Fome de franquia

Jogos Vorazes (The Hunger Games)
4/5
Direção: Gary Ross
Roteiro: Gary Ross, Suzanne Collins e Billy Ray, baseado no livro de Suzanne Collins

Elenco
Jennifer Lawrence (Katniss) Josh Hutcherson (Peeta Mellark)
Woody Harrelson (Haymitch) Donald Sutherland (Presidente Snow) Stanley Tucci (Caesar Flickerman)

Em um futuro pós-revolução, onde a parte revolucionária tirou a cartinha “revés” no Banco Imobiliário, a América do Norte é dividida em distritos. E, a cada ano, todos os distritos devem oferecer dois “tributos” entre 12 e 18 anos – um menino e uma menina – para participar de um reality show – um onde todos devem descer o sarrafo entre eles mesmos e jogar uma versão cruel e sangrenta do jogo de tabuleiro “Resta Um”.

O marketing de Jogos Vorazes tenta vender o filme como a nova grande saga após Harry Potter e Crepúsculo. Mas, após alguns minutos rindo por chamarem Crepúsculo de “grande” ou “saga” ou “filme” ou “aquilo” ou “feito de átomos”, percebe-se que Jogos Vorazes é mais uma obra mesmo e menos um fenômeno de marketing – e que, apesar de chamar na preguiça em alguns momentos, o filme é intenso e envolvente o suficiente para que a possibilidade de se tornar uma franquia seja algo a se comemorar.

Tal qual acontece com muitas adaptações de livros, Jogos Vorazes aqui e ali gasta tempo em cenas que não acrescentam muito à trama, provavelmente aparecendo apenas por estarem no livro também – como aquelas envolvendo a mãe de Katniss ou o namoradinho-com-gel-no-cabelo dela assistindo ao torneio pela TV. Da mesma forma, com pouco tempo para dedicar a alguns personagens, algumas vezes investe em estereótipos mais batidos do que mulher de malandro – e ver os “antagonistas” (aliás, precisava ter um antagonista? A trama já não é intensa o suficiente?) tirando sarro das súplicas de suas vítimas fez tudo soar como aquelas cheerleaders de filmes adolescente rindo das colegas gordas (e essa superficialidade só torna um arrependimento final de uma personagem ainda mais forçado).

Jennifer Lawrence pronta para atirar e acertar em cheio o
coração do espectador.
Por outro lado, a produção utiliza um bom tempo para apresentar a história e conceitos, e o núcleo de personagens principais é trabalhado de forma incomum para um blockbuster: Haymitch cativa com seu jeito “já bebi oito engradados de cerveja e não estou nem aí” e o fato de que realmente se importa com a pirralhada, Peeta cresce para deixar de ser só um loirinho chato e até mesmo Effie se torna interessante com sua bizarra mas verdadeira empolgação pela coisa. E, claro, temos Katniss, e o tempo absurdo que a câmera fica nela não é a toa. Ela é a narradora e quem carrega o espectador pela trama. Através de seus olhos (lindos, claros e que trazem o brilho da beleza única), somos informados da brutalidade dos jogos, do contraste distritos-capital, da incoerência de tudo aquilo. Mas Katniss não é apenas um ponto de vista, e o espectador se pega torcendo por aquela figura carinhosa, quase materna, que desde pequena chama o mundo pra briga e encara ele de igual pra igual. Assim, sua jornada de sofrimento (e aqui cabe a comparação com Crepúsculo, pois só quem já assistiu a todos os filmes da série conhece o significado de “sofrimento”) é a jornada de uma personagem tridimensional, que toma um trago de coragem para salvar sua irmã mais nova só para depois enfrentar uma descomunal ressaca de medo, que adota a pequena Rue como forma de compensar a falta da irmã. E que sim, mata para sobreviver, apenas para sofrer um bullying violento de sua consciência depois.

Porque o filme não tem medo de atirar sua protagonista na roda da desgraça. Ela precisa correr, escalar árvores, fugir de incêndios, de assassinos, é queimada, picada por animais venenosos, alucina, cai, sofre, perde pessoas queridas. É como se o Iñarritu estivesse dirigindo o reality show. Isso tudo só torna o caminho dela ainda mais perigoso, envolvendo mais o espectador na balbúrdia. E para deixar a coisa ainda mais tensa, o diretor Gary Ross investe em uma câmera sacolejante, sempre na mão, que confere mais realismo e brutalidade às sequências (esse estilo meio documental traz para a linguagem um realismo inexistente na trama, o que ajuda o público a aceitar aquele mundo e a se chocar com o que acontece nele). A fotografia mais granulada e com cores dessaturadas (exceto na capital, onde elas são tão vivas e berrantes quanto em qualquer seriado da Warner) ajuda a conferir esse climão, que também é beneficiado pela montagem frenética (ainda que eventualmente a combinação “câmera na mão + montagem” acabe chacoalhando o cérebro do espectador, que não consegue acompanhar direito o que acontece na tela).

Ross também prova que manja do riscado ao utilizar de forma vitoriosa recursos que elevam pacas a dramaticidade dos momentos, como os planos-detalhe quando Katniss vai atirar, o perturbador silêncio no momento da “Colheita”, o volume baixo na hora da entrevista (que ressalta o nervosismo da protagonista), e assim por diante (uma forma econômica e competente de evitar diálogos expositivos – em outros casos, certamente haveria alguém perguntando “você está com cara de nervosa, você por acaso está nervosa nesta situação nervosa que certamente arrancaria o nervosismo total de qualquer um?”). Aliás, a trilha investe em tons mais sombrios mesmo em momentos de “calmaria”, servindo a tensão no prato já na entrada, enquanto o design de som ajuda a criar a já citada realidade ao utilizar sons florestais como se não houvesse amanhã (reparem como o farfalhar das folhas enquanto Katniss liga o modo “sebo nas canelas” floresta afora auxilia na construção do ambiente). E já que estamos falando de design (“desing” para alguns do Twitter), a direção de arte merece retweets pelo ótimo contraste entre os distritos (pobres, sujos, quase rurais em sua essência, mas pequenos e acolhedores) e a capital (totalmente impessoal, com a ditadura do cinza perdurando, estruturas retas, quadradas e tão atraentes quanto… bem, quanto um cubo cinza e impessoal). Mas há um porém aqui: a breguice desenfreada dos figurinos usados pelo pessoal da Capital, cujas lojas de roupa aparentemente só vendem coleções desenhadas pelo Tim Burton, quebra um pouco o clima do filme. Tudo bem, dá pra entender o objetivo dessa escolha (mostrar a artificialidade, contrapor ao máximo possível a Capital com os distritos), só que ela destoa tanto do resto que, justamente por ser tão explícita quanto a seus objetivos, não entrega sua mensagem de forma natural.

Mas Jogos Vorazes se gabarita a pedir música no Fantástico é com o espetacular elenco, mesmo. Começando por Woody Harrelson, que com trejeitos ágeis e falas rápidas transforma Haymitch em uma figura maníaca e magnética – e os momentos onde fica “sério” mostram o quanto ele se preocupa com Katniss e Peeta (aliás, percebam que uma simples recusa de Haymitch a aceitar bebida, em determinado momento, é o suficiente para ressaltar a importância daquele momento e daquela cena). Já Stanley Tucci entra no modo Coringa e mantém seu sorriso quase sempre devorando as orelhas, na artificial alegria do apresentador Caesar Flickerman (algo que compartilha com Elizabeth Banks, que, como Effie Trinket, frequentemente parece ter dentes demais). E se os tributos não podem fazer muito com os estereótipos que recebem, ao menos Josh Hutcherson ilustra bem o olhar aguçado e a determinação de Peeta, que desde o primeiro segundo se mantém tenso o tempo todo (até mesmo sua postura quando sentado é rígida e parece desconfortável) e focado no jogo.

Entretanto, o maior mérito desse elenco é o de não ser completamente obliterado pela deslumbrante atuação de Jennifer Lawrence: construindo uma Katniss sentimental, amorosa, ela justifica cada atitude tomada pela protagonista. Sem quase nunca elevar seu tom de voz, a atriz é a responsável por um dos pontos mais importantes da trama: Katniss não se ofereceu no lugar da irmã por achar que tinha mais chances, mas sim por amar tanto a pimpolha. Constantemente lembrando o público de que aquela é uma jornada de superação (os gritos que ela dá enquanto corta um galho, por exemplo, não são gritos de coragem, do tipo “agora vocês vão ver”; são gritos de dor), a loirinha consegue ilustrar a fragilidade e a determinação da garota sem cair no exagero ou no clichê. Através de um olhar ligeiramente arregalado, com leves tremidas de cabeça e dos lábios, Lawrence mostra de forma definitiva o quão chocante é aquela realidade – e sua expressão assustada, apenas alguns segundos antes dos jogos começarem, é um dos momentos mais perturbadores do filme.

Assim, Jogos Vorazes mostra-se uma película sólida, com uma visão bem definida do que deseja transmitir e atingindo o sucesso nesse quesito. Embora com algumas adolescentizações desncessárias (as já citadas e outras, como o fato de que a “revolução” no distrito 11 começou do nada – por que nunca haviam feito isso antes?), a produção consegue fugir do óbvio e tem coragem para tomar decisões não muito comuns a esse tipo de blockbuster. Até porque não é um filme de ação, e sim uma história sobre Katniss. E uma película que investe 90% em sua personagem para, após todo o sofrimento, vê-la com um sorriso amarelo quando deveria estar radiante, certamente merece um olhar mais atento. E torna as possíveis (inevitáveis, a essa altura) sequências ainda mais promissoras.

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Série acadêmica

Existe uma frase, que hoje em dia provavelmente é atribuída a Einstein ou Chaplin, que diz “a prática leva à perfeição”. Quanto mais treinamos, quanto mais insistimos em algo, melhores nos tornamos nessa tarefa. Ela é mais um membro da Escola de Filosofia Biscoito da Sorte, entidade que visa, através de mensagens vagas, fazer com que as pessoas tenham algo pra colocar no seu status do Facebook.
E quem já pisou em uma academia sabe o quanto ela é prova viva do fracasso dessa sentença. Se você nunca pisou em uma, faça o seguinte: inscreva-se em uma academia qualquer (não é difícil, elas surgem nas esquinas com mais frequência do que ex-BBBs nas playboys); faça uma aula vestindo uma bermuda e a camiseta rasgada do antigo time de futebol da turma; pegue uma das barras do recinto, polvilhe-a com 30kg em anilhas e tente levantar a dita-cuja TRINTA E DUAS vezes. Quando estiver na última batalha campal contra a gravidade, olhe atentamente a si mesmo no espelho. E perceba que, mesmo você realizando o movimento anteriormente, praticando ele trinta vezes, na última repetição a perfeição estará tão violada que nem mesmo um exame de arcada dentária identificaria a coitada.
Assim, podemos concluir que a prática não leva à perfeição, que nada leva à perfeição, que a busca pela perfeição apenas deixa a pessoa desequilibrada e que – dedução mais lógica possível dessa situação – Einstein e Chaplin obviamente eram ávidos frequentadores de academia.

Eu, eu mesmo e a matéria

A monotonia poderosa de uma tarde de domingo me levou a assistir a um programa sobre o início do universo, no National Geographic. Aparentemente, tudo que existia antes era uma bolinha minúscula, menor do que um átomo, onde pulsava um calor milhões de vezes mais forte que o do sol. Tipo uma versão atômica de Porto Alegre no verão, assim. Pois bem. Logo o Big Bang chegou tocando o terror em tudo e mandando essa bolinha literalmente pro espaço, e o universo começou a se expandir.
A essas alturas, tudo era energia. Eis que os primeiros representantes da matéria acabam sendo criados, mas, para não ficarem solitários, vem sempre uma partícula de antimatéria junto para animar a festa. E, como bom casal, a matéria e a antimatéria se aniquilam infinitamente. Ou seja, a tendência era o universo ficar nesse MMA microscópico para sempre, sem sair nenhum coelho (ou planeta, estrela, pessoa, vida, qualquer coisa feita de matéria) desse mato espacial.
Entretanto, havia um porém: para cada 100 milhões de partículas de antimatéria que davam as caras, 100 milhões e uma partícula de matéria acompanhavam. Essa foi a diferença. Essa uma partícula a mais, que sobreviveu à Guerra dos Milissegundos, que foi se juntando com outras partículas a mais, deu início à tudo. Fez as coisas acontecerem.
Ou seja, todas as pessoas, os planetas, as galáxias, as estrelas, os rios, os oceanos, as nebulosas, a Scarlett Johansson, as montanhas, os vulcões, absolutamente tudo de tudo que existe nasceu de um desequilíbrio, uma imperfeição. Então, a nossa busca constante pelo controle, pela perfeição, é uma jornada que vai contra o próprio processo que nos trouxe aqui. A vida é uma sucessão de eventos caóticos, dos quais a mais inesperada das coisas, para o bem ou para o mal, pode surgir. E a nossa tentativa de evitar, de manipular esses eventos, é uma tentativa de abafar a criação em seu estado mais puro. Afinal, de uma partícula de matéria pode ser originar todo um universo. E de um domingo tedioso pode se originar um novo post no blog.