Valente, mas nem tanto.

Valente (Brave)
3/5

Direção: Mark Andrews, Brenda Chapman, Steve Purcell
Roteiro: Mark Andrews, Brenda Chapman, Steve Purcell e Irene Mecchi.

Elenco
Kelly Macdonald (Merida – voz)
Billy Connoly (Fergus – voz)
Emma Thompson (Elinor – voz)

Merida é uma princesa inteligente, impulsiva, animada, independente, com objetivos e ambições para sua vida, enfim, uma mina massa. Mas, como boa adolescente, ela vive em conflito com a mãe, que deseja uma filha doce e requintada, e não a versão feminina do Calvin. Daí a pimpolha busca um feitiço pra mudar isso, um feitiço que, como TODOS OS FEITIÇOS DE TODAS AS HISTÓRIAS DO UNIVERSO QUE ENVOLVEM FEITIÇO, dá com os burros na água. E agora Merida precisa organizar a balbúrdia antes que, por algum motivo que o filme não deixa claro, tudo vá pro brejo de vez.

Se for parar pra pensar, Valente nada mais é do que a prova de que os animadores da Pixar são todos exibicionistas: a qualidade absurda da animação, claramente fruto de um pacto com o diabo, é de fazer até o zagueiro mais durão compartilhar no Facebook. Infelizmente havia uma DREAMWORKSZAÇÃO no ar, e toda essa qualidade no visual acaba servindo uma história que, com altos e baixos, recebe um Shift + Del do cérebro assim que o cara sai do cinema.
Nem a vida real é tão detalhada.
Na real, a película começa bem, apresentando Merida e toda a sua ruivice SAPECA e estabelecendo as atitudes que resultarão no “conflito” da história. Apesar de ser a protagonista e futura heroína de todas as feministas, a princesa age como uma adolescente qualquer, muitas vezes com um pouco de egoísmo e se fazendo de vítima (“não venha tentar colocar a culpa em mim”), enquanto sua mãe mostra lados vulneráveis e carinhosos no meio daquela carapuça de mestre-de-cerimônias. Isso torna as personagens tridimensionais, tornando a relação de ambas mais complexa – o que é assaz importante para que o público não considere a rainha uma mistura entre vilã de novela e softwares de animação.
Contando com uma galeria diversa de personagens que, embora visualmente BATUTAS, não chegam a ser muito desenvolvidos, Valente consegue criar momentos de humor genuíno sem precisar parodiar filmes famosos (abraço, Dreamworks), como a excelente sequência do arco e flecha ou a alegria contagiante do Rei Fergus. Por outro lado, a produção claramente incorpora o espírito adolescente de sua protagonista, porque não parece saber muito bem o que quer: o grande conflito da trama demora muito para ser apresentado e não traz um antagonista, oportunidades para cenas de ação, superação e tensão. Assim, a primeira metade do filme é bem apresentada e desenvolvida, mas a segunda metade liga o modo turbo e vai jogando acontecimentos sem ter uma antecipação para eles (o grande vilão, por exemplo, só é apresentado naquele momento da festa onde o DJ toca baladas românticas pra mandar todo mundo embora). Assim, todas as mudanças, aprendizados e reparações ocorridas no ato final parecem fruto não de uma evolução da trama, mas sim de alguma ditadura interna da Disney que obriga que essas questões edificantes apareçam. Sabe quando aquele teu amigo diz que é parceiro de viajar no feriadão, mas, após falar com a namorada, ele “subitamente” perde a vontade? É mais ou menos isso. O que é uma pena, já que as personagens tinham bastante potencial.
Entretanto, a parte visual de Valente é não só arrebatadora como impressionante, e fatalmente fará alguém trocar o texto do verbete “qualidade técnica” da Wikipédia por um print do filme. Desde os cabelos rebeldes de Merida (que parecem ter vida própria) até os detalhes mínimos das texturas de roupas, mesas e tecidos, passando por paisagens deslumbrantes, a Pixar atinge níveis estratosféricos de qualidade. Toda a reconstituição de época é sensacional, transportando o público para aquele tempo (e só pela cena da cachoeira o filme já merece o Oscar de Direção de Arte). Tudo bem que os diretores não chegam a criar nenhuma sequência realmente memorável usando toda essa vitória, mas é que nem um quadro ou a Scarlett Johansson, só olhar já é cativante – ainda mais quando vem acompanhado de uma bela trilha, que dispara notas escocesas e gaitas de foles no público como se não houvesse amanhã, o que é sempre garantia de sucesso.
No final das contas, Valente se mostra um esforço bacana, bonito, apresentando uma personagem interessante e oferecendo ao público uma experiência agradável. Entretanto, dada a alta qualidade da animação, a capacidade da Pixar, e, principalmente, o potencial das personagens, podemos dizer que, tal qual a vida, o filme decepciona. É uma grande melhora em cima do patético Carros 2, claro, mas preguiçoso o suficiente para ficar bem atrás dos outros no escala Wall-E de animação. Resta torcer para que a Pixar logo volte a fazer aquelas histórias inesquecíveis, que sequestram o coração do espectador e se recusam a devolver. Porque Valente é divertido e tudo mais, mas dessa vez John Lasseter e cia. não conseguiram acertar em cheio no alvo.
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