Breve análise dos últimos livros que li

Não sou crítico literário, nem manjo de literatura (ao contrário de outras áreas onde transbordo excelência, como bater o joelho em quinas de mesinhas), mas, como qualquer pessoa com um blog, resolvi colocar aqui algumas opiniões sem nenhum embasamento na esperança de que tenha utilidade pra alguém:
Onde os Velhos Não Têm Vez – Cormac McCarthy
Dos livros do McCarthy que eu li, talvez Onde Os Velhos Não Têm Vez seja o menos pesado – e isso que se trata de uma história com um psicopata alucinado, tráfico de drogas, assassinatos entre gangues e um xerife filosoficamente pessimista. Ainda assim, é um veículo mais que apropriado para o escritor criar uma história envolvente, com personagens e diálogos vitoriosos (“gastei metade do dinheiro em uísque e mulheres. O resto eu desperdicei”) e aquela escrita ao mesmo tempo rebuscada e fluida, que consegue tornar até os momentos mais violentos (e acreditem, existem momentos violentos. Iraque é um carrinho de algodão-doce perto do livro) cheios de puro lirismo. Além disso, McCarthy também aborda de forma profunda a incapacidade das pessoas de entenderem o novo mundo, de se encaixarem em um contexto brutalmente diferente daquele onde cresceram. Aliás, mais até: de ACEITAR esse novo mundo como o “normal”, a coloquialidade, fugindo dele justamente por considerar inaceitável fazer parte desse novo cenário.
Pode ser também que eu já tenha pegado o livro com uma pré-disposição a gostar, já que sou extremamente fã do filme. Mas é só uma hipótese.

O Livro de Areia – Jorge Luis Borges
Borges tem aquele hábito constante de deixar os leitores pensando “bem, é isso. Não fui alfabetizado” ao final de seus escritos. E O Livro de Areia é mais um dessa estirpe, uma coletânea de contos dos mais variados temas que, com frequência, parece que preenchem o vasilhame da alma do leitor com aquele conteúdo de que as almas são feitas, até transbordar. Dou um certo destaque para O outro, o disco e o conto que dá título ao livro, mas, tratando-se de Borges, a apreciação de cada caractere é obrigatória (ainda que fique um pouco aquém de Ficções e Atlas, meus favoritos do autor). Não só o texto é diamante polido à exaustão, como as tramas, as personagens e o desenrolar das histórias mostram a imaginação absurda de Borges e a verdadeira biblioteca de referências culturais que o sujeito era, levando o leitor por caminhos imprevisíveis, cativantes e com uma cachoeira de maravilhamento no final.
Ubik – Philip K. Dick
Sabe quando algum guri mais velho, provavelmente um gordinho, porque é típico dos gordinhos aprontar dessas, chega pra ti e explica que o Papai Noel não existe? Bem, é mais ou menos isso que Philip K. Dick (“K”, para os íntimos) faz em seus livros – mas, ao invés de Papai Noel, ele faz isso com a realidade.
Ubik é mais uma obra dessas onde o escritor coloca um ponto de interrogação na realidade. É um thriller criativo, intenso, sem momentos assustadores mas assustador no geral, e com reviravoltas, bem, assaz interessantes. Além disso, possui um mistério, mas um mistério bom, daqueles que faz sentido quando chega ao final, que se sustenta, e que, ao longo da história, sequestra o GLOBO OCULAR do leitor e só devolve após a última frase. E é incrível como um livro tão, sei lá, TOCADOR DE BUMBO (não sei se fica claro, mas me parece uma expressão perfeita pra definir Ubik, já que a todo momento algo de impacto acontece, algo importante, um “bum”) consegue fazer o cara se questionar a respeito de questões morais da tecnologia, de realidades, de sonhos, enfim, pensar a respeito dos acontecimentos da história ao mesmo tempo que é impiedosamente envolvido por ela. Um talento que Philip K. Dick sempre teve, diga-se de passagem, e que nesta obra vai mais alto e longe do que o Curiosity da NASA. Sujeito que manja do riscado, esse.  
Rum – Diário de um Jornalista Bêbado – Hunter S. Thompson
Nem lembro direito porque comprei esse livro. Acho que é porque eu tinha algum vale e sobrou saldo só pra um livro pocket. Não costumam me atrair muito tramas que se passam em lugares onde, em uma versão cinematográfica, seriam fotografados com grão granulado e de forma saturada para ilustrar o calor (sim, eu sei que é um critério completamente absurdo e quase doentio. Mas é um critério).
Entretanto, Diário de um Jornalista Bêbado se mostrou por demais interessante – realmente interessante, e não interessante do tipo “estou lendo uma obra muito comentada”. Possui uma galeria de personagens bastante variada e cativante, que por sua vez acabam se envolvendo em situações bastante variadas e cativantes, desde um quase-linchamento até um carnaval selvagem em uma ilha perto de Porto Rico (onde se passa a balbúrdia). E é legal acompanhar o quase-niilismo do protagonista, aquele lance meio “estou aqui só pra fazer uns bicos e beber umas vodkas antes de partir para a próxima aventura”, que até pode ser meio batido, mas aqui funciona bem (talvez porque o sujeito seja um jornalista chinelão da época onde os jornalistas eram chinelões, e não um jornalista não-chinelão tentando se passar por jornalista chinelão porque o estereótipo é assim). De qualquer forma, apesar de não ir muito a fundo no seu protagonista, o livro é instigante e divertido e engraçado e dramático e dá pra ler ele pensando que é um guia prático para a boemia absoluta.
Guitar Zero – Gary Marcus
Guitar Zero – The New Musician and the Science of Learning possui uma proposta interessante pacas, mas acaba desafinando (trocadilho obrigatório) em alguns momentos por enrolar muito nos momentos em que o autor está começando a aprender, ou exagerar na abordagem auto-depreciativa, ou até mesmo por constatar o óbvio (o cara leva um capítulo inteiro para concluir que tanto talento como prática são necessários para formar um bom músico. Certo, ele explica como essas coisas acontecem no cérebro, mas, de qualquer jeito, a sensação é a de que foi um capítulo inteiro gasto para nada). Ainda assim, existem ótimos momentos, como as comparações entre música e linguagem e a descrição de estudos que reforçam alguns argumentos. Tipo de livro que é bom pra ler, mas ainda melhor se o cara estiver lendo outra coisa ao mesmo tempo pra dar um tempo quando Guitar Zero fica muito maçante.
31 Canções – Nick Hornby

Se for parar pra pensar, 31 Canções é quase uma continuação de Febre de Bola, só trocando o futebol por canções. E é interessante como Hornby consegue filosofar a respeito das canções (não só da canção em si, mas também do que ela significa para ele) para dar início a reflexões sobre a música pop, cultura pop, relacionamentos, amizades, carreira profissional e muitos, muitos outros tópicos – incluindo o próprio futebol. E faz tudo isso com um texto descontraído e divertido, sem soar forçado, tornando a leitura bastante agradável e viciante. 
Tudo bem que, lá pro final, a coisa começa a ficar um pouco repetitiva e até mesmo um pouco vazia, tipo quando o cara tem que fazer um trabalho pro colégio e fica enrolando por um tempo para completar o número mínimo de linhas. Além disso, me incomoda um pouco como Hornby com frequência faz questão de dizer que não é um crítico musical, e, além disso, tenta diminuir essa galera. Parece que ele está quase pedindo desculpas por estar naquele papel, julgando e analisando obras de arte, para que o público não o tome como mais um “crítico esnobe”. Mas são questões menores, que pouco influenciam na BELEZURA de 31 Canções, uma obra que fica na cabeça após o final da leitura – se não pelos textos, ao menos pelas canções que o leitor desconhece e certamente irá atrás.
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