Pra Comer com os Olhos

Esta semana o McDonald’s divulgou um vídeo explicando o porquê de o super sanduíche anunciado nas propagandas e fotos ser tão diferente do lanchinho rançoso e tristonho servido em suas lojas. Desde “Um dia de fúria”, filme com Michael Douglas, as pessoas repetem essa comparação como um mantra. Como se fosse o maior absurdo do mundo!
O que eu mais ouço por aí quando vejo alguém de fora do ramo falando sobre publicidade é a expressão propaganda enganosa. Além do caso do McDonald’s, um exemplo bem popular é o do saco de ar da Ruffles. Aliás, esse é o mais descabido! No pacote ta escrito 100g de batata, e não 200ml! O pacote pode ter o tamanho da bunda de uma Panicat, se dentro dele vierem 100g de batata frita, eles estão entregando exatamente o que prometeram.
Mesmo olhando como consumidor eu sou favorável às fotos produzidas dos produtos. O sentido em que mais confiamos é a visão. Por isso, até pra vender comida, quando o que mais deveria importar é o gosto que a iguaria tem, é, sim, preciso uma apresentação bonita. Se as redes de fast food colocassem hambúrgueres desalinhados e enrugados em seus anúncios, eu não teria a menor vontade de experimentar.
No entanto, depois que eu experimento a comida o que vale é o sabor, e não o aspecto maquiado e bem penteado que ela tenha. É a relação entre minhas papilas gustativas e a combinação de ingredientes da guloseima que vai dizer se eu vou continuar ou não comendo em determinado restaurante.
Normalmente quem reclama dessas coisas são justamente as pessoas que mais consomem esses produtos. Provou, gostou, vai continuar comprando? Então para de reclamar! E voltando ao exemplo do salgadinho, o que seria mais sedutor na prateleira do supermercado? A bunda da Panicat ou um saco murcho de batata?
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Filosofia de blockbuster

Prometheus
2/5

Direção: Ridley Scott
Roteiro: Jon Spaihts, Damon Lindelof

Elenco
Noomi Rapace (Ellie / Sigourney Weaver cover)
Michael Fassbender (David)
Charlize Theron (Vickers)
Maquiagem + Guy Pearce (Weyland)

Ellie e Charlie são um casal que, ao ver alguns GRAFITES milenares em diferentes lugares, acham que encontraram um mapa para descobrir quem criou a humanidade. Então ambos, acompanhados de pessoas cujas roupas são mais complexas do que suas personalidades, viajam até a famosa galáxia “Espere Eu Acho Que Um Alien Vai Aparecer a Qualquer Momento”, onde tomam uma série de atitudes idiotas e ficam surpresos quando o alien vai pro brejo por causa delas.
No espaço, ninguém pode ouvir você gritar. Ninguém pode duvidar da suspensão da descrença, também – ao menos essa é a mensagem que o desorientado (fantasiado de ambicioso) Prometheus deseja passar. Porque com um roteiro que manda a lógica e o bom senso para o espaço (trocadilho obrigatório), estrelando a única equipe que conseguiria ao mesmo tempo ir até outro planeta e sair vencedora no Darwin Awards, o novo filme de Ridley Scott acha que seu marketing de “sou filosófico, me interpretem!” é o suficiente para deixar passar erros grosseiros na história (não é).
Mas sejamos justos, em termos visuais, Prometheus é sensacional: além da bela escolha de enquadramento para mostrar a Charlize Theron ( = qualquer um), a produção conta com uma direção de arte caprichada já no início (a lenta transição do solo morto até paisagens bonitas, onde se originará a vida), e que só ganha elogios com os figurinos (e reparem como o de Vickers é totalmente impessoal, já que ela representa as corporações malévolas e que não estão nem aí pra nada) e o design das bugigangas tecnológicas (bastante arrojados e coerentes como evolução da tecnologia atual). As paisagens do planeta LV 223 também fazem seu papel, surgindo sempre em tonalidades escuras (principalmente o marrom) e com aspecto arenoso, indicando a total ausência vida por aquelas bandas (heróis de filmes espaciais deveriam fazer cursos de crítica cinematográfica. Se dariam muito melhor).

Junto a isso vem uma fotografia assaz sombria, trabalhando com cores dessaturadas e escuras para passar aquele climão de suspense, e um design de criaturas vitorioso, que consegue criar um monte de coisas orgânicas, nojentas, perigosas e, ao mesmo tempo, interessantes. Infelizmente tudo isso é usado em prol de um direção convencional, preguiçosa, que não cria nenhuma cena realmente interessante (ok, talvez a de Ellie dentro da máquina lá), e, principalmente, um roteiro claramente escrito, reescrito, revisado e editado sob fortes influências de crack.

Na verdade, o filme até começa bem, contemplativo, misterioso. Quase parece que vai dar para sair de lá sem reclamar do preço do ingresso do cinema. Mas logo as figuras unidimensionais e as atitudes idiotas tomam a trama de assalto, fazendo com que Prometheus seja nada além de uma grande sequência de “mas por que…?”. Para começar, há uma total ausência de antecipação dramática, fazendo com que os eventos pareçam acontecer por um surto de bipolaridade: por que Fifield tem um chilique histérico de repente? Por que Charlie entra no modo “vou reclamar da vida no Facebook” após fazer a MAIOR DESCOBERTA DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE? São situações injustificadas pelo filme, o espectador sente que está sendo enganado pelo roteiro na tentativa de criar uma cena intensa/profundidade dramática. E o que é aquela revelação da Vickers, sem relevância nenhuma para nada em nenhum lugar de qualquer universo (mas previsível devido à decisão de Scott de seguir as convenções fílmicas), pateticamente disfarçada de uma reviravolta “impactante”? A nave do set era abastecida a álcool, e Spaihts e Lindelof beberam todo ele sozinho, é isso?
Enganação, aliás, é a palavra do dia. Prometheus é tão covarde e preguiçoso na hora de jogar a história para a frente que parece um órgão do governo. Primeiro, temos o botânico que foge de um alien morto e fica todo PAVÃO quando vê um alien vivo (e que provavelmente matou o alien morto), estuprando completamente qualquer bom senso que tivesse sido estabelecido até ali (não foi). Tipo, imaginem uma pessoa que corre de medo de um tanque desativado em um museu, mas acha prudente provocar alguém com uma arma carregada. Esse é o botânico. Que ao menos não deve ter se sentido mal, já que é acompanhado pelo “geólogo eu tenho tatuagens e cabelo moicano e por isso sou agressivo”, uma personagem com diálogos tão expositivos que, por vezes, o público consegue literalmente enxergá-lo no formato de uma página de roteiro (um sujeito tão brilhante que sequer consegue sair de um corredor QUE ELE MESMO MAPEOU. Cada vez mais a nave Prometheus parece ser um lugar para tirar da Terra tudo que é menos evoluído). O prêmio, entretanto, vai para o capitão “eu sou da classe operária e uso boné no espaço e sou um verdadeiro americano”, que, após ter visto o corpo de alguém morto, dá a ordem de abrir a porta da nave ao ser informado de que esse mesmo alguém está esperando do lado de fora. Só pelo fato de deixar um cara desses pilotar uma nave, a humanidade já merece o destino trágico que tentam dar a ela.
Isso que eu nem falei da atitude da Vickers, que tira a máscara de durona por um momento com a única explicação de que isso convenientemente deixaria uma sala vazia no momento em que algo importante acontece. Não há nenhum esforço em prol de tornar a narrativa minimamente aceitável. E não apenas isso: Prometheus deixa de responder perguntas essenciais à trama pra ficar naquele papinho de “questionamento filosófico”, ou guardando para a inevitável continuação. É um roteiro covarde, repleto de soluções fáceis e que a todo momento evita uma discussão mais profunda – evita sequer gastar algum tempo pensando nas conexões que ligam a história, preferindo jogar com convenções às quais o público já está acostumado (e de saco cheio).
Diante disso, os atores pouco podem fazer além de sentar no cantinho e lembrar como Scott era bom nos tempos de Alien e Blade Runner e por aí vai. Ainda assim, Noomi Rapace consegue fazer de Ellie uma personagem carismática e intensa, enquanto Charlize Theron transmite bem a segurança e autoridade de Vickers através de uma postura rígida e um olhar sempre focado. Quem rouba a cena, entretanto, é Michael Fassbender: com movimentos contidos, calculados e tom de voz monocórdico, a atuação de Fassbender não apenas faz mais do que o roteiro para transmitir que ele é um andróide como ainda torna David uma personagem com motivações misteriosas. Quanto ao resto do elenco, bem, eles tornam suas mortes até convincentes (com exceção de Guy Pearce, que, debaixo da pior e mais inexplicável maquiagem de toda a história do cinema, mal consegue equilibrar a cabeça sem quebrar o pescoço).
Contando ainda com um ato final patético, onde duas pessoas que viajam ao espaço simplesmente esquecem lições básicas de geometria, Prometheus é uma viagem sem volta em direção à lua Derrota, que orbita o planeta Fracasso. Apesar do apuro visual, são raríssimos os momentos onde o filme convence o espectador de que dinheiro foi realmente investido de forma consciente naquela bomba. Agora só resta esperar pela continuação, que certamente fará ainda mais viagens na trama para tentar atrair (e agradar) aos fãs de Alien. Aliás, se for parar pra pensar, o final de Prometheus permite que o segundo filme seja exatamente igual ao primeiro – e, uma vez que Scott se esforça mais para comentar as versões do diretor e menos para realmente dirigir o filme sem preguiça, não duvido que esse seja o caminho tomado.

Eurocopa 2012

A tentativa da humanidade de compreender o futebol de forma racional, através de números e estatísticas, nada mais é do que prova do nosso amor pela ciência, pelo conhecimento. Entretanto, como qualquer forma de arte, o futebol deve sempre ser observado de forma subjetiva. As motivações, os contextos, as nuances, os quases, os antes, os depois, as brigas, os gritos, as decepções, tudo deve ser avaliado. É onde o autor do gol às vezes não é o herói do gol, pois o jogo permite que a genialidade se espalhe por todos os lados do campo, a todo momento. Quantos carrinhos já não sobrepujaram a muralha da China? Quantos lançamentos já não obliteraram os grandes romances? Quantas vezes um espaço de um centímetro, com frequência conquistado mais por vontade do que por técnica, derrubou nações e consagrou outras? Não, não: a matemática pode ser a linguagem universal, mas o futebol fala uma língua própria, despida de racionalidade, lógica, significado. A ciência jamais conseguirá compreender o esporte porque ele existe apenas enquanto ele mesmo, um eterno arquétipo destinado a falar apenas a língua dos apaixonados. Tentar definir o futebol com números é como tentar definir a vida com números: um esforço simpático, mas fadado a deixar de fora o que é mais importante.
Li certa vez que, se Deus existe, ele existe enquanto um círculo, pois o círculo, com todos os seus pontos equidistantes do centro, é a forma mais perfeita que existe. Ao olhar a reverência com que Ozil, Schweinsteinger, Fabregas, Pirlo, Ronaldo, Sneijder, Chiellini, Marchisio, Iniesta, Van Persie, Rooney, Nasri, Ribery, Xavi e tantos outros tratam a bola, e a forma mágica como ela define os destinos de muitos, começo a achar que existe algo de verdade nesse pensamento.