Nos idos de Moulin Rouge

O Grande Gatsby (The Great Gatsby)
2/5

Direção: Baz Luhrmann
Roteiro: Baz Luhrmann e Craig Pearce, baseados no livro de um tal F. Scott Fitzgerald

Elenco
Tobey Maguire (Nick Carraway)
Leonardo DiCaprio (Jay Gatsby)
Carey Mulligan (Daisy Buchanan)
Joel Edgerton (Tom Buchanan)
Isla Fischer (Myrtle Wilson)

Nick Carraway é um ex-quase escritor que se muda para Nova Iorque com o objetivo de atingir o sonho americano, i.e., ficar rico e fazer festa e ter muitas coisas legais (que coincidentemente é o sonho de vários não-americanos, também). Lá, através de sua prima Daisy, ele conhece um ricaço intrigante chamado Gatsby e várias coisas ricas e intrigantes acontecem enquanto o diretor Baz Luhrmann pega um estojo de lápis de cor e sai pintando tudo em volta.

O Grande Gatsby é menos uma história e mais um carnaval de cores, câmeras lentas, sobreposições e outras trucagens cinematográficas. Na verdade, parece que Baz Luhrmann simplesmente queria fazer algunas cenas plasticamente bonitas e alguém falou pra ele que, infelizmente, o filme precisava de outras cenas também porque tinha uma tal de história e era meio que essencial contar ela. O resultado é uma obra expositiva, forçada, sem sutilezas ou cargas dramáticas (ainda que tenha umas cenas plasticamente bonitas).

Basicamente, todas com a Carey Mulligan

Na real, o principal problema de O Grande Gatsby é um que acomete muitas adaptações literárias: o filme não traduz a história para a linguagem cinematográfica, apenas transporta ela, aparentemente achando que colocar o livro no lugar do cartão SD da câmera é o suficiente. Esse tipo de chocarrice faz com que a película não tenha nenhuma confiança em suas imagens enquanto contadoras de história, como se o único papel delas fosse existir individualmente enquanto Instagrams filmados, deixando uma narração em off frequente que explica tudo que acontece. É sério, não é uma hipérbole – em determinado momento, inclusive, esperei que o narrador falasse “agora vamos ver o que o Arnaldo tem a dizer sobre a direção de arte”. Por exemplo, tem uma cena onde, enquanto a narração diz que Nick desistira de ser um escritor, vemos o dito-cujo pegando uma cópia de Ulysses e largando em cima da mesa, em uma das maiores ilustrações da palavra “redundância” de que se tem registro. Daí fica tudo assaz verborrágico e qualquer impacto visual é diluído pelo blábláblá em off, o que é um problema bem grande se considerarmos que é uma obra audioVISUAL (quando Gatsby é apresentado pela primeira vez, a narração mais uma vez explica o que está acontecendo na tela, impedindo que o espectador seja cativado pelo momento em si. E a frequência com que isso se repete torna O Grande Gatsby uma grande descativação geral, estéril de cenas lacrimejantes ou inspiradoras).

Mas o complexo de tagarelice não é o único problema desse livrinho de colorir que Baz Luhrman chama de “roteiro”: o filme parece ter preguiça de realmente investir nas tramas que o permeiam, acreditando que o simples encadeamento de eventos decisivos é o suficiente para construir a história (não é) – tipo, a admiração de Nick por Gatsby é completamente desprovida de qualquer justificativa ou bom senso, soando extremamente forçada. Na verdade, o próprio Gatsby é uma figura apagada, sem grandes atrativos (e não falo aqui de coisas que o tornem “grandioso”, mas sim interessante enquanto personagem), conseguindo um pouco da atenção do público mais graças ao mistério de como ele se tornou um Tio Patinhas festeiro do que por qualquer outra coisa, e pelo andar da carruagem seria muito mais plausível se ele tivesse uma admiração enorme por Nick, e não o contrário. Com isso, cenas que teoricamente teriam uma carga dramática enorme (carga dramática essa que é essencial para que a galera se envolvesse com a história) acabam soando tão intensas quanto uma partida de gamão, e logo se percebe que O Grande Gatsby é meio que só um mapeamento dos pontos-chaves da história disfarçado de Moulin Rouge 2.

Já a parte visual é bem mais apurada, ainda que seja apurada de uma forma meio individualista, cada cena tentando simplesmente ser a mais bonita, como se fosse um concurso de Miss Planos. Algumas são realmente inspiradas, como os fogos de artifício quando Gatsby se vira ou as cores quentes em que Daisy é apresentada, criando um momento tão caloroso que a galera saiu um pouco bronzeada do cinema. Os cenários grandiosos evocam bem a filosofia “eu tenho, você não tem” daquela galera, um grande high five dessa direção de arte que, além de fazer uma vitoriosa reconstituição de época (consegue emular o visual dos anos 20 de uma forma bastante particular), traz junto algumas sacadas extremamente bacanas – o exagero de vermelho no cenário em que Tom e Myrtle fazem a dancinha do acasalamento, exacerbando a paixão e a luxúria do recinto, é um ótimo exemplo. É um lance meio teatral, mas totalmente de acordo com a trama e o período histórico, se é que isso faz algum sentido (mas tudo bem se não fizer, porque o filme também não faz).

A parte chata é que Baz Luhrmann dirige a coisa de uma forma meio desempolgada, tipo como se estivesse esperando só pra usar sobreposições e planos digitalmente emendados e ficasse frustrado toda vez que não pudesse. Mesmo cenas que são plasticamente bacanas, como a do atropelamento, possuem enquadramentos que se preocupam mais em aparecer no Vimeo e menos em contar efetivamente o que está acontecendo – os únicos momentos que realmente merecem destaque são as imagens aéreas, que, principalmente quando a turminha tá saracoteando pelas pontes, conseguem impressionar. É uma pena que, mesmo com esse narcisismo visual, o diretor não manje nada de 3D, optando por uma profundidade de campo pequena que, basicamente, joga o 3D em uma banheira e cruelmente o afoga. Se formos levar em conta também a montagem com DDA, que não consegue passar mais de oito segundos no mesmo enquadramento, meio que resumindo a direção de arte e a ótima fotografia (que alterna entre o colorido total no presente e uma simpática paleta mais monocromática nos flashbacks – algo meio óbvio, mas que aqui funciona com um contraste supimpa) em gifs numa telona, percebemos que mesmo o visual do filme não traz lá grandes impactos (aliás, O Grande Gatsby parece ter sido feito pensando nos inevitáveis gifs e posts no tumblr que surgirão com o filme).

Com uma cara de bobo sempre convincente, embora completamente despido de carisma, Tobey Maguire passa por média como narrador da balbúrdia, ainda mais considerando que o roteiro trata sua personagem de uma forma meio “opa, precisamos que a história avance aqui, bota o ex-Homem-Aranha aí em cena”. Já Leonardo DiCaprio consegue fluir entre o agradável e apreensivo, frequentemente mantendo uma postura cortês que denota o quanto é trabalhada aquela imagem que Gatsby constrói de si mesmo – ainda que exagere de vez em quando (o encontro com Daisy) e, como de costume, esteja sempre parecendo se esforçar demais, o que atira para as cobras a ilusão de que ali está uma personagem, e não um ator representando. E, enquanto Joel Edgerton consegue ser intenso e carismático mesmo com as limitações roteirísticas, Carey Mulligan empresta beleza, doçura e fragilidade à Daisy, construindo uma personagem ao mesmo tempo melancólica e esperançosa, distante e acessível.

Aparentemente surgido como um veículo para que Baz Luhrmann mostre como coisas em vermelho e sobrepostas são legais, uma vez que exagera nas trucagens cinematográficas, O Grande Gatsby se perde ao pular a cerca e trair o roteiro com uma devassidão visual de baixa auto-estima, que não acredita muito em si mesma. O que é meio bizarro, já que estamos falando de uma adaptação literária. No final das contas, um filme nada mais é do que uma história contada – e a produção chafurda na lama do fracasso justamente por se esquecer disso, achando que uma fotografia bonita e umas câmeras lentas fariam a película valer a pena. Ou seja, como tudo e todos que investem apenas na imagem, sucumbe à superficialidade.

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