A gênese do futebol

Dizem que todo império um dia cai. Talvez seja verdade, visto que o império romano bateu as botas, o império britânico idem, e até mesmo o império galáctico encontrou seu fim em um bando de budistas com pilhas anabolizadas. Entretanto, o futebol parece ser a exceção que confirma a regra: esporte supremo desde o dia em que foi inventado, ele não dá sinais de desgaste, nem de que um dia sua supremacia possa vir a ser alcançada por rugbis, beisebols, basquetebols e coisas do gênero. Mas por que será isso? Por que será que o futebol é ao mesmo tempo tão simples e complexo, tão pessoal e universal? Refleti a respeito do assunto, buscando uma solução. E descobri que, além de ter todas aquelas características edificantes dos outros esportes (coletividade, técnica, habilidade, inteligência, etc), há algo que destaca o esporte bretão do resto: ele não pode ser compreendido totalmente. O futebol é o esporte mais popular do mundo porque ele não faz sentido.
Pra mostrar que é uma questão acima de clubes e clubismo, vamos pegar, como exemplo, o jogo de volta entra Barcelona e Chelsea pelas semifinais da UCL 2009 – e quem me conhece sabe que meu afeto por ambos os times é tão grande quanto minha vontade de tirar a roupa e abraçar um cactos. Pois bem. As duas equipes precisavam apenas de uma vitória simples ou um empate com gols para se classificar, mas no primeiro tempo o Barça já viu a laranja azedar quando Essien, a uns dois ou três DDIs de distância, disparou um download por torrent no ângulo de Valdez. Resultado alcançado, o Chelsea se refugiou em seu campo, criando uma verdadeira linha defensiva composta por namoradas ciumentas que em nenhum momento desgrudavam do barcelonista que ousasse ultrapassar o meio de campo com a bola.
Durante 90 minutos a equipe de Guardiola tentou, sem sucesso, irromper pelo Abismo de Helm inglês. O Barcelona não encontrava espaço, não conseguia jogar e não havia desferido sequer um mísero chute ao gol de Petr Cech. Havia até perdido o lateral Abidal, expulso de forma incompreensível em um lance teatral. Eis que, aos quarenta e desespero do segundo tempo, Daniel Alves, que até ali só havia tirado a cartinha “Revés” no jogo, foi à linha de fundo e cruzou – e, como fez durante toda a partida, errou. A pelota passou por toda a área e acabou nos pés camaroneses de Eto’o, que aparentemente foi mordido pela dita-cuja, pois logo a largou para Messi. Este, por sua vez, deu um passe apertado para Iniesta, que cerrou os dentes e desferiu um chute certeiro, no ângulo, sem chances para Cech. Um a um, Barcelona classificado.
Se for parar pra pensar, isso não faz sentido. Um time que jamais conseguiu criar um lance de perigo, que havia chegado tão perto do gol quanto um nerd de uma mulher, acaba se classificando não por mérito próprio, nem por falha do adversário… pelo que, então? Sem contar o chute: Iniesta é um ótimo finalizador, e vamos dizer que de dez bolas daquelas ele acertasse oito em gol – ainda que fosse um chute complicado levando em conta a posição de onde a bola vinha e o pé de preferência do rapaz. Mas ele ainda tinha pela frente um dos melhores goleiros do mundo, um que faz a muralha da China parecer uma pecinha de Lego. Quais as chances? Quais as chances dele acertar um chute elaborado em um dos raros espaços do gol onde Cech não alcançaria? Quais as chances de isso acontecer no momento certo, exato, naquele segundo específico onde tudo converge para a classificação do Barcelona?
É claro que essa chance existe, porque obviamente aconteceu, mas ela é tão ínfima e tão rodeada de variantes que é impossível não se abalar pelo mistério de tudo. É mais ou menos como a chuva de sapos em Magnólia: ninguém sabe o porque, como ou de onde ela veio, apenas que veio. Talvez exista até uma sequência de fatos que levou até a precipitação anfíbia, mas é uma sequência tão absurda, tão desprovida de realismo, que ela não se encaixa dentro do sentido que damos ao mundo, assim como o gol do Iniesta. Claro que podemos perceber os eventos que levaram até o capim no fundo da rede ser balançado, mas é complicado compreender o que os colocou em movimento – não foi o talento e não foi o erro. Poderíamos falar do acaso, mas este é um elemento tão misterioso quanto o mistério em si. O gol aconteceu simplesmente porque aconteceu.
Donde chegamos ao ponto principal: não existe em nenhum lugar da Terra, quiçá do universo, uma forma de medir o futebol. Ele não pode ser quantificado. Um cientista cético e com uma cabeleira separatista poderia até duvidar e colocar alguém pra recolher todos, mas todos mesmo, os dados de uma partida do esporte bretão – gols, carrinhos, faltas, escanteios, quilômetros percorridos, defesas, desarmes, laterais, ultrapassagens do ala, cruzamentos, tudo. Mas os resultados jamais serão conclusivos, porque eles são limitados demais para analisar a realidade futebolística – uma assistência, por exemplo, pode ser o passe mais importante ou o mais simples da jogada. Nada é certo. Nada é mensurável através de números, equações não-lineares ou leis racionais.A única forma de compreensão do esporte é através da opinião, da análise crítica, interpretando a relação entre os elementos em campo e a forma como ela afeta o resultado final. A única forma de extrair sentido das trajetórias percorridas pela bola é de forma pessoal e não-definitiva.
Ou seja, o futebol é subjetivo. É relativo. É interpretável. É arte.
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The Good, the Bad and the Nigga

Django Livre (Django Unchained)
5/5

Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino

Elenco
Jamie Foxx (Django)
Christoph Waltz (Dr. King Schultz)
Leonardo DiCaprio (Calvin Candie)
Samuel L. Jackson (Stephen)

Dois anos antes da Guerra Civil americana abrir a porta e entrar sem ser convidada, uma curiosa parceria se forma quando Dr. King, um alemão dentista e caçador de recompensas, liberta Django, um escravo, pois precisa da ajuda dele para reconhecer alguns malfeitores (claro que o nome “Dr. King” é pura coincidência, né). Mas logo ele descobre que tinha essa mina escrava que Django dava uns pegas e ambos partem com a missão de resgatá-la das garras do laquê no cabelo de Calvin Candie.
Tarantino é um sujeito excêntrico. Isso provavelmente não deve ser novidade para quem sabe da obsessão dele pelo dedão torto da Uma Thurman ou para quem já viu ao menos uma foto do sujeito. Mas a verdade é que essa excentricidade se reflete em seus filmes: mesmo em obras de gênero (tipo Kill Bill), ele confere um tom pessoal e subverte as tradições do gênero em questão. E Django Livre, um faroeste estrelado por um negro, com mais diálogos que ação, mensagem social e cuja única personagem não-racista é um alemão, não poderia definir melhor a peculiaridade do diretor.

“A iluminação está boa, mas falta dedão.”

Não que isso seja algo ruim, já que Django Livre se mostra uma das produções mais redondas e alucinadas do ano. Começando já pelos créditos iniciais, que simulam os letterings da época do faroeste spaghetti , Tarantino parece estar se divertindo à beça o tempo todo, abusa dos zooms e closes, planos-detalhe, pistoleiros com a mão no revólver, fotografia estourada e granulada nos flashbacks (emulando os faroestes antigos), letterings estilizados surgindo de forma abrupta. Longe de parecer exagerados, entretanto, os recursos entram de forma orgânica na narrativa, quer construindo a tensão na cena (os planos-detalhe onde a galerinha vê que a cobra pode fumar e já vai tirando o BERRO do coldre) ou subvertendo a expectativa do faroeste (em certo momento, Tarantino usa o clássico close nos olhos de Sergio Leone, mas, ao invés de um olhar duro, encontramos uma lágrima). O controle que o diretor tem sobre a linguagem é digno de uma mulher ciumenta, e, mesmo que seus recursos cinematográficos eventualmente chamem atenção para si mesmos, eles jamais interferem na fluidez da história.
Além disso, Django Livre também traz a tradicional sanguinolência desenfreada do diretor, quase estilizada e com uma veia humorística muito forte (trocadilho obrigatório). Ela permeia todo o filme, mas atinge níveis durodematarzísticos no tiroteio na mansão, coreografado de forma brilhante, intensa e engraçada – Tarantino estabelece bem a geografia do lugar, mostrando com clareza onde cada pistoleiro está, e depois faz um bom trabalho despejando cachoeiras de sangue em cima dessa geografia e saindo por aí pra comemorar com cerveja e dedões femininos. Aliás, por falar em tiroteios, a rapidez de Django e do Dr. King no gatilho é me visualizada através de planos únicos, o que torna o descimento de sarrafo deles no resto da galeria ainda mais crível. Se bem que com a espetacular trilha que polvilha a película, trazendo temas de Enio Morricone (= versões em áudio de bolas de feno cruzando o deserto) misturados a outras batidas que remetem mais ao cinema negro americano da década de 70 (já que Django Livre de certa forma fala da ascensão de negros), naquele estilo tarantinesco onde elas não parecem ideais para o momento mas acabam se encaixando com perfeição, já eleva cada disparo de pistola àquele nível do cara erguer os braços e gritar “é isso aí!”.
Como de costume, o roteiro também merece destaque, a começar pelo Dr. King, a antítese de tudo que se espera de uma personagem faroéstica: educado, inteligente e com um vocabulário mais afiado do que língua de mulher, ele cativa o espectador desde a primeira cena com tiradas sensacionais (“você me deve 200 dólares”) e a contradição entre seus modos e a brutalidade ao redor. Estão lá também as personagens marcantes, com nomes como “Calvin Candie”, que se destacam por tomar decisões e ações contrárias à expectativa do público (a sequência da cena do crânio, por exemplo); e os diálogos elaborados, bem desenvolvidos, que dão voltas em torno do assunto com uma dinâmica invejável – e, nesse caso, é impossível não citar a descomunal sequência com a Ku Klux Klan, uma das mais engraçadas que Tarantino criou até hoje.
Mas também há algo novo aqui, uma  vez que algumas falas são carregadas de significado de uma forma que o diretor/roteirista queixudo jamais havia feito. Exemplos: Django falando “estou mais acostumado aos americanos do que eles”, ao ver uma cena de pura maldade e violência; o contraste absurdo entre polidez da frase e a ação que ela origina quando Calvin fala, se referindo a enviar uma escrava para satisfazer um convidado, “a hospitalidade sulina me obriga a disponibilizá-la”; e o momento onde uma personagem diz a outra que castração não é castigo o suficiente e vai vendê-la para uma companhia mineradora, deixando bem claro que até mesmo a situação “legalizada” dos escravos era ruim o suficiente a ponto de ser pior do que perder as bolas.
Atuando na pele do protagonista, Jamie Foxx acertadamente mantém sempre uma expressão sisuda, tensa, do tipo que parece que vai enfiar alguma coisa no rabo de alguém a qualquer momento. Sua própria postura é mais dura, e o ator dispara cada frase como se fosse um tiro de revólver, criando assim um Django extremamente imprevisível e intimidador – um forte oponente para o Stephen interpretado por Samuel L. Jackson, que, embora já na melhor idade, mostra sua força e desprezo com tamanha intensidade que dá vontade de pedir para acenderem as luzes do cinema. Já Leonardo DiCaprio, embora ilustre bem as sensações pelas quais Calvin passa (alegria, raiva, frustração, etc), continua com sua tendência a exagerar na dramaticidade dos trejeitos e falas, tornando a presença do sujeito um tanto artificial por vezes. Mas não faz diferença, porque Christoph Waltz chega chutando a bunda de todo mundo com seu timing cômico definitivo, tornando o verborrágico Dr. King carismático ao extremo. É incrível como o filme ganha vida e naturalidade quando ele está em cena, com seus trejeitos mais floreados e a mania de ficar alisando o bigode. Waltz, meu amigo, passe a vida toda interpretando alemães poliglotas em filmes do Tarantino que você está feito.
Talvez Django Livre pudesse ser um pouquinho mais bem amarrado, já que uma ou outra cena destoa do resto (estou pensando no momento em que a lembrança do ataque dos cachorros convenientemente vem à memória do Dr. King e em uma outra vingança, que acontece rápido demais). Mas são descompassos quase imperceptíveis nessa grande sinfonia de tiroteios, sangue, frases de efeito e música épica que é a película. Mais uma vez, Tarantino despeja criatividade em um rolo de filme e bota pra rodar, realizando mais uma produção envolvente, inspirada e ousada. O diretor/roteirista pode não ser o Django da vida real, mas não dá pra negar que ele acertou em cheio.

16 bits de pura vitória

Detona Ralph (Wreck It Ralph)
5/5

Direção: Rich Moore
Roteiro: Phil Jonston e Jennifer Lee

Elenco
John C. Reilly (Ralph)
Sarah Silverman (Vanellope)
Jack McBrayer (Felix)
Jane Lynch (Calhound)
Alan Tudyk (King Candy)

Ralph é um vilão de videogame que, cansado ser desprezado, tem um chilique e abandona o jogo para tentar conseguir alguma glória nesse colorido mundão de uns e zeros. Então por acaso ele cai em outro jogo e encontra Vanellope, a representante de todas as crianças com DDA do universo. Depois de se implicarem e se tornarem amigos, eles precisam restaurar o status quo dos jogos que Ralph acidentalmente avacalhou – com a ajuda do adversário de Ralph e uma mina estilo Call of Duty que faz o Anderson Silva parecer tão ameaçador quanto uma Trakinas.
A princípio, qualquer transeunte pode achar que Detona Ralph é só uma desculpa pra jogar referências videogamísticas na tela e aquecer o coração dos espectadores com aquele cobertor chamado “nostalgia”. Entretanto, ao contrário do que a DreamWorks faz na série Shrek, a produção utiliza esses referências de forma pertinente na história, preferindo, ao invés, contar a envolvente amizade de duas personagens buscando um lugarzinho ao sol. E qualquer filme que coloque Ken e Ryu saindo pra beber cerveja depois do “expediente” já é vitorioso por definição.

Ralph provando que Detona Ralph é a cereja do bolo.

Isso porque Detona Ralph é um daqueles filmes que gostam de seus protagonistas. Tipo, gostam muito. É um lance quase patológico. Mas faz com que a projeção invista boa parte do tempo no relacionamento entre Ralph e Vanellope, do início conturbado até as situações que acabarão aproximando ambos – e, mesmo quando estão de picuinha, temos um vislumbre da futura parceria no momento em que Ralph salva Vanellope e esta aposta nele para tentar conseguir um carro. É aquela coisa da amizade entre marginalizados, mas construída de forma tão cuidadosa, tão doce, que dá vontade de embrulhar e servir de sobremesa na ceia de Natal. Através dessa construção, que torna as personagens tridimensionais (Ralph quer ser bonzinho, mas não evita de se zangar por coisas pequenas; Vanellope parece egoísta no início, mas também se mostra sensível e sonhadora), o espectador realmente se importa com o que acontece com eles, chegando àquele nível onde o cara realmente pensa “minha nossa, e agora?” quando algo parece dar errado. Aliás, a coisa é feita em tão Nível 99 no Fifa 13 que uma determinada cena, onde Ralph destrói um determinado objeto, chega a ser dolorosa. E eu digo dolorosa no sentido que faz bullying no coração do espectador até ele dizer “eu desisto” e pular de um precipício, algo que muitos filmes ditos “adultos” ou “profundos” sequer chegam perto de conseguir.
Mas é claro que, além de toda essa ternurice cativante, Detona Ralph investe bastante na diversão alucinada – e, como dito antes, até mesmo as referências videogamísticas (e as referências pop) aparecem de forma orgânica na história, ao invés de aquele lance “produtor chega e manda enfiar uma cena em algum lugar do filme porque ela ficou famosa” (também conhecido como “Operação Shrek”). O momento onde o rei Candy têm que abrir uma porta com uma combinação é exemplo perfeito disso, e mesmo piadas que não levam exatamente a história para a frente, como a do Kano, estão cuidadosamente relacionadas com as circunstâncias ao seu redor. Além disso, a película é um campo minado de diálogos bons: a qualquer momento, quando menos se espera, algum “Alerta de ficha! Alerta de ficha! Isto não é uma simulação” pode pular na tela.
Como estamos falando aqui de um filme que venera Mega Drives, Nintendos, Playstations e semelhantes, obviamente a parte visual é nada menos que um constante frenesi, afinal, mesmo em cenas que não possuem ação ou drama ou comédia ou suspense, qualquer Sonic aparecendo no fundo é o suficiente para elevá-la até a ionosfera. Mas mesmo assim o diretor Rich Moore ignora os limites do óbvio e vai além: Detona Ralph se apropria da temática de forma brilhante, seja em alguns cenários pixelizados de jogos antigos, no visual dos jogos novos (como alguém comenta sobre Calhoun, “uau, como seu rosto é definido”), nas personagens com movimentos “travados” (pois são de jogos mais antigos, com gráficos limitados) e por aí vai. Aliás, o design de produção é uma Scarlett Johansson à parte, criando personagens de visual completamente diferente e de acordo com suas personalidades (Ralph, maior e mais pesado, possui movimentos mais lentos; Vanellope, baixinha, é frenética ao extremo e gesticula pacas), além de mundos absurdamente criativos – começando pela decisão presidencial de fazer a saída para o mundo dos jogos ser uma grande tomada (não sei o motivo, mas “presidencial” parece o adjetivo correto)  e passando pelo espetacular Sugar Rush, com seus rios de chocolate, pedras quebra-queixo e a sensacional montanha de Coca Light e Mentos (que acaba desempenhando papel na trama). A produção ainda conta com uma trilha inspirada (que, mesmo quando mais complexa, remete às trilhas de videogame em MIDIs que tanto fizeram parte da nossa infância) e um elenco homogêneo e cativante, que consegue transmitir as características de suas personagens apenas pelas inflexões (a fala rápida de Vanellope, a fala arrastada de Ralph, as entonações duronas de Calhoune o tom de voz ingênuo e quase infantil do Felix são ótimos exemplos).
Com isso, Detona Ralph se torna uma experiência envolvente, fazendo com que o público realmente acompanhe aquelas personagens, fique tenso quando a cobra está pra fumar, ria quando alguma piadinha inspirada aparece ou fica em chamas quando vê alguma referência a videogame bem bolada. Uma daquelas experiências cativantes, elevada ao posto de SUPERNOVA ANABOLIZADA pelo espetacular curta que a precede, “O Avião de Papel“, de John Kars. Ou seja, tudo conspira a favor do filme. De forma suspeita, até. Pensando bem, será que a Disney teve acesso ao Código Konami, e…?

Filosofia só na superfície

A Viagem (Cloud Atlas)
2/5

Direção: Tom Tykwer, Andy Wachowski e Lana Wachowski
Roteiro: idem acima, baseados no livro de David Mitchell

Elenco
Tom Hanks (um monte de gente)
Halle Berry (muita gente)
Jim Broadbent (um grande número de pessoas)
Jim Sturgess (um número elevado de personagens)
Susan Sarandon (uma galera)
Hugh Grant (gente pra burro)
Hugo Weaving (uma turminha de personagens)

A Viagem segue diversas histórias ao longo do tempo, da época vitoriana até o futuro longínquo, explorando temas recorrentes ao homem como a luta pela igualdade, o amor, a perda e as conversas através de diálogos ruins. É tipo “Magnólia encontra De Volta para o Futuro“, mas sem a chuva de sapos. E o DeLorean. E o talento.
Fé, reencarnação, igualdade, sonhos, amor, ética, coragem. Desde que Tom Hanks caolho aparece nos primeiros minutos de projeção, A Viagem busca mostrar que estes são temas universais, repetidos em qualquer tempo, qualquer época, intrínsecos à natureza humana. Mas não encontra o que procura, acabando com uma série de historinhas superficiais e maniqueístas que expulsa o envolvimento dramático do espectador como se fosse um leproso (ou uma pessoa que não usa Instagram).

Hugo Weaving. Ou o Chapeleiro Louco em uma possível versão de Alice feita por Guillermo del Toro.

Não que o filme tire a cartinha “revés” do Banco Imobiliário o tempo todo: o início é bastante promissor, apresentando rapidamente (e de forma clara) as diversas tramas, com rimas temáticas interessantes (tipo a igualdade entre negros e brancos, hetero e homossexuais, idosos e, bem, não-idosos) e criando links interessantes entre essas temáticas (por exemplo, o Zachry do futuro tem uma tatuagem igual às dos escravos no passado). Além disso, dá pra sentir um gostinho de vitória ao ver algumas relações entre as histórias e o significado delas, que trazem sacadas inteligentes e adicionam umas gotinhas de limão à posição do filme (publicidade vira religião, “honre o cliente” sendo o tema de Soomy, ciência vira religião). Pra completar, todos parecem ter uma espécie de relacionamento à distância com outras personagens importantes (Adam com a esposa, Luisa com Sixmith, Cavendfish com o irmão e a queridinha do colégio, e assim por diante), ampliando assim o tema da reencarnação, da distância entre as “mesmas” pessoas em diferentes histórias. Parecia que tudo seguia por um caminho ensolarado e cheio de cercas brancas e pássaros cantando e internet banda larga sem problema de sinal.
Mas quando A Viagem começa a desenvolver as tramas, o espectador logo saca que algum Grinch cinematográfico passou por ali e roubou o Natal. Em primeiro lugar, há uma artificialidade nos diálogos e na mise-en-scéne do filme que compromete qualquer impacto dramático. É tudo tão coreografado que a emoção dá no pé, deixando só um monte de gente sem graça ali falando sobre umas coisas. Claro, não ajuda também o desenvolvimento das personagens ser deixado de lado, surgindo apenas nunca. O próprio desenvolvimento das tramas é fraco, apelando para coincidências, soluções fáceis, diálogos expositivos (tem alguém que, durante uma luta, fala “há ouro no seu barril, e eu quero, por isso vou matar você”. É sério. Não inventei isso. Ninguém em sã consciência teria inventado isso) e toda sorte de michaelbayzices disponíveis. O domínio que Vyvian tem sobre Robert, por exemplo, é forçado e súbito demais, claramente surgindo só porque a história apontou uma arma para o roteirista e disse “preciso que isso aconteça aqui ou não vai ter filme”, da mesma forma que o “Tive medo de você a vida toda” pronunciado por Tilda – que até ali era apenas um nome na trama -, tudo para colocar em cena uma série de, abre aspas, catarses dramáticas, fecha aspas, que deveriam elevar o espírito do espectador. Mas não elevam, claro, porque uma boa elevada de espírito exige o envolvimento do público com aquela galera, algo difícil de acontecer em uma colagem de situações típicas de filmes de ação e drama americanos (o roteiro é tão preguiçoso que usa cerca de sete mil vezes a cena onde alguém é salvo na última hora (eu contei)).
O pior de tudo (mentira, não é o pior, mas eu precisava de uma forma de começar a frase) é que, embora vista o acolchoado manto de “sou um filme que trata de temas profundos”, A Viagem polvilha maniqueísmo nas suas histórias sem nenhuma piedade. Há sempre um bem e um mal definidos, e praticamente todas as decisões “difíceis” são tomadas em prol de um benefício para todos que está totalmente, completamente, ridiculamente claro, causando uma eterna ausência de conflito – o que faz com que as únicas camadas das personagens sejam as que compõem suas complexas maquiagens, já que elas se tornam um poço sem fundo de unidimensionalidade. Somando esses aspectos a um roteiro que abusa de situações típicas hollywoodianas, com diálogos do nível de “o que é o oceano senão uma quantidade de gotas?”, tornam a produção nada mais do que uma frase de biscoito da sorte com três horas de duração.
Mas os diretores Tom Tykwer, Andy Wachowski e Lana Wachowski, solidários ao roteiro preguiçoso, realizam uma direção burocrática, não oferecendo nenhum diferencial à produção, o que também colabora para a detetização total de cenas memoráveis. Por outro lado, a direção de arte consegue conferir uma personalidade diferente a cada mundo (o futuro, por exemplo, tem neon alucinado nas parte externa das estruturas e usa bastante o branco para conferir impessoalidade as cenários internos), atingindo níveis vitoriosos também na reconstituição de época das tramas. Mas o grande destaque mesmo é a maquiagem, que por vezes consegue transformar os atores (e o fato de usar o mesmo ator ou atriz para diferentes papéis, seja feminino ou masculino, se adequa à ideia de falar de reencarnação que o filme tinha pensado em fazer na pré-produção mas não conseguiu colocar em prática).
Liderado por um Tom Hanks com a qualidade e entrega habituais, o elenco pouco pode fazer com um roteiro tão chinfrim e a constante mudança de histórias, então ninguém da turminha consegue um destaque muito grande (com exceção de Hugo Weaving, que se limita a olhar de baixo e cuspir as palavras para tentar ser malévolo). É tipo como se eles estivessem atuando dentro de diversos posts do Twitter.
Assim, A Viagem se propõe a ser um mochilão por diversos países onde a pessoa aprende muita coisa sobre a vida, mas tudo que consegue é simular um fim de semana na praia – um fim de semana chuvoso. Além da maquiagem desenfreada nos atores, há pouco no filme que consegue chamar atenção ou fazer alguma diferença. Os Wachwoski podem ter mirado o céu, mas acabaram no chão.