Onde defendo as temperaturas de um dígito.

Porto Alegre entrou em uma semana temática da era glacial, atingindo temperaturas de um dígito cuja sensação térmica é exatamente a de incredulidade sobre o aquecimento global. Isso perturbou profundamente as pessoas, que, do alto de três ou quatro blusões de lã, bradam impropérios contra o frio e o inverno e o vento e a sensação térmica e o governo (mas o governo é em qualquer estação), tornando o inverno basicamente uma versão com cachecóis do Twitter.

Mas há uma peculiaridade no frio, uma que jamais é analisada pelos nazistas da temperatura que exigem sempre um calor com sol ariano: ele desempenha um processo fundamental na formação do nosso ego. De acordo com aquele barbudo safado do Freud (acho que foi o Freud, pelo menos. Foi um desses psicanalistas aí, Freud, Lacan, Felipão, sei lá), esse processo começa quando terraplanamos o Complexo de Édipo, praticando bullying com o ID e reconhecendo e nos adaptando aos comportamentos sociais e à exigência deles.

O inverno é a solidificação absoluta disso tudo. Imaginem uma segunda-feira, seis e meia da manhã, termômetro na rua marcando quatro graus. O despertador toca e, após apertar três vezes o botão “soneca”, uma pessoa percebe que é hora de dar início ao dia (se arrumar para o trabalho/aula/escolinha de futebol/etc). Mas é inverno. O frio desestimula e a cama cativa a alma da pessoa em um abraço quente e confortável, e de repente os quatro cobertores se tornam uma barreira intransponível com desenhos divertidos. Então, por um instante, por um abstrato e consternado instante, essa pessoa é possuída pela esperança de que algo aconteça para permitir que ela fique na cama – uma paralisação dos motoristas de ônibus, um blecaute de luz na cidade inteira, o dia do juízo final, qualquer coisa. É uma esperança fantasiosa, infantil, assumindo que o mundo é regido pela nossa vontade, e não pela vontade do destino, esse guri que toca a campainha das casas e sai correndo.

Inevitavelmente a pessoa percebe que o mundo está olhando para ela e dizendo “é, acho que não”, que nada mágico vai acontecer para permitir o insólito romance entre cama e acamado, e levanta da cama para peitar o dia. O instinto de permanecer debaixo das cobertas e a fantasia de que a realidade é capaz de abrir uma exceção são suprimidos, resultando em um indivíduo que reconhece a causalidade como lei universal, entende que suas ações terão consequências, sabe pesar essas consequências e aceita seu papel como membro inequívoco da sociedade. Ele (ou ela) deixa a fantasia infantil para trás (talvez tenha uma recaída em algum filme da Pixar, mas acontece) através de um evento que ocorre quase diariamente durante a temporada.

Ou, como bem resumiu um dos maiores filósofos do nosso tempo (o pai do Calvin): frio forma caráter.

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O tempo em duas pernas e quatro rodas.

Sou uma pessoa que gosta de caminhar. Mais quando se tem um destino definido, do ponto A ao ponto B, e menos quando se fica andando em círculos em uma praça, por exemplo, pois  isso é por demais parecido com a vida. Os fones de ouvido e a capacidade intrínseca do celular de tocar músicas (de longe a característica mais essencial de qualquer telefone. De qualquer coisa no mundo, na real) tornam a atividade uma espécie de  videoclipe em primeira pessoa, o que deixa tudo tão agradável que fico pensando quanto tempo vai levar até alguém transformar isso em uma aula de academia com nome em inglês e cobrar cento e dez reais de mensalidade (mas se você fizer o plano de seis meses fica apenas oitenta por mês). Ultimamente tenho inclusive colocado meu sedentarismo em risco ao ir a pé até o trabalho de manhã cedo –  e, embora isso tome mais tempo (e mais cartilagem dos joelhos), cria um espaço interessante para ter ideias, pensar sobre as coisas, observar, analisar ou simplesmente ouvir música mesmo.

Daí hoje, indo de carona, envolvido no cenário automobilístico, presenciei muitas buzinadas e ultrapassagens e sinais vermelhos recebendo menos atenção do que a amiga feia e por aí vai. E o fato de tais situações acontecerem com o mínimo do mínimo de provocação, onde a simples possibilidade de demorar cinco ou dez segundos a mais transforma todo mundo em participantes da Corrida Maluca, leva a apenas uma conclusão: o interior de um carro é um limbo. A vida nunca acontece ali. Quando em um automóvel, as pessoas estão sempre ausentes – ou elas já saíram ou ainda não chegaram. Mas o momento no veículo em si jamais é louvado ou aproveitado, e ou ele é descartado com uma crueldade sem precedentes (ficar feliz que uma viagem foi rápida é ficar feliz que não foi necessário passar muito tempo no automóvel) ou se torna um dos grandes nêmesis da humanidade (qualquer um que já enfrentou um engarrafamento reconhece isso e admite através de gritos, socos no volante ou postagens no Twitter). Basicamente, a impressão geral é a de que o tempo que alguém passa no carro é desperdiçado, minutos e horas que esse alguém está deixando de passar no lugar onde realmente deveria estar.

Assim, levando em consideração o quadro geral da maioria das cidades, onde o principal objetivo de obras e planejamentos e reestruturações é beneficiar a circulação dos carros, e não se preocupar muito com os pedestres, parece bem claro que prefeituras e cidadãos estão investindo em perda de tempo.