Crônicas da Discoteca – 2

A vida é repleta de momentos de definição. Tem o primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro carro, a primeira vez que o cara torce contra a seleção de futebol de seu próprio país. E, nessa dança do Tom Hanks no piano que eu chamo de vida, um dos momentos de definição possui um nome bastante conhecido e estiloso: Basket Case. Exatamente. Se, como eu já falei, a trilha sonora de Godzilla foi a criação e o rascunho da minha paixão por música, Basket Case foi a ARTE-FINAL que imprimiu de vez essa característica no meu coração. Ainda lembro de uma viagem do colégio para Santa Catarina na oitava série onde, enquanto todos faziam arruaças pelo ônibus, eu, com um DISCMAN à tiracolo, fazia o Dookie girar feito um carrossel anabolizado, ouvindo e reouvindo a canção número sete (vocês já repararam que a canção número sete normalmente é uma das melhores dos discos?). Claro que acabei descobrindo muito mais, como o refrão grudento de She, a letra esquisita de Having a Blast, a explosão de Burnout, o hino When I Come Around, o poder total em Emenius Sleepus e a incapacidade do Billy Joe de articular palavras.
Uma vez de volta a Porto Alegre me senti compelido em virar fã do Green Day. Mas curiosamente não fui atrás do Dookie, e sim do Nimrod, pois na época a baladaça Time Of Your Life tocava até em elevadores. E, como a  banda estava em chamas, canções tipo Uptight/Last Ride In, The Grouch, Redundant, Scattered e outras tomaram meu coração de assalto. Havia até mesmo a tradução musical da expressão “verdade absoluta” com Nice Guys Finish Last. E a endiabrada Worry Rock, com suas notas fáceis e vocal cativante que, até hoje, é uma das minhas favoritas. Daí eu, na época magrelo, meio nerd e tendo um aproveitamento ridículo com o sexo oposto, comecei a achar que era punk. Não que eu tenha feito um moicano ou coisa do gênero, mas sabe como é, eu me considerava esperto por gostar de música underground (provavelmente pra compensar a história do sexo oposto). E atirava aos tigres qualquer pessoa que ousasse chamar a banda de “pop”. Ora, o que é isso? Green Day é punk, cara. É anti-mainstream. É a revolução dos oprimidos! Eles xingam na televisão, pô!
Eis que inevitavelmente – e contra a minha vontade – cresci. E nesse processo o Green Day, como diversas coisas da adolescência, ficou pra trás – até porque a atitude antes considerada “rebelde” passou a soar apenas como idiota e parte de uma cuidadosa construção de imagem. Entretanto, quando fiquei velho o suficiente para entender o significado da palavra “saudosismo”, voltei às audições da banda californiana, se não com a mesma frequência, ao menos com o mesmo apreço por cada nota. Até mesmo os dois últimos discos, American Idiot e 21st Century Breakdown, se mostraram bem melhores do que eu imaginava, o que culminou com uma ida ao épico e devastador show do Green Day em Porto Alegre. Prova de que música boa consegue atingir a gente de duas formas diferentes em duas etapas diferentes da vida. E, seja na juventude ou na pós-juventude, é impossível ouvir tais canções sem fechar os olhos e cantar junto.
É claro que o já citado processo de ADULTIZAÇÃO que deixou a banda meio de lado na minha vida veio com novos sons, novas descobertas, novas sensações. Mas isso vocês descobrirão apenas no post Crônicas da Discoteca III ou Quem são esses caras de camisa de flanela e que não penteiam os cabelos?
Anúncios

Crônicas da Discoteca – 1

A maioria das pessoas considera Godzilla, de 1998, um desastre tão grande quanto o réptil que estrela a película. E confesso, sou um dos que achou extremamente desnecessária a realização de um filme solo pro Tiranossauro Rex de Parque dos Dinossauros, do Spielberg. Mas eis que em uma longínqua aula de artes, lá pelos idos de 1998, um aparelho chamado “rádio” começa a tocar uma canção e um rapaz chamado “André” é tomado de assalto por ela. Meu então colega Guto prontamente identifica a dita-cuja como sendo a versão do Wallflowers pra Heroes, do David Bowie. Que, por acaso, foi feita para a trilha sonora de Godzilla. Que, se por um lado não amplificou a minha paixão por cinema, por outro deu o play no que viria a ser a minha paixão por música.

A trilha sonora de Godzilla foi o segundo disco que comprei na vida, sendo precedido apenas por um do Jorge Ben Jor que tinha aquela música do Tim Maia. Lembro que além de Heroes o disco também contava com uma canção famosinha (leia-se “música com videoclipe”) do Jamiroquai, mas eu não dei muita bola pra ela. Dançante demais. Eu estava atrás de algo como o riffzinho de guitarra no refrão da canção dos Wallflowers, que conseguia preencher uma sala inteira com melodia, que mudava drasticamente a canção sem realmete mudá-la. E encontrei nos à época corajosos versos de Untitled, do siverchair (“dreams are bad / when all they do is leave the truth behind”), ou na hipnótica e cativante A320, do Foo Fighters. Duas bandas que assumiram a posição de titular do meu time e não sairam mais, aliás.

Algo havia começado dentro de mim e não poderia mais ser parado, como um trem desgovernado gritando pelos trilhos ou o efeito dominó desencadeado pelo travamento de um simples programa do computador, obrigando a reinicialização do mesmo. Uma audição mais cuidadosa do disco me revelou novos sentimentos: a vontade de sair por aí dando VOADORA NAS PESSOAS enquanto a poderosa Walk The Sky, do Fuel, rola ao fundo; a lacrimejante descida de notas no dedilhado distorcido de Macy Day Parade, do Michael Penn; a possibilidade do coração bater no ritmo de um piano com a emocionante Air, do Ben Folds Five; e a vontade de conhecer um bar da Chicago dos anos 50 com Undercover, do Joey DeLuxe. Havia até mesmo uma Kashmir recauchutada na Come With Me, onde Puff Daddy pedia ajuda a Jimmy Page, e que, peço desculpas pela ignorância temporária, na época soava melhor do que a original.

Outro momento de imensa adrenalina ocorreu do primeiro ao último acorde de Brain Stew, do Green Day, que parecia rugir o suficiente mesmo se não houvesse o rugido do Godzilla na mixagem. Na verdade, essa foi a primeira canção do disco que me chamou a atenção. Mas era conveniente deixá-la por último no texto para fazer um link com o próximo post, Crônicas da Discoteca II ou Como um Garoto Magrela e Branquelo Começou a Ouvir o que Ele Imaginava ser Punk Rock.