O tempo

Poucas entidades, elementos ou cantores pop são alvos de tantos impropérios quanto o tempo. Talvez o governo e as impressoras, mas não boto minha mão no fogo. Já perceberam que o tempo simplesmente não acerta uma? Ou ele é muito curto, ou muito longo, ou chega muito rápido, ou demora pra chegar, ou age de forma diferente do que queremos porque o Einstein mandou que ele assim fizesse. Ninguém nunca chega pra um amigo e diz “minha nossa, o tempo hoje foi exato, esplêndido, quase por encomenda. Eu queria mais desse tempo”. O tempo é a gordinha romântica dos elementos, sempre deixado pra trás em função de seu irmão mais celebrado, o espaço (já perceberam que ninguém se irrita com o espaço? “É amplo, dá pra circular”; “é pequeno, mas é aconchegante”; “é alto, dá um respiro para o resto do cômodo”). Dá quase pra imaginar o tempo, seus quilinhos a mais, cabelos encaracolados e óculos de fundo de garrafa, sentado em um cantinho chorando.
A grande verdade é que o pobre do tempo simplesmente faz o que nós pedimos a ele pra fazer, e ainda o tratamos como se ele fosse um daqueles atacantes que preferem cavar a falta ao invés de tentar o gol. Certo, nenhum ditador da história da foi tão eficiente, impetuoso, inatingível. Desde o primeiro momento, nos escravizou de tal jeito que simplesmente não há mais como escapar. Nem revoluções, nem hashtags no Twitter. Porque as pessoas gostam dele, o consideram essencial em todos os aspectos da vida. A humanidade é praticamente uma grande síndrome de Estocolmo.
Mas, se formos parar pra pensar, nós é que inventamos o tempo. Foi nossa ideia. Somos responsáveis por ele, assim como somos responsáveis por outras criações que colocam em xeque a moralidade e a liberdade do homem, como as sobremesas desprovidas de chocolate. De certa forma, então, somos escravos de nós mesmos (filósofos babam de alegria agora). Ao longo da nossa história, diversas figuras tentaram dominar e controlar seus semelhantes, sem saber que nós, eles e todos os outros já estávamos sendo controlados. Estamos sempre à mercê do tempo, que nos torna joguetes do destino (abraço, Shakespeare), porque um dia decidimos que esse seria o destino de todos.
O assunto é interessante e com certeza rende muito mais elucubrações e piadas ruins, mas ei, olha a hora, amanhã preciso acordar cedo. Melhor deixar por aqui.
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Músicas e garotas

Estou completamente obcecado por uma canção chamada Ode to Sad Disco, do último álbum do Mark Lanegan. Cada vez que a barrinha de tempo zombeteiramente se aproxima do final da música, eu puxo ela pro início de novo, e de novo, e de novo. E quando não estou ouvindo, o riff de guitarra e a voz do Lanegan ficam ridiculamente carimbados na minha mente, que revive tais elementos em um looping eterno.

Claro, não é a primeira vez que acontece. E inevitavelmente é algo temporário. Mas fico surpreso com a capacidade que uma música tem de simplesmente sequestrar a mente e o coração do cara. É quase como se apaixonar por uma guria: se torna uma necessidade, quase uma dependência, e a gente simplesmente não enxerga os defeitos dela. Impossível parar de pensar a respeito.

A grande diferença, claro, é que a relação com a música vai esmorecendo aos poucos, de forma lenta e saudável. É uma paixão incontrolável que, paradoxalmente, consegue se controlar e se afastar sem consequências. O que leva à conclusão óbvia: se você puder escolher entre se apaixonar por uma música ou uma guria, escolha sempre a música.