolvente, repleta de reviravoltas e revelações acachapantes. E Gillyan Flinn bota tudo no papel com um ritmo ágil, jamais deixando o livro descambar para o finalzinho de tarde de um domingo. Entretanto, como narradores, Nick e Amy são espertinhos demais, malandros demais, sempre desconstruindo tudo com sarcasmo e desprezo. Qualquer coisa é imediatamente captada e julgada por eles, que na narração se colocam acima de tudo. Essa onisciência afasta o leitor e tira muito o impacto dos eventos, tornando Garota Exemplar uma ótima história, mas completamente estéril com relação à suas personagens.
A Vingança do Timão – Carlos Morais
Já tinha comentado aqui sobre Agora Deus Vai Te Pegar Lá Fora, primeira obra do autor que li e uma aula de como ser cativante. A Vingança do Timão é um livro um pouco menor, menos ambicioso, mas estão lá o doutorado em sensibilidade de Carlos Morais e sua capacidade de criar personagens com as quais nós nos importamos. Seguindo uma turma de garotos do interior com a destreza dos dribles do Dorinho, o escritor constrói um universo rico em eventos, dúvidas, aprendizados, erros, desconfianças, acertos, e, claro, futebol. Passagens genuinamente engraçadas (“um chute que fez o Mudinho Nicolor gritar pela mãe”) sentam para tomar café em harmonia com outras mais melancólicas, resultando em uma narrativa belíssima que dá uma abraço bem apertado no coração do leitor.

O dia em que eu fiquei trancado no elevador

Anteontem fiquei trancado em um elevador no trabalho. Eis a sequência de acontecimentos:

08h05m:
Entro sozinho no elevador e aperto o botão do décimo sétimo andar. Pouco antes do fechamento das portas, uma Morena Voluptosa (MV a partir de agora) se junta a mim vestindo roupas adequadas ao calor senegalesco. Como bom cavalheiro, fui extremamente discreto ao olhar para o decote.

08h05m35s:
Durante a subida, subitamente as luzes se apagam e o elevador para. O susto resulta em um grito feminino estridente, mas logo me recomponho.

08h06m:
MV e eu rapidamente nos rendemos ao primeiro estágio de ficar preso no elevador, a negação. Enquanto ela bota as mãos no rosto e diz “não pode ser”, eu aperto todos os botões do painel como se fossem plástico-bolha.

08h08m:
Nem sinal da energia voltar. Pergunto a MV se ela tem sinal de celular, questionamento respondido com a típica risada irônica de quem sabe das limitações de sinal de operadora. Ela faz a mesma pergunta e respondo que consegui acessar o Facebook.

08h09m:
Posto no Facebook dizendo que estou preso em um elevador. Ninguém aparece para ajudar. Descubro depois que a postagem recebeu 32 “curtir”.

08h10m:
O sinal do 3G se vai e leva embora a esperança.

08h11m:
Nada de energia, nada do elevador andar. MV e eu ficamos trocando olhares constrangidos. Ela pergunta se isso já tinha acontecido comigo. Respondo que sim, troco olhares constrangidos desde que tinha oito anos. Ela não ri.

08h14m:
Entramos naquele estágio das convenções sociais conhecido como “formulário”, onde as pessoas trocam informações sobre a natureza de seus trabalhos, tamanho das famílias, faculdade que cursaram, time para o qual torcem, tamanho do busto etc.

08h16m:
Descubro que MV cursa medicina e vejo minhas chances desaparecerem como lágrimas na chuva.

08h17m:
Ainda nada de elevador. Consigo encaixar umas duas piadas boas sobre medicina e subverto trinta anos de comportamento condicionado ao não erguer a mão solicitando um high-five.

08h18m:
MV parece um pouco mais à vontade e se empolga conversando sobre as aulas, disciplinas, professores e o aprendizado. Após a quarta expressão em latim, começo a cantar a música de Frozen na minha cabeça.

08h20m:
Percebo que nem mentalmente consigo atingir o tom de Elsa e volto à conversa, agora um solilóquio um tanto melancólico sobre ex-namorados. Sem saber direito o que está acontecendo e não querendo me comprometer, interajo através de um aceno de cabeça híbrido entre vertical e horizontal e que, tenho certeza, já vi em uma coreografia dos Backstreet Boys.

08h22m:
Minhas declarações compreensivas de desdém pela ala masculina e uma piada envolvendo o ex-namorado de MV, um bisturi, uma posição do Kama Sutra e muita dor parecem desarmá-la ainda mais. A conversa flui como se MV não fosse esculpida em mármore sexy e eu não estivesse vestindo uma camiseta do Batman.

08h26m:
A narrativa sobre ex-namorados cresce em intensidade. Começo um movimento para passar o braço ao redor dos ombros dela, mas ele é subitamente repelido por trinta anos de “a vida não é assim”.

08h30m:
MV interrompe o fluxo de decepções masculinas e fala que sou um ótimo ouvinte, alisando meu braço. Sorrio e sou simpático enquanto penso se no prédio há algum estabelecimento onde eu possa emoldurar o braço.

08h32m:
MV começa a me perguntar das minhas ex-namoradas e rir das respostas e das experiências. Por tudo que eu já li a respeito e vi em filmes e séries, tenho quase certeza de que estamos flertando.

08h32m32s:
Tiro o celular de canto e procuro por “flerte”. Sem sinal.

08h33m:
Como sempre acontece diante de possibilidades épicas, espero o inevitável momento em que o mundo vai acabar.

08h35m:
Sento no canto do elevador e ela senta ao meu lado. Conversamos sobre qualquer coisa que nos permita dar risadinhas e olhar um ao outro. Há um indício de tensão sexual no ar.

08h35m16s:
Sorrateiramente procuro por “tensão sexual” no Google. Sem sinal.

08h40m:
A conversa se intensifica. Pouco importa o que estamos dizendo, porque as palavras parecem povoar o espaço entre nós apenas para puxar um mais perto do outro. O contato físico entre as pernas dispostas lado a lado já é natural. Os olhares parecem mais tímidos, como que tentando esconder algo. A pele do meu braço roça na pele do braço dela, macia, lisa, e há uma certa eletricidade no ar. Viramos o rosto e nos olhamos, agora sem desviar. Os lábios entreabertos dela são o único indício de vulnerabilidade, e não precisa de mais do que isso. Estamos os dois aqui, só os dois, só nós existimos nesse universo paralelo, só nós existimos nessa realidade em que nos conectamos.

08h40m8s:
As luzes se acendem e o elevador volta a funcionar.

08h42m:
Levantamos com o movimento do elevador, dando risadas constangidas e sem saber direito como agir. Aqui jaz um clima romântico. Fico olhando para MV e toda sua voluptosidade e percebo que ainda há uma conexão. Penso em todas as vezes que não assumi o risco, que fugi para a zona de conforto e em tudo que não fiz e poderia ter feito. Trocamos mais um olhar e percebo que não quero MV na minha lista de “e se…?”. Ela me observa com uma curiosidade juvenil, um sorriso no rosto, uma expressão de expectativa, enquanto me aproximo do painel de botões. Viro o rosto na direção dela e lanço um olhar sedutor, perigoso, enquanto me obrigo a fazer algo digno de cinema e abro o painel e aberto o botão de trancar o elevador para que o universo congele por mais um instante para nós dois.

08h42m20s:
MV tem um faniquito bíblico e dispara um discurso ríspido sobre como acabamos de passar horas no elevador e que a situação era perigosa e finalmente temos a oportunidade de sair e respirar ar puro e eu arrisco botar tudo a perder trancando o elevador e que tipo de demente faria uma coisa dessas? e palavrões.

08h43m:
Aperto o botão e o elevador volta a andar normalmente enquanto fico tão vermelho de vergonha que minha pele começa a descascar.

08h45m:
MV desce no décimo primeiro andar com a expressão de raiva ainda tatuada no rosto, sem sequer um “tchau” de reconhecimento ou um sexo de despedida.

08h46m:
Reflito rapidamente sobre homens, mulheres, amor, nossas expectativas, nossos desejos, nossos corações quebrados, nossa impossibilidade de aceitar alguém que nos ama e decido desistir do compromisso e ir comprar cerveja.

08h47m:
Durante a descida, subitamente as luzes se apagam e o elevador para. Um grito feminino estridente rasga o ar.

Os sanduíches às duas da manhã

Um sanduíche tem um sabor diferenciado quando feito às duas da manhã. Acredito que seja pelo fato de destoar, de que sanduíches adornam cafés da manhã e almoços e jantas e lanches da tarde e refeições de última hora quando compromissos importantes estão batendo na porta, mas o frio e frequentemente alcoolizado véu da madrugada não é seu habitat natural (provavelmente por alguma questão envolvendo a quantidade de carboidratos nos ingredientes e a vontade que as pessoas têm de conseguir um abodmen trincado). Assim, entre os momentos em que o sol se deita e acorda de ressaca, as fortalezas de pão recheadas com queijo e gostos pessoais se tornam visitantes ocasionais, abrindo espaço para culinárias mais práticas como nuggets, comidas requentadas no microondas e miojos. Às duas da manhã, cortar uma fatia daquele queijo muito bom e impossível de cortar (lembrando sempre que a a qualidade do queijo e a facilidade de cortar fatias são inversamente proporcionais) é uma odisseia, e tais empecilhos tornam o sanduíche uma figura um tanto mítica durante a madrugada, uma aurora boreal culinária que surge frente às maravilhadas testemunhas para saciar sua fome de… bem, de fome mesmo.

Claro, os filisteus podem argumentar que o sanduiche das duas da madrugada é o mesmo das duas da tarde, que o pão contém a mesma quantidade de farinha e trigo, que o horário não influencia nos processos pelos quais os ingredientes passaram e que toda essa história é apenas impressão. Mas a realidade existe apenas da forma como a percebemos, e certamente o mesmo sanduíche vai ativar sinapses e funções diferentes no córtex cerebral se consumido de tarde ou de madrugada. A calma e a quietude da noite são preenchidas pelos sabores da refeição com mais intensidade. Há mais espaço para o sanduíche desdobrar suas expressões gustativas e olfativas, o mundo para por um momento para ver o que aquele intruso, aquele coadjuvante que normalmente surge como produto das circunstâncias – pouco tempo para comer uma refeição completa, um lanche para degustar assistindo a algum programa, uma alternativa comestível que abraça a praticidade -, pode realizar quando alçado à condição de protagonista sob a auspiciosa vigília da lua.

Lembram de Proust comendo o biscoito, não lembram? É a mesma ideia, mas, ao invés de resgatar sentimentos passados, o sanduíche das duas da manhã interage com a ausência dos elementos que costumeiramente vê ao seu redor, criando novas sensações. Ao invés de ativar a lembrança, cria a lembrança. E nos deixa ali, sentados, reflexivos, imaginando que há muito mais entre o céu e a Terra do que imagina nossa vã culinária.

O dia em que eu fui à Copa do Mundo

O futebol visto ao vivo não é nada glamouroso. Sem os enquadramentos cinematográficos, a montagem ágil, a narração empolgada, a câmera lenta, os replays, os gráficos, as análises, tudo se resume a uma visão ampla do campo, longe dos supercloses que captam olhos marejados e da edição que confere drama às coreografias involuntárias. Ao vivo, o futebol é despido de quaisquer adornos carregados de significado e retorna a uma forma simples, rústica, onde precisa conquistar as pessoas apenas pelo impacto das jogadas e comportamento da torcida, sem intermediários cujo trabalho é tentar tornar a partida o mais envolvente possível. Ao vivo, o futebol deixa de ser espetáculo.
O inacreditável míssil disparado por Tim Cahill aos vinte e um minutos do primeiro tempo, tatuando o travessão e empatando a partida contra uma equipe mais forte e que havia recém marcado, foi algo fora do comum. Talvez porque fosse uma partida fora do comum, repleta de jogadores fora do comum, torcidas fora do comum, importância fora do comum. Os primeiros passos em um Beira-Rio dividido entre o laranja pulsante dos holandeses e o incompreensível sotaque dos autralianos já indicavam se tratar de um jogo à parte, composto por uma atmosfera que há vinte anos eu vejo na televisão mas que só ontem realmente descobri: é a Copa do Mundo (dispenso o “FIFA” no final) criando um universo que só é possível acessar de quatro em quatro anos, que não existe fora desses trinta dias enlouquecidos de futebol e que, para alguém que desejava mais do que tudo ter visto ao vivo o gol genial de Hagi contra a Colômbia, o chute de Branco contra a Holanda, a subida de Romário contra a Suécia, a arrancada de Michael Owen contra a Argentina, os passes cirúrgicos de Beckham e Scholes, o domínio perfeito de Bergkamp em cima de Ayala, o trenzinho de Felipão após superar Van Basten, o toque simples e brilhante de Pirlo para Grosso, a redenção de Materazzi, os pênaltis quase seguidos entre Espanha e Paraguai, a maior defesa de todos os tempos realizada por Suárez, a cavadinha vitoriosa de um El Loco que fez jus ao seu apelido e o chute mais importante da história da Espanha desferido por Iniesta, possui um significado de mais de vinte anos de “imagina se eu estivesse lá”.
Quando Cahill bombardeou o gol holandês aos vinte e um minutos, dois australianos sentados atrás de mim pularam e gritaram e se abraçaram e nos abraçaram e desceram as arquibancadas correndo. O gol – talvez o mais bonito da Copa até aqui – foi marcado no lado da goleira onde eu estava sentado, e, mesmo a dezenas de metros de distância, vi ele muito mais de perto do que qualquer superclose de câmera poderia conseguir: vi ele das arquibancadas de uma Copa do Mundo, envolvido pelos gritos das torcidas, testemunhando a bola percorrer todo o caminho até sacudir as redes e mudar um país inteiro e, pela primeira vez na vida, sem precisar imaginar como seria estar ali. Porque ao vivo, quando deixa de ser espetáculo, é que o futebol se torna verdadeiramente espetacular.

Ginástica de hardware

Comprei um notebook há pouco mais de um ano com aquela fantasia de mobilidade, de que poderia sair com ele e sentar em alguma praça bonita com uma cerveja ao lado e escrever uma obra-prima, enquanto uma Melanie Laurent qualquer passa de boina e segundas intenções na minha frente. O notebook era a promessa de liberdade, o fim da ditadura de ter que ficar sentado em frente a uma mesa e olhando sempre para a mesma paisagem feita de gesso e pintura descascando.
Após a aquisição descobri que, no mundo do hardware, não há espaço para a praticidade. Certo, o equipamento é leve, eficiente, com dimensões compactas o suficientes para permitir sua realocação para basicamente qualquer lugar, mas essa expectativa de “a qualquer hora e em qualquer lugar” não leva em consideração a outra parte do hardware: o corpo. O corpo não é leve, não é eficiente e muito menos compacto, além de ser composto por um milhão de materiais diferentes que, se não forem colocados sob condições específicas de suporte, pressão, distensão e diagramação, insistem em doer.
Porque não existe realmente uma posição cem por cento ideal ou confortável para fazer uso do notebook. Deixar ele no colo parece ser a solução mais lógica, e até funciona por algum tempo, mas logo o esquadrão formigamento ataca e é preciso remanejar as pernas, aniquilando completamente a estabilidade do equipamento – e tentar digitar uma frase sequer sem estabilidade é um convite à insanidade. A cama surge como uma alternativa promissora, com seu colchão macio e suas lembranças das comoventes sonecas tiradas ali, só que não faz muito bem para a máquina e, se você deitar ao lado do dito-cujo, mantendo-se no primeiro estágio da posição “conchinha” (e sem a preocupação de não saber onde alocar o braço livre), perceberá após sete ou oito minutos que precisará de fisioterapia; se deitar e repousar o notebook em cima do peito, perceberá após sete ou oito segundos que precisará de uma massagem no pescoço.
Urge a necessidade de criarmos uma versão do Kama Sutra com notebooks, catalogar as posições confortáveis, prazerosas, relaxantes que podem ser realizadas para ter o equipamento ao alcance e totalmente operacional. Acredito que isso aumentará a produtividade de humanidade em cerca de todos os por cento, criando uma situação ideal onde podemos aproveitar ao máximo tudo que um equipamento poderoso nos oferece. Pois até aqui, depois de anos de experimentações, tentativas e frustrações, descobri que, amarga ironia, o melhor lugar para trabalhar com o notebook é em cima da mesa.