A quantitatividade toma conta da cidade.

Acredito que esse tópico já tenha sido abordado e ilustrado com metáforas metidas a engraçadinhas aqui no blog, mas a situação parece que perdeu o controle, tipo, é situação agora é uma caminhonete sem freios e com a barra de direção quebrada e com Kaiser Chiefs tocando no rádio, e parece imperativo erguer uma bandeira com os dizeres “não mais”. Porque ando com a sensação de que tudo, até as coisas mais subjetivas e abstratas, precisam ser justificadas através de números – um vídeo de timelapse não é bonito ou sensacional, ele é um vídeo que foi feito com mais de cinco mil fotos e cinquenta horas de pós produção em três semanas; um mochilão nunca é uma experiência envolvente por novas culturas, é uma viagem que percorreu nove cidades em três países em um período de vinte dias; uma festa grandiosa não é uma festa grandiosa pelo que acontece, mas pelo número de chopes consumidos e de garrafas vazias que podem ser contadas, empilhadas e fotografadas para que uma postagem no Facebook informe a todos os números da festa.
Não que essas informações não possam ou não devam ser divulgadas, o objetivo aqui não é incitar uma multidão furiosa com tochas às casas de matemáticos do mundo inteiro. Apenas refletir se essa obsessão por estatísticas não mostra uma visão de mundo limitada, ou, pior, uma necessidade tão grande de não estar errado que qualquer dubiedade tem sua bunda prontamente chutada pela linguagem matemática – se eu jogo os números ali, estou garantindo a minha posição frente a quaisquer questionamentos de que o vídeo não é sensacional ou a viagem não foi tão intensa ou a festa não foi tão épica. É a resposta fácil, preguiçosa, o relatório de resultados da firma invadindo as vidas pessoais e transformando o cotidiano em corporativo.
Ou, como Calvin e Haroldo colocaram a questão (de forma muito superior):
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