Everybody was kung fu fighting

Karate Kid (The Karate Kid)
3/5
Direção: Harald Zwart
Roteiro: Christopher Murphey e Robert Mark Kamen
Elenco
Jaden Smith (Dre Parker)
Jackie Chan (Sr. Han)
Resto (Chineses aleatórios que fazem cara de mau e apanham)
Dre, um estreótipo de garoto DESCOLADO e do SUBÚRBIO, se muda pra China com a sua mãe. Como se trocar talheres por palitinhos já não fosse tragédia suficiente, ele acaba virando alvo de bulling por parte de uma gurizada que luta karate kung fu em uma academia DO MAL. Mas daí chega o Jackie Chan disfarçado de Sr. Han, um zelador, diz que vai ensinar karate kung fu pro Dre e Hollywood aproveita pra enfiar umas lições de vida junto.
Karate Kid é, com o perdão do trocadilho, um golpe certeiro em termos de mercado: a história de superação, os mistérios da China e o karate Kung Fu são elementos que atraem um público mais novo, enquanto o público mais velho, tomado pela nostalgia, faz questão de ir ao cinema apenas para falar mal – não à toa, em seu primeiro fim de semana em cartaz nos EUA, a película arrecadou cinquenta e seis milhões de dólares. Entretanto, apesar de ser um produto bem embalado pra nova geração, cheio de referências pop, sacadas espertas e um pirralho com DREADS, o filme acaba cedendo a algumas convenções que, no geral, enfraquecem a coisa toda.
Embora Jaden Smith não dê o braço a torcer com relação aos defeitos do filme.
A história da mudança pra China, por exemplo, funcionaria bem pra estabelecer a solidão de Dre caso ele não desse de cara com um ALEMÃOZINHO BATATA logo que desembarca, sem contar a chinesinha que o faz tremer nas bases. Dessa forma, quando ele diz “eu odeio este lugar” após levar um SAFANÃO dos chineses karatecas kung fúteis, a declaração soa forçada, pois o tema em questão não foi trabalhado de modo a sustentá-la. E isso é uma lástima, uma vez que o tempo desperdiçado por esses momentos (e com o romance entre os pombinhos, em uma trama que quebra o ritmo do filme toda vez que dá as caras) poderia ser investido na saudade que Dre tem de seu falecido pai, o que tornaria uma determinada entre o garoto e o Sr. Han ganhar TONELADAS de dramaticidade e beleza. Embora a narrativa principal fique NOS TRINQUES (incluindo o treinamento “alternativo”, que é desenvolvido com competência e vai fazer muitas pessoas saírem do cinema tirando e recolocando suas jaquetas), é nas histórias paralelas que o filme, com o perdão do trocadilho, beija o tatame.
Já o Harald Zwart aposta em uma direção convencional e segura, tipo festa com Skol, embora de vez em quando até tente uma ou outra coisa nova, como a câmera sacolejando mais em momentos de “conflito dramático” e uma ou outra elipse fraca. Mas no geral são cenas mostrando o quanto a China fica bonita em contraluz, ou o Jackie Chan em contraluz, ou cenas mostrando o quanto a China é bonita e colorida, ou cenas mostrando como as paisagens da China são bonitas, e por aí vai. As lutas até que são bem coreografadas (com destaque para o quebra-pau onde Jackie Chan toca o terror em uma galera de forma absolutamente brilhante, e, de tão fodão, sai de cena MASTIGANDO CONCRETO), só que no desenrolar da película começam a ficar ligeiramente implausíveis e fotografadas por câmeras epiléticas, o que acaba tirando o impacto (ao menos a montagem não é aquela tradicional EJACULAÇÃO PRECOCE dos filmes de ação).
O grande golpe do filme mesmo é o seu elenco: Jaden Smith possui carisma e encarna Dre com naturalidade, dando atenção a pequenos aspectos da atuação, como um leve franzir de sobrancelhas que indica o quanto o garoto está segurando o choro; e Jackie Chan mostra que não é apenas mais um ROSTINHO BONITO, transmitindo, com seu jeito tranquilo e sua expressão melancólica, toda a sabedoria e experiência necessárias ao Sr. Han.
Karate Kid tem lá seus problemas, mas possui uma produção competente o suficiente para que eles não transpareçam muito. Pelo menos até o golpe final, que quase faz tudo dar com os burros n’água. Não estou nem falando só pela ausência do chute da garça, e sim pelo brutal assassinato da FÍSICA e da GRAVIDADE. É um momento plasticamente bonito, admito, só que o espectador sabe que jamais um garoto poderia fazer aquilo, a não ser que estivesse totalmente TOMADO PELA MATRIX. E essa é a grande diferença entre o original e sua refilmagem: assim como o simples chute da garça virou uma pirueta elaborada e sem impacto, o novo Karate Kid possui tudo bonitinho e no lugar, mas sem a simplicidade cativante que marcou sua versão oitentista.

A publicidade total

Quando falei do comercial da Samsung aqui, disse o quanto ele havia mexido comigo e tentei, dentro do possível, analisá-lo enquanto uma obra de arte. Pois aconteceu de novo: a Nike (que também já foi beneficiada com um post aqui no blog) realizou um vídeo épico pra seleção holandesa após a derrota na final da Copa. E é uma obra tão intensa que não posso deixar de pensar que ela alcança muito mais do que os vídeos “tradicionais” de publicidade e pode ser elevada a outro nível. Então aí vai:
Os holandeses esperaram muito tempo por este momento. O momento onde egos foram destruídos. Onde a história foi apagada. Onde 23 jogadores sangraram como um só. Um time com uma missão: terminar o que começaram. Chegamos tão longe pra aprender uma coisa: quando você dá tudo o que pode, nunca sai derrotado.
A primeira coisa a destacar é a fotografia: granulada, dando um aspecto sujo e real e por vezes monocromática, ela diz sem meias palavras que “o sonho acabou, é hora de voltar à realidade” (e reparem que entre 0:18 e 0:21 filtros vermelho e amarelo “cruzam” a tela, remetendo a uma sirene, que sempre significa emergência – e combina perfeitamente com um elemento da trilha, que será abordada daqui a algumas frases). A câmera é inquieta, como se ainda estivesse tremendo por não ter superado o baque de perder a final, e os jogadores aparecem sempre com uma expressão sisuda, envoltos em sombra (ou à frente de um fundo escuro, como é o caso do Sneijder). É uma atmosfera pesada, melancólica, como deveria ser a de um time que foi derrotado em uma final de Copa do Mundo. Os quadros no início do vídeo relembram as outras duas quase-conquistas (1974 e 1978), e tornam o fardo de 2010 ainda maior – e o travelling no último plano, afastando-se do Sneijder, é emblemático, como dizendo “acabou, agora é um adeus por longos quatro anos”.
A trilha melancólica, uma guitarra solitária que soa como se fosse tocada com raiva e frustração, recebe apenas o apoio de uma sirene que ecoa duas vezes, ilustrando o estado frágil no qual se encontram todos os holandeses após tamanha decepção. A locução do capitão Gio Van Bronckhorst, sóbria, recita um texto que, até sua última frase, toca na ferida e expõe sem meias-palavras o que um país inteiro está sentindo.
É aí que a coisa muda de figura. Por 26 segundos a Nike não tentou confortar a Laranja Mecânica e seus admiradores, mas sim criou uma atmosfera mostrando que entendem a sensação. Isso cria uma empatia imediata, pois a utilização impecável dos elementos já citados torna esses 26 segundos tempo suficiente para o espectador identificar o tamanho do esforço e da derrota. Então vem a derradeira frase: when you give everything, you lose nothing. Pronunciada aleatoriamente, pode soar como uma frase de auto-ajuda simplória. Mas, colocada nesse contexto intenso, tendo como base um drama apresentado de forma tão coesa e emocionante, ganha um sentido novo. E deixa de soar como consolo para soar como reconhecimento, honra e grandiosidade.

The women are on the table

Ana Karênina – Liev (Léon / Leão / Leo) Tolstói
Setecentas páginas de pura CIRURGIA na alma humana. Impressionante como o russo se apega a detalhes e descrições tal qual um torcedor se apega ao seu lugar da sorte no sofá – entretanto, isso só beneficia a história, pois passamos a viver as situações junto com as personagens, ao invés de simplesmente sermos informados sobre seu estado. E assim passamos a gostar deles, e a receber com mais intensidade as pauladas que eles recebem (e o TOLSTA não tem pudores de dissecar as intenções de cada um. Ninguém é totalmente bom). Tudo isso em uma prosa que é uma elegância só – me senti compelido a vestir terno e gravata cada vez que pegava o livro.

Desceu até a pista, evitando olhá-la de frente, como se ela fosse o sol, mas, sol que era, também não precisava de a olhar para vê-la.

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres – Stieg Larsson
A trama é uma daquelas histórias de mistérios instigantes, pela situação meio absurda na qual ocorreu o crime. E o sueco até consegue levar ela numa boa, tipo churrasco de domingo de tarde com a família, assim. Mas é aquele negócio, as personagens estão sempre a favor da história e o leitor realmente não se importa com elas, quer é saber a resposta pro mistério – e se todo mundo na trama tiver que morrer pra isso, que morram logo e na pobreza. Achei o texto do Stieg Larsson bastante superficial, um negócio meio Dan Brown STÁILE, expondo de forma bem direta as intenções da galera e se preocupando pouco em desenvolver as situações. Mas sem ofender a igreja.

Do outro lado da estrada, se elevava o monte Sul. Mikael escalou uma encosta íngreme e precisou do apoio das mãos nos últimos metros. O monte Sul terminava numa falésia quase vertical sobre o mar. Mikael retornou a Hedeby seguindo pela crista, de onde avistou as cabanas, o velho porto dos pescadores, a igreja e a pequena casa em que estava hospedado. Sentou-se numa pedra e serviu-se de um último resto de café morno.
Não tinha a menor ideia do que fazia em Hedeby, mas a vista lhe agradava.

E tomara que seja o último, mesmo

O Último Mestre do Ar (The Last Airbender)
1/5
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan, baseado no desenho animado criado por Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzo
Elenco
Noah Ringer (Aang)
Nicola Peltz (Katara)
Dev Patel (Príncipe Zuko)
Jackson Rathbone (Sokka)
Em O Último Mestre do Ar, o planeta é divido em 4 povos: os da Terra, do Ar, do Fogo e da Água. Cansados dessa dinâmica meio CAPITÃO PLANETA, a galera do fogo resolve tocar o terror em todo mundo e dominar tudo. Mas um casal da trupe H2O acaba encontrando Aang, um menino careca, cheio de tatuagens e com um extenso conhecimento sobre determinada arte marcial (um PITBOY, se quiserem resumir), que é um Avatar e pode trazer equilíbrio ao mundo, SEJA LÁ o que isso signifique.
Existe um filme legal em O Último Mestre do Ar. Tive um vislumbre dele no bacana travelling circular que Shyamalan realiza enquanto Katara e Aang estão lutando capoeira treinando em uma cidade de gelo. Entretanto, fora esse plano específico (mais um ou outro de LUTINHA) o que se enxerga é uma sucessão de decisões tão ruins que, por um instante, pensei que haviam ligado o projetor na TV SENADO.
“O Último Mestre do Ar” foi queimado por público e crítica.
Para condensar em duas horas uma temporada inteira do desenho animado, o roteirista/produtor/diretor/cara cujo nome aparece em cima do título do filme sabia que precisaria ser objetivo – e a definição de “objetivo”, no dicionário dele, está como “utilizar elipses sem nenhum sentido e diálogos expositivos como se não houvesse amanhã”. Por causa disso, a todo momento a história salta do ponto A para o ponto B sem que o espectador acompanhe o desenrolar dessa mudança (que pode não ser importante para o PLOT, mas faz diferença no estabelecimento das personagens e do clima do filme), muitas vezes assando a física e a geografia em um ESPETO (como alguém aparecendo num lugar enquanto devia estar em outro), e absolutamente TODOS os diálogos contém informações essenciais, o que os torna não apenas implausíveis, mas CHECHELENTOS. Tipo, parece que em todas as cenas o que se vê são dois MANUAIS DE INSTRUÇÃO conversando.
Shyamalan acerta ao colocar a Tribo do Fogo sempre cercada por elementos escuros e pontiagudos (uniformes, armas, capacetes, navios), como se estivesse com cinzas por toda parte, conferindo a eles sempre um visual agressivo (a poluição causada pelos caras ajuda bastante também. Desenvolvimento sustentável who?), enquanto a Tribo da Água é BRANQUINHA e LIMPINHA. Fora isso, não há nada muito impressionante, embora vez ou outra alguma cena de luta consiga criar algo que não é uma derrota total – ao menos o diretor aposta em planos longos, ao invés de ficar naquele SACODE ALUCINADO que têm se tornado os filmes de ação. Falhando totalmente na construção de uma mise-en-scène ao menos digerível, O Último Mestre do Ar ainda sofre com a falta de imaginação das coreografias nas sequências de PAULEIRA, o que é uma pena, já que tinha material pra fazer algo bastante IRADO. Ao menos a trilha sonora não é das piores.
Homogeneamente fraco, o elenco não consegue ter mais carisma do que um bando de sujeitos que matam filhotes de foca enquanto contam piadas de filhotes de foca sendo mortos. Noah Ringer surge sempre desinteressado, Dev Patel só faz cara de mal e Jackson Rathbone é um BANANA (as exceções ficam por conta de Nicola Peltz, que pelo menos dá um pouquinho de vida quando está em cena, e Shaun Tob, que faz do tio de Zuko um sujeito bacana). Um elenco digno do roteiro que estão representando, imagino. Parece que Shyamalan perdeu aquele toque que fez de seus primeiros filmes obras cativantes e originais – uma habilidade que, pela necessidade de trocadilho para fechar o texto, chamaremos aqui de O SEXTO SENTIDO.

Diálogos comunitários

Filosofando esses dias a respeito das novas tecnologias, redes sociais e outras tantas frescuras que um homem não precisa, me dei conta que no Orkut as pessoas usam as comunidades mais para dizer algo a respeito de si do que para participar delas, mesmo.

Seguindo o raciocínio, cheguei à brilhante conclusão de que, daqui a pouco, as comunidades vão pular para outras esferas de interação, e, ao invés de “selos” que identificam um determinado tipo de personalidade, passarão a ser utilizadas em conversas. Logo me veio à cabeça os diálogos tenebrosos que seriam produzidos por tal ignomínia:
– Me chamo Valdete
– Toda Valdete é gata
– Meninas que ficam vermelhas com elogios
– Eu curto timidez
– Não sou legal, to te dando mole
– Fetiches bizarros
– Por que eu bloqueei ele, mesmo?
Ainda bem que o Orkut vai acabar antes do mundo.
(post feito em parceria com a Marilia, do Fake Carousels)