Sanguinolência desenfreada e nerds vão salvar Hollywood

Kick-Ass – Quebrando Tudo (Kick-Ass)
5/5
Direção: Matthew Vaughn
Roteiro: Jane Goldman e Matthew Vaughn, baseados na graphic novel de Mark Millar e John Romita Jr.
Elenco
Aaron Johnson (Dave Lizeski/Kick-Ass)
Lindsy Fonseca (katie Deauxma)
Chloë Grace Moretz (Hit-Girl)
Nicolas Cage (Big Daddy)
Dave Lizewski é um nerd comum, que gosta de quadrinhos, pornografia online e é apaixonado pela mina mais gata do colégio. Daí ele tem um rompante de WATCHMEN, põe um uniforme massa e resolve virar um super-herói de verdade, mas a cobra acaba fumando pro lado dele quando uma máfia da pesada resolve tocar o terror pra cima do guri. E pra não bater as botas, o quase-super-herói conta com a ajuda de vigilantes com mais experiência no ramo e sequências de ação obliterantes.
Kick Ass é diversão absoluta do início até o final. Um barril de cerveja cinematográfico. Um filme que consegue misturar com extrema competência os absurdos do mundo dos quadrinhos com os absurdos da vida real e ainda ser coerente, cativante e original. Uma experiência tão intensa que, ao sair do cinema, o público provavelmente vai correr até uma loja de brinquedos e comprar uma fantasia do Batman para sair na rua desafiando trombadinhas.
Girls just wanna have fun.
A trama em si não oferece muitos atrativos, e até mesmo se perde quando busca uma abordagem dramática e pesada para as motivações de Big Daddy. Mas no que diz respeito às personagens e à forma como a história se desenvolve, há pouco a fazer além de aplaudir de pé: mesmo em um universo claramente absurdo, Dave é um protagonista extremamente crível, e a preocupação do roteiro em expor pequenos detalhes de seu comportamento (que à primeira vista pareceriam irrelevantes) contribui com isso. Da mesma forma, seus companheiros de tela conseguem se diferenciar sem soar estereotipados, construindo uma galeria de personagens insanas e divertidas e com suas particularidades (inclusive nas coreografias de luta: enquanto a do Kick-Ass é meio “atrapalhada”, a da Hit-Girl é bonita e divertida e a do Big Daddy é direta e funcional). Assim, mesmo que o plot não seja lá um poço sem fundo de criatividade, o espectador fica roendo as unhas pra saber o que vai acontecer com aquelas pessoas que ele recém conheceu. E até mesmo as brincadeiras com certas convenções quadrinhísticas e cinematográficas (como uma narração em off falando sobre morte) são colocadas de forma orgânica na película, sem comprometer as cenas (abraço, Shrek).
Aos bons diálogos e encadeamento de acontecimentos do roteiro soma-se um apuro visual ÀS GANHAS, que auxilia a conferir ao filme uma dinâmica digna da seleção holandesa de 74. Apropriando-se do mundo dos quadrinhos sem medo de ser feliz, o diretor traduz para a tela elementos daquele universo, mas o faz de forma VITORIOSA – e apenas a sensacional “animação graphic novel” que mostra um evento importante já justifica todo o TITITI em torno do filme. Que possui sequências de ação absolutamente devastadoras, coreografadas visando apenas a destruição total de inimigos (e clichês) e espalhando sangue pelos cantos como se não houvesse amanhã (e se você não aguenta violência gráfica, vá assistir a um filme de maricas, tipo Comando Para Matar) – destaque para um momento onde Hit-Girl toca o terror na bandidagem emulando DOOM e uma cena em uma pequena biblioteca. Tomado de assalto por transições inspiradas, Kick-Ass ainda possui na bagagem uma direção de arte que tem sucesso extremo ao traduzir aspectos visuais dos quadrinhos para o cinema (aliás, reparem como a casa de Dave é parecida com a vizinhança de Peter Parker em Homem-Aranha, ou como os uniformes conseguem ao mesmo tempo tirar sarro dos uniformes dos heróis e parecer eficientes).
Já o elenco está mais unido e comprometido do que a seleção do Dunga: como Dave, Aaron Johnson transmite carisma alucinado, e é fácil torcer por ele; Lindsy Fonseca é tão linda que fatalmente Deus a colocou no seu portfólio; e Nicolas Cage constrói um Big Daddy ao mesmo tempo “abobado” e letal, que o espectador consegue ao mesmo tempo respeitar e aceitar como piada. Entretanto, a dona desse filme é Chloë Grace Moretz, que torna assaz plausível toda a inocência e força destrutiva da Hit-Girl, conferinado às cenas de ação da personagem um caráter ao mesmo tempo cômico e assustador, sem deixar de lado a MEIGUICE de seu relacionamento com Big Daddy.
E qualquer filme que coloque uma pirralha de peruca rosa espancando marmanjos e faça o espectador, sem nem hesitar, aceitar isso como natural àquele universo, sem dúvida nenhuma merece a aprovação de toda e qualquer comunidade cinematográfica.

Twitter pelos tempos

Como teria sido o mundo se o nosso site favorito tivesse existido desde os primórdios da humanidade.

Na pré-história:
klog Churras de javali e dps festinha com clava nova pra enlouquecer a mulherada rs
Na época de Cristo:
jchrist cansei d dar valor a quem naum me da valor tb #judascuzaum
Na Grécia Antiga:
leôzinho THIS IS #SPARTA
No Império Romano:
Nero (perfil oficial) Aí galera, quem vai no Coliseu Bombadão nesse sábado? Dê RT nesta msg e concorra a 2 ingressos! #Coliseu
Nero (perfil oficial) Pessoal domingo tem o Quebra-Tudo romano, vinho liberado, o circo vai pegar fogo em Roma, não percam!
atila_huno Não esqueçam, amanhã é sexta-feira, ou seja, #DiaSemImpérioRomano. Participem e divulguem! Twitter é a nossa voz!
Nas cruzadas:
ricardolion os turcos sujos vive difamando Deus aí qdo a gente vai fazer justiça cortanu a cabeça deles já vem, os direitos humanos aff
Na casa do Leonardo DaVinci:
leo20 Vejam no meu blog o novo projeto que eu estou trabalhando, acho que vou chamar de iPad: http://www.homemvitruviano.blogspot.com.
No descobrimento do Brasil:
pcabral Finalmente avistamos terra, coisa linda, dêem uma olhada: http://twitpic.com/1xzulvk.
Na Revolução Francesa:
robespierre #Liberté #Egalité #Fraternité
Nas Guerras Napoleônicas:
napoleaum arrumando as malas agora pra viajar até sta helena #derrotasucks
Na Revolução Industrial:
smith Sou eu sou egoísta o problema é meu, não devo explicações da minha vida pra ninguém, vão cuidar da vida de vocês ora.
samuel_morse -. .- — / .- –. ..- . -. – — / — .- .. … / . … … . / ..-. .-. .. — / …- . .-. .- —
modernjack To lançando um novo livro de gestão de negócios, o nome é “Capitalismo: mais lucro e menos gasto”, comprem! #capitalismo
No Século XX:
Istvan Ei, por que diabos o arquiduque @FranciscoFerdinando tá nos trending topics?
adolf Vamos lá, tá na hora de divulgar isso pro mundo, vamos colocar nos topics ali CALA BOCA JUDEU.
john_l Ensaio de hoje foi legal, novas músicas, gravações a vista. Esse @Paul que começou a tocar com a gente não parece ruim. #roquenrolnaveia
jagger eu e o @krichards temos muita simpatia pelo @diabo, rsrsrs
king_luther Galera, vocês não vão acreditar no sonho que eu tive. #inspiraçao
StevenS vida de diretor inciante é F#$@, me colocaram pra dirigir um filmezinho sobre um tubarão assassino, aff #reconhecimentocadê?
lucas_g GALERA VEJÃO QUE MASSA O VÍDEO QUE EU FIZ, ‘STAR WARS’: http://www.youtube.com/watch?v=57q3kq4FPo
sadcobain “it’s better to burn out than to fade away”, esse @NeilYoung realmente sabe das coisas. #vidasucks #depressao
No Século XXI:
Bush @Saddam Já era, vou chamar meus amigos e te pegar na saída seu fdp, vocês israelenses são todos iguais #UFC #pauleira
coolestguy Caraca, que demais, eu to twittando do meu novo iFinger! #Apple #SteveJobsGod
Na Coréia do Norte:

A crueza a ver navios

Juliet, Nua e Crua – Nick Hornby
Nick Hornby surge aqui um pouco mais melancólico, arrisco até dizer mais maduro, e não tem pudor nenhum de fazer suas personagens comerem o pão que o Robinho amassou – e, uma vez que Hornby sabe como poucos fazer a gente cair de joelhos pelas pessoas que habitam a história, por vezes é cruel acompanhar o DESCENSO delas. Seu texto continua impecável, fluido feito o meio de campo da Argentina e recheado de insights inspirados, que ora levam o leitor a rir, ora deixam o leitor triste, de beicinho e pensando na vida. Ainda que não trabalhe certos temas tanto quando poderia, Juliet, Nua e Crua é uma das melhores e certamente a mais profunda do autor inglês.
De repente Annie se sentiu esmagada pela total inutilidade de seu relacionamento com Duncan. O relacionamento não era apenas irremediável na forma em que se encontra; sempre havia sido irremediável. Fora um desajeitado encontro nascido na internet, com um homem inadequado e entediante, mas que tinha durado anos, anos e anos.
Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo – Patrick O’ Brian
Embora a história se passe durante as guerras napolêonicas, aqui a ação, tal qual um lateral esquerdo, fica em segundo plano. Porque Patrick O’Brian destrincha devastadoramente a vida em um navio de guerra, dando atenção a detalhes mínimos da embarcação e usando um vocabulário que deixará o leitor sem norte (desculpem, piada obrigatória). É joanetes pra cá, barlavento pra lá, todos atirados no texto sem a menor cerimônia – mas, longe de afastar o leitor, essa estranheza faz com que ele sinta que realmente está observando o cotidiano daqueles homens (e uma detalhada ilustração do navio, com suas partes devidamente nomeadas, diminui em uns 80% a ignorância náutica de qualquer um). O texto, bastante rebuscado e detalhado, insere facilmente o leitor na trama e puxa o gatilho da imaginação dele. Mas é o carinho e respeito com que O’Brian trata suas personagens, especialmente o capitão Aubrey e o Dr. Maturin, investindo na relação entre elas como se não houvesse amanhã, que torna Mestre dos Mares tanto um registro de uma época como uma cativante história de aventura marítima.
De sua parte, Jack sentia-se em perfeito contato com o seu navio: navegar à bolina cochada era algo que tanto ele quanto a fragata conseguiam fazer admiravelmente bem, e enquanto ele permanecia ali, oscilando com o balançar do convés, tinha a percepção das leves guinadas ou quebras no seguimento que esta realizava. Vestia um velho casaco azul, pois fazia uma fresca manhã, embora estivessem tão próximo da linha dos trópicos, e o borrifo e até mesmo a água compacta que varria a popa, cada vez que o Surprise ombreava um dos mares mais íngremes, eram ainda mais frescos, deixando com um brilhante rosado seu rosto recém-barbeado.

Brincando de genialidade

Toy Story 3
5/5
Direção: Lee Unkrich
Roteiro: Michael Arndt
Elenco
Tom Hanks (Woody – voz)
Tim Allen (Buzz Lightyear – voz)
Joan Cusack (Jessie – voz)
Woody, Buzz e toda sua trupe ficam apreensivos com seu futuro quando seu dono Andy está arrumando as coisas pra partir pra faculdade. Quando um mal entendido deixa os brinquedos em FRENESI, eles se bandeiam pra uma creche, onde terão a atenção de crianças para sempre. Mas as coisas lá são meio NACIONAL-SOCIALISMO STÁILE, e agora eles precisam dar no pé antes que Andy vá pra faculdade e a vaca vá pro brejo de vez.
A Pixar vendeu a alma ao diabo. Única explicação possível. Após toda a devastação proporcionada pelo genial Toy Story 2, não achei que conseguissem manter o ritmo. Mas conseguiram. Toy Story 3 é uma acachapante coleção de insights inspirados, cenas enternecedoras, ação empolgante, criatividade desenfreada e emoção de sobra. Em algum lugar do mundo, Shrek chora de inveja.
“Alô, é da Dreamworks? Depressa, vejam se tem um carro cor-de-gelo estacionado na esquina!”
E já na primeira cena isso fica claro, pois Lee Unkrich nos reapresenta àquelas personagens cativantes em uma sequência de tirar o fôlego, apropriando-se do universo de faroeste com extrema competência. O que torna ainda mais impactante a montagem que vem a seguir, ilustrando o crescimento de Andy e o consequente abandono dos brinquedos em um velho baú. Aliás, a principal preocupação do filme é desenvolver as situações para que o espectador se envolva com elas, ao invés de apenas assistir – assim, quando Rex grita empolgado “ele me pegou na mão!”, o público ri por fora mas o coração DESFALECE por dentro. E, junto com toda essa carga dramática e nostálgica que temos pela gurizada medonha do Andy, vem uma trama que não soa repetida ou recauchutada, pelo contrário, obriga os brinquedos a se superarem cada vez mais para transpor os obstáculos (físicos e emocionais – o que dizer das cena de Woody na casa da Bonnie? Muitos filmes “adultos” não têm culhões de criar esse tipo de conflito). É uma evolução natural de Toy Story 2, que já era uma evolução natural do Toy Story original. Prova disso é o apreço do espectador pelas personagens, que recebe uma dose de fermento na veia e cresce exponencialmente ao longo da projeção. E também o buraco negro que devora as entranhas do público em uma cena específica onde a turminha de brinquedos aceita de forma serena o seu destino.
Enquanto isso o mundo criado por uns e zeros mostra-se encantador e cheio de vida. Impressionante como a criatividade dos caras não tem limite, e o número de sacadas visuais que a produção alcança ultrapassa o PIB de alguns países (tipo o ataque dos macacos, o bebê posando de “alcoólatra”, a transformação do Sr. Batata, o brinquedo que muda de rosto, o xilofone que Woody tenta usar como escada, e por aí vai). A ambientação criada para cada sequência também merece um brinde com copos cheios de cerveja, pois ilustra a vitória total da direção de arte – em determinado momento, por exemplo, graças à fotografia e à inventividade PIXARIANA, gavetas de brinquedos se transformam em um opressiva prisão (e duvido muito que Clint Eastwood conseguiria escapar dessa); em outro, a utilização de cores quentes transforma a creche em um paraíso com Scarletts Johanssons correndo nuas pela relva. Soma-se a todo esse APURO visual uma trilha deslumbrante composta por Randy Newman, que fatalmente abateu passarinhos pelas ruas e retirou deles a melodia ideal.
Mas o melhor de tudo é ver Woody, Buzz, Jessie, Slinky e todos os outros fazendo balbúrdias cidade afora. Cativantes como nunca, os protagonistas de Toy Story 3 pegam o espectador pela mão e o levam junto nessa jornada que começou quinze anos atrás – e o desfecho, em mais uma posição corajosa da Pixar, que não se rendeu a um final exatamente fácil, fará até mesmo Jack Bauer deitar em posição fetal no chão e chorar os RINS. Não sei se teremos um Toy Story 4 pela frente ou não, mas caso isso venha a acontecer, nada de preocupação: sabemos que a Pixar não está de brincadeira com essa galera.

E eu com esses números?

Navegando pelos mares bacanas do The Frontal Cortex, do ótimo Jonah Lehrer (já falei sobre um livro dele aqui no Cataclisma), me deparo com este post, onde ele discorre sobre como grandes sistemas não podem ser analisados ou definidos com equações ou telescópios. Peço licença para traduzir livremente um parágrafo que enche meus olhos de lágrimas:

Karl Popper, o grande filósofo da ciência, uma vez dividiu o mundo em duas categorias: relógios e nuvens. Relógios são diretos, sistemas ordenais que podem ser resolvidos através de redução; nuvens são uma bagunça epistêmica, “altamente irregulares, desordenadas, e, na maior parte das vezes, imprevisíveis”. O erro da ciência moderna é achar que tudo é um relógio, e é por isso que somos seduzidos de novo e de novo pelas falsas promessas de scanners cerebrais e sequenciadores de genes. Queremos acreditar que vamos entender a natureza se encontrarmos a ferramenta exata para cortar suas articulações. Mas essa abordagem está destinada a falhar. Não vivemos em um universo de relógios, mas sim de nuvens.

De uns tempos pra cá, a humanidade desenvolveu um fetiche devastador por números. Centímetros, metros, calorias, datas, euros, dólares, reais, porcentagem de erros, de acertos, dados, proporções. É como se um número pudesse, por si só, justificar uma verdade. Estamos querendo decidir as coisas através deles, como se um argumento ou opinião muito bem elaborados empalidecessem frente a um totalitário conjunto de dois e cincos, quatros e zeros ou qualquer coisa assim. Porque daí não há mais a dúvida, não há mais a dubiedade, não há mais a discussão, não há mais a derrota.
Mas os números não enxergam tudo: este nosso universo está repleto de nuvens. Ter 102 cm de quadril e 70 cm de cintura não torna uma mulher bonita ou feia; faturar 900 milhões de dólares mundo afora não torna um filme bom ou ruim; analisar as estatísticas de um jogador de futebol não é o suficiente pra saber se ele joga bem ou não.
Porque nem tudo pode ser quantificado, assim como, acredito, tantas outras coisas não podem ser qualificadas. Não a toa Douglas Adams usou o “42” como resposta para a “questão da vida, do universo e de tudo mais”: o inglês nonsense estava zombeteiramente jogando na nossa cara a nossa crença de que há uma resposta certa e absoluta, indiscutível, tão certeira e definidora quanto apenas um número pode ser.
E como sempre, Calvin e Haroldo ilustram a discussão de forma muito mais profunda, clara e estilosa do que eu: