Convenção e sensibilidade

O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook)
4/5

Direção: David O. Russel
Roteiro: David O. Russel, baseado em livro de Matthew Quick

Elenco
Bradley Cooper (Pat)
Jennifer Lawrence (Tiffany)
Robert De Niro (Pat Sr.)
Jacki Weaver (Dolores)

Pat é um sujeito bipolar que, após oito meses naquele banquinho do castigo chamado “manicômio”, volta pra casa com o sonho de retomar o namorico com sua esposa Nikki. Daí o cara, entre um pai supersticioso e uma mãe carinhosa e um amigo com problemas matrimoniais e uma viúva chamada Tiffany que com frequência chuta o balde do bom senso, precisa retomar seu caminho, trabalhando para que sua doença nunca mais faça bullying com sua vida novamente.
O Lado Bom da Vida é um daqueles filmes incrivelmente envolventes, com personagens tão cativantes que dá vontade de procurar e adicionar elas no Facebook, onde a história gira mais ao redor deles do que de eventos (provando que o adesivo de para-choque é verdadeiro e o importante mesmo é a jornada). Uma música do Coldplay em película, em resumo. Infelizmente, nem tudo na vida é pizza gelada quando o cara chega em casa da festa, e o filme acaba repetindo alguns dos erros vistos em O Vencedor, filme anterior do David O. Russel, como os dramas súbitos e os diálogos expositivos.

Mas tem a Jennifer Lawrence.

Tudo isso é resultado de um trabalho bem cuidadoso com as personagens. Desde o início o diretor coloca suas câmeras perto, bem perto, quase encoxando os atores, utilizando diversos planos fechados para realmente levar o público para dentro delas, fazer com que sejam compreendidas. Uma linguagem que, com a montagem bastante frenética e a câmera na mão, ilustra bem todo o furacão que vive dentro daquelas pessoas (aliás, percebam como a câmera frequentemente fica inquieta perto de Pat). É um trabalho bem cuidadoso, centrado, que torna Pat (e, mais tarde, Tiffany) realmente o centro da história: o objetivo aqui não é tanto o que acontece com ele, mas sim acompanhar a forma com a qual ele lida com os acontecimentos. Da mesma forma, Tiffany (também sempre fotografada de perto), a princípio parecendo apenas uma daquelas minas estranhas que serão publicadas ad eternum em tumblrs hipsters (perdão pela redundância), se torna tão tridimensional quanto Pat, ao mesmo tempo doce e intensa, solidária e egoísta, alegre e melancólica. É na química única entre essas duas personagens (e os atores, óbvio), a forma tocante com que acabam se encontrando uma na outra – seja no contato físico através da dança (que vai gradualmente crescendo), nas discussões e choros em momentos-chave ou apenas no fato de que eles parecem se sentir bem juntos, com momentos divertidos e tiradas engraçadas (“sua agenda está cheia?”) extremamente naturais – que carrega O Lado Bom da Vida até aquele status que faz o espectador levantar da poltrona e ir correndo abraçar a tela de cinema (não fiz isso, mas só porque sou muito tímido).
Além disso, o roteiro consegue criar algumas sutilezas realmente inspiradas, como iniciar com Pat dizendo que domingo é seu dia favorito (o que já o qualifica como diferente do resto e faz uma rima supimpa com o final), consertando a janela quando finalmente decide arrumar sua vida e Pat Sr. insistindo para que o filho assista ao jogo com ele dizendo que é por superstição, quando na verdade só quer mesmo passar um tempo com o rapaz – sutileza que, infelizmente, logo o filme desmantela ao fazer com que Pat Sr. explicite essa situação em um diálogo embaraçoso. Aliás, O Lado Bom da Vida só não atinge níveis romarísticos de vitória porque tem acessos de esquizofrenia onde pensa que é uma comédia romântica: situações como a cena do “dobro ou nada”, ou a narração do trauma de Pat para o terapeuta, ou aquela no bar onde Tiffany solta uma frase cruel sem significado nenhum e que é rapidamente esquecida apenas para forçar um drama, ou o momento absurdo onde, após um casal de dançarinos ter tirado várias notas 4 (de 10), alguém fala “vocês tiraram vários 4, isso não é bom”, como se a ordem numérica fosse tão misteriosa e complexa quanto física nuclear, são extremamente forçados e explícitos e soam apenas como uma triste vitória dos convencionalismos hollywoodianos sobre uma visão sincera da história. São momentos que quebram toda a construção feita até ali, soando deslocados e, assim, tirando o espectador do filme. Diabos, há até um beijo com travelling circular, algo inimaginável fora de qualquer filme estrelado pela Katherine Heigl ou dirigido pelo Michael Bay.
Contando com uma direção extremamente sensível por parte de David O. Russel, que, através da câmera na mão e dos já citados enquadramentos fechados, mostra um afeto tocante por aquelas personagens (além dos tons pastéis dessaturados, que são tipo obrigação em filmes “indies” (embora funcionem aqui)), tornando O Lado Bom da Vida cativante pacas, uma versão em película de uma foto de um cachorrinho deitado dentro de uma pantufa. Claro que nada disso funcionaria sem um elenco completamente em chamas, e aqui temos Robert De Niro conferindo personalidade e uma dramaticidade quase trágica a Pat Sr., enquanto Jacki Weaver consegue simular todo o carinho e preocupação de uma mãe.
Mas o destaque, sem dúvida, vai para a dupla de protagonistas: completamente alucinado, inquieto, com trejeitos frenéticos e um ótimo timing cômico, Bradley Cooper surpreende a todos de forma shyamalanesca e torna Pat alguém quase hipnotizante, carismático ao extremo e que carrega o filme com facilidade. Sua presença em cena é sempre muito forte, até mesmo os extremos entre a serenidade otimista e a explosão de raiva o ator tira de letra. Do outro lado, Jennifer Lawrence comprova seu talento ao construir a complexa Tiffany através de olhares e inflexões extremamente sutis e econômicos, trazendo a sensibilidade da moçoila à tona através de uma vulnerabilidade quase invisível e, ao mesmo tempo, impossível de não ser vista. A atriz transita entre o doce e o intenso sem caricaturas ou dramaticidade exagerada, tornando cada pequeno detalhe, cada alteração, ainda mais repleto de significado. Além disso, ela tem um olhar de decepção, de desolação, tão poderoso mesmo em seu minimalismo que dá pra literalmente ouvir todos os corações do público se estilhaçando durante a cena.
Assim, O Lado Bom da Vida se torna um retrato dessas duas personagens, testemunhando seu retorno ao cotidiano após um evento traumático. Apesar dos eventuais deslizes, é uma daquelas produções envolventes o suficiente para fazer com que o espectador se importe com Pat e Tiffany e todos os outros, torça por eles, comemore quando algo de bom aconteça ou quando a Jennifer Lawrence aparece de barriga de fora. Tipo de película que não se vê com muita frequência, mas que é sempre bem vinda. No meio de tantos dramas rasos e superficiais, o filme da David O. Russel mostra que, como a vida, Hollywood também tem um lado bom.
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