Crítica | Vingadores: Era de Ultron é o petit gateau da Marvel: bom, porém seguro

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Após o flashmob alienígena em Nova York no filme anterior, os Vingadores continuaram marcando reuniões para ir atrás do objeto fálico de poder que Loki carregava consigo. Então Tony Stark, que aparentemente nunca leu um romance de ficção científica na vida, cria uma inteligência artificial fodona que decide dar CTRL+ALT+DEL no planeta inteiro.

Um bilhão e meio de dólares. Foi o que o primeiro Os Vingadores arrecadou em bilheterias ao redor do mundo – sem contar DVDs, Blu-Rays e outras quinquilharias merchandísticas. É uma fonte de renda muito grande para que alguém com culhões tente arriscar alguma coisa com ela, que dirá a desculhonada Marvel. Assim, Era de Ultron é exatamente o que se espera dele, acerta exatamente onde se espera que acerte, erra exatamente onde se espera que erre, e, no final, acaba sendo como uma noite de bebedeira: divertido, porém esquecível.

A ideia de ficar no mais do mesmo já estampa a primeira cena do filme, quando as personagens são apresentadas através de um longo plano que, entrincheirado no meio da ação descontrolada, vai “descobrindo” cada uma das pessoas que vingam. A partir daí, é o tradicional combo “piadas + ação + desenvolvimento emocional raso” da Marvel, onde os dois primeiros tiram ótimos momentos da cartola: com um número grande de personagens que se vestem de forma tão peculiar, Era de Ultron consegue estabelecer uma dinâmica divertida entre elas ao colocar questões bem mundanas no meio de uma trama de proporções épicas (como a comparação entre Jane e Pepper) ou apostando nas diferenças de personalidade (Capitão censurando o Homem de Ferro e vice-versa).

Além disso, Whedon manja muito desse lance de diálogos e sabe preparar bem o terreno. Com frequência as piadas são resultado de uma cena objetiva do filme, pipocando de forma inesperada – e isso vale tanto para o falatório (“eu vou me render”, “o martelo sobe no elevador”) quanto para um humor mais, digamos, visceral (“alguém cuide daquele bunker”). E é essa abordagem descontraída, fazendo os heróis parecerem meio que uma mesa de bar na sexta à noite + poderes, que torna as duas horas da película tão agradáveis, embora em um número consideravelmente grande de vezes o humor bata o joelho na quina da mesa (vamos lá, fazer piada com “isso é o melhor que você consegue fazer?”. Estamos em 2015!) e o roteiro force o Homem de Ferro a dizer coisas engraçadinhas que não são tão engraçadinhas assim.

Falando em roteiro, Era de Ultron não tem lá a mais elaborada das histórias e, francamente, nem precisa. Fica bem claro que o lance é dividir o filme em quatro momentos de quebra-pau ensandecido, sendo eles a) o inicial, b) quando Ultron surge, c) quando a Feiticeira brinca com o ID de um dos heróis e d) o clímax, e a função da trama é proporcionar a violência. Ainda assim, mesmo que a suspensão da descrença esteja apagada no canto da festa em semi-coma alcoólico, uma que outra vez dá vontade de abrir os braços e gritar “peraí, vamos lá, né?” (qual é o lance com aquela piscina do Thor? E até quando alguém aparecendo no último segundo vai ser um recurso utilizado?). Por outro lado, a escala da coisa vai crescendo de forma eficiente e o plano geral do Ultron soa como uma ameaça bem palpável.

Infelizmente o Ultron em sim é nada memorável, um amontoado de metal cuidadosamente polido e cortado sem muita personalidade ou motivação – eu realmente não entendi por que ele queria dar cabo dos Vingadores. Aliás, motivação é algo anêmico no filme, passando pelos irmãos Maximoff (que possuem tipo o carro popular das motivações dramáticas) até os conflitos e mesmo flertes do grupo protagonista, que não chegam a soar realmente justificados. O próprio filme perde muito ritmo na inexplicável fuga para um “abrigo”, quando todos têm seus conflitos emocionais acionados no mesmo momento e de forma muito súbita, como se a professora tivesse chegado no meio da ação e falado “pessoal, chega de brincar, agora é hora do lanche emocional”. Como essas questões não chegam a ser realmente muito profundas ou envolventes, já que Era de Ultron não pode tomar nenhuma decisão que incomode muito o público porque bilhões em bilheteria, o intervalo não atinge a intensidade necessária e sua única função no filme acaba sendo permitir que o público vá ao banheiro sem prejuízos.

Já em termos de ação, aventura e tudo mais, não há do que reclamar: Era de Ultron é de encher transbordar os olhos. Alguns problemas menores com o CGI dão as caras (principalmente nos bonecos digitais), mas, de resto, é uma megalomania destrutiva que não tem medo de exagerar, resultando em um frenesi de socos superpoderosos e raios e prédios caindo e efeitos especiais que merecem brindes de cerveja. Whedon consegue mostrar a sintonia dos heróis em coreografias conjuntas – as envolvendo o Capitão e o Thor são particularmente inspiradas – e aproveita o máximo das habilidades de cada um em cena. Além disso, presenteia o público com um travelling circular em câmera lenta que é coisa linda de Deus e já entra para a seleção de melhores cenas do ano. E a produção ainda conta com um elenco entrosado, que possui uma ótima química e carisma , embora quase ninguém ali consiga realmente se destacar – a exceção fica por conta de Elizabeth Olsen, que constrói a Feiticeira com uma vulnerabilidade cativante (percebam que, mesmo nas sequências de luta, ela parece assustada) e é responsável pelo único momento dramático do filme que passa longe de ser estéril.

Pena que o segundo ato do filme se perca em draminhas superficiais e uma tentativa de tornar o Gavião Arqueiro uma personagem mais relevante (a própria Viúva Negra fala uma hora “fingir que ele é importante nos mantém unidos”), tempo que poderia ser melhor aproveitado em arcos dramáticos mais concisos. Aliás, não entendo porque a Viúva não é mais explorada, pois sem dúvidas possui a personalidade mais complexa da turminha e, tipo, é espiã, e personagens espiãs são um poço sem fundo de possibilidades e segredos. No final das contas, ela acaba sendo o melhor canal de identificação do espectador com o filme – algo que talvez melhore ainda mais com a presença da Feiticeira a partir de agora. Mas isso é no futuro; no presente, Vingadores: Era de Ultron (na real não é uma “era”, né? Mal e mal deve ser um mês) não sai dos parâmetros seguros definidos pela Marvel e parece querer jogar pelo empate, e o lance sobre times que entram para empatar é o seguinte: eles nunca conseguem ser cativantes.

Nota: 3/5

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De carros e caracteres

Já faz um tempinho que eu parei de ler sinopses de filmes. Quer dizer, não parei parei, não da mesma forma que comidas fabricadas e entregues em avantajados veículos automotivos pararam de ser baratas, por exemplo, ou que o Johnny Depp parou de fazer filmes bons. Só cheguei em um ponto onde ler a sinopse não é mais uma etapa capital do processo, e, muitas vezes, assisto à produção por indicação de amigos/conhecidos em cujo gosto confio ou graças aos artistas envolvidos (se David Fincher fizer um épico bíblico de quatro horas sobre a vida de uma telha, estarei lá no primeiro lugar da fila e lendo o verbete sobre “telhas” na Wikipédia para entender as sutilezas).

Isso passou por um lance que é tipo uma epifania sem banheiras ou eurekas! onde o meu córtex pré-frontal, em um raro momento de sobriedade, percebeu que o assunto de um filme não é tão importante quanto a abordagem – tramas megalomaníacas podem resultar em mergulhos espirais em direção ao fracasso (abraço, A Viagem!) e histórias simples podem resultar em produções acachapantes (abraço, O Lutador!). Meio que não há como saber antes de assistir, e, tal qual acontece com a chuva, o que dá para tentar antecipar são alguns sinais que eventualmente podem estar enganados (abraço, Lincoln!).

Parece lógico também que tal característica se estenda à literatura, ou seja roubada dela, já que antes do cinema veio a literatura (e antes de literatura veio Borges). Lembro bem de um conto do Tchekov (escolha sua grafia favorita) chamado Uma História Enfadonha que, com assunto aparentemente enfadonho e personagens aparentemente enfadonhas, nada tinha de enfadonho graças à maestria com que o russo despejava as frases nas folhas enquanto provavelmente enchia o cu de vodka e brigava com a Ucrânia ou qualquer dessas coisas que os russos fazem.

Dia desses topei com esse The Driver’s Seat na New Yorker, um daqueles relatos obliterantes que acendem o pavio para explodir a inveja escritística no leitor. O tópico não poderia ser mais banal – as percepções de um sujeito na meia-idade que só agora está aprendendo a dirigir -, mas o escritor Adam Gopnik consegue dar ao texto o mesmo nível de fluidez que ele não consegue dar ao carro, atirando a todo momento observações pertinentes, associações longínquas mas pertinentes, relacionando a experiência com outras experiências e conseguindo extrair dela significados que ultrapassam em muito o simples deslocamento via combustível fóssil.

Sugiro que todos (que otimismo falar no plural) se sentem em uma poltrona conforável, peguem uma cerveja/café/água/refrigerante/Toddynho e se preparem para alguns momentos de inspiração impressa. Aqui um tira-gosto (tradução livre):

A discrepância entre dificuldade e perigo é a assinatura da nossa civilização, de metralhadoras a bombas atômicas. Você pressiona um pedal e duas toneladas de metal descambam pela avenida; você puxa um gatilho e vinte inimigos morrem; você aperta um botão e cidades queimam. O ponto de vivver em uma sociedade tecnologicamente avançada é que o mínimo de esforço pode produzir o máximo de resultado. Facilitar o que é difícil é o caminho para a conveniência; é também o caminho para a catástrofe. Perceber o quão perto do desastre estávamos a cada momento ajudou a acionar o meu botão do pânico, e, enquanto a cantoria e os comentários do Arturo ajudaram a reduzir um pouco do pânico, eu tentei encontrar outras formas de supará-lo.

Crítica: Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro Gonzáles Iñarritu

Riggan é um ator que ganhou fama ao vestir as PLUMAGENS do super-herói Birdman no cinema, mas que atualmente se encontra na casinha do cachorro de Hollywood. Ele então escreve, dirige e estrela uma peça da Broadway para tentar se validar como artista, mas, a alguns dias da estreia, precisa lidar com os problemas da produção enquanto seu alter ego bicudo fica sussurrando críticas e frases de autoajuda na voz do Batman.

Cada minuto de Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância) é um Prêmio Nobel de planejamento, logística, visão, talento, coordenação, ensaio, marcação de cena, fotografia e muito mais. Filmada em praticamente um único plano-sequência (às favas com os cortes escondidos), a película consegue a proeza de utilizar essa virtuose em prol da história, bailando junto com as personagens pelos sets para que o público acompanhe o desenrolar da história de forma natural, crível. Um mergulho impressionante naquele ambiente e com espaço de sobra para provocar reflexões sobre arte, indústria cultural, mídia e negócios.

Tanto é que, ao longo das duas horas de “mas como é que eles filmaram isso?” do filme, somos apresentados a uma galeria de personagens ricos e marcantes – da filha distante ao ator obcecado por uma performance verdadeira, passando pelo amigo que toma as decisões de negócios e a filha semiperdida na vida -, que interagem em diálogos rápidos, envolventes e frequentemente geniais (“ele tem uma atração por feiras usando fraldas“, “pareço um peru com leucemia“, “a saúde durou mais do que o dinheiro“). A câmera de Iñarritu e Emmanuel Lubezki (O diretor de fotografia. Com “O” maiúsculo mesmo) acompanha eventos que jamais soam previsíveis ou repetitivos, sempre colaborando para a construção da história (os ensaios que dão errado) ou das personagens (a discussão entre Riggan e Sam, a conversa com a ex-esposa) ou atingindo aquele raríssimo ponto onde o patético e o hilário se abraçam sem piedade (a briga entre Riggan e Mike). Sim, é um filme praticamente sem cortes, mas com personagens e situações e diálogos tão afiados nem precisa dos cortes para se embriagar de dinamismo.

No centro disso tudo, Riggan, cujo “gosto de você só como amigo” por parte de Hollywood o leva a alçar novos voos (desculpem) para provar que é um artista relevante. A película mergulha sem dó no protagonista e faz questão de mostrar que ele é o resultado de jogar frustração, expectativa e ansiedade no liquidificador e servir em uma taça de segunda mão – e aqui é essencial parar e elogiar o trabalho de Michael Keaton, que interpreta o ator/diretor de forma intensa e emocional, carregando o filme com a facilidade de quem está fazendo tricô (se bem que tricô parece difícil. Com a facilidade de quem está prevendo uma morte em Game of Thrones, então) e conseguindo estabelecer uma conexão com o público. Ao longo da caminhada, Birdman vai mostrando as inseguranças de Riggan, que, apesar de ter seguido em frente, se vê tão preso à posição de astro de blockbuster do passado que ainda enxerga o homem-pássaro por aqui e por ali. O que torna a empreitada broadwayzística ainda mais pesada, pois não é apenas o dinheiro gasto (e sabemos que ele está contando moedas) que está em jogo, mas sim a chance de fazer algo significativo – e, através dos diversos obstáculos (problemas na produção, atores instáveis, filhos viciados, casos amorosos, críticos destrutivos, um homem imaginário vestido de pássaro com uma tendência crônica a irritar), a jornada de Riggan se torna ainda mais pessoal, ainda mais representativa. Em determinado momento, Mike fala que o sujeito está disposto a deixar tudo de si no palco, e o tamanho do investimento do protagonista na peça fica bem claro em uma cena onde aparece praticamente nu diante de uma multidão, expondo-se completamente nesta investida dramática.

É curioso também perceber que, já que o mundo gira ao redor dele (incluindo aí um baterista que faz a trilha surgir de forma diegética na trama), cada uma das personagens parece representar um dos medos/frustrações do protagonista: Sam e a ex-esposa são o fracasso na vida em família e, de certa forma, os abusos de Hollywood; Mike é o medo de não ter o talento necessário; Lesley é o medo de estrear na Broadway; Laura é a hesitação em se comprometer por ainda gostar da ex-mulher; Tabitha, a crítica do NY Times, é o receio de não pertencer à turminha dos artistas “de verdade”; Birdman é o apego à glória do passado; e assim por diante. E tudo isso surge em cena com um elenco homogeneamente excelente, que mata no peito um projeto desse tamanho e, no espaço de apenas algumas salas e sets diferentes, dispara sentimentos e sensações em um crescendo que vai anunciando o clímax – destaque para Emma Stone, que consegue transmitir sinceridade como poucos (talvez pelos olhos azuis do tamanho de estrelas), e por um Edward Norton completamente em chamas, que faz de Mike uma figura imprevisível, magnética e incrivelmente autêntica.

Já o trabalho de Iñarritu e Lubezki é de levar o mais turrão dos zagueiros às lágrimas. A câmera deles passeia sem cortes (aparentes) pelo teatro e pela rua de forma elegante, conseguindo se aproximar das personagens quando necessário (muitas vezes os rostos são enquadrados em planos fechados) e conferindo à trama certa atmosfera de urgência, de que não há tempo a perder. A forma natural com Birdman mostra elipses e transições (a da tela do celular para a TV do bar, por exemplo) dá uma dimensão ainda maior ao trabalho da equipe, que consegue trocar de cenários de forma criativa e ilustrar a passagem do tempo sem se render aos cortes, e a megalomania correu tão solta pelos sets do filme que os realizadores sequer hesitaram antes de jogar Riggan no meio de uma Times Square lotada ou fazer um passeio virar uma cena de super-herói. Nunca mais um daqueles vídeos de GoPro vai parecer grande coisa depois disso.

Trazendo uma história que constantemente contrasta o sucesso dos blockbusters com a autenticidade da arte (aqui representada pela peça de teatro), ainda mais por trazer um elenco experiente nisso (temos ali um Batman, um Hulk, a Gwen Stacy, a namorada do King Kong, o sujeito estranho de Se Beber, Não Case), a película acaba tornando a busca de Riggan pelo “algo significativo” em uma reflexão sobre a superficialidade das superproduções (Tabitha diz que ele “não é um ator, é uma celebridade“), do marketing envolvido (tanto na entrevista inicial como na oportunidade encontrada por Jake ao final), do quanto significa entregar algo embalado e pronto para o público consumir e medir o valor de algo por números, seja de bilheteria do fim de semana ou de visualizações. Não à toa Birdman aproveita a localização do teatro e mostra o cartaz de O Fantasma da Ópera aparecendo marotamente em alguns momentos: enquanto ex-astro de superprodução, ex-celebridade, ex-super-herói, Riggan é invisível. É irrelevante, como sua própria filha faz questão de apontar. O que só torna a sua busca por construir algo que faça a diferença, alguma coisa que o mantenha sólido no mundo, ainda mais trágica e grandiosa.

Nota: 5/5