Desliguem os celulares no avião

Em toda a minha experiência marítima – noventa e nove por cento fílmica e literária, um por cento adivinhística e zero por cento empírica -, um ensinamento parece se repetir ad infinitum: respeite o mar. É um lance tipo o mar é essa coisa gigantescamente colossal e temperamental e a qualquer momento pode decidir fazer com a água e com a gente o que nós fazemos com lupas e formigas, então a melhor atitude é sempre seguir as orientações que os jogadores de futebol dão nas entrevistas pós-jogo e ser humilde, manter a cabeça respeitosamente baixa e torcer para que o mar não esteja de ressaca.

Porque a água não é o nosso habitat natural. Nossa relação com ela nunca vai ser cem por cento harmônica uma vez que o simples fato de estar na água já é um evento; saímos do chão firme e estamos indo em direção a esse monstro que engole 70% do planeta e abriga espécies tão estranhas e desconhecidas que fariam uma faculdade de comunicação parecer um colégio de freiras. Respeitar o mar parece uma reverência justificada por algo que estava aqui antes de nós e vai estar aqui muito depois que toda a espécie for engolida por um videogame, até porque a imprevisibilidade de um sistema que não dominamos sempre estará um passo à frente de quem sair por aí se gabando (abraço, Titanic). Não, não há nada de leviano em relação ao mar.

Assim como não há nada de leviano em andar de avião. Toneladas de alumínio retorcido e equações matemáticas que jogam areia no olho da gravidade e simplesmente decidem peitar o horizonte. Anos e décadas e séculos de compreensão da física e evolução da tecnologia para fazer a humanidade escapar de suas limitações terrenas e testar empiricamente a existência das camadas da Terra. Comer amendoim no céu. Você já olhou pela janela de um avião em altitude de cruzeiro? É desconcertante. Algo que redefine a própria importância de “olhar pela janela”. Tal qual o mar, o céu não é o nosso habitat natural, e o simples fato de conseguirmos chegar até ele, que dirá voltar dele em termos calmos e pacíficos, é motivo mais do que suficiente para que a humanidade tenha cacife de botar o pau na mesa e falar “chupa que aqui é humanidade, caralho!”.

Manter o telefone ligado mesmo que a equipe da aeronave, essa maravilha da ciência que irrompe pelo infinito azul com a fluidez e a leveza e a aparência de uma gota de sêmen, mesmo que a equipe tenha solicitado o desligamento dos aparelhos eletrônicos nem que seja por quinze minutos, é tratar toda a aventura de forma leviana – e não há nada menos leviano do que um objeto que nem eu e nem você e nem nós dois juntos conseguimos levantar, mas o ar consegue, sendo que é o mesmo ar que não nos levanta e por aí vai. O sonho de voar alimentou a ambição de homens e mulheres desde tempos remotos, desde que observamos os pássaros planando com elegância por correntes de vento após depositarem seus resíduos em nossos ombros, e o mínimo que toda essa história merece é ver todo mundo apertando o botão de “desligar” do smartphone durante o período em que vamos deixar o porto para trás e ganhar os céus.

Ou, como diria um piloto experiente caso a vida fosse um filme: respeite o ar, garoto.

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Menos números, mais Atlas

Sites com dicas de viagens são incrivelmente úteis. Eles ajudam a economizar tempo e dinheiro, a descobrir atalhos, compreender obstáculos, decifrar enigmas – tivesse eu utilizado o artifício de percorrer blogs e páginas especializadas antes de viajar para a Europa, provavelmente o mistério de descobrir como se atravessa a rótula para chegar ao Arco do Triunfo, em Paris, fosse exigir menos tempo e muito menos ofensas ao sistema atravessário de rótulas francês. Uma simples informação pode evitar que você literalmente fique andando em círculos à procura de um mínimo sinal de como seguir em frente, como se uma viagem fosse um adventure point-and-click dos anos 90, e a quantidade de informação objetiva dispensada por milhares de sites www afora é tipo maior do que qualquer hipérbole sem graça que eu fosse colocar aqui.

Ando sentindo falta de coisas menos objetivas, entretanto. Menos embasadas em números, menos argumentativas; mais reflexivas e pessoais. Algo que não tente capturar outro algo como esse algo é, mas sim como o escritor/escritora vê esse algo. Uma interpretação da realidade, trazendo associações diferentes e desenvolvimentos diferentes e todas aquelas coisas que fazem um texto evoluir até um determinado ponto onde o leitor compreenda aquele ponto de vista mesmo que construído sobre lógicas muito particulares.  Que não seja apenas útil, ou necessariamente útil, mas que ao menos provoque algum tipo de reação – diversão, iluminação, catarse etc. Frequentemente alguém consegue pegar esse grande fuzil de precisão que é a escrita e acertar em cheio na definição de determinado objeto/pessoa/local, e ler esse tipo de coisa sempre provoca aquele sorriso involuntário e redecora a sala de estar do nosso cérebro para que a gente consigo incorporar esse tipo de reflexão.

Ainda lembro o quanto Nick Horby parecia estar me descrevendo ao falar de futebol em Febre de Bola. Ou como Borges usou um simples brioche para falar de Paris em Atlas, o maior conjunto de relatos de viagens desde que o universo era uma bolinha anti-stress de energia e decidiu explodir. Claro, não espero que a cada megabyte caminhado apareça um Hornby e muito menos um Borges, mas mesmo textos menos ambiciosos podem se tornar incrivelmente particulares e envolventes – já falei aqui sobre o artigo que contempla um adulto aprendendo a dirigir, e este Leite Moça é melhor que Nutella despeja verdades sem piedade nenhuma. Eu mesmo tentei fazer algo do gênero falando sobre Paris, embora com uma taxa de sucesso incrivelmente inferior.

Porque sites de viagens que postam as dicas, os atalhos, os jeitinhos, as informações etc são incrivelmente úteis. Mas, gostando ou não, realizar uma odisseia para conseguir atravessar a rótulo e chegar ao Arco do Triunfo me deu uma história.

Olha ali o tempo fugindo com o que sobrou dos chocolates.

Talvez a principal métrica da passagem para a vida adulta seja o tempo. Ou melhor, a falta dele, a incapacidade de conseguir organizar e fazer tudo o que se quer organizar e fazer, uma pertinente corrida em direção à parada quando o ônibus recém engatou a primeira marcha e marcha para longe. Entre trabalho, projetos, lazer, momentos significativos com as pessoas que sentem a nossa falta quando não estamos por perto, epopéias desconcertantes em busca de um mínimo sequer que seja só um pouquinho mesmo tá bom de sexo, parece que o relógio está sempre um pouco apressado e um pouco na frente. Fico pensando às vezes se não é o contrário, se não é o tempo que está rodando em FF e nós estamos na velocidade normal.

O próprio ato de postar aqui no blog meio que surge como um lembrete de tomar remédio, e não apenas como uma vontade natural porque essa vontade se divide entre Graça Infinita, Netflix, DVDs, filmes, outros projetos escritísticos, cervejadas, saídas, Xbox, Xvideos, timeline do Twitter enfim, um vistoso e diversificado leque de coisas que poderiam estar sendo feitas mas não estão sendo feitas e estão tipo queimando ônibus e vandalizando caixas automáticos de bancos dentro do cérebro para chamarem a atenção e finalmente serem feitas. Difícil dar a descarga na sensação de que a cada segundo algo está deixando de ser aproveitado (já me disseram que isso é medo da morte. Já me disseram que é falta de organização, também).

Talvez isso seja sintomático de uma época que viaja em pílulas de DDA, onde os próprios portais de notícias não se cansam de colocar manchetes tipo “Cachorro parece estar dançando feliz ao som de Anitta” e “Motorista bêbado capota ônibus e mata vinte e três” lado a lado. Talvez seja questão de saber priorizar as coisas, o que não deve ser fácil, uma vez que a priorização pessoal não é como a priorização corporativa e depende de critérios subjetivos e muitas vezes variáveis e em geral é uma merda do cacete de fazer porque a cabeça fica mudando de ideia o tempo todo, caralho. Talvez seja questão de costume.

De qualquer jeito, é frustrante. Toda hora ganha parece também uma hora perdida. Enquanto escrevo aqui, 600 páginas ficam abandonadas em Graça Infinita. Enquanto leio Graça Infinita, a lista de filmes e séries do Netflix diminui. Enquanto a lista de filmes e séries do Netflix diminui, os templários e os assassinos não se enfrentam no Xbox. Meio que não há para onde fugir. A vida é uma grande festa, repleta de músicas bregas e comida boa e gente cérebrodesligadamente bêbada e sobremesas deliciosas, mas não dá para fazer tudo. Enquanto estamos preocupados enchendo as canecas de chope, o tempo está fugindo com o que sobrou dos chocolates da mesa de doces.

A fantasia definitiva

Ele estava na minha mão quando levantei sofá. E talvez “levantei do sofá” não seja tão preciso quanto “fui ejetado do sofá por uma poderosa onda de adrenalina, e uma daquelas ondas de tsunami com o tamanho de um desastre”. Segurava ele só com a minha mão direita, apertando em uma das extremidades ergonômicas que o fazem encaixar tão bem entre os dedos, anos e anos de engenharia para esconder placas e circuitos debaixo de um design elegante e não-ofensivo. A energia cinética que bombeava inquietação pelo meu corpo tomou conhecimento disso, do peso, tamanho, formato, aerodinâmica dele, percebeu se tratar de um objeto maciço o suficiente para percorrer os princípios básicos da física mecânica com a graça, harmonia e estoicismo exigidos no momento. Olhei para a frente, sem saber o que procurar. Um pouco à direita, a porta da cozinha e um espaço desconvidativo e, por que não?, até certo ponto sagrado. Um pouco à esquerda, um piano antigo abarrotado de fotos antigas e lembranças de épocas melhores. Entre os dois, cerca de trinta centímetros de parede. Limpa. Branca. Vazia. Submissa. Uma tela esperando ser pintada.

Instintivamente recuei o braço direito, utilizando a mão esquerda e movendo a perna esquerda para o mesmo lado para que impulso + equilíbrio se abraçassem como velhos amigos. Nunca joguei ou vi uma partida de beisebol na vida, mas neste momento, realizando este movimento, eu poderia estar no centro do Fenway Park, perto daquela almofadinha marrom e esperando o apito ou seja lá qual sinal beisebolzístico dá início à jogada. Dizem que o medo da morte é um arquétipo, conceito comum a todos os seres humanos independente de nacionalidade, idade, educação etc, e, tomando consciência do coreografia inconsciente que estou fazendo, cruza pela minha cabeça a ideia de que o lançador de beisebol também seja um arquétipo.

Tudo se move em câmera lenta para que a expectativa do acontecimento possa ser sugada até o nariz sangrar de tanta antecipação. Já consigo sentir o cheio das gargalhadas histéricas e lágrimas de êxtase que vão preencher o universo inteiro, um daqueles momentos que separam o mundo entre o antes e o depois, o zênite de tudo que a humanidade foi é e será, o vai se fuder mais bigbangeano e definitivo que alguém já imolou em cima dessa tecnologia, cacete. O vento sopra dramaticamente pela janela e a iluminação fica mais heróica. Termino de arquear o braço e começo o movimento para a frente. A um quilômetro dali, as pessoas sentem que algo vai acontecer. Janelas trincam. Os animais se tornam inquietos. As crianças choram. Em algum lugar, Carmina Burana começa a tocar.

Então vem o superego, vestindo sua camisa engomada para dentro das calças e seu cabelo lambido para trás, arrumando os óculos e conjugando os verbos corretamente, e injeta um pen drive no sistema límbico para disparar o vírus “e se…?”. No meio do agora desconjuntado passo beiseboliano, hipóteses começam a se formar. Preços. Gastos. Dívidas. Atitudes impulsivas. A melhor decisão. Arrependimento. Desespero. Niilismo. A melhor decisão. Oquevoufazeragorafobia. Tudo acontece em milésimos de milésimos de segundos, mas é o suficiente para jogar uma âncora e iniciar o longo e doloroso e broxante e frustrante processo de hesitação. De repente, toda a certeza se esvai e o que sobra é a melhor decisão a longo prazo, a escolha que trará mais benfícios para todas as pessoas e coisas do mundo em todas as circunstâncias e características possíveis. E é impossível fugir dela.

Desvio o olhar por um segundo. Minha visão encontra a tela da TV, onde simulacros de uniforme correta e bagaceiramente idênticos aos da vida real celebram o gol fisicamente impossível que me eliminou da competição. Quando me dou conta, estou observando a graça e a harmonia com que o controle do Xbox percorre o trajeto até o choque kamikaze contra a parede da sala.

De carros e caracteres

Já faz um tempinho que eu parei de ler sinopses de filmes. Quer dizer, não parei parei, não da mesma forma que comidas fabricadas e entregues em avantajados veículos automotivos pararam de ser baratas, por exemplo, ou que o Johnny Depp parou de fazer filmes bons. Só cheguei em um ponto onde ler a sinopse não é mais uma etapa capital do processo, e, muitas vezes, assisto à produção por indicação de amigos/conhecidos em cujo gosto confio ou graças aos artistas envolvidos (se David Fincher fizer um épico bíblico de quatro horas sobre a vida de uma telha, estarei lá no primeiro lugar da fila e lendo o verbete sobre “telhas” na Wikipédia para entender as sutilezas).

Isso passou por um lance que é tipo uma epifania sem banheiras ou eurekas! onde o meu córtex pré-frontal, em um raro momento de sobriedade, percebeu que o assunto de um filme não é tão importante quanto a abordagem – tramas megalomaníacas podem resultar em mergulhos espirais em direção ao fracasso (abraço, A Viagem!) e histórias simples podem resultar em produções acachapantes (abraço, O Lutador!). Meio que não há como saber antes de assistir, e, tal qual acontece com a chuva, o que dá para tentar antecipar são alguns sinais que eventualmente podem estar enganados (abraço, Lincoln!).

Parece lógico também que tal característica se estenda à literatura, ou seja roubada dela, já que antes do cinema veio a literatura (e antes de literatura veio Borges). Lembro bem de um conto do Tchekov (escolha sua grafia favorita) chamado Uma História Enfadonha que, com assunto aparentemente enfadonho e personagens aparentemente enfadonhas, nada tinha de enfadonho graças à maestria com que o russo despejava as frases nas folhas enquanto provavelmente enchia o cu de vodka e brigava com a Ucrânia ou qualquer dessas coisas que os russos fazem.

Dia desses topei com esse The Driver’s Seat na New Yorker, um daqueles relatos obliterantes que acendem o pavio para explodir a inveja escritística no leitor. O tópico não poderia ser mais banal – as percepções de um sujeito na meia-idade que só agora está aprendendo a dirigir -, mas o escritor Adam Gopnik consegue dar ao texto o mesmo nível de fluidez que ele não consegue dar ao carro, atirando a todo momento observações pertinentes, associações longínquas mas pertinentes, relacionando a experiência com outras experiências e conseguindo extrair dela significados que ultrapassam em muito o simples deslocamento via combustível fóssil.

Sugiro que todos (que otimismo falar no plural) se sentem em uma poltrona conforável, peguem uma cerveja/café/água/refrigerante/Toddynho e se preparem para alguns momentos de inspiração impressa. Aqui um tira-gosto (tradução livre):

A discrepância entre dificuldade e perigo é a assinatura da nossa civilização, de metralhadoras a bombas atômicas. Você pressiona um pedal e duas toneladas de metal descambam pela avenida; você puxa um gatilho e vinte inimigos morrem; você aperta um botão e cidades queimam. O ponto de vivver em uma sociedade tecnologicamente avançada é que o mínimo de esforço pode produzir o máximo de resultado. Facilitar o que é difícil é o caminho para a conveniência; é também o caminho para a catástrofe. Perceber o quão perto do desastre estávamos a cada momento ajudou a acionar o meu botão do pânico, e, enquanto a cantoria e os comentários do Arturo ajudaram a reduzir um pouco do pânico, eu tentei encontrar outras formas de supará-lo.

Tríceps corda enquanto exercício de criatividade

Recentemente voltei a frequentar a academia, após quase dois anos dizendo que eu gosto dos exercícios físicos só como amigos. É uma reconciliação difícil – menos pelos horários e pelo investimento monetário e mais pela dor lancinante que hiperboliza o peso da idade ao longo da primeira semana pós-retorno. Mas a quantidade de benefícios proporcionados pela atividade física é de aproximadamente UMA CARALHADA, e não vou citar eles aqui porque todo mundo deve receber sua dose diária de informação acadêmica via postagens do Instagram, então o melhor a fazer é ficar quieto e se juntar ao movimento de NO PAIN NO BODY HEALTHY ENOUGH TO DRINK TONS OF BEER ON THE WEEKENDS.

Entretanto, uma vantagem insuspeitada trazida pela recorrente movimentação de placas pesadas através de um sistema de cabos é a inspiração. Muita gente não gosta de academia por ser uma atividade intrinsicamente repetitiva repetitiva repetitiva repetitiva, uma coleção de movimentos curtos e concentrados e controlados e executados em séries até a exaustão. Mas descobri que fazer esse esforço e fazer de novo e de novo pode ser libertador: a abordagem automática dos movimentos, que não exige nenhum esforço racional além do cuidado para evitar que coisas pesadas caiam em cima do pé, permite que a mente faça check-in e embarque nas viagens mais aleatórias, faça novas associações, assimile as possibilidades do ambiente, risque seja lá qual for o fósforo cerebral que produz aquela faísca de insight, porque a alternativa – ficar contando modorrentas oito ou dez ou doze ou quinze vezes enquanto os braços sobem e descem com cada vez mais dificuldade – é de uma chatice quase terminal.

Além disso, exercício libera uma substância qualquer que exercícios liberam (não a gordura, porque essa eu ainda tenho de sobra) e que é criatividade-friendly, fazendo com que as séries de rosca concentrada unilateral não apenas construam bíceps mais proeminentes, mas também ideias mais proeminentes (é sabido por todos que Charles Dickens não abria mão de uma pernada pelas margens do Tâmisa, embora historiadores ainda não tenham chegado a um consenso sobre se o famoso autor de Oliver Twist treinava rosca concentrada unilateral ou não (de fato, Dickens parece mais o tipo de sujeito que escolheria uma aula de Circuito Funcional)).

Há inovação na repetição. E vocês não sabem como essa afirmação torna menos obliterante pagar a mensalidade da academia.

Crítica: A Teoria de Tudo, de James Marsh

Stephen Hawking é um estudante inteligente, dedicado, criativo e que assistiu muitas vezes aos filmes do Rocky, porque a vida tenta nocautear o cara com escleroses laterais amiotróficas e traqueostomias e o sujeito simplesmente não cai. Pior que isso: conforme a doença vai sendo ainda mais filha da puta, Hawking vai descobrindo mais coisas e construindo mais coisas e conquistando mais coisas e até mesmo pegando mulheres gatas. Respeito.

A Teoria de Tudo é um filme adolescente. Não no sentido de público-alvo, como aqueles Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado ou American Pie, mas no sentido de que não sabe muito bem o que quer da vida, não se decide entre ser uma cinebiografia edificante sobre o Stephen Hawking ou um retrato do casamento dele com a Jane. E, apesar da atuação monstruosa de Eddie Redmayne e de não se entregar ao drama piegas, o filme acaba não conseguindo ser eficiente em nenhuma das duas propostas.

Isso porque a película vai empurrando a história sem se preocupar muito em desenvolver os elementos. Por exemplo, já no primeiro encontro entre Stephen e Jane ficamos sabendo o que cada um quer da vida, só que não há muito espaço para trabalhar a química entre eles. As coisas acontecem de forma meio desconjuntada, e não dá pra ter uma visão muito clara sobre as conquistas de Stephen Hawking ou mesmo a passagem do tempo, a forma como a relação dos dois evolui com os anos. Além disso, A Teoria de Tudo bate com o joelho na quina da mesa graças ao caráter episódico da trama (quando Stephen ganha reconhecimento, começa o problema de Jane) e alguns diálogos incrivelmente expositivos (“sabe que foi você que escolheu fazer PhD em física na melhor universidade da Inglaterra, né?“).

A coisa às vezes é tão “linha de produção” que, após Stephen realizar uma operação perigosa e da qual podia não sair vivo, a primeira cena em que Jane vê ele traz a moça usando um quadro de soletrar para superar as dificuldades de comunicação. A produção não mostra carinho, preocupação, consideração entre eles, apenas o momento onde alguma dificuldade atrapalha e/ou é superada – Jane é praticamente uma máquina de otimismo, sempre surgindo com uma solução e tocando a coisa para a frente.

Por outro lado, A Teoria de Tudo ilustra bem as dificuldades do astrofísico, primeiro colocando ele sempre em movimento na época pré-doença e, depois, retratando o sujeito em momentos cotidianos sem escorregar para o dramalhão (e ver o esforço necessário para subir uma escada ou segurar uma colher é angustiante). De pequenos deslizes como deixar uma caneca cair até ficar praticamente imóvel preso a uma cadeira, o filme vai tornando a situação do protagonista cada vez mais insustentável, fazendo com que a força de vontade de Stephen pareça ainda maior por nunca sucumbir. Da mesma forma, se diferencia ao destacar os problemas de Jane, que obviamente não vive o casamento dos sonhos, e a personagem acaba ganhando tridimensionalidade ao possuir motivos e vontades próprias e não ser apenas uma muleta para ajudar o marido a seguir em frente.

Eddie Redmayne chega chutando tudo como Stephen Hawking, assumindo os treiejtos físicos do cientista e conseguindo também transmistir emoções usando apenas os músculos do rosto e arqueando as sobrancelhas. Antes mesmo da doença pegar de vez o ator se preocupa em antecipar as coisas, investindo em pequenos detalhes para dar indícios do problema (como os dedos da mão curvados e contraídos). E, como se já não tivesse muito trabalho, ainda enche o protagonista de simpatia, uma atuação carismática e envolvente que carrega o público pelos problemas do roteiro. Ao seu lado Felicity Jones também brilha, transformando Jane em uma personagem calorosa, radiante (a fotografia normalmente enquadra ela banhada em luz), cuja determinação e dúvidas jamais surgem de forma excessivamente dramática. Sem dúvida Redmayne é o MVP do filme, mas Jones não se intimida diante do colega.

O resultado final é um filme instável, pontuado por momentos interessandes e grandes atuações, só que apelando para algumas saídas fáceis e, tal qual o Eddie Murphy, tomando algumas decisões ruins. Parece que não houve muito desenvolvimento das tramas, que algumas coisas foram colocadas ali porque precisavam aparecer e a antecipação dramática ficou a ver navios. A história de Stephen Hawking é espetacular, aquele tipo de narrativa de superação que dá um abraço no coração de qualquer um. Mas a história de A Teoria de Tudo ficou devendo.

Nota: 3/5

O dia em que eu fiquei trancado no elevador

Anteontem fiquei trancado em um elevador no trabalho. Eis a sequência de acontecimentos:

08h05m:
Entro sozinho no elevador e aperto o botão do décimo sétimo andar. Pouco antes do fechamento das portas, uma Morena Voluptosa (MV a partir de agora) se junta a mim vestindo roupas adequadas ao calor senegalesco. Como bom cavalheiro, fui extremamente discreto ao olhar para o decote.

08h05m35s:
Durante a subida, subitamente as luzes se apagam e o elevador para. O susto resulta em um grito feminino estridente, mas logo me recomponho.

08h06m:
MV e eu rapidamente nos rendemos ao primeiro estágio de ficar preso no elevador, a negação. Enquanto ela bota as mãos no rosto e diz “não pode ser”, eu aperto todos os botões do painel como se fossem plástico-bolha.

08h08m:
Nem sinal da energia voltar. Pergunto a MV se ela tem sinal de celular, questionamento respondido com a típica risada irônica de quem sabe das limitações de sinal de operadora. Ela faz a mesma pergunta e respondo que consegui acessar o Facebook.

08h09m:
Posto no Facebook dizendo que estou preso em um elevador. Ninguém aparece para ajudar. Descubro depois que a postagem recebeu 32 “curtir”.

08h10m:
O sinal do 3G se vai e leva embora a esperança.

08h11m:
Nada de energia, nada do elevador andar. MV e eu ficamos trocando olhares constrangidos. Ela pergunta se isso já tinha acontecido comigo. Respondo que sim, troco olhares constrangidos desde que tinha oito anos. Ela não ri.

08h14m:
Entramos naquele estágio das convenções sociais conhecido como “formulário”, onde as pessoas trocam informações sobre a natureza de seus trabalhos, tamanho das famílias, faculdade que cursaram, time para o qual torcem, tamanho do busto etc.

08h16m:
Descubro que MV cursa medicina e vejo minhas chances desaparecerem como lágrimas na chuva.

08h17m:
Ainda nada de elevador. Consigo encaixar umas duas piadas boas sobre medicina e subverto trinta anos de comportamento condicionado ao não erguer a mão solicitando um high-five.

08h18m:
MV parece um pouco mais à vontade e se empolga conversando sobre as aulas, disciplinas, professores e o aprendizado. Após a quarta expressão em latim, começo a cantar a música de Frozen na minha cabeça.

08h20m:
Percebo que nem mentalmente consigo atingir o tom de Elsa e volto à conversa, agora um solilóquio um tanto melancólico sobre ex-namorados. Sem saber direito o que está acontecendo e não querendo me comprometer, interajo através de um aceno de cabeça híbrido entre vertical e horizontal e que, tenho certeza, já vi em uma coreografia dos Backstreet Boys.

08h22m:
Minhas declarações compreensivas de desdém pela ala masculina e uma piada envolvendo o ex-namorado de MV, um bisturi, uma posição do Kama Sutra e muita dor parecem desarmá-la ainda mais. A conversa flui como se MV não fosse esculpida em mármore sexy e eu não estivesse vestindo uma camiseta do Batman.

08h26m:
A narrativa sobre ex-namorados cresce em intensidade. Começo um movimento para passar o braço ao redor dos ombros dela, mas ele é subitamente repelido por trinta anos de “a vida não é assim”.

08h30m:
MV interrompe o fluxo de decepções masculinas e fala que sou um ótimo ouvinte, alisando meu braço. Sorrio e sou simpático enquanto penso se no prédio há algum estabelecimento onde eu possa emoldurar o braço.

08h32m:
MV começa a me perguntar das minhas ex-namoradas e rir das respostas e das experiências. Por tudo que eu já li a respeito e vi em filmes e séries, tenho quase certeza de que estamos flertando.

08h32m32s:
Tiro o celular de canto e procuro por “flerte”. Sem sinal.

08h33m:
Como sempre acontece diante de possibilidades épicas, espero o inevitável momento em que o mundo vai acabar.

08h35m:
Sento no canto do elevador e ela senta ao meu lado. Conversamos sobre qualquer coisa que nos permita dar risadinhas e olhar um ao outro. Há um indício de tensão sexual no ar.

08h35m16s:
Sorrateiramente procuro por “tensão sexual” no Google. Sem sinal.

08h40m:
A conversa se intensifica. Pouco importa o que estamos dizendo, porque as palavras parecem povoar o espaço entre nós apenas para puxar um mais perto do outro. O contato físico entre as pernas dispostas lado a lado já é natural. Os olhares parecem mais tímidos, como que tentando esconder algo. A pele do meu braço roça na pele do braço dela, macia, lisa, e há uma certa eletricidade no ar. Viramos o rosto e nos olhamos, agora sem desviar. Os lábios entreabertos dela são o único indício de vulnerabilidade, e não precisa de mais do que isso. Estamos os dois aqui, só os dois, só nós existimos nesse universo paralelo, só nós existimos nessa realidade em que nos conectamos.

08h40m8s:
As luzes se acendem e o elevador volta a funcionar.

08h42m:
Levantamos com o movimento do elevador, dando risadas constangidas e sem saber direito como agir. Aqui jaz um clima romântico. Fico olhando para MV e toda sua voluptosidade e percebo que ainda há uma conexão. Penso em todas as vezes que não assumi o risco, que fugi para a zona de conforto e em tudo que não fiz e poderia ter feito. Trocamos mais um olhar e percebo que não quero MV na minha lista de “e se…?”. Ela me observa com uma curiosidade juvenil, um sorriso no rosto, uma expressão de expectativa, enquanto me aproximo do painel de botões. Viro o rosto na direção dela e lanço um olhar sedutor, perigoso, enquanto me obrigo a fazer algo digno de cinema e abro o painel e aberto o botão de trancar o elevador para que o universo congele por mais um instante para nós dois.

08h42m20s:
MV tem um faniquito bíblico e dispara um discurso ríspido sobre como acabamos de passar horas no elevador e que a situação era perigosa e finalmente temos a oportunidade de sair e respirar ar puro e eu arrisco botar tudo a perder trancando o elevador e que tipo de demente faria uma coisa dessas? e palavrões.

08h43m:
Aperto o botão e o elevador volta a andar normalmente enquanto fico tão vermelho de vergonha que minha pele começa a descascar.

08h45m:
MV desce no décimo primeiro andar com a expressão de raiva ainda tatuada no rosto, sem sequer um “tchau” de reconhecimento ou um sexo de despedida.

08h46m:
Reflito rapidamente sobre homens, mulheres, amor, nossas expectativas, nossos desejos, nossos corações quebrados, nossa impossibilidade de aceitar alguém que nos ama e decido desistir do compromisso e ir comprar cerveja.

08h47m:
Durante a descida, subitamente as luzes se apagam e o elevador para. Um grito feminino estridente rasga o ar.

Os sanduíches às duas da manhã

Um sanduíche tem um sabor diferenciado quando feito às duas da manhã. Acredito que seja pelo fato de destoar, de que sanduíches adornam cafés da manhã e almoços e jantas e lanches da tarde e refeições de última hora quando compromissos importantes estão batendo na porta, mas o frio e frequentemente alcoolizado véu da madrugada não é seu habitat natural (provavelmente por alguma questão envolvendo a quantidade de carboidratos nos ingredientes e a vontade que as pessoas têm de conseguir um abodmen trincado). Assim, entre os momentos em que o sol se deita e acorda de ressaca, as fortalezas de pão recheadas com queijo e gostos pessoais se tornam visitantes ocasionais, abrindo espaço para culinárias mais práticas como nuggets, comidas requentadas no microondas e miojos. Às duas da manhã, cortar uma fatia daquele queijo muito bom e impossível de cortar (lembrando sempre que a a qualidade do queijo e a facilidade de cortar fatias são inversamente proporcionais) é uma odisseia, e tais empecilhos tornam o sanduíche uma figura um tanto mítica durante a madrugada, uma aurora boreal culinária que surge frente às maravilhadas testemunhas para saciar sua fome de… bem, de fome mesmo.

Claro, os filisteus podem argumentar que o sanduiche das duas da madrugada é o mesmo das duas da tarde, que o pão contém a mesma quantidade de farinha e trigo, que o horário não influencia nos processos pelos quais os ingredientes passaram e que toda essa história é apenas impressão. Mas a realidade existe apenas da forma como a percebemos, e certamente o mesmo sanduíche vai ativar sinapses e funções diferentes no córtex cerebral se consumido de tarde ou de madrugada. A calma e a quietude da noite são preenchidas pelos sabores da refeição com mais intensidade. Há mais espaço para o sanduíche desdobrar suas expressões gustativas e olfativas, o mundo para por um momento para ver o que aquele intruso, aquele coadjuvante que normalmente surge como produto das circunstâncias – pouco tempo para comer uma refeição completa, um lanche para degustar assistindo a algum programa, uma alternativa comestível que abraça a praticidade -, pode realizar quando alçado à condição de protagonista sob a auspiciosa vigília da lua.

Lembram de Proust comendo o biscoito, não lembram? É a mesma ideia, mas, ao invés de resgatar sentimentos passados, o sanduíche das duas da manhã interage com a ausência dos elementos que costumeiramente vê ao seu redor, criando novas sensações. Ao invés de ativar a lembrança, cria a lembrança. E nos deixa ali, sentados, reflexivos, imaginando que há muito mais entre o céu e a Terra do que imagina nossa vã culinária.

O dia em que eu fui à Copa do Mundo

O futebol visto ao vivo não é nada glamouroso. Sem os enquadramentos cinematográficos, a montagem ágil, a narração empolgada, a câmera lenta, os replays, os gráficos, as análises, tudo se resume a uma visão ampla do campo, longe dos supercloses que captam olhos marejados e da edição que confere drama às coreografias involuntárias. Ao vivo, o futebol é despido de quaisquer adornos carregados de significado e retorna a uma forma simples, rústica, onde precisa conquistar as pessoas apenas pelo impacto das jogadas e comportamento da torcida, sem intermediários cujo trabalho é tentar tornar a partida o mais envolvente possível. Ao vivo, o futebol deixa de ser espetáculo.
O inacreditável míssil disparado por Tim Cahill aos vinte e um minutos do primeiro tempo, tatuando o travessão e empatando a partida contra uma equipe mais forte e que havia recém marcado, foi algo fora do comum. Talvez porque fosse uma partida fora do comum, repleta de jogadores fora do comum, torcidas fora do comum, importância fora do comum. Os primeiros passos em um Beira-Rio dividido entre o laranja pulsante dos holandeses e o incompreensível sotaque dos autralianos já indicavam se tratar de um jogo à parte, composto por uma atmosfera que há vinte anos eu vejo na televisão mas que só ontem realmente descobri: é a Copa do Mundo (dispenso o “FIFA” no final) criando um universo que só é possível acessar de quatro em quatro anos, que não existe fora desses trinta dias enlouquecidos de futebol e que, para alguém que desejava mais do que tudo ter visto ao vivo o gol genial de Hagi contra a Colômbia, o chute de Branco contra a Holanda, a subida de Romário contra a Suécia, a arrancada de Michael Owen contra a Argentina, os passes cirúrgicos de Beckham e Scholes, o domínio perfeito de Bergkamp em cima de Ayala, o trenzinho de Felipão após superar Van Basten, o toque simples e brilhante de Pirlo para Grosso, a redenção de Materazzi, os pênaltis quase seguidos entre Espanha e Paraguai, a maior defesa de todos os tempos realizada por Suárez, a cavadinha vitoriosa de um El Loco que fez jus ao seu apelido e o chute mais importante da história da Espanha desferido por Iniesta, possui um significado de mais de vinte anos de “imagina se eu estivesse lá”.
Quando Cahill bombardeou o gol holandês aos vinte e um minutos, dois australianos sentados atrás de mim pularam e gritaram e se abraçaram e nos abraçaram e desceram as arquibancadas correndo. O gol – talvez o mais bonito da Copa até aqui – foi marcado no lado da goleira onde eu estava sentado, e, mesmo a dezenas de metros de distância, vi ele muito mais de perto do que qualquer superclose de câmera poderia conseguir: vi ele das arquibancadas de uma Copa do Mundo, envolvido pelos gritos das torcidas, testemunhando a bola percorrer todo o caminho até sacudir as redes e mudar um país inteiro e, pela primeira vez na vida, sem precisar imaginar como seria estar ali. Porque ao vivo, quando deixa de ser espetáculo, é que o futebol se torna verdadeiramente espetacular.