Crítica | Vingadores: Era de Ultron é o petit gateau da Marvel: bom, porém seguro

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Após o flashmob alienígena em Nova York no filme anterior, os Vingadores continuaram marcando reuniões para ir atrás do objeto fálico de poder que Loki carregava consigo. Então Tony Stark, que aparentemente nunca leu um romance de ficção científica na vida, cria uma inteligência artificial fodona que decide dar CTRL+ALT+DEL no planeta inteiro.

Um bilhão e meio de dólares. Foi o que o primeiro Os Vingadores arrecadou em bilheterias ao redor do mundo – sem contar DVDs, Blu-Rays e outras quinquilharias merchandísticas. É uma fonte de renda muito grande para que alguém com culhões tente arriscar alguma coisa com ela, que dirá a desculhonada Marvel. Assim, Era de Ultron é exatamente o que se espera dele, acerta exatamente onde se espera que acerte, erra exatamente onde se espera que erre, e, no final, acaba sendo como uma noite de bebedeira: divertido, porém esquecível.

A ideia de ficar no mais do mesmo já estampa a primeira cena do filme, quando as personagens são apresentadas através de um longo plano que, entrincheirado no meio da ação descontrolada, vai “descobrindo” cada uma das pessoas que vingam. A partir daí, é o tradicional combo “piadas + ação + desenvolvimento emocional raso” da Marvel, onde os dois primeiros tiram ótimos momentos da cartola: com um número grande de personagens que se vestem de forma tão peculiar, Era de Ultron consegue estabelecer uma dinâmica divertida entre elas ao colocar questões bem mundanas no meio de uma trama de proporções épicas (como a comparação entre Jane e Pepper) ou apostando nas diferenças de personalidade (Capitão censurando o Homem de Ferro e vice-versa).

Além disso, Whedon manja muito desse lance de diálogos e sabe preparar bem o terreno. Com frequência as piadas são resultado de uma cena objetiva do filme, pipocando de forma inesperada – e isso vale tanto para o falatório (“eu vou me render”, “o martelo sobe no elevador”) quanto para um humor mais, digamos, visceral (“alguém cuide daquele bunker”). E é essa abordagem descontraída, fazendo os heróis parecerem meio que uma mesa de bar na sexta à noite + poderes, que torna as duas horas da película tão agradáveis, embora em um número consideravelmente grande de vezes o humor bata o joelho na quina da mesa (vamos lá, fazer piada com “isso é o melhor que você consegue fazer?”. Estamos em 2015!) e o roteiro force o Homem de Ferro a dizer coisas engraçadinhas que não são tão engraçadinhas assim.

Falando em roteiro, Era de Ultron não tem lá a mais elaborada das histórias e, francamente, nem precisa. Fica bem claro que o lance é dividir o filme em quatro momentos de quebra-pau ensandecido, sendo eles a) o inicial, b) quando Ultron surge, c) quando a Feiticeira brinca com o ID de um dos heróis e d) o clímax, e a função da trama é proporcionar a violência. Ainda assim, mesmo que a suspensão da descrença esteja apagada no canto da festa em semi-coma alcoólico, uma que outra vez dá vontade de abrir os braços e gritar “peraí, vamos lá, né?” (qual é o lance com aquela piscina do Thor? E até quando alguém aparecendo no último segundo vai ser um recurso utilizado?). Por outro lado, a escala da coisa vai crescendo de forma eficiente e o plano geral do Ultron soa como uma ameaça bem palpável.

Infelizmente o Ultron em sim é nada memorável, um amontoado de metal cuidadosamente polido e cortado sem muita personalidade ou motivação – eu realmente não entendi por que ele queria dar cabo dos Vingadores. Aliás, motivação é algo anêmico no filme, passando pelos irmãos Maximoff (que possuem tipo o carro popular das motivações dramáticas) até os conflitos e mesmo flertes do grupo protagonista, que não chegam a soar realmente justificados. O próprio filme perde muito ritmo na inexplicável fuga para um “abrigo”, quando todos têm seus conflitos emocionais acionados no mesmo momento e de forma muito súbita, como se a professora tivesse chegado no meio da ação e falado “pessoal, chega de brincar, agora é hora do lanche emocional”. Como essas questões não chegam a ser realmente muito profundas ou envolventes, já que Era de Ultron não pode tomar nenhuma decisão que incomode muito o público porque bilhões em bilheteria, o intervalo não atinge a intensidade necessária e sua única função no filme acaba sendo permitir que o público vá ao banheiro sem prejuízos.

Já em termos de ação, aventura e tudo mais, não há do que reclamar: Era de Ultron é de encher transbordar os olhos. Alguns problemas menores com o CGI dão as caras (principalmente nos bonecos digitais), mas, de resto, é uma megalomania destrutiva que não tem medo de exagerar, resultando em um frenesi de socos superpoderosos e raios e prédios caindo e efeitos especiais que merecem brindes de cerveja. Whedon consegue mostrar a sintonia dos heróis em coreografias conjuntas – as envolvendo o Capitão e o Thor são particularmente inspiradas – e aproveita o máximo das habilidades de cada um em cena. Além disso, presenteia o público com um travelling circular em câmera lenta que é coisa linda de Deus e já entra para a seleção de melhores cenas do ano. E a produção ainda conta com um elenco entrosado, que possui uma ótima química e carisma , embora quase ninguém ali consiga realmente se destacar – a exceção fica por conta de Elizabeth Olsen, que constrói a Feiticeira com uma vulnerabilidade cativante (percebam que, mesmo nas sequências de luta, ela parece assustada) e é responsável pelo único momento dramático do filme que passa longe de ser estéril.

Pena que o segundo ato do filme se perca em draminhas superficiais e uma tentativa de tornar o Gavião Arqueiro uma personagem mais relevante (a própria Viúva Negra fala uma hora “fingir que ele é importante nos mantém unidos”), tempo que poderia ser melhor aproveitado em arcos dramáticos mais concisos. Aliás, não entendo porque a Viúva não é mais explorada, pois sem dúvidas possui a personalidade mais complexa da turminha e, tipo, é espiã, e personagens espiãs são um poço sem fundo de possibilidades e segredos. No final das contas, ela acaba sendo o melhor canal de identificação do espectador com o filme – algo que talvez melhore ainda mais com a presença da Feiticeira a partir de agora. Mas isso é no futuro; no presente, Vingadores: Era de Ultron (na real não é uma “era”, né? Mal e mal deve ser um mês) não sai dos parâmetros seguros definidos pela Marvel e parece querer jogar pelo empate, e o lance sobre times que entram para empatar é o seguinte: eles nunca conseguem ser cativantes.

Nota: 3/5

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Crítica: Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro Gonzáles Iñarritu

Riggan é um ator que ganhou fama ao vestir as PLUMAGENS do super-herói Birdman no cinema, mas que atualmente se encontra na casinha do cachorro de Hollywood. Ele então escreve, dirige e estrela uma peça da Broadway para tentar se validar como artista, mas, a alguns dias da estreia, precisa lidar com os problemas da produção enquanto seu alter ego bicudo fica sussurrando críticas e frases de autoajuda na voz do Batman.

Cada minuto de Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância) é um Prêmio Nobel de planejamento, logística, visão, talento, coordenação, ensaio, marcação de cena, fotografia e muito mais. Filmada em praticamente um único plano-sequência (às favas com os cortes escondidos), a película consegue a proeza de utilizar essa virtuose em prol da história, bailando junto com as personagens pelos sets para que o público acompanhe o desenrolar da história de forma natural, crível. Um mergulho impressionante naquele ambiente e com espaço de sobra para provocar reflexões sobre arte, indústria cultural, mídia e negócios.

Tanto é que, ao longo das duas horas de “mas como é que eles filmaram isso?” do filme, somos apresentados a uma galeria de personagens ricos e marcantes – da filha distante ao ator obcecado por uma performance verdadeira, passando pelo amigo que toma as decisões de negócios e a filha semiperdida na vida -, que interagem em diálogos rápidos, envolventes e frequentemente geniais (“ele tem uma atração por feiras usando fraldas“, “pareço um peru com leucemia“, “a saúde durou mais do que o dinheiro“). A câmera de Iñarritu e Emmanuel Lubezki (O diretor de fotografia. Com “O” maiúsculo mesmo) acompanha eventos que jamais soam previsíveis ou repetitivos, sempre colaborando para a construção da história (os ensaios que dão errado) ou das personagens (a discussão entre Riggan e Sam, a conversa com a ex-esposa) ou atingindo aquele raríssimo ponto onde o patético e o hilário se abraçam sem piedade (a briga entre Riggan e Mike). Sim, é um filme praticamente sem cortes, mas com personagens e situações e diálogos tão afiados nem precisa dos cortes para se embriagar de dinamismo.

No centro disso tudo, Riggan, cujo “gosto de você só como amigo” por parte de Hollywood o leva a alçar novos voos (desculpem) para provar que é um artista relevante. A película mergulha sem dó no protagonista e faz questão de mostrar que ele é o resultado de jogar frustração, expectativa e ansiedade no liquidificador e servir em uma taça de segunda mão – e aqui é essencial parar e elogiar o trabalho de Michael Keaton, que interpreta o ator/diretor de forma intensa e emocional, carregando o filme com a facilidade de quem está fazendo tricô (se bem que tricô parece difícil. Com a facilidade de quem está prevendo uma morte em Game of Thrones, então) e conseguindo estabelecer uma conexão com o público. Ao longo da caminhada, Birdman vai mostrando as inseguranças de Riggan, que, apesar de ter seguido em frente, se vê tão preso à posição de astro de blockbuster do passado que ainda enxerga o homem-pássaro por aqui e por ali. O que torna a empreitada broadwayzística ainda mais pesada, pois não é apenas o dinheiro gasto (e sabemos que ele está contando moedas) que está em jogo, mas sim a chance de fazer algo significativo – e, através dos diversos obstáculos (problemas na produção, atores instáveis, filhos viciados, casos amorosos, críticos destrutivos, um homem imaginário vestido de pássaro com uma tendência crônica a irritar), a jornada de Riggan se torna ainda mais pessoal, ainda mais representativa. Em determinado momento, Mike fala que o sujeito está disposto a deixar tudo de si no palco, e o tamanho do investimento do protagonista na peça fica bem claro em uma cena onde aparece praticamente nu diante de uma multidão, expondo-se completamente nesta investida dramática.

É curioso também perceber que, já que o mundo gira ao redor dele (incluindo aí um baterista que faz a trilha surgir de forma diegética na trama), cada uma das personagens parece representar um dos medos/frustrações do protagonista: Sam e a ex-esposa são o fracasso na vida em família e, de certa forma, os abusos de Hollywood; Mike é o medo de não ter o talento necessário; Lesley é o medo de estrear na Broadway; Laura é a hesitação em se comprometer por ainda gostar da ex-mulher; Tabitha, a crítica do NY Times, é o receio de não pertencer à turminha dos artistas “de verdade”; Birdman é o apego à glória do passado; e assim por diante. E tudo isso surge em cena com um elenco homogeneamente excelente, que mata no peito um projeto desse tamanho e, no espaço de apenas algumas salas e sets diferentes, dispara sentimentos e sensações em um crescendo que vai anunciando o clímax – destaque para Emma Stone, que consegue transmitir sinceridade como poucos (talvez pelos olhos azuis do tamanho de estrelas), e por um Edward Norton completamente em chamas, que faz de Mike uma figura imprevisível, magnética e incrivelmente autêntica.

Já o trabalho de Iñarritu e Lubezki é de levar o mais turrão dos zagueiros às lágrimas. A câmera deles passeia sem cortes (aparentes) pelo teatro e pela rua de forma elegante, conseguindo se aproximar das personagens quando necessário (muitas vezes os rostos são enquadrados em planos fechados) e conferindo à trama certa atmosfera de urgência, de que não há tempo a perder. A forma natural com Birdman mostra elipses e transições (a da tela do celular para a TV do bar, por exemplo) dá uma dimensão ainda maior ao trabalho da equipe, que consegue trocar de cenários de forma criativa e ilustrar a passagem do tempo sem se render aos cortes, e a megalomania correu tão solta pelos sets do filme que os realizadores sequer hesitaram antes de jogar Riggan no meio de uma Times Square lotada ou fazer um passeio virar uma cena de super-herói. Nunca mais um daqueles vídeos de GoPro vai parecer grande coisa depois disso.

Trazendo uma história que constantemente contrasta o sucesso dos blockbusters com a autenticidade da arte (aqui representada pela peça de teatro), ainda mais por trazer um elenco experiente nisso (temos ali um Batman, um Hulk, a Gwen Stacy, a namorada do King Kong, o sujeito estranho de Se Beber, Não Case), a película acaba tornando a busca de Riggan pelo “algo significativo” em uma reflexão sobre a superficialidade das superproduções (Tabitha diz que ele “não é um ator, é uma celebridade“), do marketing envolvido (tanto na entrevista inicial como na oportunidade encontrada por Jake ao final), do quanto significa entregar algo embalado e pronto para o público consumir e medir o valor de algo por números, seja de bilheteria do fim de semana ou de visualizações. Não à toa Birdman aproveita a localização do teatro e mostra o cartaz de O Fantasma da Ópera aparecendo marotamente em alguns momentos: enquanto ex-astro de superprodução, ex-celebridade, ex-super-herói, Riggan é invisível. É irrelevante, como sua própria filha faz questão de apontar. O que só torna a sua busca por construir algo que faça a diferença, alguma coisa que o mantenha sólido no mundo, ainda mais trágica e grandiosa.

Nota: 5/5

Quem tem medo do lobo mau?

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street)
5/5

Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Terence Winter, adaptado do livro de Jordan Belfort

Elenco
Leonardo DiCaprio (Jordan Belfort)
Jonah Hill (Donnie Azoff)
Margot Robbie (Naomi Lapaglia)
Matthew McConaughey (Mark Hanna)

Nos anos 80, quando Wall Street era uma terra de charme, dinheiro e cocaína, Jordan Belfort se junta aos corretores do distrito financeiro mais famoso do mundo. Logo ele começa a ter sucesso, usar drogas, transformar o escritório em um pardieiro e, basicamente, viver a vida da forma mais ensandecida possível.

Não fosse a troca para a tecnologia digital, qualquer pessoa poderia achar que o copião de O Lobo de Wall Street foi revelado em uma latinha de energético: o filme é intenso, forte, rápido, divertido, engraçado e completamente empolgante. É, assim como Cassino (também dirigido por Scorsese), uma história de crescimento financeiro baseado em atividades no limbo entre o legal e o ilegal – só que a nova película troca a violência pela loucura da riqueza, consumismo e luxúria. De certa forma, imagino que O Lobo de Wall Street seja o equivalente fílmico a cheirar cocaína, o que faz sentido, visto que esta é um elemento importante da película.

Assim como anões.
Para isso, Martin Scorsese cria uma atmosfera enlouquecida não só na mise-en-scène – onde tudo é intenso e gritado e gestual e acaba de alguma forma com mulheres nuas -, mas também na forma, com a montagem ágil e a câmera constantemente em movimento (naqueles travellings elegantes que o Scorsese sabe fazer muito bem). É uma construção assaz inspirada, que se aproveita da quebra da quarta parede, câmera lenta, tela congelada e flashbacks rápidos (o do carro e o do avião, por exemplo) para tornar a coisa toda mais dinâmica – claro, o diretor usa esses recursos com parcimônia, sem exagero, para não tirar a atenção do que está acontecendo em quadro. É importante que a forma reforce a atmosfera da cena, e não chame a atenção para si mesma (imaginem um filme desses dirigido por Guy Ritchie e vocês terão uma ideia).
E é uma decisão mais do que acertada para companhar a trajetória de Jordan Belfort, que, com frases do tipo “e eu fiquei puto da cara porque era menos de um milhão por semana”, personifica toda a loucura que sempre se imaginou de Wall Street. Claro, o roteiro faz questão de mostrar o quanto ele é dedicado, competente (a cena onde todos param para ver ele trabalhar) e patologicamente apaixonado pelo que faz (as conversas por telefone onde ele fica gesticulando para o interlocutor), transformando-se em uma pessoa arrogante o suficiente para achar que pode subornar dois agentes federais – um comportamento que divide com Donnie, mais um tresloucado repleto de falas épicas (“quer cheirar carreiras de fermento, é isso?“) e que ajuda Jordan a transformar a Stratton Oakmont no pardieiro definitivo. Percebam que as características dos dois são tão fortes que, a partir de certo momento, aceitamos toda a balbúrdia da empresa como algo natural. A megalomania da dupla, regada a muita cocaína e quaaludes, é ilustrada de forma brilhante por situações completamente absurdas e que, muitas vezes, humilham a palavra “épico” (aquela cena envolvendo os quaaludes poderosos sem dúvida constará de qualquer lista de melhores momentos em 2014. E recém estamos em janeiro).
Além disso, a narração em off é bem utilizada para explicar e avançar a história sem jamais ser excessivamente didática, o que acaba a tornando mais um dos elementos divertidos do filme (“é como tomar sol antes dele aparecer“). Mas o problema é que, no meio dessa diversão total e absoluta, não há muito espaço para caracterizar as personagens: praticamente todas falam do mesmo jeito e reagem do mesmo jeito e buscam a mesma coisa. Ok, dá para entender isso como uma generalização ao espírito de Wall Strett, uma declarção de que todos ali eram fora da casinha, mas isso diminui o envolvimento com qualquer situação mais pessoal (o drama de Jordan no final, por exemplo). Aliás, há uma tentativa de arco dramático extremamente desnecessária, colocando o protagonista inicialmente como alguém buscando trabalhar de forma honesta: a caracterização inicial, “do bem”, e tão rápida e superficial que jamais gera impacto, tornando frases como “você virou uma pessoa completamente diferente” soam deslocadas feito a canela do Anderson Silva.
Já o elenco surge completamente em chamas, terraplanando tudo e todos à sua frente com atuações poderosas. Começa com Matthew McConaughey (o grande “como assim?!” de 2013) construindo um Hanna gestual e amalucado – mas repleto de carisma – e continua com Jonah Hill, que encarna Donnie com a intensidade de um gordinho tentando se vingar de tudo que os gordinhos sofraram na infância, criando sequências memoráveis (como a do peixe) e utilizando sua habilidade ímpar de xingar para tornar tudo ainda mais megalomaníaco (além de usar trejeitos um pouco mais femininos, denunciando a dubiedade da sexualidade do sujeito). E se Margot Robbie consegue encantar com seus olhares e sorrisos e beleza (certamente a atriz foi feita no Photoshop e criada usando uma impressora 3D), Leonardo DiCaprio tem a grande atuação de sua carreira, transformando Jordam em uma força da natureza, a energia em forma de pessoa, sempre falando alto, sempre tendo certeza de sua posição e sempre doando 100% de tudo que tem (um contraste interessante com o Jordan mais jovem, que chega para conversar com Hanna falando de forma bem mais tranquila e baixa). O ator ainda tem certa dificuldade de se perder na personagem, especialmente nos momentos mais íntimos, mas é seguro dizer que carrega O Lobo de Wall Street de forma épica.
Enquanto isso, a parte técnica pode se comportar de forma tão megalomaníaca quanto Jordan, pois atinge níveis definitivos de qualidade – e é uma pena que os efeitos especiais do filme, completamente “escondidos”, talvez jamais tenham o reconhecimento que merecem. E boa parte da função deles é em prol da direção de arte, que se encarrega de mostrar os exageros daquele mundo, com cenários sempre grandiosos e luxuosos, decorados quase como palácios, ao mesmo tempo em que transforma o escritório em um ambiente despojado ao variar os tipos de terno e colocar alguns figurantes sem o paletó (e é interessante perceber que, quando era “honesto”, Jordan vestia um terno cinza claro, ao passo que depois que a “sujeira” começa as cores ficam escuras). Como se não fosse o suficiente, a trilha inspirada consegue marcar o ritmo da brincadeira e ainda atuar de forma simbólica (por exemplo, os versos de Everlong “if anything could ever feel this real forever”) são ouvidos logo antes da vaca ir pro brejo.
Assim, O Lobo de Wall Street é uma grande e frenética vitória por parte de seus realizadores. Scorsese tira de letra a dificuldade de filmar exageros sem soar caricatural ou destoante, e isso em uma história cujo protagonista leva uma vida tão intensa que é capaz de dormir pilotando um helicóptero. Repleta de grandes sacadas, cenas inesquecíveis e Margot Robbie pelada, a produção é mais um acerto para a carreira do diretor, cujo talento e capacidade continuam tinindo. Em determinado momento, Hanna fala que ninguém sabe nada de como as ações vão se comporta na bolsa de valores, mas uma coisa é certa: apostar em Scorsese é garantia de retorno.

Nos idos de Moulin Rouge

O Grande Gatsby (The Great Gatsby)
2/5

Direção: Baz Luhrmann
Roteiro: Baz Luhrmann e Craig Pearce, baseados no livro de um tal F. Scott Fitzgerald

Elenco
Tobey Maguire (Nick Carraway)
Leonardo DiCaprio (Jay Gatsby)
Carey Mulligan (Daisy Buchanan)
Joel Edgerton (Tom Buchanan)
Isla Fischer (Myrtle Wilson)

Nick Carraway é um ex-quase escritor que se muda para Nova Iorque com o objetivo de atingir o sonho americano, i.e., ficar rico e fazer festa e ter muitas coisas legais (que coincidentemente é o sonho de vários não-americanos, também). Lá, através de sua prima Daisy, ele conhece um ricaço intrigante chamado Gatsby e várias coisas ricas e intrigantes acontecem enquanto o diretor Baz Luhrmann pega um estojo de lápis de cor e sai pintando tudo em volta.

O Grande Gatsby é menos uma história e mais um carnaval de cores, câmeras lentas, sobreposições e outras trucagens cinematográficas. Na verdade, parece que Baz Luhrmann simplesmente queria fazer algunas cenas plasticamente bonitas e alguém falou pra ele que, infelizmente, o filme precisava de outras cenas também porque tinha uma tal de história e era meio que essencial contar ela. O resultado é uma obra expositiva, forçada, sem sutilezas ou cargas dramáticas (ainda que tenha umas cenas plasticamente bonitas).

Basicamente, todas com a Carey Mulligan

Na real, o principal problema de O Grande Gatsby é um que acomete muitas adaptações literárias: o filme não traduz a história para a linguagem cinematográfica, apenas transporta ela, aparentemente achando que colocar o livro no lugar do cartão SD da câmera é o suficiente. Esse tipo de chocarrice faz com que a película não tenha nenhuma confiança em suas imagens enquanto contadoras de história, como se o único papel delas fosse existir individualmente enquanto Instagrams filmados, deixando uma narração em off frequente que explica tudo que acontece. É sério, não é uma hipérbole – em determinado momento, inclusive, esperei que o narrador falasse “agora vamos ver o que o Arnaldo tem a dizer sobre a direção de arte”. Por exemplo, tem uma cena onde, enquanto a narração diz que Nick desistira de ser um escritor, vemos o dito-cujo pegando uma cópia de Ulysses e largando em cima da mesa, em uma das maiores ilustrações da palavra “redundância” de que se tem registro. Daí fica tudo assaz verborrágico e qualquer impacto visual é diluído pelo blábláblá em off, o que é um problema bem grande se considerarmos que é uma obra audioVISUAL (quando Gatsby é apresentado pela primeira vez, a narração mais uma vez explica o que está acontecendo na tela, impedindo que o espectador seja cativado pelo momento em si. E a frequência com que isso se repete torna O Grande Gatsby uma grande descativação geral, estéril de cenas lacrimejantes ou inspiradoras).

Mas o complexo de tagarelice não é o único problema desse livrinho de colorir que Baz Luhrman chama de “roteiro”: o filme parece ter preguiça de realmente investir nas tramas que o permeiam, acreditando que o simples encadeamento de eventos decisivos é o suficiente para construir a história (não é) – tipo, a admiração de Nick por Gatsby é completamente desprovida de qualquer justificativa ou bom senso, soando extremamente forçada. Na verdade, o próprio Gatsby é uma figura apagada, sem grandes atrativos (e não falo aqui de coisas que o tornem “grandioso”, mas sim interessante enquanto personagem), conseguindo um pouco da atenção do público mais graças ao mistério de como ele se tornou um Tio Patinhas festeiro do que por qualquer outra coisa, e pelo andar da carruagem seria muito mais plausível se ele tivesse uma admiração enorme por Nick, e não o contrário. Com isso, cenas que teoricamente teriam uma carga dramática enorme (carga dramática essa que é essencial para que a galera se envolvesse com a história) acabam soando tão intensas quanto uma partida de gamão, e logo se percebe que O Grande Gatsby é meio que só um mapeamento dos pontos-chaves da história disfarçado de Moulin Rouge 2.

Já a parte visual é bem mais apurada, ainda que seja apurada de uma forma meio individualista, cada cena tentando simplesmente ser a mais bonita, como se fosse um concurso de Miss Planos. Algumas são realmente inspiradas, como os fogos de artifício quando Gatsby se vira ou as cores quentes em que Daisy é apresentada, criando um momento tão caloroso que a galera saiu um pouco bronzeada do cinema. Os cenários grandiosos evocam bem a filosofia “eu tenho, você não tem” daquela galera, um grande high five dessa direção de arte que, além de fazer uma vitoriosa reconstituição de época (consegue emular o visual dos anos 20 de uma forma bastante particular), traz junto algumas sacadas extremamente bacanas – o exagero de vermelho no cenário em que Tom e Myrtle fazem a dancinha do acasalamento, exacerbando a paixão e a luxúria do recinto, é um ótimo exemplo. É um lance meio teatral, mas totalmente de acordo com a trama e o período histórico, se é que isso faz algum sentido (mas tudo bem se não fizer, porque o filme também não faz).

A parte chata é que Baz Luhrmann dirige a coisa de uma forma meio desempolgada, tipo como se estivesse esperando só pra usar sobreposições e planos digitalmente emendados e ficasse frustrado toda vez que não pudesse. Mesmo cenas que são plasticamente bacanas, como a do atropelamento, possuem enquadramentos que se preocupam mais em aparecer no Vimeo e menos em contar efetivamente o que está acontecendo – os únicos momentos que realmente merecem destaque são as imagens aéreas, que, principalmente quando a turminha tá saracoteando pelas pontes, conseguem impressionar. É uma pena que, mesmo com esse narcisismo visual, o diretor não manje nada de 3D, optando por uma profundidade de campo pequena que, basicamente, joga o 3D em uma banheira e cruelmente o afoga. Se formos levar em conta também a montagem com DDA, que não consegue passar mais de oito segundos no mesmo enquadramento, meio que resumindo a direção de arte e a ótima fotografia (que alterna entre o colorido total no presente e uma simpática paleta mais monocromática nos flashbacks – algo meio óbvio, mas que aqui funciona com um contraste supimpa) em gifs numa telona, percebemos que mesmo o visual do filme não traz lá grandes impactos (aliás, O Grande Gatsby parece ter sido feito pensando nos inevitáveis gifs e posts no tumblr que surgirão com o filme).

Com uma cara de bobo sempre convincente, embora completamente despido de carisma, Tobey Maguire passa por média como narrador da balbúrdia, ainda mais considerando que o roteiro trata sua personagem de uma forma meio “opa, precisamos que a história avance aqui, bota o ex-Homem-Aranha aí em cena”. Já Leonardo DiCaprio consegue fluir entre o agradável e apreensivo, frequentemente mantendo uma postura cortês que denota o quanto é trabalhada aquela imagem que Gatsby constrói de si mesmo – ainda que exagere de vez em quando (o encontro com Daisy) e, como de costume, esteja sempre parecendo se esforçar demais, o que atira para as cobras a ilusão de que ali está uma personagem, e não um ator representando. E, enquanto Joel Edgerton consegue ser intenso e carismático mesmo com as limitações roteirísticas, Carey Mulligan empresta beleza, doçura e fragilidade à Daisy, construindo uma personagem ao mesmo tempo melancólica e esperançosa, distante e acessível.

Aparentemente surgido como um veículo para que Baz Luhrmann mostre como coisas em vermelho e sobrepostas são legais, uma vez que exagera nas trucagens cinematográficas, O Grande Gatsby se perde ao pular a cerca e trair o roteiro com uma devassidão visual de baixa auto-estima, que não acredita muito em si mesma. O que é meio bizarro, já que estamos falando de uma adaptação literária. No final das contas, um filme nada mais é do que uma história contada – e a produção chafurda na lama do fracasso justamente por se esquecer disso, achando que uma fotografia bonita e umas câmeras lentas fariam a película valer a pena. Ou seja, como tudo e todos que investem apenas na imagem, sucumbe à superficialidade.

Todo mundo é de ferro

Homem de Ferro 3 (Iron Man 3)
3/5

Direção: Shane Black
Roteiro: Shane Black e Drew Pearce

Elenco
Robert Downey Jr. (Tony Stark)
Gwyneth Paltrow (Pepper Potts)
Ben Kingsley (Mandarim)
Guy Pearce (Aldrich Killian)
Rebecca Hall (Maya Hansen)
Don Cheadle (coronel James Rhodes)

Traumatizado após enfrentar um monte de CGI em Os Vingadores, Tony Stark tem problemas pra dormir, problemas com Pepper e passa o tempo construindo homens de ferro para serem seus amigos e jogarem Imagem & Ação com ele. Mas daí um terrorista chamado Mandarim começa a tocar o terror nos americanos e, para proteger seu país e seus amigos e sua noiva e seu ego, Tony veste a armadura e sai pra descer o sarrafo na galera.
Homem de Ferro 3 é o típico filme da Marvel: preguiçoso, seguro, se apoiando em piadinhas e efeitos especiais (e, no caso específico do Homem de Ferro, um protagonista completamente em chamas). É a fórmula de sucesso da FIRMA, e aparentemente vão investir nisso enquanto a galera continuar dando milhões de verdinhas para assistirem aos filmes – mas, se por um lado isso garante a comida no prato dos executivos da Marvel, por outro acaba resultando em coisas completamente desnecessárias, fazendo com que Robert Downey Jr. tenha que se desdobrar para que o filme não enferruje (desculpem).
A única pessoa do mundo que realmente tem problemas se esquecer onde deixou o carregador.
Mas há de se convir que, na real, a franquia é um grande playground/plataforma de exposição para o Beto Downey. E ele faz por merecer: compondo Tony Stark com uma energia frenética, inquieto, decidido, carismático ao extremo e com um timing cômico aniquilador, o ator pega o espectador pela mão e carrega ele até o final do filme – um competente e divertido showman. E em Homem de Ferro 3 ele trabalha junto com um elenco competente, que consegue criar cada personagem única e bem definida – com grande destaque, claro, para Ben Kingsley, que só não disputa corpo-a-corpo com Robert Downey Jr. porque aparece menos tempo. Ah sim, o Guy Pearce fica meio atrás dessa turma, mas ao menos aqui a maquiagem dele não é fracassada (abraço, Prometheus).
Infelizmente, o talento dessa galera atuante não é explorado como poderia porque, bem, porque Homem de Ferro 3 não tem exatamente uma história. É tipo uma colagem de piadas e cenas de ação e encheção de linguiça desenfreada. E não falo aqui nem de desenvolvimento de personagens ou de conflitos emocionais (apesar da coisa do trauma de Vingadores tente fazer isso, e há uma possibilidade nunca explorada de fazer algo no estilo “biologia x máquina”, nunca concretizado), porque exigir isso de um blockbuster é meio que um convite à decepção (embora aconteça), mas do próprio andamento da trama. A impressão geral é a de que, após o Mandarim brincar de Lego com a casa do Stark, a produção fica enrolando pra ter mais tempo de tela. O investimento na história é tão raso que sequer há um motivo para o vilão fazer o que faz. Ele simplesmente comete atrocidades, e tem um plano completamente elaborado e tal, e aparentemente faz tudo isso para evitar o tédio, já que a película nunca explica o objetivo dele com toda essa balbúrdia. Isso torna Homem de Ferro 3 lento, arrastado, uma versão cinematográfica de domingo. E mesmo que tenha momentos inspirados ao longo da projeção (a forma inteligente com a qual Tony chuta a bunda de uma mina lá ou vários dos diálogos do protagonista), o filme volta e meia apela para soluções forçadas, como o inexplicável holograma do teatro (onde a linha divisória entre tecnologia e mágica é praticamente inexistente) ou diálogos ridiculamente expositivos (como quando alguém fala “então você vendeu para o Mandarim?”, algo que já ficou claro na introdução do filme. Até na sinopse, se bobear).
Shane Black dirige o filme de forma competente, mas meio automática. Tem uma visão boa da ação e consegue deixar claro o que está acontecendo e quem está envolvido (algo particularmente difícil na finaleira, quando a robozada entra em cena sem piedade), mas, com exceção da já citada cena onde a casa literalmente cai (que é tensa pacas e consegue ser surpreendente), não há nada realmente empolgante ou envolvente. Não que seja ruim, também, apenas segue a cartilha com eficiência. Os efeitos especiais são espetaculares, e só aquela cena do avião já seria de dar tapinhas nas costas, mas isso já estava previsto no preço do ingresso (os efeitos sonoros são incrivelmente incríveis, também. Mereciam um Grammy). Toda a parte técnica, aliás, é bem redondinha, e até mesmo o cuidado com o design das várias armaduras é uma atração à parte (faltou alguma que fizesse homenagem ao Wall-E, mas ok, fica para a próxima).
Ou seja, Homem de Ferro 3, assim como o 2, é mais um filme insosso nesse grande buffet de INSOSSIEDADE desenfreada que são os filmes da Marvel. Tem momentos divertidos, é bem produzido, alguns diálogos bons, algumas piadas engraçadas, algumas cenas de ação legais, mas fica muito em terreno seguro, não tenta se arriscar a fazer melhor. Provavelmente venha uma quarta película por aí, mas, pela forma como os últimos dois filmes não fizeram jus ao ótimo primeiro, talvez seja a hora de Tony pendurar a armadura.

2012 sob as lentes

Chegamos ao final do ano. E, enquanto as pessoas ficavam por aí bebendo champanhe e degustando comidas requintadas que não chegam aos pés de um simples bife com batata frita, eu mergulhei em um complexo sistema de dados e nomes (um arquivo do Word) para fazer a lista dos melhores filmes de 2012 – sempre lembrando, a lista é composta apenas por filmes lançados comercialmente no Brasil neste ano, então não reclamem de uma eventual ausência aquela produção que vocês baixaram via torrent em 1080p e que só será lançada no país do carnaval em 2015.

Seguem abaixo os destaques do ano, sempre acompanhados do seu título original e o nome do diretor ao lado. Depois, seguimos com os piores, a surpresa, a decepção e o tão aguardado top3 do ano. Provavelmente esqueci algum filme (ou não assisti), então sintam-se à vontade para me xingar nos comentários. Mas vamos lá:
As Aventuras de Tintim (The Adventures of Tintin, Steven Spielberg)
Os Descendentes (The Descendants, Alexander Payne)
Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, Lynne Ramsay)
A Separação (Jodaeiye Nader az Simin, Asghar Farhadi)
O Artista (The Artist, Michel Hazanavicius)
A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, Martin Scorsese)
Drive (idem, Nicolas Winding Refn)
Os Vingadores (The Avengers, Joss Whedon)
Jovens Adultos (Young Adult, Jason Reitman)
Para Roma Com Amor (To Rome With Love, Woody Allen)
Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, Christopher Nolan)
O Ditador (The Dictator, Larry Charles)
The Sunset Limited (idem, Tommy Lee Jones)
Ted (idem, Seth McFarlane)
Looper (idem, Rian Johnson)
Soldier/Citizen (Bagrut Lochamim, Silvina Landesman)*
007 – Operação Skyfall (Skyfall, Sam Mendes)
Argo (idem, Ben Affleck)
O Homem da Máfia (Killing Them Softly, Andrew Dominik)
As Aventuras de Pi (Life of Pi, Ang Lee)
Shame (idem, Steve McQueen)
Moonrise Kingdom (idem, Wes Anderson)
Amor (Amour, Michael Haneke)**
*Vi na mostra de São Paulo, então não sei quando e se vai entrar no circuito comercial (duvido muito);
**Vi na mostra de torrents da internet. Parece que talvez seja lançado no Brasil ano que vem, mas, vai ficar na lista de 2012 mesmo.
O Pior do Ano
Está se tornando uma tradição anual no cinema: repleto de personagens chatos e irritantes, diálogos chatos e irritantes, cenas de ação chatas e irritantes e um dos finais mais chatos, irritantes e covardes dos últimos tempos, Amanhecer – Parte 2 amarga a lanterninha do ano cinematográfico. O lado bom é que é o último da franquia, mas nem o alívio proporcionado pela aparição dos créditos consegue levar o filme a algum lugar além da terra demoníaca do fracasso.
A Decepção do Ano
Considerando seu competente diretor e o material de origem (embora eu nunca tenha lido o livro), a chatice total de Na Estrada torna o filme uma desilusão maciça, duas horas de situações modorrentas que se arrastam pelo que parece ser um cruzeiro de três semanas para o tédio. Nem a nudez da orelhuda Kristen Stewart consegue dar algum brilho. Assim, a película recebe o prêmio de decepção do ano, o que, considerando a vida arrastada daquelas personagens, provavelmente é a coisa mais legal que já aconteceu com elas.
A Surpresa do Ano
Depois que Os Mercenários se mostrou nada além de uma versão anabolizada de Sex on the City, parecia que nenhum filme de ação conseguiria ter novamente aquele clima de levantar os braços e gritar “é isso aí!”. Mas eis que do nada, sem ninguém esperar, chega Dredd, com sua história simples feito bife com batata frita (observar referência no primeiro parágrafo do texto), ação desenfreada, boa utilização do 3D e frases de efeito transbordando testosterona, e sai tocando o terror e chutando a bunda de todo mundo. Cerveja e churrasco em versão cinematográfica.
Os Melhores
Esse ano foi complicado. A primeira posição nem foi tão difícil,  mas definir os concorrentes para a segunda e terceira vagas, com sete candidatos, foi algo que exigiu muita perspicácia, nesse caso representada por uma latinha de cerveja que clareou as ideias. Seguem os escolhidos:
3 – O Espião Que Sabia Demais (Tinker, Taylor, Soldier, Spy, Tomas Alfredson)
É curioso que O Espião Que Sabia Demais tenha saído no mesmo ano que 007 – Operação Skyfall, uma vez que, embora ambos sejam filmes de espionagem, não poderiam ser mais diferentes: ao contrário do glamour e da ação que sempre acompanham o filhote de Ian Fleming, o filme de Tomas Alfredson é cadenciado, contemplativo, preocupando-se mais com os aspectos da inteligência e a evolução das personagens do que com a ação propriamente dita – um jogo de xadrez com peões humanos e uma atuação desconcertante de Gary Oldman (perdão pela redundância), exibindo ainda fotografia e direção espetaculares. Além disso, a trama complexa e envolvente mantém o espectador sempre atento. Uma daquelas obras extremamente únicas, que trazem um novo olhar para o gênero de espionagem. E que até poderia estar melhor posicionada, se não fosse…
2 – Millenium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (The Girl With the Dragon Tattoo, David Fincher)
… a irritante habilidade que David Fincher tem de utilizar de forma magistral todos os recursos à sua disposição para contar uma grande história. Em Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, o diretor pega uma trama sem grandes atrativos ou surpresas e a eleva a um patamar que eu só posso definir como certo. Construindo uma coesão épica entre todos os elementos da linguagem cinematográfica para mostrar suas personagens e os acontecimentos da narrativa, Fincher vai do perturbador (aquela cena com o tutor de Lisbeth) até momentos de partir o coração (no final, principalmente), passando pelo suspense e drama, claro. Uma aula de como se conta uma história, polvilhada com um elenco em chamas e uma das melhores cenas de abertura/créditos de todos os tempos. Que, pensando a respeito, poderia até assumir a primeira posição nesta balbúrdia. Só que…
1 – O Homem Que Mudou o Jogo (Moneyball, Benett Miller)
… quando Brad Pitt nasceu, a mãe dele o mergulhou em um rio mágico, tornando seu corpo invulnerável à . realização de filmes ruins (exceto o calcanhar, também conhecido como “Babel“). E em O Homem Que Mudou o Jogo, Pitt se entrega a uma atuação cativante em um filme que redefine o verbete “cativante” na Wikipédia: apresentando um roteiro certamente trabalhado até os dedos sangrarem sobre o teclado, uma galeria de personagens envolvente e direção e montagem em níveis “Copa do Mundo”, a película vai se desenrolando e conquistando o coração do espectador em sequências certeiras, construídas com cuidado e inspiração – e aqui podemos falar tanto do momento quando Beane e Brand realizam uma transação extremamente complicada quanto da transição em que a filha de Beane toca violão e o áudio da cena seguinte – a torcida no estádio – entra um pouco antes. É uma produção tão bem desenvolvida, tão bem cuidada, que o seu plano final é com certeza o melhor do ano – e sem reviravoltas, sem exageros, sem grandes surpresas ou situações grandiosas, apenas um desfecho emocionante para um filme que se preocupou em conduzir as coisas e fornecer ao público tudo que ele precisava para chorar no cantinho com a última cena. Afinal, uma história inesquecível nada mais é do que uma história muito bem contada. E isso O Homem Que Mudou o Jogo tem de sobra.
Bem, é isso. É a lista. Concordem, discordem, xinguem, sintam-se em casa para comentar os filmes aqui citado, ou os não citados, e tornar a coisa ainda mais pertinente. Foi um ano de bons filmes e grandes lançamentos, mas não tanto quanto 2011 ou 2010. De qualquer jeito, resta esperar para ver o que esse mundão do cinema vai nos trazer em 2013. Ao menos não teremos mais Crepúsculo, certo? Se bem que vem por aí João e Maria e a continuação de Branca de Neve e o Caçador… haja paciência. Apesar disso, desejo um Feliz Ano Novo a todos.

Aí vem Hollywood salvar o dia

Argo
5/5

Direção: Ben Affleck
Roteiro: Chris Terrio, baseado em artigo de Joshuah Berman

Elenco
Ben Affleck (Tony Mendez)
Bryan Cranston (Jack O’Donnel)
Alan Arkin (Lester Siegel)
John Goodman (John Chambers)

Em 1980, furiosos com a intervenção dos EUA na sua política, os iranianos invadem a embaixada americana e fazem um FUZUÊ ali dentro, sequestrando os diplomatas que estavam trabalhando – com exceção de seis funcionários marotos que deram no pé pela porta dos fundos, literalmente. Agora, com as tensões à flor da pele, a CIA recorre a Hollywood para resgatar a galera, criando um filme falso para acobertar a saída do pessoal.
Como ator, Ben Affleck é um ótimo diretor. Depois de pegar todo mundo de sopetão com o excelente Medo da Verdade e fazer o mundo inteiro pensar que enlouqueceu ao repetir a dose no sensacional Atração Perigosa, Affleck retorna com um thriller tenso, envolvente feito o rosto de uma morena de olhos verdes. Um talento tão surpreendente que dá vontade de chamar o Robin Williams e colocar o Ben Affleck em sessões dramáticas e intensas de psicologia com ele.

Inocentes estão em perigo. É hora de chamar… Hollywood!

Com uma trama absurda dessas (e baseada em fatos reais, o que nos diz muito sobre o mundo), seria muito fácil não levar Argo a sério. Para já aniquilar essa ideia, o filme começa com uma introdução impactante, com a IRANIADA tocando o terror de forma extremamente terrorífica na embaixada sem dó – e Affleck mostra tudo com a câmera na mão, sacudindo de perigo, enquanto a fotografia granulada, para dar um ar mais realista, grita a todo momento “fiquem tensos! fiquem tensos!”, o que inevitavelmente acontece. É uma abordagem mantida ao longo do filme pra mostrar que a cobra quer fumar mesmo, só aliviando um pouco nas cenas onde John Goodman e Alan Arkin aparecem, inevitavelmente um pouco mais coloridas e leves. É uma direção segura, que sabe bem onde quer chegar e constrói um clímax eficiente, auxiliado pela ótima montagem e trilhas – inclusive, o desenvolvimento do filme se mostra épico quando percebemos que estamos tensos mesmo sem nenhum assassino, armas, tiros ou primeira visita ao sogro em cena.
Argo também colhe os frutos de um ótimo roteiro, que, além de apresentar bem o mote político que vai dar início à algazarra, se preocupa tanto com a trama no Irã quanto a trama em Hollywood, criando personagens com características bem definidas e interessantes (embora mais tempo pudesse ser destinado aos fugitivos, que acabam se confundindo em alguns momentos). E se por um lado o perigo na parte iraniana é frequente como se troca sozinho a resistência do chuveiro, a trama que se passa no Tio Sam ganha em diversão e charme graças a John e Lester, duas personagens que vivem em chamas e conquistam o espectador com diálogos aniquiladores (“se tem cavalos no filme, é um faroeste”, “se vou fazer um filme falso, vai ser um sucesso falso”). A dinâmica que ambos trazem à história é um dos pontos altos do filme, convencendo que aquelas duas pessoas realmente são loucas o suficiente pra topar a empreitada.
O curioso é que, se um dos grandes méritos de Argo é seu diretor, um dos grandes problemas é o seu ator protagonista: inexpressivo, Affleck passa a impressão de que Tony não consegue diferenciar entre militares armados e raivosos e um chá da tarde (ou Tony tem alguma disfunção neurológica, como o Slevin Kelevra de Xeque-Mate?). E como é ele quem carrega o espectador por todos os lados da brincadeira, a produção não chega a atingir toda a carga dramática que poderia. Ao menos ele está cercado por um elenco competente, onde os destaques, além do enérgico Bryan Cranston, obviamente, são Goodman e Arkin – misturando simpatia e mal-humor a um sensacional timing cômico, eles obrigam a galera a levantar e fazer a “OLA” toda vez que estão em cena.
Contando ainda com uma ótima direção de arte, que reconstitui bem a época e dá personalidade aos ambientes internos, Argo é mais um “estou indo para casa com uma das mulheres mais bonitas da noite” de Ben Affleck – pena que se perde um pouco no drama familiar, que jamais é desenvolvido ou abordado de forma coerente, mas nada que estrague a experiência geral. Na verdade, a película parece ter os elementos certos para uma indicação ao Oscar, e, quem sabe?, talvez até uma vitória. É um filme “adulto”, envolve política, é bem dirigido, bem escrito, tem ótimas atuações, montagem… pode ser que, em 2013, o mundo constate que Ben Affleck tem dois Oscar na prateleira. E quem acompanha a carreira de ator dele sabe que, há alguns anos, essa afirmação seria uma história muito mais absurda do que aquela na qual Argo se baseia.

É ferro na boneca pós-apocalíptica

Dredd
4/5

Direção: Pete Travis
Roteiro: Alex Garland, baseado nas personagens de Carlos Ezequerra e John Wagner.

Elenco
Karl Urban (Juiz Dredd)
Olivia Thirlby (Anderson)
Lena Headey (Ma-ma)

O Juiz Dredd e Anderson, uma juíza novata, são chamados em uma torre de babel genérica em Mega City One pra investigar um McGuffin. Logo eles se veem trancados lá com uma gangue sanguinolenta e a cobra começa a fumar sanguinolentamente enquanto Dredd e Anderson atacam seus inimigos com frases de efeito e balas (nesse nível de LETALIDADE).
Dredd é o filme que Os Mercenários deveria ter sido: joga em cena uma premissa básica, simples, só para que possa construir cenas de ação sensacionais e fazer suas personagens obliterarem tudo com diálogos curtos e certeiros. É um filme que não se leva a sério – e isso não significa que é um pastelão avacalhado, e sim que compreende sua dimensão de ser “apenas” um filme de ação, ao invés de apelar pro “vamos tornar isso sério fazendo com que o protagonista investigue uma conspiração que, ao final, eventualmente incluirá alguém do alto escalão da polícia/CIA/SWAT/força onde o policial está”.

E, como todo bom filme de ação desenfreada, tem uma mina gata.

Assim, antes que você possa dizer “uau, eu queria levar essa loirinha pra casa e…”, um monte de sangue 3D já espirra na galera. E o melhor é que, entre tudo aquilo que Dredd aniquila sem dó (e é muita coisa), está o achismo de que cena de ação massa tem camêra lenta + fast forward: as coreografias da película são tensas, violentas e envolventes, sempre deixando o espectador perturbado ao mostrar que ali a sanguinolência corre solta (Tarantino fatalmente curtirá). Os corredores escuros, claustrofóbicos, criados pela ótima direção de arte, também ajudam na empreitada, tornando o cenário um pote metálico gigantesco repleto de tensão. Enquanto isso, Pete Travis leva a pancadaria ao máximo, sem medir quem ou o que tenha que destruir no meio do caminho – e o fato de que tanto os vilões como Dredd acabam sempre tirando uma carta da manga pra superar o adversário é tipo o bacon em cima da pizza.
Além disso, a gangue que bota contra os juízes no filme distribui uma droga chamada “slow-mo”, que, como o nome indica, faz as pessoas enxergarem o mundo em câmera lenta. Uma situação que permite ao filme criar fantásticas sequências explorando o recurso, principalmente em momentos de ação, onde vemos o terror das pessoas antes de terem os miolos varados por testosterona em formato de balas. Chega a ser algo quase poético de tão bonito (e uma diferenciação na estética da violência atual, já que se preocupa com o visual da coisa toda, e não em simplesmente atirar sangue pra todo lado). Eli Roth inevitavelmente vai comprar o DVD e colocar na sua coleção na prateleira que diz “pornôs”.
Já o roteiro, como citado anteriormente, investe na simplicidade da história, oferecendo espaço de sobra para a ação bem coreografada pedalar a porta e entrar dando tapa na cabeça de todo mundo. Entretanto, isso é longe de dizer que o roteiro é ruim – pelo contrário, conhece a limitação da sua trama e trabalha dentro dela trazendo obstáculos cada vez mais difíceis e, essencial, frases de efeito devastadoras – momentos como “pare aí” “por que?”, ou “os criminosos não colaboraram” não apenas são engraçados e épicos como ajudam a criar a personalidade daquelas pessoas, mostrando que elas estão dispostas a cagar todo mundo a pai nem que pra isso tenham que cagar todo mundo a pau antes. E ainda sobra um pouco de espaço para tornar a relação “tutor/aluna” entre Dredd e Anderson bastante crível, sem apelar para pieguices, momentos dramáticos destoantes ou o famoso discurso no final quando alguém está em vias de morrer (mas não vai).
Completamente tomado pela testosterona – após um treinamento que aparentemente envolveu meses de futebol, cerveja e mulheres – , Karl Urban usa sua postura rígida e contida, seus movimentos concisos e sua boca bizarramente puxada pra baixo pra transformar Dredd em 1,80m de puros CULHÕES, convencendo o público de que aquele sujeito pode realmente arrebentar um inimigo só com um RANGER DE DENTES. Já Olivia Thirlby consegue tornar Anderson um pouco mais complexa sem soar frágil, mantendo uma hesitação no olhar em alguns momentos mas sem descambar para o complexo de mulherzinha (e o filme também foge do velho clichê de que o protagonista tem que salvar a mocinha, fazendo com que a personagem soe ainda mais forte). E Lena Headey cria uma vilã absolutamente hipnotizante: além de possuir uma beleza diferente, a atriz faz de Ma-ma alguém que olha todo o terror à sua volta com a displicência de um técnico da seleção brasileira, como se tivesse acostumada àquilo. Essa postura despreocupada, que apenas em um ou outro momento revela um pingo de tensão, faz da moça uma vilã mais assustadora – parece que todo aquele ambiente é natural à ela, e que ela sempre está um passo à frente.
No final das contas, Dredd acaba se tornando uma ótima surpresa. Pode não ter um roteiro dos mais complexos, nem significados mais profundos, mas faz muito bem aquilo a que se propõe. Tipo de filme pro cara assistir com uma garrafa de cerveja ao lado, um copo de cerveja na mão, um cooler de cerveja ao lado da poltrona e gritando “é isso aí!” a cada quatro minutos.

Ser criativo, mas sem perder o formulismo jamais

Ted
4/5

Direção: Seth McFarlane
Roteiro: Seth McFarlane, Alec Sulkin e Wellesley Wild

Elenco
Mark Wahlberg (John Bennett)
Mila Kunis (Lori Collins)
Seth McFarlane (Ted – voz)

John Bennett é um garoto solitário e desprezado pelas crianças da vizinhança. Até que um dia, achando que o mundo é um filme da Disney, ele deseja que Ted, seu ursinho de pelúcia ganhe vida – o que acaba acontecendo. Anos depois, John é um adulto infantil, preguiçoso e sem rumo na vida, mas que pega a Mila Kunis, o que anula todos os outros defeitos, e continua com a parceria de seu amigão Ted para fumar maconha, ver Flash Gordon e disparar tiradas politicamente incorretas.
Aliás, “politicamente incorreto” é uma palavra que define bem Ted (vejam bem, eu escrevi “politicamente incorreto”, e não “nojeira + sexo”. Achei melhor explicar porque algumas pessoas confundem os dois, né Todo Mundo em Pânico?). É como se o filme começasse 20 anos após um “final feliz” da Disney, elaborando como seria a situação e subvertendo completamente aquele conceito de história fantástica. E o melhor, faz isso com personagens assaz carismáticas, CGI anabolizado e fuzilando tudo com diálogos vitoriosos.

Zé Colmeia completamente obliterado.

Claro, ajuda bastante o fato de Ted ser um ursinho de pelúcia completamente sarcástico, boca suja, tarado e viciado em cultura pop, entre tantas outras características que ele compartilha com adolescentes do mundo todo. Mas desde o início Ted já mostra ter o DNA do humor definitivo, metralhando tiradas épicas já na narração inicial (“se reúnem para bater nos garotos judeus”). Aliás, é um filme que se apoia bastante nos diálogos, fugindo, na maior parte das vezes, daquele humor óbvio (também conhecido como “seria engraçado se a gente colocasse uma senhora de idade mostrando o dedo do meio!”), mas isso de forma alguma diminui o ritmo da película – a troca de frases certeiras e o bom elenco aniquilam qualquer vestígio de verborragia e deixam a produção bem dinâmica. É alguém despejando alguma sacada esperta o tempo todo, sempre pegando o espectador de surpresa. Sabem aquele tipo de comédia que não só faz o cara rir, mas também deixa ele com vontade de SER UM URSINHO DE PELÚCIA QUE ARMAZENA DIÁLOGOS CERTEIROS SOBRE O UNIVERSO? Ted é assim.
A produção, entretanto, não esquece de que o público precisa gostar das personagens para se envolver na história. John e Ted são extremamente infantis, sim, e bastante agressivos, mas a relação entre os dois sempre soa verdadeira. Há uma clara cumplicidade ali, desenvolvida na forma como se chamam, como se tratam, nas piadas internas e por aí vai. Da mesma forma, Lori não é uma versão de cabelo escorrido do Sauron, como costuma acontecer com frequência nessas histórias: ela entende a relação entre o namorado e o ursinho de pelúcia (que frase bizarra, essa) e até se insere nesse dinâmica, só passando a iniciar uma briga quando vê que está realmente sendo colocada de lado. Assim, é um trio cativante, carismático, deixando o espectador sempre ansioso pra saber o que acontecerá com eles.
Infelizmente Hollywood, esse garoto travesso que gosta de capturar passarinhos, exerce uma influência pesada em tudo que se aloja por ali, e o diretor/roteirista Seth McFarlane não conseguiu fugir disso: apesar do humor inteligente em 90% da projeção, o filme eventualmente mergulha na piscina da obviedade, achando que o público é composto apenas por adolescentes bêbados e que só colocar alguém/algo simulando sexo com alguém/algo é engraçado. Além disso, a ausência de um conflito maior, que resultasse em um clímax mais grandioso, claramente forçou a galera a atirar ali no meio uma traminha envolvendo sequestro e tal, que até tem momentos engraçados, mas cuja única função e não fazer sentido nenhum e roubar tempo (tempo que poderia ser usado no desenvolvimento do conflito entre John e Lori, por exemplo, cuja briga também soa um pouco forçada). E não podemos nos esquecer do final tipicamente hollywoodiano, embora tentem disfarçar com uma ou outra tirada boa (não adianta maquiar, dá pra ver claramente que naqueles momentos o filme levantou os braços e se rendeu ao formulismo). É uma pieguice que não combina com o resto.
Trabalhando em uma produção que se concentra bastante em diálogos, Seth McFarlane utiliza uma linguagem bastante simples, deixando que o texto e os atores sejam o grande diferencial (mas merece ser parabenizado por uma sensacional luta que acontece em determinado ponto, coreografada com extrema vitória). E não dá pra deixar de citar o fatal trabalho de CGI, tornando Ted crível em todas as cenas, na interação com os atores, apostando em detalhes tanto nos planos mais abertos como em closes. Em nenhum momento dá pra duvidar que aquele boneco está realmente ali, falando e fumando maconha. Por pouco não levantei da poltrona com uma tocha na mão e acusei todos os envolvidos com o filme de bruxaria.
Contando ainda com ótimas atuações de Mark Wahlberg (sempre com os olhos arregalados e uma expressão perdida, ilustrando o lado infantil do protagonista), Mila Kunis (sempre carismática e humilhando a própria Afrodite) e do próprio Seth McFarlane (na parte da voz, claro), além de um design de som bacana (notem como os efeitos sonoros fazem toda a diferença na hora da briga), Ted é uma produção que consegue ser criativa, original, engraçada e divertida. Poderia ser mais se em alguns momentos não tivesse se acomodado tanto, mas tudo bem, dessa vez passa. Até porque ver um ursinho de pelúcia tirar sarro de um gordinho correndo já é algo que vale o preço do ingresso.

O Espetacular Homem Desnecessário

O Espetacular Homem Aranha (The Amazing Spider Man)
2/5

Direção: Marc Webb
Roteiro: James Vanderbilt, Alving Sargent e Steve Kloves, baseado na personagem criada por Stan Lee e Steve Dikto.

Elenco
Andrew Garfield (Peter Parker/Homem Aranha)
Emma Stone (Gwen Stacy)
Rhys Ifans (Dr. Curt Connors)
Martin Sheen (Tio Ben)

Peter Parker é um adolescente inteligente, descolado e órfão da coisa que todos mais prezam no mundo, a motivação dramática que não apela pra misteriozinho. Daí um dia Peter fica surpreso ao ser picado por uma aranha radioativa, mesmo que tenha acabado de sair de um CARROSSEL de aranhas radioativas, e ganha um monte de superpoderes legais. Mas daí ele acaba preso em uma teia (piada obrigatória) de acontecimentos, a vaca radioativa vai para o brejo e nosso herói descobre que com grandes poderes vêm grandes reboots de séries.
Reiniciar uma série é algo que pode ser bem legal, como Star Trek provou. É algo que pode ser bem interessante, como Sherlock Holmes provou. É algo que pode fazer todo mundo esquecer que os filmes anteriores eram uma GAIOLA DAS LOUCAS e usar apenas hipérboles pra definir os novos, como os  Batmans do Christopher Nolan provaram. No entanto, reiniciar uma série é uma oportunidade para entregar uma nova visão da história/personagens – e nesse caso, O Espetacular Homem Aranha, apesar de ter uma trama aparentemente mais “sombria”, não acrescenta nada ao que Sam Raimi já havia feito nos filmes anteriores.
“You better lawyer up, asshole. ‘Cause I’m not coming back for the radioactive spider. I’m coming back for EVERYTHING.”

O que não é surpresa, já que a produção conta com um roteiro vacinado contra a criatividade e o bom senso. Tudo bem, algumas tiradas até são divertidas e alguns momentos até legais, mas, tal qual um ou outro jogador da seleção brasileira, eles estão envolvidos pelo fracasso absoluto. Para começar, não há a definição de uma “história” propriamente dita: começa com os pais de Peter indo embora, daí entra o interesse amoroso, depois as bugigangas e o Dr. Connors, a descoberta dos poderes, o lagarto, a família de Gwen, o ódio da polícia… tudo isso irrompe no filme sem muita explicação, sem muita lógica, sem desenvolvimento, enfim, sem. É com se as cenas fossem queijo ralado e alguém simplesmente jogasse elas em cima do roteiro. O filme não pega uma das tramas pela gola e a carrega até um ponto satisfatório; ao contrário, aposta nas convenções mais PERRENGUES para tentar amarrar tudo.
O que leva ao superpoder que realmente  guia O Espetacular Homem Aranha: a coincidência. Não basta que um funcionário da Oscorp acidentalmente deixe cair uma pasta com algo totalmente ligado ao mistério que Peter tenta decifrar, que Gwen tenha acesso total ao laboratório de BIOFICÇÃOCIENTIFICOLOGIA, que Connors sabia tudo sobre o pai de Peter mas faça beicinho para dizer, é preciso ainda que o protagonista acidentalmente caia em um ringue de luta livre com um pôster de um lutador mascarado ao lado enquanto um inimigo grita “eu vi seu rosto!”. A película é um grande buffet de soluções fáceis e implausíveis, que a toda hora uma suspensão da descrença radioativa para funcionarem (jamais funcionam).
E o melhor é que tudo ainda fica pior quando paramos pra prestar atenção nas personagens. Peter Parker, por exemplo, jamais tem uma motivação convincente: o misteriozinho dos pais é CHINFRIM, a morte do Tio Ben ficou tempo demais no forno e acabou seca e sem gosto, o relacionamento com a Gwen é construído através de injeções de clichês… disso tudo sai uma personagem nada carismática, que jamais cativa o espectador enquanto fica de chorinho pra lá e pra cá – exceto, claro, quando sem motivo nenhum começa a fazer piadas (fracas) enquanto Homem-Aranha (sei que a ideia é ele se “soltar” dentro do uniforme. Mas o filme não dá a entender isso). Já o Dr. Connors é tão profundo quanto uma entrevista de jogador de futebol, alternando entre o modo educado e o modo agressivo e lembrando ao público o tempo todo que ele quer o soro de lagarto pra si (“Mudar a vida de todos. E a minha”). O resto da galera só passeia pelas cenas, eventualmente quase sendo vítima do Lagarto e escapando por pouco.
Não ajuda muito que Marc Webb, provavelmente escalado apenas pelo sobrenome, atropele a história com uma falta de imaginação enorme na direção. Se ele acerta (a transição para a Oscorp é elegante, as cenas em primeira pessoa são bacanas, embora destoem da linguagem do filme), provavelmente é porque não conseguiu fazer as coisas saírem como ele imaginava. Não há nada realmente chamativo nos enquadramentos, as coreografias de luta são um disco riscado (o Lagarto esmaga o Aranha contra a parede; o Aranha escapa e usa as teias; o Lagarto escapa das teias e esmaga o Aranha contra a parede; o Aranha…), e nem os momentos onde o cabeça-de-teia fica TARZANEANDO pela cidade são memoráveis. Tudo bem que o roteiro já pratica bullying contra o filme, mas dava pra ter tentando ao menos algo legal, né? No mínimo uma trilha não tão irregular (alterna ótimos momentos – na ação, principalmente – com outros de fazer o cara se arrepender de ter nascido com tímpanos.
Mas boa parte do problema vem do fato de que ninguém avisou ao Andrew Garfield que Peter Parker ra o protagonista, e, como tal, tinha que ser cativante ou ao menos interessante. Garfield se limita a sorrir torto, fazer carinha de choro, e, basicamente, sugar sem piedade qualquer carisma que porventura aparecesse na cena. Ao menos ele não sente solidão, já que Emma Stone, embora pegável AS GANHA, pouco pode fazer para tornar Gwen minimamente interessante. Os únicos que se destacam, aliás, são Martin Sheen, que convence o espectador daquele lado “eu sou velho mas entendo você e tenho conselhos pertinentes para dar” de Ben Parker, e Rhys Ifan, que consegue transitar bem entre os lados cortês e ameaçador de Curt Connors, embora o roteiro obrigue-o a fazer isso sem lógica nenhuma.
Contando ainda com a previsibilidade total (como a máquina de toxina que aparece do nada no meio da história e “some”), diálogos tão subdesenvolvidos que seriam classificados como “terceiro mundo” (“não é seu trabalho”, “talvez seja”), cenas batidas LIQUIDIFICADORIFICADAS (a aparição de Stan Lee) e, pasme, até patriotismo americano (reparem no enquadramento da bandeira dos EUA quando os trabalhadores vão ajudar o cabeça-de-teia), O Espetacular Homem Aranha se mostra um esforço completamente pálido e desnecessário. É bem produzido sim, e tem alguns momentos realmente bons sim (a teia no esgoto, a cena onde Peter vai descobrindo os poderes), mas em nenhum momento consegue envolver o público ou entregar uma experiência impactante. Na tentativa de fazer algo mais dramático e profundo como os Batmans do Nolan, Marc Webb só conseguiu mostrar o mais novo e letal predador das aranhas: a ganância hollywoodiana.