Quem eles pensam que são?

Vou tocar num assunto que eu ainda não tinha abordado nessa coluna até hoje. Uma das partes mais importantes de um jogo de futebol, mas que se acha, muitas vezes, mais importante do que realmente o é: o árbitro. O Kleiton havia postado um texto sobre eles naquela memorável semana em que invertemos os autores e suas respectivas sessões, mas ao assistir aos jogos deste final de semana alguns fatos me chamaram a atenção e eu quero compartilhar umas idéias com vocês.

Nossa própria cultura acaba superestimando esse papel. A gente costuma chama-lo de juíz, como se ele tivesse o poder para decidir tudo dentro do jogo. Muitos deles acreditam nessa máxima e a levam às últimas conseqüências. Se o árbitro decidir um jogo, é sinal de que ele não fez o que deveria fazer. Quem tem que decidir é o atacante! Ou, no máximo, o goleiro. Mas nunca a arbitragem. O àrbitro não está ali para julgar, mas para mediar uma partida.

Quem acompanha jogos da Europa e do Brasil percebe muito claramente a diferença entre os apitadores de lá e de cá. O futebol brasileiro é muito manhoso, beira à frescura mesmo. Qualquer esbarrãozinho de nada já é motivo para uma série acrobática digna de uma atração circense, seguida de uma interpretação de dor e sofrimento de encher os olhos. É, talvez a idéia de futebol-arte difundida em tempos passados tenha ganhado um caráter mais multimídia na era da globalização.

E a arbitragem contribui pra esse tipo de atitude fazendo o que chamam de “defender o craque”. Na boa? Craque pra mim não é quem cava um penalti, mas quem se levanta de novo, rouba a bola do zagueiro e bota ela na rede! Tá muito chato acompanhar um jogo de campeonato brasileiro hoje em dia, a bola pára toda hora. Ontem no jogo Atletico-PR X Grêmio foi marcada uma falta sete segundos após o ponta-pé inicial, daí pra frente a minha impressão é de que não tivemos uma sequencia de bola em jogo muito maior que esse tempo.

A minha idéia original era banir esta figura do espetáculo pra ver se o campeonato volta a ser formado por espetáculos propriamente ditos, mas como futebol envolve uma competição, uma disputa entre dois adversários, é impossível que seja realizado sem um mediador; porque daí a disputa ficaria a dois passos de virar batalha e os adversários, de virarem inimigos. Então já me contentaria com uma correção de nomenclatura. Ao invés de juíz, mediador. E é assim que vou me referir aos homens do apito daqui pra frente.

Com vocês, futebol:

Gremista eu sou!

Quando é que a gente decide começar a torcer por um time? Eu realmente não me lembro se houve um tempo em que eu era pessoa e não era gremista. O que eu sei é que hoje, depois de tanto tempo, eu já teria inúmeros motivos para entender o porquê de ser torcedor do Grêmio. E a cada motivo que esse time me dá eu abençôo aquela hora que eu não sei se existiu: a hora em que eu virei Tricolor. Costumo dizer que enquanto todos os outros clubes do Brasil estão distribuídos em um espectro onde brigam para ver quem é o melhor, o Grêmio não é melhor nem pior, o Grêmio é outra coisa. O Grêmio é original.

O primeiro jogo que eu assisti foi um Grêmio 3 x 0 Corinthians, no tempo em que o time tinha Paulo Egídio e Bonamigo. Era a tarde de um sábado do final dos anos 80 e eu estava assistindo sozinho ao jogo na TV do meu quarto quando, no finalzinho do segundo tempo, meu pai acorda de sua tradicional cesta e aparece na porta: “Quanto tá o jogo, filhão?”; eu respondi com a maior naturalidade do mundo que o Tricolor goleava. E ele foi tomado de um entusiasmo tamanho que eu, na minha sabedoria infantil, não entendia a surpresa dele. Afinal, que outro resultado seria possível em um jogo entre um campeão mundial e um sequer campeão brasileiro na época?

Claro que depois daquele episódio eu já aprendi um pouco mais sobre este esporte onde nem sempre a melhor equipe sai com a vitória e que, também por isso, é tão viciante. Aprendi também sobre esse time tão diferente, tão empolgante! Um time que tem por tradição buscar forças não se sabe de onde para reverter situações onde o gremista mais fanático já está sem esperanças. Um time que tem por tradição a alma castelhana, trazida a campo e incorporada pela sua torcida. Um time que tem por tradição, não ganhar sempre, mas ganhar quando é preciso. Um time que tem por tradição transformar cada título em épico, seja da segunda divisão ou da Libertadores de América. Um time que tem por tradição mostrar um futebol aguerrido, tão peculiar que faz os adversários muitas vezes renegar seu futebol. Um time que tem por tradição surpreender a desavisada imprensa que o chama de zebra a cada conquista. Enfim, um time que se eu fosse descrever com uma só palavra, esta seria TRADIÇÃO.

E quer mais tradição do que aniversariar na semana farroupilha? Parabéns, Grêmio Foot-ball Porto-alegrense. Se nos teus próximos 105 anos conquistares metade do que já possui, teu futuro já será imenso.

Com vocês, uma outra coisa (com muito orgulho):

Malditos Mocinhos!

Esse final de semana teve clima de Copa do Mundo: as eliminatórias européias começando e rodada também na América do Sul. Em ambas, resultados parecidos. A Argentina penando pra empatar em pleno Monumental de Nuñes abarrotado contra o líder (!) Paraguai, que saiu na frente. A Venezuela, apesar de não ter ganhado nessa rodada, pela primeira vez na história ousa pensar numa classificação. Na Europa, essas eliminatórias começaram com a França perdendo merecidamente para a Áustria, a Itália decidindo o jogo no finalzinho contra o Chipre (relatos dão conta de que o goleiro italiano Buffon foi o nome do jogo) e a badalada campeã européia superando a Bósnia em casa pelo placar mínimo.

Será que a inusitada copa da Africa terá resultados surpreendentes? As casas de aposta pagarão menos a quem palpitar que a final seja disputada entre os vencedores de Chipre X Tunísia e Venezuela X Albânia?

Pra falar a verdade, eu duvido muito. Trazendo um pouco de história, a gente percebe que toda copa tem uma seleçao desconhecida que rouba a cena e aparece como sensação do torneio, mas na hora de decidir, de mostrar quem tem mais bala na agulha, quem tem mais pedigree, essas seleções acabam por sucumbir. E daí a gente vê que, pelo menos na Copa do Mundo, a primeira impressão não é a que fica.

Foi assim com Portugal em 66 e 40 anos depois, o Peru de 70, Camarões e Colômbia em 90, a Romênia e a Bulgária na sensacional Copa de 94, a Nigéria de 98, a Turquia de 2002. Todas elas grandes seleções (guardadas as proporções e levando em conta a diferença de qualidade entre as Copas que cada uma dessas equipes disputou) que sem dúvida fizeram por merecer o destaque que despertaram. E talvez elas não tenham sido eliminadas por falta de qualidade, mas sim muito mais por falta de preparo para segurar a barra de enfrentar seleções mais tradicionais.

Por piores que pareçam os times montados pelas grandes potências, elas acabam sempre prevalecendo, ainda que as vezes por motivos que nos são ocultos. Não é a toa que a última seleção estreante em uma final de Copa do Mundo foi a lendária Holanda de 74. E mesmo assim acabou perdendo!

Disso tudo eu tiro a conclusão que a graça de acompanhar uma Copa do Mundo é muito parecida com o entusiasmo de assistir a um bom filme: A gente sabe que o roteiro vai acabar sendo conduzido para a vitória do bem (ou, no caso, sempre a vitória do mesmo lado), mas acabam sendo criadas circunstâncias tão adversas que somos obrigados a tirar o chapéu para o diretor, que encontra uma forma de levar a história para o caminho esperado mesmo depois de deixar o espectador sem esperanças disso.

Com vocês, futebol:

Produtos que mudam o mercado.

Os campeonatos europeus estão de volta. As temporadas de alguns países começaram há duas semanas. Não engrenaram ainda mas em bem pouco tempo já teremos a oportunidade de ver novamente em ação os melhores jogadores do mundo.

Ainda ontem, passando pelos canais me deparei com Shalke X Werder pela segunda rodada do campeonato alemão. Parei pra dar uma olhada, claro, afinal o futebol força jogado na terra do chucrute vire e mexe nos presenteia com um golaço, geralmente atraves de chutes fortes. Eu estava certo. Vi um golaço naquele jogo. Mas pra minha surpresa ele não foi composto apenas pelo chute forte, mas tambem por um drible desconsertante e um corta-luz. Isso mesmo! Parece que os caras gastaram todo o estoque de genialidade da temporada em um só lance.

Depois da pintura, o comentarista se achou no direito de defender o campeonato germânico: “O pessoal critica a falta de técnica do futebol alemão, mas a seleção é atual vice campeã da Europa enquanto o badalado futebol inglês nem disputou a Eurocopa.”.

Por instinto, respondi (acho que em voz alta, até) a ele: “O badalado campeonato inglês não é disputado por ingleses!”.

Daí vem a ideia da coluna. O campeonato inglês é hoje sem dúvida o melhor do mundo. Acabou aquela história de carrinho e bola aérea (nada contra, até acho que aquela essência deveria ser mantida.). Mas o fato se dá pela miscigenação experimentada atualmente. Se o cara é bom, vai pra lá. Não importa se é brasileiro, africano, australiano ou coreano. Os mais conservadores podem afirmar que seja essa descaracterização que tenha prejudicado o desempenho da seleção. Mas isso é fase, questão de adaptação.

Um fenômeno semelhante aconteceu na Espanha. No fim da década passada, era lá que se fazia o melhor campeonato, sobretudo por colaboração dos jogadores africanos. Barcelona e Real Madrid frequentando as finais da liga com a mesma intensidade que os tres grandes ingleses e o Chel$ea fazem hoje em dia, só a seleção espanhola é que não vingava.

Eis que na Copa de 98 eles tiveram a chance de mudar essa escrita montando uma boa seleção e caindo no grupo da Nigéria, entao campeã olímpica e maior ícone do futebol africano. Houve muita alfinetada por parte dos espanhois antes do jogo, diziam que os jogadores africanos prejudicavam o futebol praticado na Espanha e chegaram a ofende-los. O resultado da partida? Nigéria 3 a 2, com direito a frango do Zubizarreta.

Dez anos depois a Espanha é campeã européia. Claro que a geração atual é muito boa, me arrisco a dizer que é a melhor que ja montaram. Passaram à condição de exportadores de craques, coisa improvável tempos atrás. Mas eu acredito que um fator que tenha ajudado nesse desenvolvimento seja a liçao aprendida. Hoje me parece que os espanhóis não só sabem lidar com os jogadores estrangeiros como também tenham absorvido suas boas influências para a formação de um padrão de jogo superior ao que possuíam. O que faltava para conseguir um título que consagrasse o futebol espanhol como grande. É bem verdade que apenas uma conquista não quer dizer muito, vamos ver se minha tese é confirmada com uma sequencia de bons resultados.

Com vocês, futebol:

Clássicas nos Clássicos

Na semana passada as séries A e B do campeonato brasileiro (Brasileirão série A e Brasileirão série B, segundo as redes de televisão) estavam repletas de clássicos que agitaram torcidas nos estádios de todo o país. São Paulo X Palmeiras, Atlético X Cruzeiro, Flamengo X Vasco, Sport X Náutico, Fortaleza X Ceará, Avaí X Criciúma, Santo André X Corinthians…

Claro que o jogo mais comentado foi este último, que marcou o reencontro do Marcelinho Carioca, hoje astro da periferia do ABC paulista, com a Gaviões. Foi espetacular! Parecia até uma música dos Titãs dos anos 2000 (tipo “Isso” ou “Epitáfio”) ou seja, tudo repleto de saudosismo. Uma espécie de reencontro de um casal decadente que se separou há algum tempo e que, agora, qualquer um pode falar para o outro: “Eu to mal, mas tu tá bem pior!”.

Nem o Pé-de-anjo brilhou tanto quanto os ilustres narradores que nos presentearam com grandes pérolas ao longo das transmissões dessa semana. Fora as que me escaparam, separei algumas:

“O Paraná tenta sair do sufoco, mas o retrospecto não ajuda…”
Sim! Se o retrospecto ajudasse, o Paraná não estaria no sufoco!

“O Denílson não é titular, mas ele jogou em todas as vezes que ele entrou em campo.”
Tá, tudo bem, eu vou perdoar essa porque a seleção de 2006 provou que dá pra entrar em campo e não jogar…

A melhor de todas foi esse diálogo:
“- É, o jogador foi tocado…
– Então você daria pênalti, Júnior?
– é… bem… quem tem que dar pênalti é o juiz…
– Porra, Júnior! (momentos de silêncio)”
Não foi nada ofensivo, foi natural e espontâneo como chamar um grande amigo de filho da puta entre uma cerveja e outra.

Com vocês, futebol:

Eu adoro quarta-feira

Em alguns (tá bom, vários) posts aqui, deixei claro o meu desprezo pelo rumo que o futebol está tomando e como isso baixou o nível do esporte. No entanto, preciso dar o braço a torcer e reconhecer a quarta-feira passada como uma ode à tudo que nos empolga quando a bola está rolando.

Manchester United 1 (6) x (5) 1 Chelsea
Uma final tipicamente inglesa. Empate em 1 a 1. Chata? Longe disso. Tirando as duas pauladas na trave que o Chelsea meteu, e as duas chances claríssimas perdidas pelo Manchester, o jogo ainda teve briga, confusões, tapas, socos, agressões, chuva torrencial e quase todos aqueles elementos que tornam uma partida inesquecível.

Já nos pênaltis, o drama atingiu níveis estratosféricos. Cristiano Ronaldo, o craque, o provável melhor do mundo, o carrasco que marcou o único gol dos Red Devils na partida, botafogueou e mandou a cobrança nas mãos do tcheco Cech. Tudo se encaminhava para o primeiro título dos Blues. Mas eis que, em um deslize, o herói do time John Terry – que salvou a equipe ao impedir um gol de Giggs na prorrogação – acerta a trave. Enquanto ele chorava feito um dirigente carioca, o brasileiro gremista Anderson correu alucinadamente para a bola e soltou um canudo no meio do gol, acertando a cobrança e realizando a melhor comemoração da noite. Kalou e Giggs converteram na sequência, mas então veio Anelka com ar blasé e fez os torcedores do Chelsea comerem o pão (francês) que o diabo amassou, chutando a pelota de forma displicente. O goleirão Van der Sar defendeu com facilidade e o tricampeonato foi para a terra do Oasis.

Fluminense 3 x 1 São Paulo
Todo torcedor tem (ou pelo menos deveria ter) direito a, no mínimo, uma experiência de fé absoluta na vida. Aquele momento onde tudo ainda está na metade do caminho, nada é certo e alguns poucos segundos de indecisão possuem uma carga dramática do tamanho do universo. Aquele genial espaço de tempo entre a conformação e a comemoração com bebida em excesso e garotas mostrando os seios.

Não gosto do São Paulo. Não gosto do clube atravessar negociações e achar isso normal, não gosto de como superestimam o medíocre Rogério Ceni e, principalmente, não gosto da equipe paulista por ter permitido ao Inter ser campeão continental. Também não vou com a cara do Fluminense, mas o fato de jogar contra o São Paulo já tornou o tricolor carioca mais simpático, além de contar com o mestre absoluto do mundo, Renato Portaluppi, no comando.

Pois quando Thiago Neves cobrou o escanteio imediatamente identifiquei o momento de fé absoluta. Quarenta e sete do segundo tempo. A bola viajou em câmera lenta, enquanto os torcedores cariocas se angustiavam na agonia da incerteza. No momento em que Washington subiu e 70 mil pessoas inconscientemente repetiram seu movimento com a cabeça, estava decretada a classificação. Porque o destino também queria ver o Maracanã literalmente explodir.

O Lyon Brasileiro

Muito se falou sobre a hegemonia que o São Paulo vinha tendo, comprovada pelo bicampeonato e que gerou a alcunha de “O Lyon brasileiro” – referência à equipe francesa que desconhece o ideal de egalité e costuma vencer o campeonato nacional, deixando os outros times fazendo biquinho.

Nestes momentos, a instituição acaba se tornando exemplo de tudo: planejamento, organização, inteligência, economia, parceria e por aí vai. Convenientemente são esquecidos momentos como a eliminação na Libertadores 2006, 2007 e no Paulistinha 2008, pois eles não combinam com “esquadrões” de futebol. Em compensação, a cada gol feito o Rogério era adorado pela mídia e por torcedores como “o melhor goleiro do mundo”, mesmo sendo o responsável direto pelo título continental dos colorados e pelo consequente quase-fim do mundo.

Pois bem. Depois de tanto blábláblá e puxação de saco em cima da equipe paulista, chegamos à pergunta que precisa ser feita mas ninguém tem coragem, a verdade nua e crua, a incerteza que agora paira sobre o Morumbi: pode o “excelente planejamento” (sic) resistir à derrota para uma equipe comandada por ninguém menos do que Celso Roth?

Ou foi um gigantesco acidente de percurso, ou chegou a hora de dizer aos sãopaulinos que por hoje é só, pessoal.

Com vocês, futebol