Drifting

Porto Alegre é a cidade com a maior amplitude térmica em toda a história da meteorologia. Simplesmente não é possível. Ontem eu caminhava por aí de manga curta, sentindo o clima gaúcho – que, como tudo que é gaúcho, é o melhor do mundo – por cada poro da pele. Hoje eu já saí com um blusão de lã e um casaco, além de um daqueles trenós puxados por lobos.

O que mais me incomodou, entretanto, foi ver que mesmo no frio algumas pessoas ainda usavam manga curta. Guris e gurias, em sua maioria. Jovens. E me ocorreu que eu já fui assim, inconsequente – e sim, usar pouca roupa no frio é, de certa forma, se rebelar contra o status vigente. Em um mundo cada vez mais formatado, pequenas rebeliões pessoais são as nossas revoluções.

Vontade de ser inconsequente. Roubar um cone, descer a escada rolante na contramão, comprar revista pornô pra piazada. Quando a gente se acostuma à rotina, a gente se limita. Eu não devia me preocupar com “amplitude térmica”, não devia nem saber o significado dessa expressão. Devia é estar pensando em subverter as coisas, jogar uma pilha no gramado do estádio, realizar idéias nonsense. Coisas assim.

Mas eu já fui engolido. Faço parte daquele grupo que tem responsabilidades e deveres. Minha cabeça está assumindo o pensamento prático que o ocidente tanto venera. Porque quando o frio bate, quando a temperatura cai, a primeira coisa que eu penso é que não posso usar camiseta de manga curta.

Produtos que mudam o mercado.

Os campeonatos europeus estão de volta. As temporadas de alguns países começaram há duas semanas. Não engrenaram ainda mas em bem pouco tempo já teremos a oportunidade de ver novamente em ação os melhores jogadores do mundo.

Ainda ontem, passando pelos canais me deparei com Shalke X Werder pela segunda rodada do campeonato alemão. Parei pra dar uma olhada, claro, afinal o futebol força jogado na terra do chucrute vire e mexe nos presenteia com um golaço, geralmente atraves de chutes fortes. Eu estava certo. Vi um golaço naquele jogo. Mas pra minha surpresa ele não foi composto apenas pelo chute forte, mas tambem por um drible desconsertante e um corta-luz. Isso mesmo! Parece que os caras gastaram todo o estoque de genialidade da temporada em um só lance.

Depois da pintura, o comentarista se achou no direito de defender o campeonato germânico: “O pessoal critica a falta de técnica do futebol alemão, mas a seleção é atual vice campeã da Europa enquanto o badalado futebol inglês nem disputou a Eurocopa.”.

Por instinto, respondi (acho que em voz alta, até) a ele: “O badalado campeonato inglês não é disputado por ingleses!”.

Daí vem a ideia da coluna. O campeonato inglês é hoje sem dúvida o melhor do mundo. Acabou aquela história de carrinho e bola aérea (nada contra, até acho que aquela essência deveria ser mantida.). Mas o fato se dá pela miscigenação experimentada atualmente. Se o cara é bom, vai pra lá. Não importa se é brasileiro, africano, australiano ou coreano. Os mais conservadores podem afirmar que seja essa descaracterização que tenha prejudicado o desempenho da seleção. Mas isso é fase, questão de adaptação.

Um fenômeno semelhante aconteceu na Espanha. No fim da década passada, era lá que se fazia o melhor campeonato, sobretudo por colaboração dos jogadores africanos. Barcelona e Real Madrid frequentando as finais da liga com a mesma intensidade que os tres grandes ingleses e o Chel$ea fazem hoje em dia, só a seleção espanhola é que não vingava.

Eis que na Copa de 98 eles tiveram a chance de mudar essa escrita montando uma boa seleção e caindo no grupo da Nigéria, entao campeã olímpica e maior ícone do futebol africano. Houve muita alfinetada por parte dos espanhois antes do jogo, diziam que os jogadores africanos prejudicavam o futebol praticado na Espanha e chegaram a ofende-los. O resultado da partida? Nigéria 3 a 2, com direito a frango do Zubizarreta.

Dez anos depois a Espanha é campeã européia. Claro que a geração atual é muito boa, me arrisco a dizer que é a melhor que ja montaram. Passaram à condição de exportadores de craques, coisa improvável tempos atrás. Mas eu acredito que um fator que tenha ajudado nesse desenvolvimento seja a liçao aprendida. Hoje me parece que os espanhóis não só sabem lidar com os jogadores estrangeiros como também tenham absorvido suas boas influências para a formação de um padrão de jogo superior ao que possuíam. O que faltava para conseguir um título que consagrasse o futebol espanhol como grande. É bem verdade que apenas uma conquista não quer dizer muito, vamos ver se minha tese é confirmada com uma sequencia de bons resultados.

Com vocês, futebol:

my father’s gun

from this day on
i own
my father’s gun
we dug his shallow grave beneath the sun

i laid his broken body down
below the southern land
it wouldn’t do to bury him
where any yankee stands

i’ll take my horse and i’ll ride
the northern plain
to wear the colour of the greys
and join the fight again

i’ll not rest until i know
the cause is fought and won

from this day on
until i die
i wear my father’s gun

Diplomacíadas 2016

Acabaram as olimpíadas. Do Brasil, não sei se esperávamos muito mais do que a vigésima terceira posição no quadro de medalhas. O que incomoda é que hoje já não cabe mais aquele discurso de “Coitadinho! Não recebe apoio! Tem que treinar só com a própria força de vontade e deve ser considerado um herói do povo brasileiro só pelo fato de conseguir chegar a uma olimpíada.” Não! Tínhamos favoritos! Campeões mundiais em suas modalidades que, na hora de mostrar isso pra todo mundo e se tornarem ídolos, refugaram. Fizeram fiasco mesmo.

Tivemos três oportunidades concretas de medalhas de ouro que, assim como nosso governo, os atletas deram de mão beijada aos estadunidenses. E o que é pior: essas derrotas nos deram a prata! Não serviram sequer para contribuir com a campanha vigente nesses jogos: “Brasil, um país tropical bronzeado por natureza.”

A gente tem noção de que grande parte dos atletas realmente não tinha grandes chances e que eles foram apenas para fazer número. Mas aqueles que deviam ter se consolidado como grandes nomes do esporte mostraram uma característica marcante do brasileiro: o complexo de inferioridade. A gente não sabe lidar com o favoritismo e não está preparado para lidar com a pressão de estar obrigado a vencer. Enquanto continuarem passando a mão nas cabeças dos nossos perdedores, esse vai ser o exemplo de comodismo que o esporte vai passar para os mais novos. E, assim, ao invés de cumprir o papel social que deveria; o esporte continuará sendo, como no Pan 2007, mera ferramenta de politicagem, estacionando num patamar muito inferior do que deveria ocupar.

Se servir de consolo, a Argentina foi a trigésima quinta, não honrando o nome e ficando sem nenhuma medalha de argenta, ganhando apenas ouro no ciclismo e, denovo, no futebol (conquista mais óbvia do que as de Phelps nas piscinas). Tudo bem, 2010 vem aí com um evento esportivo de verdade, espero.

Top 5 – Videoclipes

1 – Do The Evolution – Pearl Jam

E eis que finalmente chegamos à genialidade absoluta. Tudo começa em um disco lançado há dez anos, em uma caixinha bonita pacas, passando meio desapercebido e tal. Mas o fato é que Yield é a grande obra-prima da década passada. O quinto disco de estúdio do Pearl Jam tem grandes canções, riffs alcoolizantes, melodias ridiculamente lindas, brincadeiras no encarte… Ou seja, quarenta e poucos minutos de pura inspiração. E a canção número sete é essa que vocês vão ver abaixo, uma música poderosa, que pega o cara pelo pulso e joga no olho do furacão chamado planeta Terra.

Captando o clima da obra de forma assustadoramente perfeita, o diretor/quadrinista Todd McFarlane jogou às favas qualquer crença que tinha no ser humano e fez o vídeo definitivo. Questionador, divertido, engraçado, pertinente, épico, inspirado, forte, irônico, tenso. Existem tantas brincadeiras e rimas visuais que fica impossível ilustrar aqui a monstruosa criatividade da coisa toda. Sério. Vale a pena ver, e rever, e ver mais uma vez, e aí sim o cara começa a pegar pequenas sacadas, que tornam tudo ainda melhor. Do The Evolution é uma aula de… de… é uma aula de QUALQUER coisa. Como falei, eis que chegamos à genialidade absoluta. O primeiro lugar. O melhor.

Top 5 – Videoclipes

2 – The Happiest Days of Our Lives / Another Brick in the Wall Part II – Pink Floyd

Normalmente, existem duas formas de uma pessoa chegar até Pink Floyd: Wish You Were Here, uma bela canção sobre saudade, feita para o ex-vocalista Syd Barret e que constantemente é tomada como uma balada romântica; e, principalmente, a versão original daquele canto das torcidas gremista e colorada que tem a proeza de rimar “cu” com “cu”.

Another Brick in the Wall Part II é, sem dúvida, uma das grandes canções do século. Deste século, do século passado, e de todos os séculos possíveis e imagináveis. Uma música que ridiculariza a escola, o ensino e a instituição robotizada que isso tudo se tornou. É aí que entra o DESCOMUNAL videoclipe.

O que acontece com aquele garoto do vídeo, sonhador, que faz poemas na aula? É reprimido pelo sistema. Tem suas idéias cortadas e jogadas no lixo. “Inglaterra dos anos 60”, dirão alguns. Será mesmo? Será que, atualmente, as crianças não são cada vez mais formatadas? A enorme quantidade de informação disponível, quando bem manipulada, nos dá a falsa impressão de que nós fizemos uma escolha. Digo, a frase “estude, faça faculdade e arranje um emprego” até que combina com o clipe, certo?

Por isso esses 6 minutos audiovisuais são tão geniais. Quer imagem melhor do que as crianças, sem rosto, entrando numa máquina e saindo de lá sentadas nas classes? A fotografia escura, num clima quase de suspense? A revolução, libertadora, salvadora, que acontece apenas na cabeça de um dos alunos, porque o resto já assimilou inevitavelmente a “educação”?

Happiest Days of Our Lives / Another Brick in the Wall Part II é uma obra universal. Atual ainda. E por isso merece este honroso segundo lugar.