we

come winter, fall, come summer or spring
someday this world is gonna make you cry
by taking away something that’s everything
by putting you down on one knee at the time

down in this hole inside my chest
nothing ever will be born again
as i miss those old days from the past
as i struggle just to find a strenght

so i guess it’ll rain through some days and some nights
to wash away all the souls that are far from the light
so they can move on, move along with the tide

‘cause there’s just one path we can follow sometimes
when the pain is too hard, when the heart is too tight
we go living along, we go living our lives
hoping to find you again
in the skies

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A gênese da ressaca

Poucos eventos instigam tanta reflexão como a ressaca. É o momento onde a pessoa, após experimentar uma euforia de bem-estar alcoólico, desaba pra um mal-estar que é reflexo do quanto bebeu, a alegria sendo substituída mais tarde pela mesma dose de pessimismo. Essa pessoa vai se sentir tão mal quanto se sentiu bem algumas horas antes.
Assim, observamos que a ideia de que existe um equilíbrio natural no universo não pode ser refutada. Ela está presente em diversos elementos do mundo, claro, mas em nenhum de forma tão representativa quanto na ressaca, pois vejam bem, a ressaca abrange perfeitamente tanto o bom como o mau, tanto luz como trevas. Ela é o yin e o yang ao mesmo tempo, os dois exatos opostos que paradoxalmente convivem juntos. Dessa forma, podemos perceber que a existência se sustenta nesses dois lados, pois ninguém haverá de duvidar que, se essa dinâmica se aplica até mesmo em um evento aparentemente irrelevante, fatalmente se aplicará ao todo que o criou. Quando de ressaca, estamos diante de toda a complexidade da vida.
Com isso, creio que acabo de encerrar todas as discussões sobre o formato que tem o universo: dadas as reflexões acima descritas, uma pessoa entende que a única forma possível para o universo é a de um copo de cerveja.

Só na filosofia

A Árvore da Vida (The Tree of Life)
5/5
Direção: Terrence Mallick
Roteiro: Terrence Mallick
Elenco
Brad Pitt (Sr. O’Brien)
Jessica Chastain (Sra. O’Brien)
Sean Penn (Jack adulto)
Hunter McCracken (Jack criança)
A Árvore da Vida conta a bela e filosófica história de um monte de imagens bonitas e acompanhadas de questionamentos filosóficos em off. Ah sim, e também acompanhamos a rotina de uma família enquanto ela… bem, enquanto ela vive e coisas rotineiras e filosóficas acontecem ali no meio.
Terrence Mallick é um sujeito que parece ter a natureza no seu círculo mais íntimo de amigos. Certamente a chama pra jogar pôquer na sexta de noite ou para tomar uma cerveja. Isso é algo que fica bastante claro em sua filmografia, onde muitas vezes a paisagem é quase uma personagem e também sofre com as circunstâncias da história. Assim, não é surpresa que A Árvore da Vida represente de forma lacrimejante a força da natureza e a presença insignificante do homem perante toda essa balbúrdia.
Onde está seu Sócrates agora?
A ausência de uma estrutura narrativa sólida a princípio pode ser confusa que nem uma convocação da seleção brasileira (o filme com frequência zomba da linearidade, se mistura com flashbacks, flashforwards, cenas de dinossauros, e por aí vai), mas tudo faz parte do plano do titio Terrence para provocar a reflexão no espectador. Assim, o diretor prefere se ater mais ao arrebatamento emocional e à construção de conceitos através de imagens do que entregar ao público algo mais palatável – uma linguagem mais complexa, claro, e não necessariamente melhor ou pior do que outras, mas que se aplicou perfeitamente a este caso.

A Árvore da Vida começa enfocando uma tragédia familiar, e já aí Mallick mostra o poder de sua câmera, ao deixar a Sra. O’Brien pós-tragédia sempre deslocada, quase fora do quadro. Esse tipo de MALANDRAGEM permeia o filme de cabo a rabo, criando momentos tão cheios de significado que possuem mais conteúdo do que muitas pessoas por aí (inclusive algumas estavam comigo na sala de cinema. Mas divago). Assim o velhote Mallick nos leva a um passeio pela dor da família para, logo depois, em uma decisão que qualquer um de nós também faria, mostrar o início dos tempos (há até um momento que mostra duas galáxias, uma em formato fálico e outra de ovário, simbolizando esse nascimento). É quando, através de algumas das imagens mais deslumbrantes que você já viu numa tela de cinema, somos levados a presenciar todo o poder e a força da natureza enquanto, através de narrações em off, algumas das personagens questionam a ausência de Deus.
A diferença entre a natureza e a fé já havia sendo apresentada no início, quando a Sra. O’Brien fala da diferença entre a “Graça” (boa, cheia de amor e compaixão) e a “Natureza” (dura, rígida, enfim, algo que não é flor que se cheire, com o perdão do trocadilho). Mas, ao longo da produção, Mallick parece querer desafiar essas concepções. Sim, a natureza parece começar fazendo bullying aloprado, com um monte de explosões e coisas gigantescas indicando que somos o CQC do universo (= insignificantes). Só que a divindade, a “graça”, também parece dura na queda, ignorando as súplicas e dúvidas que são feitas. E a determinado momento, quando os dinossauros ainda eram os patrões do lugar, vemos um desses bichos poupando a vida de outro por pura compaixão. A natureza não parece tão bicho do mato agora, parece?
A partir daí, vamos acompanhando a evolução da vida, e as alterações nas pequenas células mostradas por A Árvore da Vida se assemelham bastante visualmente às imagens do universo que a produção já mostrou. A sucessão de eventos leva ao nascimento de Jack, filho dos O’Brien. A amplitude conferida por Mallick às cenas da evolução (ainda que sejam de coisas microscópicas) e ao nascimento do pimpolho dão a entender que um ser humano, mesmo que insignificante, é ele próprio um universo também.Assim, Jack cresce dividido entre a bondade de sua mãe (sempre banhada em luz, com figurino claro e leve, frequentemente tendo uma paisagem bonita ao fundo) e a rigidez do pai (corte de cabelo militar, movimentos contidos, sempre com a mão sobre os ombros dos filhos, representando a pressão que coloca sobre eles). Uma divisão semelhante àquela entre “graça” e “natureza” apresentada no início. Mas aos poucos vamos percebendo que eles, sendo um universo também, abrigam as duas coisas, embora de forma distintas: enquanto o Sr. O’Brien possui uma fé pragmática (ir à igreja, rezar na hora das refeições) e suas relações com a natureza são sempre no sentido de construir ou reparar alguma coisa (a grama, a árvore, a horta, etc), a Sra. O’Brien parece fluir com tudo, levando a fé a níveis mais filosóficos e vivendo em extrema comunhão com a natureza (é abordada por animais, passeia descalça pela grama, vive caminhando pro entre árvores e vegetação em geral, etc.).
“Pai, mãe, vocês dois lutam dentro de mim. Sempre lutaram, sempre irão lutar”. Jack cresce dividido entre o amor da mãe e a dureza do pai, mas sempre pendendo pro lado do velho (que, afinal, é o exemplo de homem que o guri tem. E também porque já comeu a Angelina Jolie, né). Daí quando descobre que nem Deus nem seu pai precisam ser bons, o pimpolho decide não jogar no time dos bonzinhos que sua mãe tanto prega (algo que Mallick representa ao mostrar um túmulo com a inscrição “Gracy”, mesma pronúncia de “grace”, que é “graça” em inglês). Despido da graça e acreditando que o mundo é só dureza, Jack cresce para substituir as árvores da vizinhança por megalomaníacos arranha-céus (percebam que Mallick filma os prédios no mesmo contra-plongée que filma as árvores), vivendo a fantasia do pai (torna-se um sujeito de sucesso) mas longe do calor e paixão da mãe (sua amargura fica clara na câmera inquieta, nas constante expressão de tristeza, na claraboia que simboliza sua prisão e no seu apartamento, branco e sem vida – a única planta que entra ali já está morta).
Mas isso não é tudo: o filme vai e vem no tempo e no espaço, explorando as características de suas personagens para provocar questionamentos filosóficos. E faz isso utilizando uma pá de planos-detalhe e cenas que fazem às vezes de roteiro e nos entregam características do personagem ou da história. É impossível elencar todos os simbolismos aqui, embora alguns sejam mais fortes (o casal separado pelo vidro; a árvore sem folhas após a morte de um dos filhos da família; Jack nadando pra fora do lar cheio de água ao sair do útero). É um trabalho minucioso, cuidadoso, que resulta em uma experiência extremamente intensa. E não só o público é arrebatado pelo visual do filme como sai da sessão repleto de questionamentos na cabeça.
Além da trilha que ora soa intensa ora soa quase gospel e de saber quando deixar tudo na quietude total (há algo de mágico em ver o universo nascendo sem som nenhum), Mallick trabalha com um elenco mais afiado do que diálogos do Aaron Sorkin: sempre com movimentos contidos, tom de voz controlado e expressão de poucos amigos, Brad Pitt ilustra bem a pressão que o Sr. O’Brien põe sobre seus filhos, contrastando totalmente com a leveza, doçura e o olhar constantemente apaixonado que Jessica Chastain imprime à Sra. O’Brien (sem falar, claro, da beleza quase injusta da moça). E se Sean Penn expressa bem a angústia de Jack nos poucos minutos em que aparece em cena, Hunter McCracken convence o espectador com folgas de todo o FUZUÊ que assombra a cabeça do Jack jovem.
Mais uma vez Terrence Mallick chama na filosofia e deixa todo mundo pra trás. A Árvore da Vida é tecnicamente irrepreensível e uma daquelas obras atemporais, que continuam pertinentes em qualquer década, em qualquer século, em qualquer mundo ou dimensão. Um filme corajoso que expressa suas ideias através de cenas mais lindas e apaixonantes do que a Olivia Wilde suada e bebendo cerveja. Cento e trinta e nove minutos de pura magia cinematográfica.

Aquém da Imaginação

Ouvi por esses dias, não lembro onde, não lembro quando e não lembro como, que algumas pessoas bem importantes estavam preocupadas com essa questão do anonimato na internet. Que gostariam que as coisas fossem mais abertas, que as pessoas fossem sempre identificadas no mundo virtual, tipo acontece no Facebook.  E bem, com toda essa algazarra em Londres e a polícia papagaiando que ela só aconteceu por causa das redes sociais (seriam as redes sociais os novos jogos de videogame violentos, que por sua vez eram as novas músicas de rock? Fica a reflexão), pode ser que esse sentimento se propague feito spam por todas aquelas pessoas que realmente possuem alguma influência nessa sociedade.
Daí eu paro e penso: qual é o problema dessa gente? Eles recebem pra aplicar convenções em tudo? Têm obsessão por colonizar qualquer coisa? Quer dizer, estamos diante de um ambiente que, embora virtual, oferece às pessoas um escape da pressão mundana. Percebam que, na internet, a pessoa consegue realmente ser quem ela é. Ela pode navegar pelo que realmente a interessa sem se preocupar com o que os outros vão pensar a respeito. Pode abrir sites que tratem dos seus fetiches mais secretos, pode entrar em discussões idiotas sobre coisas idiotas, pode dar patada nos desafetos via instant messengers/redes sociais, enfim, pode fazer o que quiser na hora que quiser e sem ninguém do lado pra olhar feio e dizer “como assim?”. Basicamente, a rede mundial de computadores é uma creche pro id de todo mundo. Talvez a primeira na história. E quando finalmente existe um lugar que oferece espaço pra galera fazer o que realmente curte, e só existe por causa do anonimato na rede, o que eles querem fazer? Ir lá e acabar com tudo.
Bem que essa neurose por tornar tudo realista ia ter suas desvantagens. O pessoal quer fazer jogo de videogame realista, simular online a experiência offline, e acaba dando nisso. Tipo de gente que não consegue pensar em termos abstratos, só em etapas de processos. Sem a imaginação necessária para conferir a algo o valor que esse algo realmente tem. Vai acabar que a internet será tão controlada e vigiada quanto um empréstimo de banco, e daí as pessoas imaginativas terão que criar uma nova forma de se relacionar sem ter o controle social por perto cuidando pra ver se ninguém faz nada errado.
Então, claro, vai ser só questão de tempo até esse novo sistema começar a ser chafurdado pela turma que vende segurança em troca de vigilância.