Série "Todo Mundo em uma Ilha"

Essa semana não teve episódio de LOST (e, devido a esse fato, muitos fãs da série fatalmente tiveram uma semana com duas segundas-feiras), o que obviamente impossibilita a postagem de um resumo dos eventos aqui – eu até pensei em inventar alguns, só de avacalhação mesmo, mas eram muito grandes as chances de eu acertar o final da série e ser linchado depois.

Então, a solução foi citar aqui alguns dos vícios narrativos do seriado, coisas que ocorrem com frequência, e que, bem, e que simplesmente são mais inexplicáveis do que alguns mistérios da Ilha:
O suspense aguarda atrás da mata
Uma personagem caminha. Está escuro. Ela tem apenas uma tocha na mão, tirada de algum lugar secreto onde fazem tochas infinitas. Então se ouve um movimento. A mata começa a mexer. E então, de repente, surge a pessoa mais improvável de todas, uma que sequer estava na Ilha e, de preferência, tenha sido morta oito vezes e enterrada doze.
O grande problema é o seguinte: qualquer pessoa que tenha assistido a pelo menos três episódios do seriado saberá quem está atrás da moita (sem pensamentos impuros, por favor). É apenas uma questão de fazer x = pe – pp + tc, onde “pe” é “pessoa evento” (quem a câmera acompanha na cena), “pp” é “pessoa provável” (a pessoa que mais faria sentido estar ali) e “tc” é “tensão da cena” (o nível de suspense que os produtores querem botar pra fazer um final inesperado). Resumindo: espere o inesperado e o suspense da cena terá a intensidade de um mosquito raquítico.
Porque sim
Alguém, digamos, Kate, caminha pela mata, quando surge Locke CO2. Ele diz que precisa da ajuda dela para seguir uma trilha, fazer uma fogueira, lavar, passar, cozinhar e dar banho no Vincent. Ela faz cara de capitão Nascimento e pergunta por quê deve fazer isso. E o Locke Fumacê responde “porque a Ilha ainda não terminou com você”.
Este é, provavelmente, o argumento mais utilizado para convencer alguém – e quando não dá certo, resulta em uma frase de efeito cuja construção surge apenas da troca de ordem dos elementos, como “Ah é? Mas eu já terminei com a Ilha”, e aposto que vocês podem imaginar o Sawyer falando isso. Tudo bem que é pra manter o mistério, mas pô, que tal um pouco de discussão lógica? De uma troca de diálogos rica e informativa para ambas as partes? De botar a BOCA NO TROMBONE?
Meu nome é “eu não sei responder diretamente”
Então Jack, o mocinho, encontra o Locke Gás Carbônico e chama ele no cantinho pra prosear. É uma cena tensa. Algo importante está para ser revelado. Jack pergunta a Locke SMOKE ON THE WATER o que diabos ele é. Locke Fumacê pára, pensa, caminha, e calmamente começa a resposta com um “Você sabe como as árvores nascem, Jack?”.
PORRA, Locke! É claro que ele sabe, ele tem diploma! E mesmo se não soubesse, pra que CHULEAR tanto antes de dar uma simples resposta? Locke, Jacob, Richard, Faraday, Ben e Juliet devem ter feito uma aula de conversação na ESCOLA DE MULHERES FAZIDAS. Quer escrever um roteiro de LOST? Então aprenda a iniciar todos os diálogos importantes com um verbete da Wikipédia. Francamente.

2012

A humanidade caminha para uma era de interminável e insuportável chatice. Um eterno campeonato de pontos corridos, onde tudo é mesurado, tudo é registrado, tudo é quantificado. Patrocinado por grandes multinacionais, o objetivo vencerá as eleições contra o subjetivo por uma diferença abismal, e a própria crença na porcentagem e não nos discursos será um salto em direção a este cenário protocolar, e o subjetivo vagará pelos áridos e esquecidos desertos do desuso, e sua sobrevivência dependerá da benevolência do destino e das coincidências das quais é constituído. Os vastos campos da imaginação serão castrados e esterelizados e sobre eles serão construídas fábricas de números, e cada vida de cada pessoa de cada canto do planeta será regida por uma matemática arrogante, cujas equações excluem tudo aquilo que faz a diferença.

Em um futuro não muito distante, crianças irão deitar sem sobremesa sempre que pintarem por cima das linhas em livros de colorir.

Tudo cinza

A Estrada (The Road)

5/5
Diretor: John Hillcoat
Roteiro: Joe Penhall, baseado no livro de Cormac McCarthy
Elenco
Viggo Mortensen (homem)
Kodi Smith-McPhee (garoto)
Charlize Theron (mulher)

Em um mundo pós-apocalíptico, onde tudo é cinza, os sobreviventes são poucos, a comida está em falta e a conexão com a internet é sempre discada, um pai e um filho seguem por uma estrada em direção ao sul, carregando a esperança de encontrarem lá um lugar pelo menos habitável.

Após Onde os Fracos Não Têm Vez ANGARIAR o Oscar de melhor filme, Hollywood resolveu adaptar o mais novo livro de Cormac McCarthy, A Estrada, para as telonas. Uma história devastadora, melancólica, com poucos diálogos e ação, que tira sua genialidade da prosa CRUYFFIANA de McCarthy. Entretanto, o diretor John Hillcoat mandou a pressão às favas, cercou-se de uma equipe competente e fez o que devia ser feito.
Como muito ocorre em adaptações de livros, A Estrada possui uma narração em off – entretanto, ao invés de se apoiar no artifício como os gordos se apoiam no “light” que aparece ao lado de “Coca”, a narração apenas pontua aqui e ali certos sentimentos do homem (“se o garoto não é a palavra de Deus, então Deus nunca falou”), ajudando a criar uma atmosfera de desolação tanto física quanto psicológica das personagens – da mesma forma, determinados diálogos, mesmo com poucas palavras, ilustram a selvageria daquela terra (como o homem falar “não é nada que não tenhamos visto antes”, quando o garoto vê um cadáver). A trama foge de formulismos, acertadamente focando tudo na relação pai-filho. Embora existam acontecimentos tensos e marcantes, são os pequenos gestos, como o garoto fazendo questão de dividir a bebida com o pai, que mostram ao espectador quem aqueles dois realmente são.
Para acompanhar todo esse clima contemplativo, o diretor investe em planos longos, sem grandes MIRABOLÂNCIAS visuais, como alguém numa janela contando os carros que passam na rua. As elipses são ao mesmo tempo pertinentes e quase imperceptíveis, pois é justamente essa estranha coesão entre uma elipse súbita e seu plano anterior que confere um caráter de imensidão à jornada dos protagonistas. Soma-se a isso uma direção de arte que busca substituir a palavra “perfeição” no dicionário: a hegemonia do cinza sobre as outras cores é semelhante à do Lyon no campeonato francês, o que faz daquele mundo algo sem vida, devastado e permeado por uma desesperança que derrubaria até a mais efusiva das cheerleaders. Todas as estruturas estão em pedaços ou ruindo. Até mesmo os flashbacks, em sua maioria, são bastante escuros e cheios de sombra (com exceção de um ou outro, que possuem uma paleta de cores mais arco-íris staile e tal). A desolação que McCarthy torna tão palpável em palavras é fielmente representada pelo visual do filme.
Para fechar, embora com poucos nomes, o elenco se mostra afiado. Viggo Mortensen, como sempre, mergulha visceralmente na personagem, conseguindo demonstrar o amor do pai pelo filho através de pequenos olhares e gestos (e, o que é mais impressionante, faz isso através de uma barba que mais parece um MURO). Kodi Smith-McPhee não se acanha e bate de frente com seu veterano colega, transmitindo ternura e a inocência sem soar DISNEY. Charlize Theron fala pouco, mas fala bonito, com intensidade e um par de olhos que minha nossa senhora.
Como deixo bem claro nesta maravilhosa e extremamente bem escrita crítica, A Estrada não é uma película fácil. O filme tenta a todo custo arrancar e dilacerar a humanidade de seus protagonistas, a um ponto onde um pai apontar uma arma pra cabeça de seu filho é um gesto de amor. Até quando nossos princípios conseguem sobrepujar nossos instintos? E como ter vontade de sobreviver em um lugar onde não há sequer esperança? Uma narrativa tocante, complexa e questionadora, que vai acompanhar o espectador muito além da sala de cinema – impossível comer em um restaurante depois sem pensar no garoto e seu pai satisfazendo-se com insetos mortos. E isso é algo que só grandes filmes conseguem.

Série "Todo Mundo em uma Ilha"

Temporada 06, Episódio 13

Vamos em frente. No início do episódio dessa semana, Jack e o Locke Fumacê saem de canto pra ter uma conversa de comadres, que só serviu pra mostrar o que os fãs de LOST já sabiam: era o Fumacê que se fantasiava de pai do Jack e dava banda pela Ilha. Quando voltam pro CAMPING ESFUMAÇADO, a mina que é braço direito do Widmore chega lá e diz que, caso não devolvam o Desmond, o milionário e sua trupe vão tocar o terror na galera – para ilustrar, ela fala no WALKIE-TALKIE e alguém, em algum lugar, dispara alguma coisa que explode ao lado do camping. A moçoila dá um prazo pra devolução e sai de fininho. Locke SMOKE ON THE WATER então chama o Sawyer, diz pra ele e a Kate irem atrás de um barco e encontrarem o resto da galera depois em um ponto específico, pra todos navegarem até a Ilha 2 quebrar o pau com Widmore, e também pra fazer RAFTING. Depois o Fumacê sai com o Sayid zumbi e diz pra ele matar o Desmond, que está literalmente no fundo do poço, mas o iraquiano hesita e não sabemos como a cena termina, porque isso é misterioso. Nesse meio tempo, Sawyer chama Jack. Ele pede que, no meio da trilha com o Locke CO2, o doutor se esgueire até um determinado local, levando junto os outros losties (a saber: Sun, Lapidus, Hurley), pra mó di a panelinha se adonar do veículo marítimo e fazer uma área VIP pra visitar Widmore.

Na realidade alternativa, as coisas começam a se entrelaçar: após ser baleada, Sun chega no hospital ao mesmo tempo que Locke (que havia sido atropelado quando Desmond ligou o MODO GTA, lembram?) e tem um chilique histérico ao vê-lo; Sawyer prende a Kate e tenta dar em cima dela, mas, prevendo o toco, sai de canto e vai com o Miles prender o Sayid; Desmond encontra a Claire, joga um xa-la-lá nela, e de alguma forma a australiana encontra com Jack, que, após descobrir que são irmãos, tem que picar a mula pra ir no hospital operar o Locke, que abre uma porta e vê sua amada se beijando com seu melhor amigo, e… opa, desculpem. Achei que fosse uma novela.
De volta à realidade da Ilha, então. Sayid diz pro Locke SMOKE ON THE WATER que matou Desmond, mas o iraquiano está com uma cara meio MAROTA, então não sei não. Claire segue os losties até o barco, cria um momento de tensão e acaba subindo junto, porque daí a Kate tem com quem fofocar. Por outro lado, Jack e Sawyer tem uma DR pesada: Jack diz que sair da Ilha é um erro, Sawyer discorda. Então o doutor, como toda pessoa saudável faz em uma discussão, pula na água e nada de volta até a Ilha, onde encontra o Locke CO2 com sua cara de bonachão. Os outros losties chegam na Ilha 2, Jin encontra Sun, é um momento diabético, blablabla, e todo mundo é rendido pelo time Widmore – para surpresa geral, uma personagem que não honrou nenhum trato ao longo da série desonra mais um. É aí que, tão subitamente quanto um gol do Fabio Rochemback, bombas WIDMORIANAS começam a cair na praia onde estão Locke Fumacê, Jack e coadjuvantes dispensáveis. Mas quando a vaca está para ir pro brejo, Locke CO2 salva o doutor e diz a ele “não se preocupe: você está comigo agora”. Após isso, a tela fica preta e surge o logotipo da série com o tradicional “TUM”.

Publicidarte

Muitas e muitas vezes discutimos, na faculdade, se publicidade, design e sua turminha poderiam ser considerados arte (claro, discutíamos até o momento em que a mesa de sinuca ficava vaga, quando os temas acadêmicos eram substituídos por tópicos que realmente movem o mundo, como citações constrangedoras feitas por professores). Eram discussões filosóficas, intrincadas, que normalmente não resultavam em porra nenhuma, exatamente como uma partida de futebol enfadonha, mas com a desvantagem de não ter pênaltis.

E tudo isso voltou à minha cabeça no momento que assisti o comercial da Samsung abaixo:
Vou deixar à parte a associação entre produto e conceito apresentado, um claro exemplo de VITÓRIA INQUESTIONÁVEL, e tagarelar a respeito de outras coisas. Como o domínio narrativo do diretor que, mesmo em planos curtos, conseguiu construir um clima de expectativa nos primeiros quinze segundos. E também a preocupação em captar a reação das pessoas, pois a alegria e o espanto delas são elementos muito mais poderosos e cativantes do que a tecnologia em si (aliás, direção primordial de atores). A fotografia é simplesmente aniquiladora, sabendo quando contrastar o colorido com o quase monocromático (a parte da pipoca, onde o mundo da TV parece muito mais rico do que o real) e quando fazer as cores do aparelho se integrarem com a realidade (a ACACHAPANTE cena da menina com flores em volta).
Não citar os enquadramentos e movimentos de câmera seria motivo de pena capital: aquele plano aéreo que mostra a cachoeira é digno de CRIAR VIDA (e CAPTEM a preocupação em não pular o eixo, colocando um rápido plano aéreo de transição no momento em que uma moçoila corre em direção às TVs/cachoeira), enquanto os travellings tornam o filme dinâmico e criam uma delicada urgência, uma sensação de que algo está para ser descoberto – tudo isso alinhado com uma montagem fluída e um trilha que Beethoven teria dado o CORAÇÃO pra ter composto.
O que mais me impressiona, entretanto, é a expressão da guria no último plano. Ela não está sorrindo feliz e serelepe, como se esperaria de um comercial; está ligeiramente ofegante, impressionada, quase chocada com o que vê. É emocionante. E se um filme de um minuto, criado por uma agência de publicidade, feito para vender um produto, consegue comover alguém dessa forma, poderia ele ser considerado arte?

Banda de ladrões

Certa feita, citei aqui no blog uma EQEL! do filme E aí, meu irmão, cadê você?, tecendo elogios fartos à trilha sonora e à qualidade da película. Pois bem, de tão descomunal que é a coisa, volto a falar sobre o mesmo filme e os mesmos atores e uma sequência musical. Agora, George Clooney, John Turturro e Tim Blake Nelson entram mocoseados de músicos em uma festança, para que Clooney tente resolver desavenças familiares com sua ex-mulher. Entretanto, pra coisa não ficar muito na cara, eles cantam uma canção (provavelmente) composta por Jimmie Rodgers, chamada In The Jailhouse Now – e a visceral apresentação, com Tim Blake Nelson assumindo o vocal com segurança e Turturro fazendo uma dancinha que Madonna daria uma de suas plásticas pra ter inventado, é nada senão um EQEL! dos melhores.

Sem gás, por favor

Ontem eu cheguei em casa bufando até os alvéolos por causa da academia. Gotas de suor beijavam o chão feito de azulejos, dando a ele um brilho renovado. Minha respiração pesada cortava o opressivo silêncio da noite, como batidas sincopadas de um tambor que prenuncia algo importante. Enfim, eu estava na capa da gaita. Ao abrir a geladeira, entretanto, vi uma reluzente garrafa de água gelada, diamante líquido de preço incalculável. Um mínimo de esforço arrefeceu a vontade da tampa em permanecer no lugar, e eu ergui o braço, e coloquei o úmido bico da garrafa nos lábios, e os segundos alongaram suas vidas enquanto a água descia até a minha boca – e, uma vez que havia o feito, não hesitei em prontamente cuspir tudo fora e amaldiçoar os deuses com impropérios desonrosos. Pois o que tinha na garrafa era nada senão água com gás.
Isso me fez pensar (muita coisa me faz pensar, na verdade. Estruturar situações em formato narrativo é um hábito pra mim. Um vício, pode-se dizer. Mas divago): não existe nada no universo que ilustre tanto a insatisfação do homem com sua situação, seja ela qual for, boa ou ruim, quanto a invenção da água com gás. Tipo, eu imagino um cara chegando pro outro e falando “ei, olha só, temos aqui o líquido da vida, sem o qual não existiríamos, nada existiria, e este planeta seria ainda uma rocha seca, não é algo que, de tão incrível, praticamente foge à nossa percepção mundana?”, ao passo de que o outro responderia “sim, é demais, vamos espalhar o líquido milagroso pelo pelo mundo”, e o primeiro diria ainda “… mas ainda não tá bom, falta gás”. Não há como agradar uma espécie que parte do princípio de que falta alguma coisa na ÁGUA.
Uma rápida pesquisa no tio Google mostra que, além da água com gás em garrafinhas de rótulos que abandonaram totalmente a noção estética, existem reservatórios de água gaseificados naturalmente. Ou seja, sem ninguém botar a colher. O que me convence plenamente de que a água com gás é uma grande INVENÇÃO DO DIABO e precisa ser excomungada de nossas vidas o quanto antes, pois a salvação jamais intercederá em algum lugar onde ela corra o risco de tomar líquido insípido com bolinhas. E alguém pode culpá-la?
SAI DESSE CORPO QUE NÃO TE PERTENCE!