O dia em que eu fui à Copa do Mundo

O futebol visto ao vivo não é nada glamouroso. Sem os enquadramentos cinematográficos, a montagem ágil, a narração empolgada, a câmera lenta, os replays, os gráficos, as análises, tudo se resume a uma visão ampla do campo, longe dos supercloses que captam olhos marejados e da edição que confere drama às coreografias involuntárias. Ao vivo, o futebol é despido de quaisquer adornos carregados de significado e retorna a uma forma simples, rústica, onde precisa conquistar as pessoas apenas pelo impacto das jogadas e comportamento da torcida, sem intermediários cujo trabalho é tentar tornar a partida o mais envolvente possível. Ao vivo, o futebol deixa de ser espetáculo.
O inacreditável míssil disparado por Tim Cahill aos vinte e um minutos do primeiro tempo, tatuando o travessão e empatando a partida contra uma equipe mais forte e que havia recém marcado, foi algo fora do comum. Talvez porque fosse uma partida fora do comum, repleta de jogadores fora do comum, torcidas fora do comum, importância fora do comum. Os primeiros passos em um Beira-Rio dividido entre o laranja pulsante dos holandeses e o incompreensível sotaque dos autralianos já indicavam se tratar de um jogo à parte, composto por uma atmosfera que há vinte anos eu vejo na televisão mas que só ontem realmente descobri: é a Copa do Mundo (dispenso o “FIFA” no final) criando um universo que só é possível acessar de quatro em quatro anos, que não existe fora desses trinta dias enlouquecidos de futebol e que, para alguém que desejava mais do que tudo ter visto ao vivo o gol genial de Hagi contra a Colômbia, o chute de Branco contra a Holanda, a subida de Romário contra a Suécia, a arrancada de Michael Owen contra a Argentina, os passes cirúrgicos de Beckham e Scholes, o domínio perfeito de Bergkamp em cima de Ayala, o trenzinho de Felipão após superar Van Basten, o toque simples e brilhante de Pirlo para Grosso, a redenção de Materazzi, os pênaltis quase seguidos entre Espanha e Paraguai, a maior defesa de todos os tempos realizada por Suárez, a cavadinha vitoriosa de um El Loco que fez jus ao seu apelido e o chute mais importante da história da Espanha desferido por Iniesta, possui um significado de mais de vinte anos de “imagina se eu estivesse lá”.
Quando Cahill bombardeou o gol holandês aos vinte e um minutos, dois australianos sentados atrás de mim pularam e gritaram e se abraçaram e nos abraçaram e desceram as arquibancadas correndo. O gol – talvez o mais bonito da Copa até aqui – foi marcado no lado da goleira onde eu estava sentado, e, mesmo a dezenas de metros de distância, vi ele muito mais de perto do que qualquer superclose de câmera poderia conseguir: vi ele das arquibancadas de uma Copa do Mundo, envolvido pelos gritos das torcidas, testemunhando a bola percorrer todo o caminho até sacudir as redes e mudar um país inteiro e, pela primeira vez na vida, sem precisar imaginar como seria estar ali. Porque ao vivo, quando deixa de ser espetáculo, é que o futebol se torna verdadeiramente espetacular.
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