O Espetacular Homem Desnecessário

O Espetacular Homem Aranha (The Amazing Spider Man)
2/5

Direção: Marc Webb
Roteiro: James Vanderbilt, Alving Sargent e Steve Kloves, baseado na personagem criada por Stan Lee e Steve Dikto.

Elenco
Andrew Garfield (Peter Parker/Homem Aranha)
Emma Stone (Gwen Stacy)
Rhys Ifans (Dr. Curt Connors)
Martin Sheen (Tio Ben)

Peter Parker é um adolescente inteligente, descolado e órfão da coisa que todos mais prezam no mundo, a motivação dramática que não apela pra misteriozinho. Daí um dia Peter fica surpreso ao ser picado por uma aranha radioativa, mesmo que tenha acabado de sair de um CARROSSEL de aranhas radioativas, e ganha um monte de superpoderes legais. Mas daí ele acaba preso em uma teia (piada obrigatória) de acontecimentos, a vaca radioativa vai para o brejo e nosso herói descobre que com grandes poderes vêm grandes reboots de séries.
Reiniciar uma série é algo que pode ser bem legal, como Star Trek provou. É algo que pode ser bem interessante, como Sherlock Holmes provou. É algo que pode fazer todo mundo esquecer que os filmes anteriores eram uma GAIOLA DAS LOUCAS e usar apenas hipérboles pra definir os novos, como os  Batmans do Christopher Nolan provaram. No entanto, reiniciar uma série é uma oportunidade para entregar uma nova visão da história/personagens – e nesse caso, O Espetacular Homem Aranha, apesar de ter uma trama aparentemente mais “sombria”, não acrescenta nada ao que Sam Raimi já havia feito nos filmes anteriores.
“You better lawyer up, asshole. ‘Cause I’m not coming back for the radioactive spider. I’m coming back for EVERYTHING.”

O que não é surpresa, já que a produção conta com um roteiro vacinado contra a criatividade e o bom senso. Tudo bem, algumas tiradas até são divertidas e alguns momentos até legais, mas, tal qual um ou outro jogador da seleção brasileira, eles estão envolvidos pelo fracasso absoluto. Para começar, não há a definição de uma “história” propriamente dita: começa com os pais de Peter indo embora, daí entra o interesse amoroso, depois as bugigangas e o Dr. Connors, a descoberta dos poderes, o lagarto, a família de Gwen, o ódio da polícia… tudo isso irrompe no filme sem muita explicação, sem muita lógica, sem desenvolvimento, enfim, sem. É com se as cenas fossem queijo ralado e alguém simplesmente jogasse elas em cima do roteiro. O filme não pega uma das tramas pela gola e a carrega até um ponto satisfatório; ao contrário, aposta nas convenções mais PERRENGUES para tentar amarrar tudo.
O que leva ao superpoder que realmente  guia O Espetacular Homem Aranha: a coincidência. Não basta que um funcionário da Oscorp acidentalmente deixe cair uma pasta com algo totalmente ligado ao mistério que Peter tenta decifrar, que Gwen tenha acesso total ao laboratório de BIOFICÇÃOCIENTIFICOLOGIA, que Connors sabia tudo sobre o pai de Peter mas faça beicinho para dizer, é preciso ainda que o protagonista acidentalmente caia em um ringue de luta livre com um pôster de um lutador mascarado ao lado enquanto um inimigo grita “eu vi seu rosto!”. A película é um grande buffet de soluções fáceis e implausíveis, que a toda hora uma suspensão da descrença radioativa para funcionarem (jamais funcionam).
E o melhor é que tudo ainda fica pior quando paramos pra prestar atenção nas personagens. Peter Parker, por exemplo, jamais tem uma motivação convincente: o misteriozinho dos pais é CHINFRIM, a morte do Tio Ben ficou tempo demais no forno e acabou seca e sem gosto, o relacionamento com a Gwen é construído através de injeções de clichês… disso tudo sai uma personagem nada carismática, que jamais cativa o espectador enquanto fica de chorinho pra lá e pra cá – exceto, claro, quando sem motivo nenhum começa a fazer piadas (fracas) enquanto Homem-Aranha (sei que a ideia é ele se “soltar” dentro do uniforme. Mas o filme não dá a entender isso). Já o Dr. Connors é tão profundo quanto uma entrevista de jogador de futebol, alternando entre o modo educado e o modo agressivo e lembrando ao público o tempo todo que ele quer o soro de lagarto pra si (“Mudar a vida de todos. E a minha”). O resto da galera só passeia pelas cenas, eventualmente quase sendo vítima do Lagarto e escapando por pouco.
Não ajuda muito que Marc Webb, provavelmente escalado apenas pelo sobrenome, atropele a história com uma falta de imaginação enorme na direção. Se ele acerta (a transição para a Oscorp é elegante, as cenas em primeira pessoa são bacanas, embora destoem da linguagem do filme), provavelmente é porque não conseguiu fazer as coisas saírem como ele imaginava. Não há nada realmente chamativo nos enquadramentos, as coreografias de luta são um disco riscado (o Lagarto esmaga o Aranha contra a parede; o Aranha escapa e usa as teias; o Lagarto escapa das teias e esmaga o Aranha contra a parede; o Aranha…), e nem os momentos onde o cabeça-de-teia fica TARZANEANDO pela cidade são memoráveis. Tudo bem que o roteiro já pratica bullying contra o filme, mas dava pra ter tentando ao menos algo legal, né? No mínimo uma trilha não tão irregular (alterna ótimos momentos – na ação, principalmente – com outros de fazer o cara se arrepender de ter nascido com tímpanos.
Mas boa parte do problema vem do fato de que ninguém avisou ao Andrew Garfield que Peter Parker ra o protagonista, e, como tal, tinha que ser cativante ou ao menos interessante. Garfield se limita a sorrir torto, fazer carinha de choro, e, basicamente, sugar sem piedade qualquer carisma que porventura aparecesse na cena. Ao menos ele não sente solidão, já que Emma Stone, embora pegável AS GANHA, pouco pode fazer para tornar Gwen minimamente interessante. Os únicos que se destacam, aliás, são Martin Sheen, que convence o espectador daquele lado “eu sou velho mas entendo você e tenho conselhos pertinentes para dar” de Ben Parker, e Rhys Ifan, que consegue transitar bem entre os lados cortês e ameaçador de Curt Connors, embora o roteiro obrigue-o a fazer isso sem lógica nenhuma.
Contando ainda com a previsibilidade total (como a máquina de toxina que aparece do nada no meio da história e “some”), diálogos tão subdesenvolvidos que seriam classificados como “terceiro mundo” (“não é seu trabalho”, “talvez seja”), cenas batidas LIQUIDIFICADORIFICADAS (a aparição de Stan Lee) e, pasme, até patriotismo americano (reparem no enquadramento da bandeira dos EUA quando os trabalhadores vão ajudar o cabeça-de-teia), O Espetacular Homem Aranha se mostra um esforço completamente pálido e desnecessário. É bem produzido sim, e tem alguns momentos realmente bons sim (a teia no esgoto, a cena onde Peter vai descobrindo os poderes), mas em nenhum momento consegue envolver o público ou entregar uma experiência impactante. Na tentativa de fazer algo mais dramático e profundo como os Batmans do Nolan, Marc Webb só conseguiu mostrar o mais novo e letal predador das aranhas: a ganância hollywoodiana.
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