Desliguem os celulares no avião

Em toda a minha experiência marítima – noventa e nove por cento fílmica e literária, um por cento adivinhística e zero por cento empírica -, um ensinamento parece se repetir ad infinitum: respeite o mar. É um lance tipo o mar é essa coisa gigantescamente colossal e temperamental e a qualquer momento pode decidir fazer com a água e com a gente o que nós fazemos com lupas e formigas, então a melhor atitude é sempre seguir as orientações que os jogadores de futebol dão nas entrevistas pós-jogo e ser humilde, manter a cabeça respeitosamente baixa e torcer para que o mar não esteja de ressaca.

Porque a água não é o nosso habitat natural. Nossa relação com ela nunca vai ser cem por cento harmônica uma vez que o simples fato de estar na água já é um evento; saímos do chão firme e estamos indo em direção a esse monstro que engole 70% do planeta e abriga espécies tão estranhas e desconhecidas que fariam uma faculdade de comunicação parecer um colégio de freiras. Respeitar o mar parece uma reverência justificada por algo que estava aqui antes de nós e vai estar aqui muito depois que toda a espécie for engolida por um videogame, até porque a imprevisibilidade de um sistema que não dominamos sempre estará um passo à frente de quem sair por aí se gabando (abraço, Titanic). Não, não há nada de leviano em relação ao mar.

Assim como não há nada de leviano em andar de avião. Toneladas de alumínio retorcido e equações matemáticas que jogam areia no olho da gravidade e simplesmente decidem peitar o horizonte. Anos e décadas e séculos de compreensão da física e evolução da tecnologia para fazer a humanidade escapar de suas limitações terrenas e testar empiricamente a existência das camadas da Terra. Comer amendoim no céu. Você já olhou pela janela de um avião em altitude de cruzeiro? É desconcertante. Algo que redefine a própria importância de “olhar pela janela”. Tal qual o mar, o céu não é o nosso habitat natural, e o simples fato de conseguirmos chegar até ele, que dirá voltar dele em termos calmos e pacíficos, é motivo mais do que suficiente para que a humanidade tenha cacife de botar o pau na mesa e falar “chupa que aqui é humanidade, caralho!”.

Manter o telefone ligado mesmo que a equipe da aeronave, essa maravilha da ciência que irrompe pelo infinito azul com a fluidez e a leveza e a aparência de uma gota de sêmen, mesmo que a equipe tenha solicitado o desligamento dos aparelhos eletrônicos nem que seja por quinze minutos, é tratar toda a aventura de forma leviana – e não há nada menos leviano do que um objeto que nem eu e nem você e nem nós dois juntos conseguimos levantar, mas o ar consegue, sendo que é o mesmo ar que não nos levanta e por aí vai. O sonho de voar alimentou a ambição de homens e mulheres desde tempos remotos, desde que observamos os pássaros planando com elegância por correntes de vento após depositarem seus resíduos em nossos ombros, e o mínimo que toda essa história merece é ver todo mundo apertando o botão de “desligar” do smartphone durante o período em que vamos deixar o porto para trás e ganhar os céus.

Ou, como diria um piloto experiente caso a vida fosse um filme: respeite o ar, garoto.

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