Aí vem Hollywood salvar o dia

Argo
5/5

Direção: Ben Affleck
Roteiro: Chris Terrio, baseado em artigo de Joshuah Berman

Elenco
Ben Affleck (Tony Mendez)
Bryan Cranston (Jack O’Donnel)
Alan Arkin (Lester Siegel)
John Goodman (John Chambers)

Em 1980, furiosos com a intervenção dos EUA na sua política, os iranianos invadem a embaixada americana e fazem um FUZUÊ ali dentro, sequestrando os diplomatas que estavam trabalhando – com exceção de seis funcionários marotos que deram no pé pela porta dos fundos, literalmente. Agora, com as tensões à flor da pele, a CIA recorre a Hollywood para resgatar a galera, criando um filme falso para acobertar a saída do pessoal.
Como ator, Ben Affleck é um ótimo diretor. Depois de pegar todo mundo de sopetão com o excelente Medo da Verdade e fazer o mundo inteiro pensar que enlouqueceu ao repetir a dose no sensacional Atração Perigosa, Affleck retorna com um thriller tenso, envolvente feito o rosto de uma morena de olhos verdes. Um talento tão surpreendente que dá vontade de chamar o Robin Williams e colocar o Ben Affleck em sessões dramáticas e intensas de psicologia com ele.

Inocentes estão em perigo. É hora de chamar… Hollywood!

Com uma trama absurda dessas (e baseada em fatos reais, o que nos diz muito sobre o mundo), seria muito fácil não levar Argo a sério. Para já aniquilar essa ideia, o filme começa com uma introdução impactante, com a IRANIADA tocando o terror de forma extremamente terrorífica na embaixada sem dó – e Affleck mostra tudo com a câmera na mão, sacudindo de perigo, enquanto a fotografia granulada, para dar um ar mais realista, grita a todo momento “fiquem tensos! fiquem tensos!”, o que inevitavelmente acontece. É uma abordagem mantida ao longo do filme pra mostrar que a cobra quer fumar mesmo, só aliviando um pouco nas cenas onde John Goodman e Alan Arkin aparecem, inevitavelmente um pouco mais coloridas e leves. É uma direção segura, que sabe bem onde quer chegar e constrói um clímax eficiente, auxiliado pela ótima montagem e trilhas – inclusive, o desenvolvimento do filme se mostra épico quando percebemos que estamos tensos mesmo sem nenhum assassino, armas, tiros ou primeira visita ao sogro em cena.
Argo também colhe os frutos de um ótimo roteiro, que, além de apresentar bem o mote político que vai dar início à algazarra, se preocupa tanto com a trama no Irã quanto a trama em Hollywood, criando personagens com características bem definidas e interessantes (embora mais tempo pudesse ser destinado aos fugitivos, que acabam se confundindo em alguns momentos). E se por um lado o perigo na parte iraniana é frequente como se troca sozinho a resistência do chuveiro, a trama que se passa no Tio Sam ganha em diversão e charme graças a John e Lester, duas personagens que vivem em chamas e conquistam o espectador com diálogos aniquiladores (“se tem cavalos no filme, é um faroeste”, “se vou fazer um filme falso, vai ser um sucesso falso”). A dinâmica que ambos trazem à história é um dos pontos altos do filme, convencendo que aquelas duas pessoas realmente são loucas o suficiente pra topar a empreitada.
O curioso é que, se um dos grandes méritos de Argo é seu diretor, um dos grandes problemas é o seu ator protagonista: inexpressivo, Affleck passa a impressão de que Tony não consegue diferenciar entre militares armados e raivosos e um chá da tarde (ou Tony tem alguma disfunção neurológica, como o Slevin Kelevra de Xeque-Mate?). E como é ele quem carrega o espectador por todos os lados da brincadeira, a produção não chega a atingir toda a carga dramática que poderia. Ao menos ele está cercado por um elenco competente, onde os destaques, além do enérgico Bryan Cranston, obviamente, são Goodman e Arkin – misturando simpatia e mal-humor a um sensacional timing cômico, eles obrigam a galera a levantar e fazer a “OLA” toda vez que estão em cena.
Contando ainda com uma ótima direção de arte, que reconstitui bem a época e dá personalidade aos ambientes internos, Argo é mais um “estou indo para casa com uma das mulheres mais bonitas da noite” de Ben Affleck – pena que se perde um pouco no drama familiar, que jamais é desenvolvido ou abordado de forma coerente, mas nada que estrague a experiência geral. Na verdade, a película parece ter os elementos certos para uma indicação ao Oscar, e, quem sabe?, talvez até uma vitória. É um filme “adulto”, envolve política, é bem dirigido, bem escrito, tem ótimas atuações, montagem… pode ser que, em 2013, o mundo constate que Ben Affleck tem dois Oscar na prateleira. E quem acompanha a carreira de ator dele sabe que, há alguns anos, essa afirmação seria uma história muito mais absurda do que aquela na qual Argo se baseia.
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Como será o Star Wars da Disney

Star Wars VII será protagonizado pela filha de Luke Skywalker, Lyla Skywalker (papel de Miley Cyrus). Em uma época de paz, ela será treinada pelo pai para ser a Jedi mais forte da galáxia, embora seu verdadeiro e secreto sonho seja se tornar uma cantora. Seu melhor amigo é CGI, uma criatura simpática e baixinha, composta por todos os elementos mais difíceis de criar em animação digital só pra Disney poder anunciar “nós fizemos”.
O que Luke e Lyla não percebem, distraídos pelo treinamento e por conversas do tipo “sua mãe teria orgulho de você” cada vez que a guria tira um X-Wing do pântano, é que do outro lado da galáxia um novo mal está surgindo: Villania, uma poderosa rainha (papel de Cameron Diaz) está tentando reerguer o Império com o auxílio de seu ajudante desastrado e narigudo, personagem ainda sem nome, então por enquanto vamos chamá-lo apenas de “alívio cômico”. Após se passar por pobrezinha, cativar algum homem cuja posição dê poder sobre numerosos exércitos, casar com ele, matá-lo e passar a comandar tudo, Villania começa a estender suas intenções malévolas por diversos planetas e sistemas, dando um intervalo nos planos de domínio universal apenas para ser mal-humorada com o alívio cômico.

Após um devastador ataque no planeta EPICOT, onde Luke se sacrifica para salvar a filha, Lyla foge em uma nave da Mercedes até o planeta mais próximo. Lá ela encontra os Liteulikes, criaturinhas simpáticas, fofinhas e com o formato do botão de “Curtir” do Facebook, que foram colocadas ali porque realmente são importantes para a história, e não para atrair a geração mais nova gratuitamente. Lyla rapidamente faz amizade com os Liteulikes, que se dispõem a ajudá-la a enfrentar Villania. O problema é que as criaturinhas estão presas em uma feitiço, que só pode ser quebrado com uma canção vinda do coração – então, por mais doloroso que seja, Lyla precisa libertar seu lado cantora, encontrar sua própria música e acabar com o feitiço. Para isso, ela conta com a ajuda de uma divertida e excêntrica professora (participação especial de Lady Gaga).
Enquanto a cantoria rola solta, descobrimos que Prev Isible, filho do braço direito de Villania, por algum motivo é DO BEM e ajuda as pessoas a escaparem da ira da vilã, secretamente comunicando os planos dela para a nova aliança que está sendo formada. O rapaz também manja da Força, além de ter barba mal feita e cabelos cuidadosamente desgrenhados.
Eis que Lyla e os Liteulikes pegam uma nave espacial para atacar Villania, porque naves espaciais simplesmente ficam jogadas por aí, e por coincidência acabam atacando no exato momento que a nova Aliança resolveu atacar também, instruída por Prev. Daí efeitos especiais, tiros, explosões, naves pra lá e pra cá, Lyla e CGI entrando sorrateiramente no QG da vilã – que se parece muito com um castelo – e o inevitável desentendimento com o rapaz, sem saber que ambos estão do mesmo lado. Então Villania chega, vê os dois, diz alguma frase sobre o amor ter condenado eles, e começa a soltar raios pra todo lado. Nem mesmo o poder da Força de Lyla e Prev somado parece se igualar ao de sua inimiga. Quando achamos que não haverá escapatória, Luke surge em uma visão, e diz a Lyla que, para ampliar seu poder, ela precisa usar sua canção interna. A moça faz isso e derrota Villania de uma forma que não fica muito claro se ela morreu ou simplesmente fugiu.
Comemorações por todo lado, fogos de artifício, Liteulikes fazendo a sua celebração tradicional (se tornarem bonecos em lojas de brinquedos do mundo real), trilha épica, sol se pondo e, finalmente, vemos o tão esperado beijo entre Lyla e Prev. E começam a subir os créditos do filme.
Vinte e três minutos de créditos depois, uma cena extra mostra Villania ainda viva, mas completamente debilitada. Ela chega em um planeta escuro e segue em direção de uma estrutura escura. Lá dentro, ela se ajoelha perante alguém que não podemos ver. Mas ouvimos a voz… e ela tem aquele chiado asmático conhecido. E aquela respiração ofegante. A figura misteriosa se levanta, e está toda de preto.
Então, um close mostra Darth Vader mordendo uma maçã.

Como funciona a internet

– Haha, que engraçado esse vídeo do cachorro bebendo cerveja.
– VOCÊ ACHA ENGRAÇADO ESSA MALDADE COM O BICHINHO? SEU SEM-VERGONHA! SEM CORAÇÃO! DESUMANO!
– Po, nada a ver, eu gosto de animais, até ajudo um abrigo pra cães de rua e tal.
– VOCÊ AJUDA ANIMAIS MAS NÃO FAZ NADA POR PESSOAS? SEU SEM-VERGONHA! SEM CORAÇÃO! DESUMANO!

De smartphones e banheiros

Schopenhauer, um dos nomes proeminentes e talentosos surgidos na Alemanha ao longo da história – ao lado de sujeitos como Nietzsche, Einstein e SCHWEINSTEINGER -, tocava o terror nas pessoas que liam demais, com frequência estonteante, sem dar sequer um suspiro entre um livro e outro. Para o velho SCHOPE, essas pessoas não possuíam pensamentos próprios; ficavam saltando de um lado para outro em busca dos pensamentos de OUTRÉM, evitando aquilo que é chamado de “ócio criativo” e que permite a você ter um insight para chamar de seu.
O mesmo se aplica a esses aparelhos pequenos, comunicáveis e touchscreen que chamamos de “telefones inteligentes”, mas em inglês, porque daí parece que eles são ainda melhores, já que tudo em inglês é melhor. Eles permitem que a gente passe o tempo todo conectados, assimilando informação, indo atrás da nova sensação tosca da internet, porque aparentemente só as coisas toscas fazem sucesso no mundo virtual. Parece que cada vez mais diminui o espaço reflexivo, onde a pessoa fica a sós com as ideias e revira elas, descobre quais prestam e quais não, junta duas para formar uma, enfim, para um segundo para prestar atenção aos seus próprios pensamentos – uma das principais funções exercidas pelo banheiro ao longo dos séculos (não à toa Arquimedes deu o famoso grito de “eureka” quando estava em um banheiro).
Não que eu não aprecie toda a tecnologia dos smartphones e as melhoras que eles trouxeram para a sociedade (tem um aplicativo, por exemplo, que mostra todos os jogos de futebol do dia em várias ligas de diferentes países), não é isso. Apenas me parece que, por algum motivo, surgiu a convenção de que estar sempre conectado é melhor do que não estar conectado. Às vezes é bom dar um tempo: pensamentos confusos começam a tomar forma, ideias vão sendo construídas, e pode-se acabar com um novo projeto, uma nova solução, talvez até mesmo um novo caminho. Na pior das hipóteses, um post novo no blog.