O bronzeado

Sou uma pessoa de pele branca. Tipo, bem branca. Já pediram minhas fotos 3×4 pra usar na escala Pantone, assim. Mas não é só questão dos genes monocromáticos, que buscaram dentro das bilhões de combinações possívels entre células e DNAs a exata combinação para criar uma configuração definida pela embaraçosa expressão “pele sensível”: alem do revés genético, tenho a tendência a encarar calor e situações envolvendo sol demais e ar-condicionado de menos como vilões da Disney – por exemplo, idas à praia só acontecem quando envolvem futebol ou cerveja com amigos. Sim, eu vejo o litoral da Tailândia como um grande campo de futebol e o arquipélago do Havaí como um conjunto de bares.
Como vocês podem imaginar, sou vítima de diversas provocações por não estar adequado à cor de maior status social (que parece ser algo entre um leve laranja e ouro azteca). Alguns conhecidos já disseram que eu pareço uma folha de papel, alguns conhecidos designers já me disseram que eu pareço um #ffffff. Nada traumático ou que tenha causado grandes problemas na minha vida, exceto pela vez em que meus amigos não me deixavam comprar nada no Rio de Janeiro porque achavam que as pessoas iam me ver como um estrangeiro (e cobrar mais pelos produtos, claro. A primeira providência a ser tomada diante de um estrangeiro é cobrar mais), algo certamente contraprodutivo, mas sem grandes danos. É só uma questão que surge de vez em quando, e eu mesmo branco, digo, brinco com isso quando surge a oportunidade, já que humor auto-depreciativo é tudo que as mulheres querem em um homem.
Mas tava pensando aqui. Em uma sociedade tão interessada na produtividade, que julga as pessoas pelos seus feitos, seus empregos, seus salários, uma sociedade onde as pessoas postam no instagram fotos exaltando o trabalho árduo de empurrar uma máquina por três séries de doze repetições, uma sociedade que olha com desdém para o ócio e não hesita em condenar aqueles que cometeram o crime inafiançável de não fazer nada, prontamente taxando essa galera de “preguiçosos” e colocando ela à margem do resto (que Deus me livre nunca foi e jamais será assim), as pessoas estão se gabando de terem deitado debaixo do sol por horas a fio?

Quanto mais GTA V, menos queijo.

Joguei GTA V para o Xbox 360 e gostei. É divertido na maior parte do tempo, tem ótimos diálogos, missões alucinadas e momentos engraçados. A história é bem forçada, mas ok, não esperava nenhum Aaron Sorkin ou Charlie Kaufman ou qualquer Oscar de roteiro do gênero, e algumas partes expõem claramente que foram boladas nas horas extras de uma madrugada de sábado para domingo (a de fazer ioga e a de dirigir a família até o psiquiatra, especialmente).
Assim, apesar de ter curtido pacas a jornada, não sou daqueles que pegam a caixinha do jogo e saem por aí bradando que GTA V é a resposta a todas as nossas preces. Na verdade, analisando algumas opiniões e reviews, percebi que boa parte da veneração em torno dessa liberação videogamística do ID vem pelas coisas que o jogador pode fazer: ele pode jogar tênis, pode pular de páraquedas, pode dirigir um avião ou um helicóptero, pode fazer ioga, pode escolher entre fazer a missão de forma mais discreta ou chamando no Duro de Matar, enfim, ele pode. Mas a coisa parece ficar por aí, no fato de que é possível. Ninguém comenta se em GTA V é legal jogar tênis (é chato), pular de páraquedas (é legal), dirigir um avião ou helicóptero (chato), fazer ioga (chato) ou se as opções alternativas de realizar as missões são divertidas (o modo Duro de Matar normalmente é divertido, o modo discreto normalmente é chato).
Logo abandonei a exploração do tal mundo aberto e me foquei nas missões principais, essas sim trazendo momentos épicos de motos pulando em cima de trens, prédios do FBI sendo invadidos, rapel, tiroteio desenfreado e outras situações das quais John McLane poderia participar. Ali que toda a diversão se concentrava, e o ato virtual de pular com uma moto virtual em cima de um trem virtual era realmente épico, ao contrário de apenas soar épico quando alguém fala que o jogo permite que o cara pule de moto em cima de um trem.
Ou seja, aquilo era o GTA V (ao menos pra mim). E, como cada uma dessas missões que soa bem na conversa e mal no controle ocupa espaço que poderia ser usado para as partes legais, e no geral todos as definem como o grande diferencial e a grande atração do jogo, acho que aqui podemos aplicar a lógica do queijo suíço: quanto mais GTA, mais aulas de ioga virtual e derivados; quanto mais aulas de ioga virtual e derivados, menos GTA; assim, quanto mais GTA, menos GTA.